VENEZUELA: DE GAULLE PODE, CHÁVEZ NÃO
5, Dezembro, 2007 at 4:03 pm | In Artigos e textos | Leave a CommentDa pena de Mauro Santayana, em nome do contraditório, ou saindo da mesmice da nossa pobre mass-midia…
Há que se ter coragem para escrever, idem para ler, ibiden para postar e outro tanto para comentar.
O presidente Chávez saberá hoje se o seu projeto político tem ou não a
aprovação da maioria do povo venezuelano. O plebiscito não é a melhor forma
de se aferir a vontade nacional, mas é a única, quando os governos
democráticos são sitiados por inimigos poderosos e só podem recorrer
diretamente ao povo. Chávez não é estadista norueguês: é homem da América
Latina que, há pelo menos 300 anos, tenta ser ouvida no mundo. Ela e a
África sempre foram vistas como dependentes da ética, da inteligência, do
mando europeu. Essa ética européia admite, para seu proveito, mandatos
presidenciais ilimitados e limitados, conforme a ocasião. Vigora a regra
antiga: “A salvação da república é a lei suprema”. Herdeiros do centro-
europeísmo, os Estados Unidos intervieram em toda a América Latina, e
exemplo clamoroso foi o do Chile. Há excelente texto de García Márquez sobre
o golpe: tudo se tramou em Washington antes da eleição de Allende, em 1970.
Em jantar de que participavam três generais do Pentágono e quatro generais
chilenos, entre eles, Toro Mazote – o homenageado naquela noite – um general
americano lhe perguntou o que o Exército chileno faria se Allende fosse
eleito em setembro. “Tomaremos el Palácio de La Moneda en media hora, aunque tengamos de incendiarlo”, foi a resposta. Um dos generais presentes, Ernesto Baeza, comandou, três anos depois, o ataque a La Moneda e, depois do
assassinato do presidente, mandou incendiá-lo. Todos os outros foram
decisivos no golpe contra a democracia chilena.Allende, se houvesse querido, poderia ter alterado a Constituição, obtido
sua aprovação por referendo popular e enfrentado os inimigos da República,
logo depois das eleições parlamentares de março de 1973, quando ainda
dispunha de força. Poderia ter salvado a vida de milhares de chilenos. Não o
fez. No entanto, o general De Gaulle, a partir de 1958, mudou a
Constituição, submeteu-a ao referendo do povo francês e, referendo sobre
referendo, governou durante 11 anos ininterruptos, até que perdeu a última
consulta e se recolheu a Colombey-les-Deux Églises, em 1969, onde morreria
um ano depois. O francês De Gaulle pode; o venezuelano Chávez, não.Quinta-feira, em La Paz, os embaixadores da União Européia, sob a liderança
do alemão Erich Ridler, exigiram de Evo Morales que “respeite os princípios
democráticos”. Depende do que se entenda como democracia. A oposição não
respeitou as regras democráticas ao ausentar-se da Assembléia Constituinte -
em que era minoria – e ameaçar a República com a divisão territorial. Herr
Ridler se esquece de que a Alemanha é ainda hoje um país ocupado por tropas
norte-americanas, e sua democracia, compulsória, foi imposta, com os russos
à frente, pelos aliados que a derrotaram. A União Européia poderia, talvez,
pressionar a Espanha a fim de que ela resolva suas questões autonômicas,
como as do País Basco e da Catalunha, antes de intrometer-se em Santa Cruz,
Pando e Chuquisaca, que não pertencem à Comunidade Européia, nem são
colônias de ninguém. Faria bem à Europa encontrar solução digna e humana
para os trabalhadores imigrantes, tratados como párias.No Equador, o presidente Rafael Correa também busca a aprovação popular
pelas reformas constitucionais, e resume: a democracia é muito boa quando
atende aos interesses da oligarquia; quando defende os interesses dos
pobres, não é mais democracia. Não deixam de lhe dar razão os governadores
das regiões rebeldes da Bolívia, quando exigem de Morales que retire da
Carta aprovada a Renda Dignidade destinada aos idosos. Afinal, para que eles
servem, se não podem mais produzir lucros?
Mauro Santayana:
Este domingo (01/12/2007), na Venezuela
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