Ecos do Natal 2

30/12/2008 às 5:58 | Publicado em Artigos e textos, Fotografias e desenhos | Deixe um comentário

Há alguns anos, quando me deparei nas minhas andanças pela Internet com a árvore abaixo, logo achei que era muito mais apropriada ao Natal em terras nordestinas que as comumente vistas nesta época por estas plagas.

Assim, em homenagem ao nosso povo, a publico aqui neste espaço destinado a “Fotografias e desenhos”:

Natal_nordestino

E, apenas para complementar e já pensando no próximo ano que se avizinha, publico esta bela mensagem de Madre Tereza de Calcutá:

“Tenha sempre presente que a pele enruga,

O cabelo embranquece, os dias convertem-se em anos…

Mas o que é importante não muda…

A tua força e convicção não tem idade.

O teu espírito é como qualquer teia de aranha.

Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.

Enquanto estiver vivo, sinta-se vivo.

Se sentir saudades do que fazia, volte a fazê-lo.

Não viva de fotografias amareladas…

Continue, quando todos esperam que desista.

Não deixe que enferruje o ferro que existe em você.

Faça com que, em vez de pena, tenham respeito por você.

Quando não conseguir correr através dos anos, trote.

Quando não conseguir trotar, caminhe.

Quando não conseguir caminhar, use uma bengala.

Mas nunca, nunca se detenha.”

madre_tereza_calcuta

Me perdoem meus leitores, mas não me contive ao ler o artigo de Malu Fontes sob o título  “Espírito de porco natalino” publicado no último domingo no jornal ATARDE de Salvador/BA. Como resultado tive que acrescentar este post à seção “Artigos e textos” e compartilhá-lo com os amigos. Só continue a leitura se tiver coragem e paciência para ler, afinal, há ‘cenas fortes’ como esta:  “O Natal é a época do ano em que prevalece o consumo irracional e quando mais se produz lixo.”


ESPÍRITO DE PORCO NATALINO

Agora que o Natal já passou e que os excessos, as omissões e as negligências de ordem consumista, religiosa, gastronômica ou familiar já foram todos cometidas, não custa nada ressaltar a falta de criatividade e o excesso de burrice na promoção do consumo desenfreado em torno de uma festa que, em tese, deveria ser apenas um pretexto para os cristãos comemorarem o nascimento de um dos seus ícones mais caros: Jesus Cristo.

O mundo muda, as referências culturais dos povos cada vez mais buscam aproximação com suas raízes históricas, antropológicas e sociais, mas, o que se vê na TV e nas ruas, todos os anos, são os mesmos e insuportáveis anúncios publicitários embalados por acordes das mesmas musiquinhas natalinas que torturam ouvidos há séculos.

SEQÜESTRO DE PINGÜINS – O aquecimento global torna os verões, sobretudo os tropicais, cada vez mais quentes. No entanto, os coitados dos dublês de Papai Noel continuam, ano após ano, na tela e fora dela, atafulhados daquelas peças de roupa que mal deixam duas bochechas sudorentas do lado de fora.

Nada mais incondizente com a paisagem nordestina do que pinheiros cobertos de flocos de neve de mentira nas praças de um shopping. Mais surreal do que isso, só mesmo a campanha de um shopping popular de Salvador, que produziu um primor de comercial televisivo. Pessoas comuns entortando-se numa coreografia estranhíssima chamada de dança do pingüim. Periga ser sucesso no Carnaval.

Os consumidores do tal shopping, se gastassem acima de uma quantia tal, eram ameaçados com a chance de levar para casa um pingüim de pelúcia. Não é o máximo?

A coisa fica mais ilustrativa por se tratar de um ano em que uns coitados de uns pingüins argentinos, por conta da mudança de clima, desorientaram-se e vieram aos bandos dar com os costados no litoral baiano, mais precisamente nas praias de Salvador. Aqui chegando, não poderiam ter tido melhor acolhida, veiculada em todos os telejornais: esse povo tão hospitaleiro e boa praça que somos nós teve uma idéia admirável: seqüestrou os pingüins em casa e começou a cobrar resgate, exigir dinheiro mesmo, do Ibama, para devolver os bichos.

POODLE – O cúmulo do Natal avessado, sem pé nem cabeça, é o resultado que se vê de parte das campanhas veiculadas na TV, convocando os mais privilegiados a darem alguma alegria às crianças pobres, que não têm presentes, ceias ou qualquer um dos arquétipos aculturados nataleiros importados.

Enquanto uma campanha como a dos correios é comovente ao associar o trabalho cotidiano da instituição – a entrega de cartas e correspondências – a uma idéia genial de solicitar que crianças escrevam a Papai Noel pedindo presentes e convocar pessoas sensíveis a irem aos Correios transformar tais cartas em realização concreta de sonhos, vêem-se comportamentos deploráveis por parte de muita gente que obedece a outras campanhas parecidas, sejam de shoppings, lojas e supermercados.

Casais cristãos, que no Natal dão i-pods e jogos eletrônicos aos filhos e sobrinhos e empanturram-se de salmão chileno, vinho francês e damascos orientais, aproveitam horinhas entre uma compra e outra, na véspera, para passar diante de um caixotão de papelão exposto por estabelecimentos que pedem brinquedos e roupas usadas para desaguar o expurgo das faxinas feitas em suas casas da classe média. São bichos de pelúcia xexelentos, transbordantes de ácaros, poeira, fungos e um exército de microorganismos, abandonados há anos pelos filhos que hoje ganham automóveis de presente ou, quem sabe, são herança deixada para trás até pelo poodle microtoy da família, que se tornou adulto e hoje prefere mesmo é um osso sintético trazido da última viagem da família a Miami.

E isso quando não doam os livros didáticos de geografia da década de 80, quando o muro de Berlim sequer havia caído, e com direito a plus: odor de xixi de rato, colônias de ácaros, mofo e traças. No próximo Natal, a chance é grande de a namorada viúva e desneuronada do ex-marido de Suzana Vieira deixar num desses caixotões hipócritas de Natal aquele ursão gigantesco marrom e bizarro com o qual desfilou abraçada em todas as telas de telejornais para lá e para cá – presente dele – desde que o amante torto chafurdou literalmente na cocaine.

O Natal é a época do ano em que prevalece o consumo irracional e quando mais se produz lixo. Em grandes metrópoles, como São Paulo, o dirigente da empresa de limpeza pública afirmava na última terça-feira na Globo News que, nessa época, o lixo é tanto, decorrente do consumo desenfreado e do conseqüente excesso de descarte de embalagens, caixas, papéis e restos de comida desde os processos de preparo, que os garis são proibidos de tirar férias. Assim como os garis são proibidos de tirar férias no Natal, os mais privilegiados deveriam adotar pudor e decência, abortar o espírito de porco que não os abandona nem mesmo no Natal e serem proibidos de dar lixo a crianças pobres como se isso fosse presente.

Malu Fontes | Jornalista, doutora em comunicação e cultura e professora da Facom-Ufba

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