2 de julho
2, Julho, 2009 at 5:02 am | In Artigos e textos, Zuniversitas | 4 CommentsEsta é uma das datas mais importantes para o povo da Bahia. Foi nela, em 1823, que os baianos heroicamente expulsaram de vez os portugueses desta bela terra. ![]()
Este trecho da nossa história é riquíssimo e cheio de
personagens e mártires interessantes como o Brigadeiro Madeira de Melo e Joana Angélica, Miguel Calmon e Frei Brayner, Maria Quitéria e o General Pedro Labatut, além dos “Encourados de Pedrão”, com destaque especial para a então vila, hoje cidade, de Cachoeira, ponto focal do conflito. Mais detalhes da história podem ser vistos na wikipedia ou no link 2 DE JULHO .
Para homenagear o povo baiano faço agora este post triplo com matérias de dois baianos natos e de um baiano ‘importado’ de São Paulo. Os dois primeiros são Aninha Franco com o seu “NASCE O SOL A 2 DE JULHO ” publicado no suplemento MUITO do jornal ATARDE do dia 28 último, Milton Santos retratado em entrevista à professora Maria Auxiliadora da Silva no mesmo suplemento e por último Ricardo Chemas, em entrevista também do mesmo suplemento mas de uma semana antes (21/junho), todos três já frequentadores deste espaço em outras oportunidades, algumas recentes, outras mais antigas.
O objetivo deste post é este mesmo: o de misturar três ingredientes intelectuais da melhor qualidade da terra brasilis: a história da Bahia (e do Brasil), com Aninha Franco; a Educação, a Geografia e a Sociologia, com Milton Santos; e a Educação, a Medicina e a Psicanálise, com Ricardo Chemas.
“PELA DIFICULDADE EU VENÇO”
ANINHA FRANCO – “NASCE O SOL A 2 DE JULHO”
Nossos antepassados de muitas culturas se matavam de dia e se inventavam de noite até 2 de julho de 1823, quando alguns deles, caboclo, cabocla, escravos boçais e sabidos, homens nobres, mulatos desavergonhados disseram: Chega de ganhar dinheiro, mazombos! Se piquem pra Portugal! E os mazombos juntaram as trouxas, entraram no vapor e voltaram pra casa de onde, hoje, assistem novelas, lêem revistas, aprendem a sotaquear e caluniar os brasileiros com piadas de preguiça, deslembrados de que nós produzimos novelas mais mexicanas que os mexicanos, imprimimos revistas de filosofia com Benjamin, Chauí e Arendt e falamos um português bonito com sons de bunda, quimbundo, congo, nagô, keto e benguela. Pá!
Expulsos os mazombos, ficamos donos do celeiro do mundo, do gigante pela própria natureza, da floresta amazônica, do Caipora, do Curupira, dos Orixá que as tribos africanas trouxeram nas cabeças, do Bumba-Meu-Boi, dos Xangôs do Maranhão, dos Maracatus de Pernambuco, da Cerâmica Marajoara, do sofrimento dos Peixes-bois assassinados, indefesos, donos de tudo, nós, os cafusos, curibocas, pretos, sararás, morenos claros, escuros, mulatos claros, escuros, negros, caboclos, carijós, cabos verdes, aracuiabas, canelas, pretos claros, cinzas, pardos, mambeles, acaboclados, gazulas, crioulos, roxos de cabelo bom, negros do cabelo duro e penteado desfilando o amor-próprio dessa expulsão a cada 2 de julho, perseguidos por políticos incolores, brancos, negros, carreando voto, cópias esculpidas em Carrara de onças pintadas, ignorando e atrasando a outra expulsão que urge acontecer.
A expulsão do analfabetismo e da ignorância, única que vai minguar a carnificina das muitas culturas que continuam se matando de dia e se inventando de noite nesta cidade da Baía, e nas outras que vieram depois dela, corporizando o caminhão fantasma do vereador Cosme de Farias subindo o Largo do Pelourinho com a faixa abaixo o analfabetismo sobre as cabeças de Darcy Ribeiro, Waly Salomão, Cristovam Buarque, Anísio Teixeira, Paulo Freire e alguns outros que tentam abaixá-lo há tanto tempo, com resultados a cada dia menores.
