Gregório e o juiz porreta (from Daniel Souza)
15, Janeiro, 2008 at 9:06 am | In Zuniversitas | 7 CommentsSegue aqui uma sentença inusitada do Juiz de Direito Genivaldo Alves Neiva, de Conceição do Coité/BA .
Nos meus tempos de Olimpo* me bati muito com isso, infelizmente quase de forma solitária.
Depois de percorrer academicamente, e também profissionalmente, alguns campos ‘do saber’ (na verdade do querer saber), alguns tão aparentemente díspares quanto a Matemática e o Direito, as Ciências Físicas e Biológicas e a Informática (hoje TIC), a Engenharia e a Administração, percebi que cada um deles possui um ‘conjunto léxico próprio’, mas percebi também que muitos que militam sectariamente em cada área ‘destes saberes’, na verdade usam cada uma daquelas linguagens para esconder a própria ignorância e miopia holística, quando não conseguem enxergar que cada campo do conhecimento nada mais é que uma fatia do todo que é a vida !
Sentenças semelhantes a esta saíram e ainda saem da pena de magistrados que explícita ou implicitamente participam ou participaram do movimento “Direito Alternativo”. Postarei oportunamente neste espaço, a Zuniversitas, outras tantas, ainda na perseguição de um dos temas deste blog, a Educação.
como era conhecida, nos meus tempos, a boca -nem sempre – miúda, a Faculdade de Direito da UNB, a morada dos deuses, infelizmente vários dos professores, a maioria autoridades do poder judiciário, acreditavam-se semi-deuses, e o que é bem pior, os colegas, sem um mínimo de senso crítico, não conseguiam enxergar que eles eram também mortais, assim como nós.
* Olimpo
Processo Número: 0737/05
Quem pede: José de Gregório Pinto
Contra quem: Lojas Insinuante Ltda, Siemens Indústria Eletrônica S.A e Starcell
Ementa:UTILIZAÇÃO ADEQUADA DE APARELHO CELULAR. DEFEITO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO FABRICANTE E DO FORNECEDOR.
Sentença:Vou direto ao assunto. O marceneiro José de Gregório Pinto, certamente pensando em facilitar o contato com sua clientela, rendeu-se à propaganda da Loja Insinuante de Coité e comprou um telefone celular, em 19 de abril de 2005, por suados cento e setenta e quatro reais. Leigo no assunto, é certo que não fez opção por fabricante. Escolheu pelo mais barato ou, quem sabe até, pelo mais bonitinho: o tal Siemens A52. Uma beleza!
Com certeza foi difícil domar os dedos grossos e calejados de marceneiro com a sensibilidade e recursos do seu Siemens A52, mas o certo é que utilizou o aparelhinho até o mês de junho do corrente ano e, possivelmente, contratou muitos serviços. Uma maravilha!
Para sua surpresa, diferente das boas ferramentas que utiliza em seu ofício, em 21 de junho, o aparelho deixou de funcionar. Que tristeza: seu novo instrumento de trabalho só durou dois meses. E olha que foi adquirido legalmente nas Lojas Insinuante e fabricado pela poderosa Siemens….. Não é coisa de segunda-mão, não! Consertado, dias depois não prestou mais… Não se faz mais conserto como antigamente!
Primeiro tentou fazer um acordo, mas não quiseram os contrários, pedindo que o caso fosse ao Juiz de Direito.Caixinha de papelão na mão, indicando que se tratava de um telefone celular, entrou seu Gregório na sala de audiência e apresentou o aparelho ao Juiz: novinho, novinho e nãofunciona. De fato, o Juiz observou o aparelho e viu que não tinha um arranhão.
