Festa do livro e das ideias / Solo le pido a Dios
17, Setembro, 2008 at 11:58 am | In Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | 3 Comments
Este post é inspirado num belo artigo de Frei Beto, publicado no Correio Braziliense do dia 12 deste mês, e no vídeo com a linda música “Solo le pido a Dios” que acrescenta ainda no final uma mensagem de Gandhi. As fontes foram um irmão e um amigo. Deixando a modéstia de lado, acho que este foi um dos melhores posts do Zeducando dos últimos tempos, concentrando esses dois “poemas hipermidiáticos”, um em prosa outro em vídeo/som, num só lugar. Quem tiver a paciência de ler o texto e ver/ouvir o vídeo verá que vale a pena, e quem quiser ver a letra na língua original, clique a seguir, depois do vídeo.
“A vida existe para que saibamos desfrutá-la, cultivando amizades, o gosto pela arte, a comunhão com a natureza, o aprimoramento de nossos talentos e o aprofundamento de valores subjetivos”.
Frei Beto
“…não há felicidade sem apreensão do sentido, do significado, da existência e das coisas. No entanto, a pós-modernidade neoliberal procura nos destituir de filosofia, horizonte histórico, visões do mundo, para nos encerrar miseravelmente no jogo mesquinho de nossas tendências egoístas (tudo para mim, danem-se os outros, como se observa nas reações espontâneas no trânsito); egocêntricas (devo ter poder, fama e beleza para me tornar o centro das atenções); e egolátricas (devo ser venerado pelo olhar alheio, jamais criticado)”.
de Masi
Festa do livro e das idéias
Frei Betto
Participei, semana passada, da principal feira do livro da Itália, a de Mântua (em italiano, Mantova), cidade lombarda de 4.000 anos e 50 mil habitantes, terra de Virgílio (70-19 a.C.), autor de “Eneida”.
Em sua 12a edição, a feira reuniu 213 autores de todo o mundo. Da América Latina, presentes também a brasileira Márcia Teófilo, o uruguaio Eduardo Galeano, o mexicano Carlos Fuentes, o chileno Pedro Lemebel, o argentino Alberto Manguel e o cubano Leonardo Pádua Fuentes.
O que menos importa na feira é o comércio de livros. O objetivo principal é favorecer o contato dos autores entre si e com o público. Durante cinco dias, toda a cidade, cercada por três lagos e marcada pela arquitetura medieval, se mobiliza em função do evento.
Patrocinado pela prefeitura, seu êxito é assegurado por 600 moradores que trabalham como voluntários, como os motoristas que me buscaram e levaram ao aeroporto.
Para um público de cerca de 700 pessoas, sob um toldo armado num jardim, no domingo pela manhã troquei idéias com o sociólogo italiano Domenico de Masi, mais conhecido no Brasil pelo êxito de seu livro “O ócio criativo” (Sextante). Pela mesma editora temos um livro a quatro mãos, “Diálogos criativos”, cujo título da edição italiana, “Desenvolvimento e felicidade”, motivou o nosso diálogo.
Além da amizade que nos une, De Masi e eu temos em comum o amor pelo Brasil, que ele já visitou dezenas de vezes. No fim do mês, estará em Belo Horizonte, a convite da Fundação Dom Cabral. Oscar Niemeyer fez o projeto do centro cultural que ele mantém em Ravello e cuja nova construção será inaugurada em junho de 2009.
Nós dois coincidimos quanto à desumanidade da filosofia do trabalho baseada na competitividade e na excessiva produção de mercadorias supérfluas. A vida existe para que saibamos desfrutá-la, cultivando amizades, o gosto pela arte, a comunhão com a natureza, o aprimoramento de nossos talentos e o aprofundamento de valores subjetivos.
De Masi acredita que os dois países do futuro são o Brasil, pela alegria de viver de nosso povo e a pujança da natureza, e a China, pela criatividade e autodeterminação. Frisei que o maior bem que todos procuramos, sem exceção – a felicidade -, a lógica do mercado felizmente não consegue transformar em objeto de consumo.
Frente à impossibilidade, tenta nos convencer de que a felicidade resulta da soma de prazeres… consumistas! Assim, desloca-se a felicidade da fruição espiritual, como o amor, a mística, os valores éticos, para reduzi-la à posse de produtos que, revestidos de fetiche, passam a imprimir valor a quem os possui, numa inversão escabrosa que torna o objeto sujeito e o sujeito objeto.
Para De Masi, não há felicidade sem apreensão do sentido, do significado, da existência e das coisas. No entanto, a pós-modernidade neoliberal procura nos destituir de filosofia, horizonte histórico, visões do mundo, para nos encerrar miseravelmente no jogo mesquinho de nossas tendências egoístas (tudo para mim, danem-se os outros, como se observa nas reações espontâneas no trânsito); egocêntricas (devo ter poder, fama e beleza para me tornar o centro das atenções); e egolátricas (devo ser venerado pelo olhar alheio, jamais criticado).
A feira do livro de Mântua não concede prêmios e não cobra entrada em conferências, debates e exposições. Ali importam a cultura, a estética, as idéias, a diversidade literária que reúne escritores da nova geografia da Europa Central e do mundo árabe, da China e da África, todos dispostos a socializar seus métodos de criação e suas idéias.
Para o catálogo oficial do evento, uma única pergunta foi feita a mim e a cada um dos convidados: “Em que condições você escreve?” “Isolado”, respondi, “distante de todo acesso e mergulhado em meu ofício. Levanto cedo e, com intervalo para almoço, escrevo até o sol se pôr. À noite, descanso a mente com leitura ou filme. E cultivo uma superstição: jamais falo da obra que preparo, exceto quando a termino”.
- Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.
Solo Le Pido a Dios
(Mercedes Sosa)
Sólo le pido a Dios
que el dolor no me sea indiferente,
que la reseca muerte no me encuentre
vacío y solo sin haber hecho lo suficiente.
Sólo le pido a Dios
que lo injusto no me sea indiferente,
que no me abofeteen la otra mejilla
después que una garra me arañó esta suerte.
Sólo le pido a Dios
que la guerra no me sea indiferente,
es un monstruo grande y pisa fuerte
toda la pobre inocencia de la gente.
Sólo le pido a Dios
que el engaño no me sea indiferente
si un traidor puede más que unos cuantos,
que esos cuantos no lo olviden fácilmente.
Sólo le pido a Dios
que el futuro no me sea indiferente,
desahuciado está el que tiene que marchar
a vivir una cultura diferente.
3 Comentários »
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Perequeté….Gostei do post, cultura é tudo… o Brasil está começando a aprender a lição.Só não consegui rodar o vídeo…
Comentário por Luiz Arthur — 18, Setembro, 2008 #
Obrigada por dar-me a oportunidade de ler o artigo de Frei Beto. Peço a Deus que nos dê mais homens que O amem, que amem o homem, a natureza, o ser, que valorizem a vida.
Gente assim como você,como a amiga que me enviou
sua página, como tantos outros seres maravilhosos que tenho em minha vida.
abraços
Comentário por Rosaura — 19, Setembro, 2008 #
[...] reflexão por parte de todos os trabalhadores brasileiros. Frei Beto já esteve aqui antes no post Festa do livro e das idéias/ solo le pido a dios e Do mundo virtual ao mundo espiritual 1º de maio é Dia do Trabalhador, data histórica marcada [...]
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