Por que não te calas ? (de Malu Fontes)

22, Novembro, 2007 at 12:46 pm | In Zuniversitas | 2 Comments

P: Por que publicar este texto aqui na Zuniversitas ?

R: Seu conteúdo e entrelinhas batem com a proposta desta seção. 

 

Possibilitar a análise do que se passa na mídia e fazer um mínimo contraponto crítico com relação ao que ocorre (???) hoje em países como a Venezuela é também papel da Zuniversitas.. 

 

 

 

No cenário político midiático internacional não tem para mais ninguém, sobretudo agora que Fidel Castro definha e se limita a aparições esporádicas e declarações curtas, fazendo com que se torne visível pelas cores fortes dos agasalhos Adidas dos quais talvez seja o mais eficiente garoto-propaganda. O nome político da vez é Hugo Chávez, que faz a linha ame-o ou odeie-o e exercita cada vez mais suas técnicas de cutucar com vara curta chefes de Estado ou lideranças políticas que lhe lancem qualquer bola de provocação. Para o deleite dos telespectadores de todo o mundo, esta semana quem perdeu a paciência com o líder bolivariano e suas falas nem um pouco politicamente comedidas foi o rei da Espanha, Juan Carlos. Até então, o rei era visto como um chefe de Estado fleumático e dotado do fair play exigido dos nobres de todo o mundo, sobretudo quando em público. Citando seu assunto preferido, o golpe de Estado do qual foi vítima em 2002 e que o manteve afastado do poder durante dois dias ˆ fato que, verdade seja dita, pouquíssimos veículos de imprensa brasileiros cobriram com isenção e muitos até hoje nunca fizeram referência ao fato real como se deu, narrado em detalhes no documentário irlandês A revolução não será televisionada -, o presidente venezuelano atacou o ex-premiê da Espanha, José Maria Aznar, representante da fina flor do conservadorismo espanhol. A contenda se deu na 17ª Cúpula Ibero-Americana, realizada em Santiago (Chile), no final de semana. Chávez chamou Aznar de fascista e foi advertido pelo atual premiê da Espanha e opositor ideológico de Aznar, José Luis Zapatero. Como a sua natureza não é a do tipo que silencia quando advertido dos excessos, prosseguiu nas afirmações, tirando o rei do sério e levando-o a quase gritar: por que não te calas?

CELULARES – A frase ordenativa e a reação de Chávez, impassível, roubou a cena da conferência, transformando-se em seu ponto alto e, em tempos de Internet, Google e You Tube, virou sucesso internacional, com milhões de pessoas baixando o áudio da voz do rei e transformando-o em som de celulares em todo o mundo. Em outras palavras, em tempos de tecnologia globalizada, tudo o que cai na rede vira hit e a política se desmancha em humor e espetacularização, assim como seus personagens. Perspicaz e há muito consciente das estratégias do uso da mídia a seu favor, Chávez tem explorado ao máximo o bafafá. Primeiro, declarou que estranhou muito o esquerdista Zapatero defender Aznar apenas por terem em comum a nacionalidade: “então, não se pode falar de Hitler porque é um ataque ao povo alemão?”, perguntou.  Para contra-argumentar com o rei, Chávez deslocou o assunto para velhas questões históricas e mal resolvidas do passado colonialista espanhol na América Latina e se referiu aos espanhóis que decapitavam o povo venezuelano, há 500 anos, para que este não falasse. Na lata, referiu-se ao rei nos seguintes termos, não sem antes acusá-lo de saber com antecedência da tentativa de golpe venezuelano em 2002 e apoiá-lo: “A fúria imperial, a arrogância do rei reflete 500 anos de prepotência”, afirmou. Ironizou Juan Carlos, a quem pediu paciência, e avisou-lhe que a América Latina está mudando de rosto político.