Seu José Gregório, marceneiro que é, fabrica e conserta de tudo que é móvel. A Starcell, assistência técnica especializada e indicada pela Insinuante, para surpresa sua, respondeu que o caso não era com ela e que se tratava de “placa oxidada na região do teclado, próximo ao conector de carga e microprocessador” . Seu Gregório: o que é isto? Quem garante? O próprio que diz o defeito, diz que não tem conserto….Para aumentar sua angústia, a Siemens disse que seu caso não tinha solução neste Juizado por motivo da “incompetência material absoluta do Juizado Especial Cível – Necessidade de prova técnica.” Seu Gregório: o que é isto? Ou o telefone funciona ou não funciona! Basta apertar o botão de ligar. Não acendeu, não funciona. Prá que prova técnica melhor? Disse mais a Siemens: “o vício causado por oxidação decorre do mau uso do produto”. Seu Gregório: ora, o telefone é novinho e foi usado apenas para falar.Para outros usos,tenho outras ferramentas. Como pode um telefone comprado na Insinuante apresentar defeito sem solução depois de dois meses de uso? Certamente não foi usado material de primeira. Um artesão sabe bem disso.
O que também não pode entender um marceneiro é como pode a Siemens contratar um escritório de advocacia de São Paulo, por pouco dinheiro não foi, para dizer ao Juiz do Juizado de Coité, no interior da Bahia, que não vai pagar um telefone que custou cento e setenta e quatro reais? É, quem pode, pode! O advogado gastou dez folhas de papel de boa qualidade para que o Juiz dissesse que o caso não era do Juizado ou que a culpa não era de seu cliente! Botando tudo na conta, com certeza gastou muito mais que cento e setenta e quatro para dizer que não pagava cento e setenta e quatro reais! Que absurdo!A loja Insinuante, uma das maiores e mais famosas da Bahia, também apresentou escrito de advogado, gastando sete folhas de papel, dizendo que o caso não era com ela por motivo de “legitimatio ad causam”, também por motivo do “vício redibitório e da ultrapassagem do lapso temporal de 30 dias” e que o pobre do seu Gregório não fez prova e então “allegatio et non probatio quasi non allegatio”.
E agora seu Gregório? Doutor Juiz, disse Seu Gregório, a minha prova é o telefone que passo às suas mãos! Comprei, paguei, usei poucos dias, está novinho e não funciona mais!Pode ligar o aparelho que não acende nada! Aliás, Doutor, não quero mais saber de telefone celular, quero apenas meu dinheiro de volta e pronto! Diz a Lei que no Juizado não precisa advogado para causas como esta.Não entende seuGregório porque tanta confusão e tanto palavreado difícil por causa de um celular de cento e setenta e quatro reais, se às vezes a própria Insinuante faz propaganda do tipo: “leve dois e pague um!” Não se importou muito seu Gregório com asituação: um marceneironão dá valor ao que não entende! Se não teve solução na amizade, Justiça é para isso mesmo!
Está certo Seu Gregório: O Juizado Especial Cível serve exatamente para resolver problemas como o seu. Não é o caso de prova técnica: o telefone foi apresentado ainda na caixa, sem um pequeno arranhão e não funciona. Isto é o bastante!Também não pode dizerque Seu Gregório não tomou a providência correta, pois procurou a loja e encaminhou o telefone à assistência técnica. Alegou e provou!Além de tudo, não fizeram prova de que o telefone funciona ou de que Seu Gregório tivesse usado o aparelho como ferramenta de sua marcenaria. Se é feito para falar, tem que falar!
Pois é Seu Gregório, o senhor tem razão e a Justiça vai mandar, como de fato está mandando, a Loja Insinuante lhe devolver o dinheiro com juros legais e correção monetária, pois não cumpriu com sua obrigação de bom vendedor.
Também, Seu Gregório, para que o Senhor não se desanime com as facilidades dos tempos modernos, continue falando com seus clientes e porque sofreu tantos dissabores com seu celular, a Justiça vai mandar, como de fato está mandando, que a fábrica Siemens lhe entregue, no prazo de 10 dias, outro aparelho igualzinho ao seu. Novo e funcionando! Se não cumprirem com a ordem do Juiz, vão pagar uma multa de cem reais por dia!
Por fim, Seu Gregório, a Justiça vai dizer à assistência técnica, como de fato está dizendo, que seu papel é consertar com competência os aparelhos que apresentarem defeito e que, por enquanto, não lhe deve nada.