MILTON SANTOS -ENTREVISTA DE MARIA AUXILIADORA DA SILVA
“MILTON SANTOS FOI UM PROFETA”
Há 50 anos, Maria Auxiliadora da Silva era uma adolescente magrinha, órfã de pai e mãe. Tinha grandes olhos curiosos que a levaram a todas as palestras da cidade, inclusive as organizadas por Milton Santos na Universidade Católica do Salvador. Aos 15 anos, foi convidada para integrar a equipe de um laboratório de pesquisa coordenado pelo baiano que revolucionou o campo da Geografia. Pela sua contribuição, Milton Santos ganhou muitos prêmios, entre eles o Vautrin Lud, em 1994. Na década de 60, contudo, Maria Auxiliadora ainda não sabia disso e, por causa da admiração simultânea pelo professor José Calazans, ela cursou a faculdade de História. “Mas Milton Santos também não era geógrafo de formação, era bacharel em Direito”, provoca. Depois, ela se tornou doutora em Geografia pela Universidade de Strasbourg, na França (a mesma que consagrou Santos). Desde que ele faleceu, vitimado por câncer na próstata, em 24 de junho de 2001, Maria coordena a organização do bianual Encontro com o Pensamento de Milton Santos. Diariamente, também cuida da preservação das ideias do geógrafo por meio de um grupo de pesquisa. Em tom emocionado, a professora falou sobre tudo isso na sua sala de vice-diretora do Instituto de Geociências da Ufba, em Ondina. Atrás de sua mesa, um retrato de Milton, com sorriso terno, abençoou toda a conversa.
A senhora conheceu Milton Santos aos 15 anos. Como foi?
Fui criada por meus avós e estudava no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, de Anfrísia Santiago. O colégio, assim como minha família, incentivava a ir ao que tivesse na cidade. Então, palestras, conferências, a tudo nós íamos. Milton Santos tinha ido para a França porque ele, no início de 1950, tinha participado do Congresso Internacional de Geografia, no Rio, onde conheceu Jean Tricart, da Universidade de Strasbourg. Professor Tricart ficou muito entusiasmado com ele e o convidou para fazer doutorado na França. Ele foi para Strasbourg e lá publicou a tese O Centro da Cidade do Salvador (que acaba de ser reeditada). Quando voltou com a tese, ficou como professor da Universidade Católica do Salvador. Trazia professores franceses para cá, que davam palestras sobre a geografia da França e da África. Eu assistia a essas palestras e aí ele me conheceu.
A senhora trabalhou dez anos no Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, fundado por ele, na Ufba. Como era?
No dia primeiro de janeiro de 1959, Milton Santos fundou o laboratório com apoio do reitor Edgard Santos e do professor Jean Tricart, da Cooperação Francesa. A cooperação ajudou muito, dando bibliografia, material para trabalho e até um carro. Aí, ele convidou várias pessoas para trabalhar no laboratório, inclusive eu. Ele já sabia quem eu era porque me via muito nas palestras. Mas minha família não queria que eu trabalhasse. Eu era muito nova. Pedi a ele para dar meu lugar a uma colega e arranjar outro para mim depois, e isso foi feito.
Que tipo de pesquisas vocês faziam?
Fazíamos trabalhos de campo na Chapada Diamantina, no Vale do Médio Paraguaçu e em Itapicuru. Trabalhamos sobre Amargosa, a zona do fumo, Valença, Itaperoá, Ituberá e sobre a zona do cacau.
Como orientador dos trabalhos, ele tinha uma presença constante?
