Diante das sandices ditas semana passada pelo Diretor da Faculdade de Medicina da UFBA, eu prometi a mim mesmo que não iria postar nada neste espaço a esse respeito, só enviei um e-mail aos amigos mais chegados dizendo que, mesmo não sendo baiano “legítimo”, me senti profundamente ofendido com os impropérios. Foi então que tive acesso ao artigo com o título deste post, da pena de Mauro Santayana, que reproduzo abaixo pela sua clareza e profundidade. Teço antes algumas cosiderações:
1) Sobre esta questão racial que se arrasta há cinco séculos nesta nossa Pindorama, uma pergunta apenas: quem não é negro neste país ? (considerando não só o fenótipo, mas também o genótipo);
2) Sobre a “brilhante” idéia surgida há alguns anos de se reservar cotas para negros, por que só para eles ? Homossexuais, índios, nordestinos, mulheres e outros grupos também não teriam direito a cotas ? E é aí que chegamos a uma singela questão matemática: se somarmos todas essas cotas certamente ultrapassaríamos os 100 %…
3) O mais racional seria a proposta da antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, quando propõe, no lugar de cotas raciais, cotas de pobreza.
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“O mito racial e o QI dos baianos”
O mais primitivo dos instintos humanos é o do medo ao diferente. Deixando de lado a evidência científica de que a vida dos homens se iniciou na África, podemos imaginar como foram os primeiros contatos entre os negros e os brancos, surgidos depois da demorada diáspora. Do medo ao diferente, surgiu a astúcia do medroso em buscar, para si mesmo, qualidades superiores às do temido. Não se fundando na realidade genética – o racismo se exacerba em todas as suas manifestações. Não é a aparência que forma a habilidade intelectual e o comportamento ético dos homens. O que identifica os grandes e pequenos grupos humanos é a cultura, são os hábitos, os ritos aos quais se vinculam.
Espanta que um médico e educador, elevado à coordenação dos cursos de medicina da Universidade Federal da Bahia, dê à opinião pública a explicação de que a má avaliação do setor a seu cargo se deve ao baixo quociente de inteligência dos baianos. Embora não tenha associado diretamente esse desprezo à forte presença negra no Estado, ele a insinuou, quando fez a pobre ironia sobre o jogo do berimbau. A Bahia deu ao Brasil alguns de seus maiores intelectuais, a começar por Ruy Barbosa. O grande tribuno tinha seus defeitos, mas nunca lhe faltou a excepcional inteligência. Há centenas de exemplos para mostrar que os baianos têm o mesmo quociente intelectual de todos os outros povos, mas basta acrescentar o nome de Anísio Teixeira. O educador nos trouxe uma filosofia de ensino que – como a de seu sucessor, o pernambucano Paulo Freire – foi desprezada pelas elites, por causa da promessa de libertação que trazia. Anísio ensinava os alunos a pensarem com autonomia, e Freire a entenderem o meio em que viviam e a agirem pela liberdade coletiva. Anísio morreu durante a Ditadura e Freire amargou o exílio. Para as classes dirigentes, só os ricos têm direito a uma boa educação, que ensine a pensar, e pensar em como defender seus interesses de classe.
Professores universitários e representantes de grupos de mestiços enviaram carta ao presidente do STF, pedindo que o tribunal acate as ações que contestam as cotas universitárias para negros.
Entre outros argumentos há o do senhor Leão Alves, do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro: na Amazônia, onde a presença negra foi raríssima, os caboclos – descendentes de índios e brancos – se fazem passar por negros, com o objetivo de obter as vantagens da “discriminação afirmativa”, e entram em choque com os negros, de migração recente. O sistema de cotas, entre outros defeitos, estimula a mentira e o oportunismo e cria antagonismos entre os pobres. As cotas, repetimos, devem ser para todos os pobres, porque só a pobreza é empecilho para a educação de qualidade.
Temos que ter cuidado com a lógica da linguagem. Quando discriminamos alguns afirmativamente, estamos discriminando outros, de forma negativa. Corremos o risco de conceder às minorias os direitos que negamos à maioria. O jurista Yves Gandra Martins foi, para alguns, “politicamente incorreto”, ao dizer que os índios são cidadãos com mais direitos do que os brasileiros em geral. Sua razão lógica não pode ser contestada. Embora ele não tenha assim concluído, podemos dizer que a demarcação das grandes reservas só será admissível quando houver real reforma agrária no país e o acesso igual à terra de todos aqueles que a reivindicam.
