Engenheiros, médicos e… advogados

1, Fevereiro, 2008 at 7:12 am | In Zuniversitas | 1 Comment

Para reflexão, posto nesta Zuiversitas o texto Por que há tantos engenheiros na Al-Qaeda?, enviado por um amigo e originado do blog do Pedro Dória http://www.pedrodoria.com.br/.

Este mesmo amigo, que também é advogado, fez o seguinte comentário: “Creio que a ‘pesquisa’ teria resultados diversos aqui na Pindorama, porque o meio jurídico é farto em reacionários“, o que me remonta a outro post que coloquei neste espaço sobre a sentença proferida por um Juiz de Direito do interior da Bahia: http://joserosafilho.wordpress.com/2008/01/15/gregorio-e-o-juiz-porreta-from-daniel-souza/.

A despeito da polêmica que o assunto desperta, e sempre com o cuidado que devemos ter com as generalizações, o texto é interessante.

 

Por que há tantos engenheiros na Al-Qaeda?
 
Muitas vezes, é interessante buscar ângulos inusitados para observar problemas. Diego Gambetta e Steffen Hertog, sociólogos da Universidade de Oxford, perceberam por exemplo que, entre os terroristas da al-Qaeda, há muitos médicos e engenheiros e que, destes, os engenheiros são maioria. Por quê? Sua pesquisa (artigo em PDF) começou na busca de estudos sobre as características de engenheiros.
De início, uma pesquisa da Fundação Carnegie em vários departamentos universitários dos EUA revelou que, dentre engenheiros, médicos, advogados, cientistas das exatas, economistas e cientistas sociais, os engenheiros tendem a se classificar mais conservadores, mais à direita, do que todos os outros. (Colocando em números: 57,6% dos engenheiros se classificam como conservadores, contra 51,1% dentre os economistas, 42,5% dentre os médicos, 33,5% dentre cientistas exatos.)
Outra pista veio de um estudo do economista Friedrich von Hayek, prêmio Nobel, que segue a linha liberal:

Engenheiros são fruto de uma educação que não os treina para compreender indivíduos e seu mundo como o resultado de um processo social no qual comportamento espontâneo e interações contribuem para o resultado final. O contrário: a educação do engenheiro o leva a crer que o controle racional de processos é desejável. Isso os leva a dificuldades com as causas confusas das realidades política e social e os inclinam a imaginar sociedades que deveriam operar ordenadamente como máquinas bem azeitadas. ‘Não surpreende’, sugere Hayek, ‘que algumas das mentes mais ativas dentre eles cedo ou tarde reajam violentamente por conta das deficiências de sua educação e desenvolvam o desejo de impor à sociedade uma ordem que não conseguem detectar.’

Antes de continuar o raciocínio, é bom destacar: von Hayek escreveu sobre engenheiros em 1952. Quando descrevia assim o comportamento tomado por alguns engenheiros, por certo tinha em mente dois tipos de totalitarismo diferentes do atual, islâmico; ele tinha em mente o nazismo alemão e o stalinismo soviético. E os autores do artigo sabem disso.
Os dados são delicados. Não há muitos engenheiros na Fatah (laica), fundada por Yasser Arafat. E, dentre grupos oposicionistas de esquerda da Turquia e do Irã, há muitos engenheiros. É principalmente na Arábia Saudita – mas também em outros países árabes –, que, dentre os terroristas, há um número elevado de engenheiros.
Engenharia e medicina, nestes países como em outros, são os cursos de elite. Destes, a engenharia em particular, nos países árabes, petrolíferos, reúne as características de ser um curso de elite, prático e que não desafia o estudante a questionar sua religião. (Medicina, como as ciências, o faz.) Em países que buscam o desenvolvimento, engenheiros – como médicos – estão dentre os jovens profissionais que mais se frustram. Embora sejam a elite acadêmica, alguns dos melhores alunos que foram mais pesadamente testados ao longo do curso, não necessariamente encontram boas oportunidades profissionais ao deixar a universidade.
Aqui, para os autores do estudo, 1982 é um ano chave: o pico da Crise do Petróleo iniciada nos anos 1970, que arrebentou com várias economias no Oriente Médio, eliminou oportunidades profissionais. É mais ou menos nessa época que grupos fundamentalistas islâmicos começam a se fortalecer em várias universidades da região.
Este é um estudo de caso que se aplica, particularmente, ao Egito e à Arábia Saudita. É muito fácil generalizar a partir dele – o que seria perigoso. Talvez, realmente, jovens engenheiros – Osama bin Laden é um, Mohammed Atta, líder do Onze de Setembro, é outro – tenham uma predisposição maior, dados cenários específicos, a abraçar discursos totalitários da imposição de uma ordem social.
Mais interessante é a observação de que estes grupos fundamentalistas se fortaleceram realmente dentro de universidades num período de profunda crise econômica. Ou seja, numa época em que as jovens elites acadêmicas dos países árabes estavam chegando ao mundo profissional sem oportunidades.

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