Prisão Virtual
29, Agosto, 2009 at 5:01 am | In Artigos e textos, Zuniversitas | 1 CommentPassando em Brasília dia 03 deste mês, li no suplemento Direito e Justiça do CorreioBraziliense um interessante artigo do Juiz Federal Tourinho Filho sobre o uso, no Brasil, das técnicas de ‘prisão virtual’ usadas em outros países, como os EUA.
O artigo nos faz refetir, mas me reservo o direito de polemizar, em nome do espírito deste blog. A solução, se é que existe, para a problemática carcerária em nosso país, já discutida aqui inclusive em outro post ( “Começar de Novo, ou Give peace a chance”), passa, na minha visão, pelo dueto: penas alternatvas e prisão-trabalho, apesar de reconhecer que as tecnicas de identificação de presos podem ajudar no processo.
Destaco:
A prisão virtual pode encarcerar o condenado em sua própria residência. Prisão domiciliar com monitoramento eletrônico. Aí teremos, no futuro, o fim das penitenciárias. Ele está livre das grades de ferro, mas é prisioneiro, em sua própria casa, uma vez que a liberdade de ir e vir está cerceada, com o controle inclusive das visitas.
PRISÃO VIRTUAL (F. Tourinho Neto, Juiz do TRF-1ª Região, membro do Conselho Deliberativo do Programa Federal de Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, membro do Comitê Permanente da América Latina da F
A prisão, hoje em dia, ao invés de ressocializar, de procurar reinserir o condenado na sociedade, na verdade, tem o propósito de estigmatizar, de humilhar. A infração penal não pode ser entendida como um fenômeno isolado e fruto de um ser anormal, mas um acontecimento inerente à sociedade. Daí a Organização das Nações Unidas (ONU) ter, na Assembléia Geral de 14.12.90, pela resolução 45/110, aprovado as Regras Mínimas para as Medidas não Punitivas de Liberdade — as regras de Tóquio.
A ONU tem-se preocupado com o tratamento dado aos presos, provisórios ou não. Perante o Comitê Permanente da América Latina para Revisão das Regras Mínimas da ONU para Tratamento dos Presos, Seminário Internacional, realizado em Buenos Aires (Argentina), de 27 a 29 de abril de 2009, a temática foi a busca de mecanismos garantidores da efetividade das Regras Mínimas da ONU para Tratamento dos Presos, com objetivo de redução de oportunidades aos conflitos e controvérsias na reforma global das prisões.
A pena privativa de liberdade, a prisão, o brutal encarceramento, em prisões infectadas, promíscuas, superpovoadas, continuam a ser a dos tempos antigos: “a) a mais difundida das penas; b) a mais degradante; c) a mais indigna; d) a mais risível de pena; e) a mais abusiva de direitos humanos na execução da pena” (Edmundo Oliveira).
E o que dizer do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), consagrado na Lei 10.792, de 1º de dezembro de 2003, em que os presos mais perigosos não falam entre si; todos ficam em celas individuais sem desenhos ou fotos; o banho de sol é limitado a uma hora por dia; não há atividades recreativas; TV e rádio são proibidos, assim como jornais e revistas e não há visitas íntimas? Como disse um detento: “Aqui o lugar é horrível, é horrível. É o pior lugar que eu já tive na minha vida. Eu estou bem fisicamente. Psicologicamente é que eu estou um bagaço. Esta é que é a verdade. Isso aqui é horrível. Nada se compara com isso aqui. É uma fábrica de fazer maluco, sinceramente. Eu já estou chamando formiga de meu louro”.
O RDD lembra as prisões nazistas, as do tempo da ditadura no Brasil, em que para o preso não morrer tinha acompanhamento médico durante as sessões de tortura. Uma monstruosidade. E, hoje, um governo democrático aceita esse tipo de tortura!
Num mundo altamente tecnológico, no qual a velocidade da informação “avança na luz do tempo real”, não se pode mais pensar em prisão em termos de masmorras e grades. As grades serão virtuais.
A ciência penal tem de valer-se da tecnociência para romper com métodos de vigilância, de encarceramento, que não deram certo, a não ser embrutecer o condenado, torná-lo uma fera, um revoltado, para depois devolvê-lo ao convívio social. Na verdade, a pena de prisão, como diz o professor Raúl Zaffaroni perdeu sua legitimidade.
Para reduzir a massa carcerária, o mundo tem de buscar os ensinamentos da tecnociência, valendo-se do monitoramento eletrônico por telefonia fixa ou celular em rede de fibra ótica, do Sistema de Posicionamento Global (GPS) e do microship, implantado na camada subcutânea do corpo humano — entre a derme e a epiderme, para vigiar e monitorar os presos. O controle poderá ser total, mais do que nas penitenciárias.
O monitoramento evita as deletérias consequências das prisões, com suas promiscuidades, más condições de higiene, evita a ociosidade — mente desocupada é fonte de maus pensamentos. A falta de vagas faz com que os presos, como é de todos sabido, se amontoem em pequenos espaços, vivendo como animais.
A solução proposta pelo Direito Penal Máximo: prisão, sempre prisão, fracassou há muitos anos. O Direito Penal Mínimo, em que a prisão deve ser decretada em ultima ratio, é que deve prevalecer. A prisão sem grades, livra, por outro lado, o estigma do preso e reduz as despesas do Estado.
O monitoramento eletrônico para as penas de curta duração e de final de cumprimento é realizado através de pulseira (que pode causar, em razão da exposição, algum estigma), tornozeleira, cinto ou de microship implantado no corpo (este método pode acarretar o risco de uma pena invasiva). Ainda tem-se a utilização do GPS, que permite fiscalizar se o condenado entra em área de exclusão, fixada pelo juiz, como parques públicos, escolas, determinadas ruas, enfim áreas em que o condenado não pode transitar.
O monitoramento de vigilância não pode ser utilizado unicamente para obter-se a punição do preso. Medidas de assistência socioeducativas devem ser asseguradas. A comunidade deve ser chamada para a recuperação do preso. O monitoramento pode, em algumas hipóteses, vir a substituir, inclusive, a prisão cautelar.
A prisão virtual pode encarcerar o condenado em sua própria residência. Prisão domiciliar com monitoramento eletrônico. Aí teremos, no futuro, o fim das penitenciárias. Ele está livre das grades de ferro, mas é prisioneiro, em sua própria casa, uma vez que a liberdade de ir e vir está cerceada, com o controle inclusive das visitas.
Não pode, porém, haver uma devassa da intimidade secreta do infrator, aquela esfera em que o indivíduo não reparte com ninguém, nem com seus entes mais queridos. A prisão virtual será a prisão do futuro, de um futuro não muito longe.
Carta de Getúlio
26, Agosto, 2009 at 10:03 am | In Zuniversitas | Leave a CommentEm homenagem ao maior presidente brasileiro e ao meu falecido pai que me ensinou a ver as coisas boas que ele fez, posto aqui a Carta de Getúlio, mesmo com um atraso de alguns dias:
CARTA-TESTAMENTO DE GETÚLIO VARGAS
Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.
Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.
Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançaram até 500% ao ano. Na declaração de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.
Rio de Janeiro, 23/08/54 – Getúlio Vargas
Pedagogia do Oprimido
24, Agosto, 2009 at 5:18 am | In Baú de livros | 2 Comments
Faz tempo que não posto neste “Baú de Livros”, segue hoje, começo de semana, uma indicação que é um tanto quanto redundante para os que se dedicam na lide da Educação neste país, “Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire.
Mas o que me motivou a postar agora foi o Artigo “Pedagogia do Oprimido” da professora Yvete Amaral (yvetteamaral@terra.com.br) publicado no ATARDE de Salvador/BA há algumas semanas.
Em destaque:
É importante relermos Pedagogia do Oprimido, aprofundar seus argumentos se realmente desejamos “um mundo em que seja menos difícil amar”.
Segue o artigo na íntegra (grifos meus):
PEDAGOGIA DO OPRIMIDO (Yvete Amaral)
Estávamos em 1965, em plena ditadura militar, quando Paulo Freíre, pensador e educador, lança um livro com o titulo acima, uma obra profética de dimensão socioeducativa. Ela chegou na hora certa. O Brasil precisava ouvir o que se encontrava naquelas páginas, em vista às amarras polítícas e sociais que escravizavam o País, mais concretamente, o povo brasileiro. Pedagogia do Oprimido foi lido e estudado por muita gente interessada em apressar as reformas estruturais exigidas no momento, principalmente em relação à massa explorada das periferias, excluída do mundo do trabalho e da política.
O grande mestre, que aproveitou seus anos de exílío para encontrar a rota para uma sociedade de homens livres, concluiu que dois fantasmas apavoravam muitos conterrâneos nossos, tímidos para promover a justiça: “o medo da liberdade” e “o perigo da conscientização”. Há uma nota na página 34, onde selê: “Este medo da liberdade também se instala nos opressores, mas, obviamente, de maneira diferente. Nos oprimidos, o medo da liberdade é o medo de assumi-Ia. Nos opressores, é o medo de perder a ‘liberdade’ de oprimir”. Intuiu também que a injustiça institucionalizada do nosso sístema era responsável pelas desigualdades que geram revolta, matriz de qualquer manifestação de violência. Também diagnosticou que o projeto libertador deveria atingir simultaneamente opressores e oprimidos, porque aqueles também são vítimas de muitos algozes por eles escolhidos.
Apenas a conscientização da massa pode detonar a espiral da violência, se o opressor não aceita a libertação do oprimido. Entretanto é preciso que a conscientização do oprimido o leve a um diálogo com o opressor que também precisa conhecer a realidade e detectar as raízes das turbulências sociais. Pouco se tem feito para eliminar o abismo criado pela desigualdade cuja superação é “um parto que traz ao mundo este homem novo não mais opressor, não mais oprimido, mas homem libertando-se”. Como a gestação da justiça ainda está em fase embrionária, até hoje o Brasil sofre a violência que se infiltra em toda a sociedade. Daí esta realidade apocalíptica em que estamos inseridos, sem esperança de, em curto prazo, nos livrarmos das ciladas dos assaltantes, das emboscadas dos traficantes, das balas perdidas e de tantas vidas destruídas em todo o Brasil.
Como, através dos capítulos de Paulo Freire, se aprende que alfabetizar é conscientizar, e que o cidadão pouco escolarizado é míope para ler a história sobre a qual deve agir, o humanista sociólogo identificou a educação como o alicerce de todo projeto libertário. Criou um método de alfabetização aceito em outros países e que simultaneamente politizava, despertando o educando para a sua dignidade, seus direitos e seus compromissos com a comunidade. É importante relermos Pedagogia do Oprimido, aprofundar seus argumentos se realmente desejamos “um mundo em que seja menos difícil amar”.
Saramago me ajudando nesta sexta
21, Agosto, 2009 at 9:41 am | In Fotografias e desenhos, Zuniversitas | 1 CommentSaramago já apareceu neste espaço algumas vezes.
Como hoje é sexta, brindo os leitores com essas pérolas dele
e com um diagrama sobre a evolução da mídia digital.


Cuba, o pior lugar do mundo
19, Agosto, 2009 at 9:50 pm | In Midiateca, Zuniversitas | 1 CommentEsta ilhazinha, endeusada por uns, endemoniada por outros, chefiada há meia década pelo Lúcifer, de um povo lutador e sofrido, tem muito a ensinar ao resto do mundo. O vídeo que recebi e que reproduzo aqui, veio com a mensagem abaixo do amigo José Ribamar do Banco Central do Brasil:
Não deixem de assistir este vídeo. Esse sim vêm de fonte segura, não é a mídia manipulada que nos entregam todos os dias. E ainda dizem que nós que somos livres. … Lembram-se do realizador Michael Moore, conhecido em Portugal (sobretudo) pelo seu “‘Fahrenheit 9/11” ? Este pequeno video, em que ele parece acompanhando uma série de norte-americanos numa ida a Cuba, foi proibido na terra da liberdade: EUA.
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