A antropóloga Yvonne Maggie, da UFRJ, propõe, em lugar de cotas raciais, cotas de pobreza. Só o fato de ser negro não torna a pessoa incapaz de freqüentar boas escolas, alimentar-se bem, ter saúde e amparo familiar – que o prepare para vencer os exames vestibulares. Há famílias negras de classe média, com bons rendimentos, e nível cultural elevado, embora saibamos que o legado da escravidão ainda pesa sobre a comunidade.
O que impede os negros pobres de chegarem à universidade é a mesma coisa que impede os brancos pobres de fazerem o mesmo caminho: a pobreza. Para todos, brancos e negros, a discriminação afirmativa deve começar com boas escolas públicas, assegurando-se aos alunos o direito de alimentar-se bem e desfrutar do mesmo respeito dos mestres e administradores do ensino.
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Sobre este mesmo tema ainda recomendo o artigo CAMPO DE EXTERMÍNIO TAMBÉM NÃO , João Ubaldo Ribeiro , do último domingo.
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Como sabem os conhecedores da História do Brasil, houve diversas tentativas de tornar a ilha de Itaparica uma nação independente. Dizem que a famosa Conspiração da Gameleira esteve perto disso, mesmo porque os portugueses, até então donos do pedaço, queriam um porto livre e o equivalente ao que hoje se chamaria paraíso fiscal e, portanto, até encorajaram o movimento. Nada se consumou, contudo, porque os conspiradores viviam adiando tudo para a próxima segunda-feira, até que todos os envolvidos encheram o saco, o que acontece ainda hoje, quando alguém puxa o assunto.
Não conto, assim, com a soberania da ilha para proteger-me e, portanto, continuo súdito baiano, sujeito a todos os riscos que isso envolve, os quais agora me parecem gravíssimos. Soube primeiro pelo telefone. Uma rádio queria entrevistar-me sobre a burrice dos baianos. Estranhei um pouco, porque estou acostumado à preguiça e sou obrigado a confessar que não tenho o menor treinamento para perguntas sobre burrice. Admiti meu despreparo e pedi esclarecimentos, que me vieram não só desse entrevistador como de outros, durante o resto do dia.
A venerável Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, que completa agora 200 anos, tirou notas baixíssimas nuns exames que o Ministério da Educação faz por aí e que nunca entendi (agora sei que por burrice). Mas o fato é que as notas foram minúsculas e, claro, um tanto vexatórias para tanta tradição. Procurado para explicar a situação, o coordenador do curso de graduação da faculdade foi muito claro. Disse que a razão é que os baianos têm baixo QI. O instrumento típico deles, por exemplo, é o berimbau, que só tem uma corda. Se tivesse mais, a baianada se enrolaria e não aprenderia a tocar. E a música deles é o Olodum, que para ele não passa de barulho.
Até aí, tudo muito certo, viva a liberdade de opinião. Mas o professor deu a entender, ou disse claramente, algo um pouco mais sério. Disse que não podia fazer nada quanto ao assunto, porque ”não tinha como mudar a genética”. Considerando-se que ele se referiu a manifestações culturais de origem africana e que praticamente todos os baianos têm ascendentes africanos, quando não são negros mesmo, creio que ele quis dizer que os baianos são burros porque negros, em maior ou menor grau. Silogismo perfeito: a)todo baiano é negro; b)todo negro é burro; c)logo, todo baiano é burro.
Fiquei meio assim com esse negócio, independentemente da lei Afonso Arinos e correlatas, porque se torna patente que o professor acredita na superioridade de raças e o último livro que leu sobre o assunto foi o célebre Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas, do Conde Gobineau, no século 19. De lá para cá, não tomou conhecimento da irrelevância do conceito de raça e de todos os avanços científicos e sociais sobre o assunto. Temos então, segundo a palavra pública de uma autoridade médica e educacional, na esculhambação que é este desafortunado País, a revalidação de idéias nazistas e ”eugenistas”, a afirmação de que existe pelo menos uma raça inferior, a negra.