À Justiça ninguém vai pagar nada. Sua obrigação é fazer Justiça!
A Secretaria vai mandar uma cópia para todos.Como não temos Jornal próprio para publicar, mande pelo correio ou por Oficial de Justiça.Se alguém não ficou satisfeito e quiser recorrer, fique ciente que agora a Justiça vai cobrar.Depois de tudo cumprido, pode a Secretaria guardar bem guardado o processo!
Por último, Seu Gregório, os Doutores advogados vão dizer que o Juiz decidiu “extra petita”, quer dizer, mais do que o Senhor pediu e também que a decisão não preenche os requisitos legais. Não se incomode. Na verdade, para ser mais justa, deveria também condenar na indenização pelo dano moral, quer dizer, a vergonha que o senhor sentiu, e no lucro cessante, quer dizer, pagar o que o Senhor deixou de ganhar. No mais, é uma sentença para ser lida e entendida por um marceneiro.
Conceição do Coité, Bahia, 21 de setembro de 2005
Gerivaldo Alves Neiva
Juiz de Direito
7 Comentários »
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O comentário abaixo, que veio junto com a sentença que originou este post, foi feito pelo amigo Daniel Souza.
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Zé,
Meu prezado,
Não sei se você já leu o texto abaixo. Senão, divirta-se! Como você é um cabra versado no mundo jurídico, há de entender, naturalmente, que a justiça deve fazer justiça. Simples! A começar pelo expediente utilizado para se comunicar com os cidadãos que a ela recorre buscando reparação.
Essa é uma delícia de sentença. O rebuscamento exagerado da linguagem jurídica, o “juridiquês” – uma linguagem que, a pretexto de ser culta, é, na verdade, pedante, arcaica, utilizada como instrumento de exclusão e distanciamento – que afasta o cidadão comum do Poder Judiciário.
Fico feliz quando sei da existência de juízes assim
Comentário por Zé Rosa — 15, Janeiro, 2008 #
Zé,
Como conversa de “pensadores” não tem muito limite, e como você é um militante independente em favor da cidadania, vou acrescentar mais alguns ingredientes ao receituário anti-democrático, oligárquico e aristocrático a que nos referimos.
Veja o que diz o lingüista Marcos Bagno, da mesma UnB, sobre o preconceito lingüístico. São apenas alguns fragmentos de um todo muito interessante:
“Como produto intelectual de uma sociedade aristocrática, escravagista, oligárquica, fortemente hierarquizada, a Gramática Tradicional adotou como modelo de língua “exemplar” o uso característico de um grupo restrito de falantes:
” do sexo masculino;
” livres (não-escravos);
” membros da elite cultural (letrados);
” cidadãos (eleitores e elegíveis);
” membros da aristocracia política;
” detentores da riqueza econômica…”
E por aí vai. E continua Bagno:
“Por causa de seus preconceitos sociais, os primeiros gramáticos consideravam que somente os cidadãos do sexo masculino, membros da elite urbana, letrada e aristocrática falavam bem a língua. Com isso, todas as demais variedades regionais e sociais foram consideradas feias, corrompidas, defeituosas, pobres etc.”
Quando tiver oportunidade leia o preconceito lingüístico de Marcos Bagno. Com letras minúsculas mesmo.
Observe bem que a linguagem normativa sempre foi um instrumento de exclusão e, por outro lado, quem mantém a aristocracia, historicamente, são os excluídos, de maneira que impossível alijar as pessoas e toda a sua ambiência sócio-cultural da formação da nossa civilização e “linguagem culta.”
Um abraço.