Ele trabalhava no laboratório todos os dias, mesmo quando se tornou professor da Faculdade de Eilosofia da Ufba. Era também editorialista de A TARDE. Em certo momento, Jânio Quadros (que ainda não era presidente) pediu a Jorge Calmon, redator-chefe de A TARDE, a indicação de um repórter para ir a Cuba. Jorge Calmon o indicou. Nessa viagem, Jânio se impressionou com ele. Milton tinha uma presença marcante, era extremamente inteligente e simpático. Agora, também era muito crítico e irônico. Tinha uma ironia fina. Sempre fez crítica do que achava errado, principalmente na política.
Pouco depois, ele foi escolhido sub-chefe da casa Civil na Bahia por Jânio. Como conciliou tantos empregos?
Pois é. E ao mesmo tempo, Lomanto Júnior, governador da Bahia na época, o nomeou presidente da Comissão de Planejamento Econômico do Estado (CPE). Ele trabalhava na Casa Civil e na CPE – e não faltava nenhum dia ao laboratório. O professor tinha uma capacidade. de trabalho muito grande.
E sempre dizia que era otimista. De onde vinha essa força?
Os pais dele o criaram para ser otimista. Ele foi criado para mandar. Os pais dele transmitiam essa idéia de que ele era importante. Então, veio da formação. Ele teve de se defender sendo otimista. Quando foi preso, não foi por ter idéias políticas. Foi porque ele foi escolhido representante de Jânio Quadros na Bahia e presidente da CPE. Na prisão, não foi feita nenhuma pergunta a ele sobre sua posição política. Era apenas humilhação, entende? Então, tinha de se defender de alguma forma.
A senhora disse, antes de começarmos a gravar, que houve momentos em que foi “mãe” dele. Quando?
No exílio e nas perdas. Mas, não significa que ele fosse um exilado triste. Ele sempre foi expansivo, ria muito. Ao mesmo tempo, era extremamente discreto a respeito de suas coisas pessoais. E, nisso, parecia mais francês do que brasileiro.
Vocês namoraram?
Não, não (risos). De jeito nenhum. Éramos amigos, só amigos …
Desculpe a pergunta, mas é que noto pelos vídeos e pelas fotos que ele era um homem muito encantador …
Sim, muito encantador. E sedutor. Mas eu sou muito fiel às amizades, assim como Milton Santos era.
Quando ele voltou para o Brasil, após o exílio, a Ufba não o reintegrou ao quadro. Por quê?
É um grande mistério. Íamos aos reitores pedir para reintegrá-lo, ficávamos horas na sala de espera da reitoria e nada. Foi nessa época que ele lançou Por uma Geografia Nova e a universidade não se interessou. Eu só posso pensar que a universidade tinha medo de Milton Santos.
A ideia de território era pouco trabalhada na Geografia até a chegada da produção de Milton Santos?
Era pouco difundida. Hoje em dia, quem trabalha muito sobre território é alguém que sabe tudo sobre Milton Santos: Maria Adélia Aparecida de Souza. Eles trabalharam juntos durante todo o tempo em que Dr. Milton morou em São Paulo.
Houve pontos de discordância entre a senhora e Milton Santos?
Quando já era madura e tinha titulação, tínhamos debates como todo intelectual tem. Mas, sem discordâncias. Sempre digo que ele foi um profeta. Muito tempo antes, previa que os não-capitalistas iriam se revoltar. E o ataque contra as torres gêmeas (nos EUA, em 11/09/2001) foi uma revolta contra o capitalismo.
Ele também defendia a ideia de que haverá a revolução dos “homens lentos”. Que isso quer dizer?
Nos últimos anos, falava muito sobre o poder dos pobres. Dizia que a classe média deveria ter preocupação com os mais pobres, porque eles não iriam continuar nessa situação sem fazer nada. O Movimento dos Sem Terra (MST) é uma prova disso. É um dos poucos movimentos que está vingando. Foi uma profecia.
Qual era a proposta de Milton Santos para uma sociedade diferente?