Acho que, em outras circunstâncias, esse cientista devia ser chamado para novo exame no Conselho Regional de Medicina, da mesma forma que o pediatra que tratar pacientes de caxumba com injeções de bismuto e aplicação de sanguessugas na queixada. Mas claro que ele não é um charlatão e talvez até seja um profissional competente. Portanto, na condição que ocupa, é irresponsável, leviano, arrogante, inconseqüente e não parece seguir o sábio conselho de primeiro ligar o cérebro e só depois acionar a boca. E espelha, talvez para entrar no clima geral, a atitude de desdém que qualquer pessoa com o mínimo de autoridade no Estado tem para com os governados.
Imagino que, se o tempo e o lugar fossem diversos, ele não se oporia a que, em mais um hercúleo esforço desse governo em prol da saúde pública, se fizesse um cadastro geral dos baianos, com a avaliação do QI (outro conceito obsoleto e equívoco) de cada um e, a depender do resultado, castração ou esterilização de todos e todas que não se encaixassem no padrão mínimo oficial, assim não proliferando e dando o único jeito que se pode dar na genética, que é impedir a reprodução dos menos dotados. (Atenção, só estou falando numa hipótese, não estou sugerindo nada, pois de repente alguém lá em riba gosta da idéia e, antes de que se possa fazer alguma coisa, uma Medida Provisória terá propiciado a capação de um vasto número de meus hoje cabreiros conterrâneos.)
Posso estar agora errado, porque o professor pode vir a público retratar-se e pedir desculpas, ou, mais habitual ainda entre autoridades, mentir com o mesmo charme que o presidente da República e seus auxiliares e negar tudo. Mas, na hora em que escrevo (e o que escrevo serve para o futuro), esse professor devia ser punido pelo CRM e pelo serviço público, destituído do cargo, preso e processado por professar convicções racistas e ilegais. Mas não vai haver nada disso, é óbvio. E, se por acaso alguma atribulação adviesse a ele, não teríamos razão de ter pena, não só por não se tratar de um pobre homem como porque ele arranjaria, mole-mole, o emprego de cirurgião-chefe da Ku Klux Klan.
Espero, no próximo ano, poder voltar a Itaparica. Como não me agradaria muito ser capado (nada do que vocês estão pensando, é que eu gostaria de morrer inteirinho mesmo), vou me informar antes sobre como vai a coisa lá, inclusive sobre se não vão criar o Campo de Concentração de Axé-Witz para QI’’s desprezíveis e inaugurar um busto do dr. Mengele na frente do Hospital das Clínicas.
REPASSO E-MAIL QUE RECEBI SOBRE O TEMA:
Subject: Berimbau
Olá, pessoal.
A entrevista do Senhor Antônio Dantas é apenas mais uma expressão do racismo que impera no Brasil de uma forma geral e na Bahia em especial. É o mesmo racismo que aos ventos, de norte a sul deste país, insiste em dizer que baiano é preguiçoso, que não gosta de trabalhar, que paraibano só faz coisa errada, que o sergipano só tem de bom o caranguejo e por aí afora.
Reconhecer no berimbau apenas uma corda, é miopia de uma mente que de tão brilhante, queimou os seus próprios neurônios, é não reconhecer que um instrumento como o berimbau é síntese de um processo histórico de luta e resistência. Quem só ouve uma nota só no berimbau é quem tem ouvido ariano.
E vejam que ironia. Na semana retrasada, a Universidade Federal da Bahia, em justíssima homenagem, ortogou o título de Doutor Honoris Causa ao Mestre Pastinha, Mestre esse que sempre teve na Capoeira a sua expressão de vida e de luta e que sempre viu no Berimbau muito mais do que corda, arame e pau.
O título ortogado é atribuído apenas à personalidade que se tenha distinguido pelo saber ou pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras ou do melhor entendimento entre os povos.
Para o doutor dantas, isso é impossível, já que se trata de um capoeirista, tocador de berimbau, simples ‘pedaço de arame, pedaço de pau’.
Fico também imaginando como deve ser composta a Faculdade de Música da UFBa e a Orquestra Baiana de Músicos. Se tomarmos como referência os argumentos do doutor dantas, lá não existem baianos, já que os instrumentos que lá ressoam, têm mais de uma corda. Todos os alunos devem ser oriundos do sul e sudeste do país ou da europa.
Por fim, desejo que as cordas vocais do senhor doutor dantas tenha a mesma dignidade da única corda do Berimbau e ressoem palavras e cantos de luta e justiça.
Abraços fraternos
Welington
http://www.movimentodoreal.blogspot.com
Comentário por JOSE ROSA — 6, Maio, 2008 #
Sensacional o texto de Mario Santayna!! Muito bom mesmo..
Hoje a noite tem post novo la no @conteceu!
Até mais!
Comentário por Heider Mustafá — 9, Maio, 2008 #
Opsss..Mário Santayna não, MAURO SANTAYANA!!
Comentário por Heider Mustafá — 9, Maio, 2008 #
Valeu Heider,
Fico feliz por você ter gostado do post. Vou ler as novidades do @conteceu de hoje (http://www.foidestaque.blogspot.com/).
Comentário por Zé Rosa — 9, Maio, 2008 #
Ainda sobre o mesmo tema, mesmo sendo contra a política de cotas, reproduzo e-mail recebido hoje, 24/11, em respeito tanto à pessoa que me mandou, um dos meus maiores amigos, quanto pelo autor do texto, vale para reflexão:
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CLASSE MÉDIA NÃO QUER BABÁ “DE COR”sexta-feira, 21 de novembro de 2008 às 13:10 (do blog do Rodrigo Vianna) Véspera do feriado da Consciência Negra. Minha mulher liga para uma agência de empregos, pedindo indicação de uma babá pra trabalhar em casa. A coordenadora da agência, muito solícita, engata de primeira: “pode ser uma pessoa “de cor”, ou a senhora tem alguma restrição? Desculpe, mas muita gente que liga pra cá não quer babá “de cor”, por isso eu tô perguntando”. Minha mulher disse que não tinha problema com isso, não. A moça do outro lado deu uma risada sem graça. Eu não dei risada quando minha mulher contou o episódio. Achei patético. Essa é a classe média brasileira, pensei com meus botões. A mesma classe média que escreve livros – também patéticos – para “provar” que “Não Somos Racistas”. Freud explica esse título na negativa. Já reparou nas crianças que cometem uma traquinagem? Quando o pai chega perto, sem perguntar nada, a criança já se entrega: “não fui eu”, “não fiz nada”. É o famoso processo da negação. “Não Somos racistas”… Sei. Um dos argumentos desse povo que diz não haver racismo no Brasil chega a ser hilariante: “racismo não pode haver, porque raça não existe; é um conceito equivocado, que não se sustenta biologicamente”. Percebem a sutileza? Como não existe raça, então não pode haver racismo. Pronto, está resolvido. Com isso, evita-se a discussão sobre preconceito, sobre nossa história de Escravidão, sobre a tradição de nossas elites que sempre trataram os negros como mercadoria. Certa vez, troquei umas mensagens com esse personagem sinistro que, na direção do jornalismo da Globo, tenta provar sua tese de que “Não Somos Racistas”. Eu escrevi pra ele, reclamando de uma reportagem sobre racismo, que fiz para o Jornal Nacional , mas que nunca foi ao ar (já contei esse episódio, numa entrevista para o Marcelo Salles, no site “Fazendo Media” http://www.fazendomedia.com/novas/entrevista120407b.htm). Travei com esse personagem sinistro da Globo, por e-mail, um pequeno debate sobre o tema do racismo. Tentei lembrar a ele as raízes históricas do racismo no Brasil… O sujeito teve o desplante de afirmar que nem na época Colonial o problema era tão sério, já que negros, muitas vezes, podiam ser proprietários de escravos… É de doer! Negros podiam ser proprietários de escravos (em casos raríssimos), desde que escondessem sua condição de negros. Era a estratégia do branqueamento, que já foi estudada por dezenas de pesquisadores. Esse é o tipo do argumento que tenta provocar confusão: “olha, tanto faz a cor, havia negro escravo, negro proprietário de escravos…” Tenha dó. É gente assim que tenta derrubar as quotas para negros nas universidades, argumentando que isso – sim – provocaria ”racismo”. Felizmente, essa foi uma das poucas áreas em que governo Lula avançou, sem medo. E avançou porque o movimento social pressionou. O fato é que as quotas se consolidam (apesar da gritaria dos “jornalistas” e “geógrafos” muito bem pagos para defender as teses de nossas elites), vão virar até lei nas Universidades Federais. Para a gloriosa classe média brasileira, restará o papel patético (desculpem a repetição , mas é o adjetivo perfeito para esse povo) de estabelecer quotas ao contrário, vetando gente “de cor” para cuidar das criancinhas brancas do Leblon e de Higienópolis.
Comentário por Zé Rosa — 24, Novembro, 2008 #