Daniel
Comentário por Daniel Souza — 15, Janeiro, 2008 #
“TODA PROFISSÃO É UMA CONSPIRAÇÃO CONTRA OS LEIGOS”
(Bernard Shaw)http://en.wikipedia.org/wiki/George_Bernard_Shaw
Comentário por José Rosa — 23, Janeiro, 2008 #
[...] Este mesmo amigo, que também é advogado, fez o seguinte comentário: “Creio que a ‘pesquisa’ teria resultados diversos aqui na Pindorama, porque o meio jurídico é farto em reacionários“, o que me remonta a outro post que coloquei neste espaço sobre a sentença proferida por um Juiz de Direito do interior da Bahia (http://joserosafilho.wordpress.com/2008/01/15/gregorio-e-o-juiz-porreta-from-daniel-souza/). [...]
Pingback por Engenheiros, médicos e… advogados « ZÉducando — 1, Fevereiro, 2008 #
[...] Este mesmo amigo, que também é advogado, fez o seguinte comentário: “Creio que a ‘pesquisa’ teria resultados diversos aqui na Pindorama, porque o meio jurídico é farto em reacionários“, o que me remonta a outro post que coloquei neste espaço sobre a sentença proferida por um Juiz de Direito do interior da Bahia (http://joserosafilho.wordpress.com/2008/01/15/gregorio-e-o-juiz-porreta-from-daniel-souza/). [...]
Comentário por izabela — 22, Novembro, 2008 #
04/03/2009 – 20:54
O requiem da Justiça (Luis Nassif)
Essa vergonhosa ação do Supremo e do CNJ, sob o comando do Gilmar Mendes,
está desmontando o sistema judiciário brasileiro.
Antes, havia abusos de 1a Instância sim, uma certa compulsão para prender,
condenar. Essa tendência tinha que ser moderada, mas por alguém que prezasse
a Justiça. Não é o caso de Gilmar.
Sua atuação – através do STF e do CNJ – está desmantelando toda a estrutura
da Justiça criminal. Espalhou o medo entre os juízes, deflagrou brigas
intestinas nos tribunais, passou para a opinião pública a sensação de que a
Justiça usa dois pesos nos seus julgamentos, sempre a favor dos poderosos.
Os juízes de 1a Instância não conseguem mais trabalhar. Primeiro, pela
sobrecarga de pedidos de informação por parte do CNJ. Depois, pelo receio de
errar. Qualquer decisão errada, ou não confirmada em outras instâncias,
sujeitará o magistrado a punições. Passou-se dos 8 aos 80. Comprometeu-se
radicalmente o processo penal.
O CNJ define, agora, que deve haver prioridade para processos envolvendo
ocupação de terras – justamente no momento em que as fazendas de Daniel
Dantas são ocupadas. Toda manifestação de Gilmar tem, na outra ponta, o
interesse de Dantas. É muita coincidência, típica dos despreocupados com a
imagem do poder que representa.
Neste exato momento, o processo do Banco Santos está paralisado. O processo
de Dantas, no caso Kroll, está até hoje sem sentença. O caso UBS (União de
Bancos Suiços) começou a ser investigado aqui, parte das investigações foi
aproveitada pelos Estados Unidos. Lá, houve condenações, multas, acordos
para abrir os dados de operações de lavagem de dinheiro. Por aqui, nada.
Esses episódios, que envergonham o país e, especialmente, o sistema
judicial, não mereceram uma observação sequer de Gilmar ou do CNJ. Ele é
despudoramente a favor dos influentes, vergonhosamente a favor dos direitos
dos criminosos de colarinho branco.
Todos seus atos visam defender direitos individuais dos criminosos de alta
estirpe e forçar condenações de réus sem influência política. A troco de quê
essa prioridade para invasões de terra? A Justiça tem se manifestado,
condenando invasores, sem a necessidade dessa pressão de cima.
Está se impondo uma ditadura no Judiciário. Em pouco tempo, graças a Gilmar,
o Judiciário passará o Legislativo, como poder mais odiado pelos brasileiros.
Comentário por Jose Rosa — 5, Março, 2009 #
[...] quando estudava na Faculdade de Direito da UnB (não sem razão chamada desde aquela época de “Olimpo” porque a maioria dos Ministros era professores de lá) não consigo entender o papel de [...]
Pingback por Supremo Ministro « ZÉducando — 4, Maio, 2009 #