O que ele queria era uma sociedade mais igualitária. Isso não se vê em nenhum país – a não ser na Tanzânia, onde ele passou dois anos, estudando física e filosofia para publicar Por uma Geografia Nova (livro que revolucionou a Geografia e que ajudei a traduzir). A proposta dele era por um mundo mais justo. Mas há um imobilismo em relação a isso. Eu estava em Paris com ele em maio de 68 e vi como estudantes e professores conseguiram derrubar De Gaule. E você vê o Irã agora? O povo de lá está morrendo, mas está nas ruas. Mas e aqui, quem é que faz alguma coisa?
A senhora está denunciando o imobilismo político atual na Bahia e no Brasil?
A gente tem que agir. Não estou falando em revolução. Sou contra a revolução, porque morre gente. Mas, sempre digo a meus alunos: a gente precisa se engajar em alguma coisa. Defendo esse jardim aí (do campus de Ondina). Cortam as árvores e ninguém faz nada. Uma vez, iam cortar uma jaqueira e fiquei na frente da serra elétrica. No ano passado, iam cortar mais árvores e avisei aos estudantes: vou ficar, lá, viu?Vocês me amarram lá e quero ver cortarem. Amarraram, não saí de lá e não cortaram. Você vai dizer: mas que bobagem, isso não é nada. Mas cada um deve fazer alguma coisa.
Então, um dos principais ensinamentos dele para a senhora foi ser engajada?
Sim. Ser cidadã. Milton Santos dizia: precisamos ser cidadãos, a gente tem direito a isso.
Ele chegou a ocupar cargos públicos, mas não era militante de nenhum partido…
Simpatizava com o pessoal do PT e do PC do B, mas não aceitava convites. Ele dizia: “não sou militante de coisa nenhuma, apenas de idéias”. Ele sofreu uma influência muito grande de Jean Paul Sartre. E de Jean Tricart e da escola francesa à qual pertenceu.
No Instituto de Geociências, de que forma as idéias dele tem sido atualizadas?
Temos um grupo de pesquisa que se chama A Produção do Espaço Urbano. Somos eu, Rubens de Toledo Júnior (que foi aluno de Milton Santos em São Paulo), Clímaco Dias e Denise Magalhães. Temos alunos com bolsa de iniciação científica e com a Bolsa Milton Santos. Antes de morrer, ele demonstrou vontade de dar uma bolsa a um estudante pobre. Em 2002, tive um aluno muito bom, mas muito pobre. Ele queria fazer pesquisa. Falei com Marie-Hélêne (viúva de Milton Santos, que mora em São Paulo). Ela concedeu a bolsa com o dinheiro da aposentadoria dele. Começou com uma e, agora, nós temos quatro Bolsas Milton Santos. Já formamos 13 ou 14 estudantes. Eles fazem pesquisas variadas, por exemplo: a territorialidade das lan houses em bairros populares, a funcionalidade do Dique do Tororó, os serviços na região metropolitana de Salvador …
A Ufba deu o nome dele ao Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (lHAC). Também vai haver uma cátedra. A senhora acha uma conquista importante?
O que ele queria é que suas idéias fossem preservadas. Não importa que haja um espaço com o nome de Milton Santos e, sim, que as idéias dele estejam sendo trabalhadas. Na Bahia, a gente faz isso, e não só no meu grupo de pesquisa. Acredito muito nos jovens que estão vindo e vão continuar esse trabalho.
A senhora pretende escrever um livro sobre Milton Santos?
Nunca. Muita gente me pede. Eu sempre faço um artigo ou outro, mas livro não pretendo fazer. Para mim, às vezes, escrever e falar sobre Milton Santos é muito difícil. Por exemplo, agora eu sei que estou carregada de emoção.
RICARDO CHEMAS – “A PSICANÁLISE É UM CAOS DE ACHISMOS”
O consultório do clínico e neuropsiquiatra Ricardo Chequer Chemas, 54, foge ao convencional. Fica em uma casa lilás no Rio Vermelho, onde moram nada menos do que 13 gatos. No jardim, cabeças moldadas em cerâmica saúdam os pacientes. “São apenas cabeças”, ele desmistifica. Então, vem a sala de espera: mais de uma dúzia de diplomas na parede, como Outstanding People of the zoth e World Who’s Who Hall of Fame, e certificados de membro da New York Academy of Sciences e da Search for Extraterrestrial Intelligence League, entre outros. Li a maioria deles, ganhei como reconhecimento por um trabalho que apresentei na Universidade do Colorado (EUA) em 1990″, explica, “uma pesquisa sobre memória filogenética”. Em outras palavras: aplicação de extrato de órgãos de bovinos em insetos, para verificar a interação entre os genes de diferentes filos. A experiência lhe rendeu o prêmio de Cientista do Amanhã, da Unesco, quando ele tinha 14 anos. Em 1980, o laboratório do menino se transformou em consultório médico. Ao lado da porta, fotos de Ernst Haeckel e Brown-Sequad, dois dos seus mestres intelectuais. Há 20 anos, o neuropsiquiatra pede aos pacientes: “Conte-me seu sonho mais recente”. Bebendo um copo de Coca-Cola, ele explicou o método para a Muito.
A cura pelos sonhos não é novidade, correto?
Não é invenção minha. Na Grécia, os pacientes iam para o templo do deus Esculápio, cujo atributo era a serpente. Dormindo no templo, em companhia das serpentes sagradas, tinham sonhos e, durante os sonhos, o deus Esculápio, que era o deus da medicina, revelava os medicamentos e o tratamento. Os sacerdotes e médicos, que naquele tempo eram a mesma coisa, interpretavam o conteúdo dos sonhos e davam o medicamento. Não faço exatamente isso, não boto eles para dormir junto de serpentes – embora eu tenha serpentes na minha mesa. Uso outra técnica.
Qual?
Uso o conhecimento da matéria médica sobre drogas que, em pessoas normais, induzem sonhos específicos. Um exemplo: bela dona, que é uma planta venenosa mas que dá vários alcaloides médicos (como atropina, escopolamina, hiosciamina). É uma planta importante, embora seja extremamente venenosa. Já na Idade Média, as bruxas sabiam que determinados elementos induziam a sonhos, elas passavam creme de beladona nas vassouras. A beladona era absorvida pela mucosa da vagina e dava a sensação de vôo. Elas não voavam, tinham uma “viagem” com a beladona. Veja, então, como é interessante o sintoma ser revelador de uma droga.
Poderia dar outros exemplos?
Alumínio, muito usado como antiácido, como desodorante e em panelas. Quem usa panelas de alumínio ingere, inevitavelmente, enormes quantidades. O PH ácido ou alcalino dissolve o alumínio. O PH neutro, não. Se colocar algo com limão ou tomate numa panela de alumínio, minutos depois isso já dissolveu quantidade grande do metal. O resultado, dentre outras coisas, são prisão de ventre, secura de mucosas, intoxicação do sistema nervoso central, paralisias, ete. Um dos sintomas é sonhar que se está caindo de uma altura muito grande. Essa é uma das maneiras mais rápidas de identificar intoxicação por alumínio.
Então o senhor pede que o paciente relate o sonho e…
(interrompe) … e identifico as substâncias químicas que ele está necessitando tomar, por semelhança. As substâncias que estão em desequilíbrio para mais ou para menos. Quem tem desequilíbrio do metabolismo do magnésio, por exemplo, costuma sonhar com inundações, parentes que já morreram, casamentos absurdos – casar com o pai, o irmão -, chuva torrencial. Eu identifico, dou o medicamento e o paciente se cura, e o mais interessante é que ele sai se curando de dentro para fora, desde o sintoma psicológico profundo até o nível físico mais superficial.
Quando um paciente o procura, não vem se queixando do sonho, mas de uma outra coisa, correto?
Sim, mas, independentemente dessa outra coisa, quando a gente dá o medicamento em cima dos sonhos ele melhora de tudo, porque o sonho está traduzindo uma causa bioquímica bem básica, bem remota, e que não é afetada pelo que ele pensa, acha, acredita, ouviu dizer, pelo psicológico. O sonho é totalmente independente disso.
Que tipos de medicamento o senhor prescreve?
Pode ser homeopatia ou alopatia. O importante é que eu dê a substância relacionada com o sonho. A técnica que vou usar vai depender muito do tipo de patologia. Então checo o dado do sonho com os dados físicos apresentados em consultório.
Do que são feitos os sonhos?
Os sonhos são padrões recorrentes de pensamentos e imagens. A humanidade tem sonhos universais com temas característicos: estar nu em público, ser perseguido por animais selvagens, cobras. De acordo com a teoria da seleção natural de Darwin, vivemos milhões de anos nas árvores antes de descermos e perdermos a cauda. O tempo que a gente tem de civilização e cultura é de 40 mil anos, é muito pouco. A maior parte do tempo, passamos em florestas. Os sonhos servem para isso: se vocês onha que está numa floresta e corre o risco de ser mordido por uma cobra, tem mais chance de sobreviver se estiver alerta. Vários desses sonhos foram forjados e selecionados como vantajosos num contexto evolutivo específico, que vai desde as circunstâncias ambientais mais rudes ou físicas, como o fato de estar em cima de uma árvore, até circunstâncias bioquímicas do ambiente – como a composição química dos alimentos, da água, do ar. Somos sensíveis a todas essas variações de composição química elo ecossistema, e essas variações também se expressam como conteúdos de sonhos.
Esse fenômeno está relacionado à constatação de (arl Sagan, de que somos feitos de poeira de estrelas?
Sim, nós somos feitos dos mesmos elementos de que é feito o universo, então é natural que a gente ressoe com esses elementos. Para começar, a gente é 99,9% carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre. O resto, 0,1%, é todo o resto da tabela periódica.
Na medicina convencional, digamos, há doenças diagnosticadas por meio da análise da presença de metais no sangue?
Claro. Com o exame de sangue, o que o médico quer saber é o equilíbrio dos metais alcalinos e alcalino-terrosos: sódio, potássio, fósforo e mais alguns outros elementos. Um desvio mínimo em potássio já é sinal de doença renal grave.
Há sonhos com mais de um possível desequilíbrio como agente causador?
Tenho duas maneiras de checar isso. Normalmente, pergunto: qual o sonho mais recente que você já teve? Se a pessoa não lembra, pergunto: quais os temas que costumam aparecer nos seus sonhos ao longo da sua vida? Aí, posso pegar uns seis medicamentos que dão conta do padrão. Nem sempre consigo encontrar apenas um, porque nem sempre a gente também não é tão puro assim, a ponto de haver uma só substância toxicologicamente em desequilíbrio.
Além da ingestão de toxinas, quais são as outras formas de adquirir esses desequilíbrios?
Endógenas, como dificuldade de processar substâncias por deficiência genética ou enzimática, ou por algum estado patológico. Também há as intoxicações ambientais. Por exemplo, níquel em cosméticos. As mulheres botam o dedo na boca, tendo passado esmalte nas unhas. O esmalte contém níquel, um metal pesado que dá a sintomatologia: sonhos com cabeças cortadas, com pessoas decapitadas, com o diabo, com perseguição pelo demônio.
Quais as relações do seu trabalho com o que (Carl Gustav Jung falava a respeito dos sonhos?
Minha forma de olhar é mais objetiva. Não há nisso nenhuma crítica a Jung ou aos junguianos. Eu próprio, como psiquiatra ou psicólogo médico, tenho orientação mais junguiana. Vejo os princípios de Jung funcionarem na prática, mas não interferem ou não operam diretamente no meu trabalho.
O senhor descarta, então, a interpretação dos sonhos?
Interpretação é algo muito subjetivo, cada interpretador dá uma versão diferente. Quando descobri que a psicanálise era esse caos de achismos, procurei algo que fosse mais profundo e revelador.
Para que serve anotar o sonho?
É um exercício bom para manter um nível de feedback com o inconsciente. Na medida em que você dá um input, escreve o sonho, o inconsciente responde, como se estivesse sendo solicitado. Não deixa de ser bom, para todo mundo, mas não que vá ter uma utilidade objetiva.
Existem sonhos proféticos que podem antecipar acontecimentos reais?
Sim, é um fenômeno real que já foi comprovado através de vários estudos. Tenho uma paciente que quase enlouqueceu por causa disso. Ela sonhava com detalhes da morte de todas as pessoas que ela conhecia e que iriam morrer. Existem substâncias que induzem sonhos proféticos: o acetato de manganês, o enxofre, o fósforo, a Cannabis sativa.
Qual a ação dessas substâncias?
Tem que pensar no espaço-tempo e, aí, já entra física, é complicadíssimo. Como se vai buscar algo no futuro, rompendo a lei da causalidade? Como é que você tem acesso a algo que ainda não aconteceu? O que a física parece indicar é que a causalidade não existe, o que existe é um continuum espaço-tempo, e a gente simplesmente mete a mão na estante e tira antes de chegar lá. Mas que existem os sonhos proféticos, existem, e os sais de manganês induzem.
Tudo isso já foi documentado?
Sim, há muito tempo. Desde o século 19, em qualquer dicionário de matéria médica já constam esses dados. Como neste aqui (pega um volume em sua mesa), “El moderno tepertorio” de Kent, de J.T.Kent (a primeira edição data de 1897 e lista 591 medicamentos). Ou este de (Abraão) Brickman. Vejamos (abre o livro): sintomas de envenenamento por cobra, do grupo das cobras corais. Entre eles, otite crônica, esofagismo, fotofobia, medo de chuva e, olhe que interessante: sonhos com pessoas já falecidas. Isso aqui é um dicionário de matéria médica. (Pega o livro de Kent). Sonhos com esforços terríveis, de correr. Você nunca teve um sonho em que estava presa num lugar, não consegue escapar? Isso é característico de um metal chamado indium. E esse outro: sonhos com dificuldade de encontrar caminho para a própria casa. Veja: é característico do magnésio.
O senhor já teve algum sonho de origem misteriosa? Pode nos contar?
Já, posso. Em 1993, sonhei com um metal do grupo das terras raras, um grupo de elementos químicos de peso atômico alto que estão fora da tabela normal porque pertencem a um grupo à parte. São substâncias estranhas, exóticas. Há estrelas e planetas com a composição percentual de elementos muito diferentes da nossa. Tudo depende da composição química inicial da estrela que deu origem aos planetas. A Terra tem pouco prazeodímio, mas tem muito ferro, por exemplo. Sonhava que alguém me dava instruções precisas de como preparar um medicamento à base de oxalato de cério.
Quem falava com o senhor?
Eu via todo o procedimento, a forma como preparar o medicamento, que segundo o sonho era usado como proteção, como escudo energético. Alguém falava, mas eu não via. Depois, consegui um laboratório, importei o elemento e produzi. Tomei. Tinha uma gastrite, na época, que nada dava jeito, nada curava, coisa nenhuma. O único que foi receitado no sonho foi esse. Fiz o medicamento de acordo com a fórmula e nunca mais tive uma dor de estômago.
Chegou a encontrar esse relato em algum livro de matéria médica?
Não. li em um livro do século 19 que o oxalato de cério era usado como antiácido na gravidez, mas eu não tinha o menor conhecimento. Nos livros do século 20, os que estudei na faculdade, não se fazia nenhuma menção a isso.
Como médico, onde o senhor aprendeu a relacionar sonhos com patologias?
Encontrei os sonhos como sintomas na matéria médica, em livros como na enciclopédia escrita por Timothy Allen. Descobri, raciocinando, que esse seria o sintoma mais profundo. Conhece algo mais íntimo do que os sonhos? Acho que nem a masturbação. Sonho é mais íntimo ainda. E traduz justamente os recessos do funcionamento orgânico. Os sonhos são a turbulência na superfície do lago, os reflexos do que está acontecendo lá no fundo, e de forma muito mais profunda do que simplesmente um sintoma físico superficial. Por isso, é muito melhor diagnosticar através deles.
O senhor aprendeu algo sobre essa forma de diagnóstico na faculdade?
Não, a academia ignora solenemente essas coisas. Tive de aprender de forma autodidata. A universidade ensina a medicina-padrão, americana, convencional, receita de bolo.
E o senhor faz que tipo de medicina?
Não dou nomes. É medicina, mesmo. Longe, até, dos interesses da indústria farmacêutica. Talvez isso seja o principal. Procuro fazer uma medicina voltada ao paciente, e não a um padrão de conduta, uma moda. Não sei se você sabe, mas os medicamentos não mudam à medida que os anos passam porque são descobertos novos e melhores, mas simplesmente porque as patentes acabam e os laboratórios têm de ganhar dinheiro. Dez anos depois, a patente vence, outros laboratórios copiam e eles precisam criar um novo medicamento para jogar aquele outro, mesmo que seja excelente e bom, fora. O que existe é um modismo terapêutico, ditado pelo comércio. Que coisa horrorosa: o maior lucro do mundo é em cima do tráfico de armas, depois a indústria petroquímica e, em seguida, a indústria farmacêutica. Em cima disso, se faz e acontece.
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[...] Leia o texto completo em Zéducando. [...]
Pingback por Cabresto sem Nó » Blog Archive » 02 de julho - Independência da Bahia e do Brasil — 2, Julho, 2009 #
É por essas razões que costumo dizer que a proclamação da independência foi em 7 de setembro de 1822, mas a independência do Brasil só pôde começar a ser “levada a sério” a partir de 2 de julho de 1823.
Ainda não terminei de ler tudo (ô post grande, sô), mas gostei muito até onde li.
Comentário por José Luís — 3, Julho, 2009 #
Publico abaixo comentário da professora Lourdes Ornellas sobre este post.
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Oi Rosa,
O post é interessante embora a fala de um neuropsiquiatra sobre a psicanalise é esvaziada de argumentos sobre o que o seu titulo sugere. Penso ser preocupante o autor que defende outra abordagem teorica trazer como titulo de sua materia um dizer pontual verbalizado na entrevista e que em nenhum momento aprofunda o dito. Estou falando de enunciado e enunciaçao.
Com afeto,
Lourdes Ornellas
Comentário por Jose Rosa — 4, Julho, 2009 #
Ainda dentro do espírito deste blog, coloco abaixo três comentários publicados hoje, 05/07/2009, no suplemento MUITO do jornal ATARDE de Salvador/BA, o mesmo em que li a entrevista de Ricardo Chemas publicada neste post:
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Chemas 1 -A psicanálise é uma ciência que exige muitos anos de estudo e dedicação, assim como é resultado de séculos de pesquisas e publicações, ao contrário do que declarou, de forma errônea e equivocada, o neuropsiquiatra Ricardo Chemas. A frase “a psicanálise é um caos de achismos” ofende e desrespeita profundamente a nós, cientistas e profissionais éticos, que dedicamos horas do nosso dia para construir ciência. (Mariana Lima)
Chemas 2 – Excelente matéria com Ricardo Chemas. Apenas acho que houve uma negação da psicanálise de Freud e, logo após, uma afirmação da cura através dos sonhos não tão freudiana assim. Talvez seja na verdade uma pinimba velada dos junguianos com o velho Sigo. (Raimundo Martins)
Chemas 3 – Admiro muito Chemas. Pela sua pessoa e pelo seu trabalho, que muito tem contribuído para a sociedade. Não deixamos uma ciência ou um modelo terapêutico pelo tato de nossa dimensão ir mais além. Não resta dúvida de que a psicanálise foi ponto de apoio para as descobertas do Dr. Chemas. A psicanálise continuará a ser um grande passo. E Freud, o papa. (Deijanete Lobo)
Comentário por Jose Rosa — 5, Julho, 2009 #