CARAJO, DIABO E ENXOFRE – O bate-boca se transformou em um bafafá internacional e em um imbróglio diplomático não apenas entre a Venezuela e a Espanha. Sobrou para o Chile, pelo simples fato de sediar a cúpula. Apesar da fala do rei se transformar em mantra em celulares do mundo, Chávez não fez nada de diferente do que costuma fazer e dizer em encontros internacionais e ambientes diplomáticos. Em plena assembléia da Organização das Nações Unidas (ONU), fez referências a George Bush que fizeram o mundo gargalhar. Como o presidente norte-americano havia discursado na véspera na assembléia, Chávez não pensou duas vezes e disse que, como o diabo havia estado ali há apenas um dia, o ambiente ainda estava cheirando a enxofre. Quando o Congresso Nacional brasileiro tomou as dores da emissora de TV venezuelana que não teve a concessão renovada por ter atuado como núcleo de articulação do golpe de 2002, chamou os parlamentares brasileiros de macacos amestrados do governo americano. E quem não lembra quando Chávez entoou feito mantra uma frase de efeito contra a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas)? “ALCA, ALCA, ALCA, al carajo”.

MANIPULAÇÃO GRÁFICA – Para encerrar a contenda com chave de ouro, o presidente Lula declara na edição de quarta-feira do Jornal Nacional: “A questão é que quem disse isso foi um rei. Entre nós, divergimos muito, mas nos entendemos. Mas foi um rei”. Esse “nós” remete certamente aos mortais comuns. Para autoproclamar-se ralé foi um pulo. Chávez , por sua vez, está pouco se lixando para a condição de monarca ou não: “já ficamos calados tempo demais”. A mídia brasileira, no entanto , continua insistindo em chamá-lo de ditador, ignorando que todos os seus mandatos foram obtidos em eleições livres. Há poucos dias, a revista Época chegou ao ponto de produzir uma capa com o rosto do presidente venezuelano desfigurado por efeitos gráficos e a seguinte chamada: o Brasil deve ter medo dele? O texto interno remete a humor, ao dar ênfase a um potencial conflito militar; sim, uma guerra, entre o Brasil e a Venezuela, que, sob Chávez, estaria se armando para ameaçar a liderança brasileira na América Latina. Já para os repórteres dos telejornais da Globo, Chávez nunca faz declarações. Diz ‘bravatas’. Periga agora adotarem como legenda nas matérias sobre ele a pergunta do rei espanhol: por que não te calas?

(Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 18 de novembro de 2007 no Jornal A TARDE, de Salvador/BA)

2 Comentários »

Feed RSS dos comentários deste post URI do TrackBack

  1. [...] OVO DE BIANCA”, escrito por Malu Fontes, que de outras oportunidades já frequentou este espaço. Reproduzo abaixo o texto integral retirado do blog “Cidadeando mundo afora [...]

  2. Doutora Malu Fontes,gostaria de ler ou ouvir seus comentários sobre um tema recorrente e que se mostra hipócrita ao meu ver.
    Trata-se da doação de sangue.O Hemoba está completando 16 anos com seus estoques vazios(pra variar).
    Todos sabemos da importância da doação.Mas ao mesmo tempo vivemos uma realidade adversa.
    Se fizermos um levantamento do grau de instrução dos doadores de sangue vamos ver que esses são os menos instruídos.
    Peça ao Hemoba o quantitativo de médicos,advogados,engenheiros e graduados de forma geral que fazem regularmente doação de sangue.
    Vamos perceber que quanto mais instruído menos doador se torna o cidadão.E isso é uma opinião com base apenas em observações,sem informes oficiais do Hemoba.DOAR SANGUE É SÓ COISA DE POBRE?
    A senhora ,que também é uma estudiosa do comportamento, me parece ser a pessoa mais indicada pra comentar este tema.Se isto for de vosso interesse. Agradeço,wellington – são cristóvão SSA


Deixe um comentário

XHTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Blog no WordPress.com. | Theme: Pool by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds.