Dia do Professor e o âmago da questão
15/10/2009 às 5:02 | Publicado em Zuniversitas | 11 Comentários
Todo 15 de outubro a comunidade que lida com Educação neste país pára um pouco, ou deveria fazê-lo, para pensar com mais profundidade sobre o tema. Ano passado publiquei um post com o título “Em homenagem ao dia do professor” citando a experiência que tive com Darcy Ribeiro na UnB e uma célebre frase do educador Antônio Vieira Pinto “A prática pedagógica é duplamente contraditória porque ela pressupõe que quem ensina sabe, quando não sabe; e quem aprende não sabe, quando, na verdade, sabe“.
Tenho colocado neste espaço a minha opinião sobre o assunto. Sem querer ser simplista, acredito que tudo passa pela questão econômica. Prioridade para Educação, como muitos (todos) dizem, políticos inclusos, significa mais verbas e sobretudo melhores salários para o principal profissional da área, o professor.
Brindo os leitores com o texto abaixo, de autoria do professor Nelson Pretto, da Universidade Federal da Bahia, vale a reflexão ! Destaco, para reforçar o que coloco acima, o seguinte trecho:
O que precisamos, com urgência, é fortalecer os professores. Com salários dignos, escolas bem construídas, bibliotecas e equipamentos de qualidade, espaço para lazer e estudo, com integração com a comunidade e com a implantação de redes de comunicação e solidariedade.
A nudez explicita do ensino do país
A labuta diária dos professores é algo que praticamente todos acompanham. Não tem aquele que não se lembre de uma vizinha, amigo ou conhecido professor. Os mais velhos que tiveram o privilégio de passar pela escola – e, lamentavelmente, sabemos que em torno de 20% da população do Nordeste assim não o fez, contribuindo para engordar as estatísticas do analfabetismo no país – seguramente tem algum tipo de lembrança de seus mestres.
Outubro é o mês em que celebramos o dia do professor. A cada ano, e em cada lugar, essa comemoração é realizada de maneira diversa, umas mais festivas, outras mais reivindicatórias e, outras ainda, como simples celebração interior, com cada mestre refletindo sobre o seu cotidiano, tão pouco valorizado.
Nós, da Faculdade de Educação da UFBA, cujo trabalho maior é contribuir com a formação dos futuros professores e dos pesquisadores no campo da educação, celebramos o dia do professor cotidianamente em nossas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Este ano, além disso, comemoramos 40 anos de vida. Dura vida também para nós, que lidamos com enormes desafios para manter viva a universidade pública em nosso país, lutando contra os processos de privatização – externa e interna – que vão solapando as bases da educação, em todo o mundo. Educação que vai se tornando mercadoria, portanto, objeto de compra e venda. Educação que deixa de ser um patrimônio público, um bem da humanidade, para se tornar um mero serviço. Nesse negócio, estudantes passam a ser clientes e professores lutam cotidianamente para garantir a sua dignidade. Sem tempo para o estudo, sem tempo para o lazer, com dificuldades de todas as ordens, os trabalhadores da educação vivem tormentosas angústias. Acrescente-se a isso o fato de que a vida do professor passa a ser controlada em todos os sentidos, agora também pelas câmaras nas escolas e nos celulares dos alunos. Controle dentro da escola e fora, como foi o caso da professora que dançou numa folia de fim de semana, mostrando suas qualidades de dançarina e terminou crucificada publicamente. Entretanto, pouco se comentou acerca da qualidade do seu trabalho de professora; nada se falou da mídia que, com total naturalidade, expõe as mulheres como mercadorias, no carnaval, nas festas e em seus programas dominicais, em danças e posturas muito próximas àquelas da professora na sua folia. E isso, desembocou num segundo ato: a tal professora deixou o magistério, passou a dançar profissionalmente e, dizem, ganha por apresentação, mais do que 30 vezes o salário mensal de mais de 50% dos professores do Nordeste brasileiro, conforme recente estudo da UNESCO.
Em São Paulo, professores da rede estadual também pensam em botar o corpo de fora, só que agora não numa festa, mas na rua, num protesto denominado de “dia do nu pedagógico”, para mostrar a nudez do governo em relação à educação.
Fatos como esses alimentam o cotidiano dos 40 anos de vida da Faculdade de Educação/UFBA. Aqui, para formar os professores, lutamos diariamente para desnudar as teorias pedagógicas e, num esforço muito grande, tentar mostrar aos nossos alunos que a formação profissional de um mestre vai muito além dessas importantes teorias. Exige uma formação ética e solidária que não se resume às aulas, provas ou trabalhos. Demanda um pensar mais amplo, que lhes possibilitem, de fato, compreender o mundo com todos esses desafios e dele participar de forma ativa, na busca de transformá-lo. Com os nossos alunos temos que aprender o jeito ativista de ser da juventude, que não se conforma e não se acomoda. Uma juventude que muitas vezes é empurrada para fora da escola, por absoluta falta de compreensão das políticas públicas e, lamentavelmente, de muitos mestres. Por isso, insisto que não se trata só de organizar a escola e o sistema. O que precisamos, com urgência, é fortalecer os professores. Com salários dignos, escolas bem construídas, bibliotecas e equipamentos de qualidade, espaço para lazer e estudo, com integração com a comunidade e com a implantação de redes de comunicação e solidariedade. Tudo isso é importante, mas nada se concretizará se não tivermos professores fortalecidos enquanto lideranças intelectuais e acadêmicas.
Nelson Pretto (professor da Faculdade de Educação da UFBA)
11 Comentários »
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Meu irmão, me orgulho muito de vc, principalmente por ser professor. Não existe país de primeiro mundo sem educação, enquanto o Brasil manter a atual política, pode inventar pré-sal, continuaremos a ser um simples país de terceiro mundo, onde a manipulação popular é a melhor forma de se perpetuar no poder.
Comment by materiasjuridicas— 15/10/2009 #
Enviado por Matuzalém, também professor:
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Sou Professor
Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo. Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importa o quê. Não posso ser professor a favor simplesmente do Homem ou da Humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante com a concretude da prática educativa.
Sou professor a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, a autoridade contra a licenciosidade, da democracia contra ditadura de direita ou de esquerda. Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais. Sou professor contra a ordem capitalista vigente que inventou essa aberração: A miséria na fartura.
Sou professor a favor da esperança que me ensina apesar de tudo. Sou professor contra o desengano que me consome e imobiliza.
Sou professor a favor da boniteza de minha própria prática, boniteza que dela some se não cuido de saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste.
Paulo Freire
Comment by Zé Rosa— 15/10/2009 #
[...] mas vale a pena ver este vídeo.Vídeo genial, enviado pelo amigo e Mestre Tom Zé, originado do Professor Nelson Preto, ambos assíduos freqüentadores deste blog, o primeiro conscientemente, o segundo nem [...]
Pingback por Kseniya Simonova – talento e genialidade « ZÉducando— 17/11/2009 #
[...] Amabília Almeida 12, abril, 2010 at 11:22 am | In Artigos e textos, Zuniversitas | Leave a Comment Por que será que esta senhora com 80 anos não aparenta a idade que tem ? Porque ela abraçou uma causa e uma paixão, a EDUCAÇÃO. Compartilho com meus leitores a entrevista abaixo que esta professora baiana, ex-vereadora e ex-deputada, nos brindou ontem no caderno MUITO do ATARDE de Salvador/BA. Ela em si já merecia sair aqui neste blog, mas tem um ponto que ela aborda e luta, a valorização do Professor, que é fundamental e em várias outras oportunidades coloquei em discussão aqui (vide: DIA DO PROFESSOR E O ÂMAGO DA QUESTÃO). [...]
Pingback por Amabília Almeida « ZÉducando— 12/04/2010 #
[...] charges, algumas citações famosas, várias reflexões no ZÉducando, inclusive uma sobre o âmago da questão, notícias sobre manifestações dos próprios professores em prol da [...]
Pingback por O Dia dos Professores em jlcarneiro.com— 18/03/2011 #
[...] 15/10/2009, em homenagem ao Dia do Professor, fiz um post com o título “Dia do Professor e o âmago da questão”. Esse vídeo é um [...]
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[...] abaixo um texto do amigo Walber para reflexão. Afinal, hoje é o DIA DO PROFESSOR [...]
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[...] na última parte do tópico DAR AULAS POR ÚLTIMO e vem ao encontro do que esvrevi no post “Dia do Professor e o âmago da questão” [...]
Pingback por Professor por acaso « ZÉducando— 13/12/2011 #
[...] esse excelente programa, com uma entrevista de Nelson Pretto, educador da UFBA. E veja, ele toca no âmago da questão da Educação ! Programa Aprovado Gostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso [...]
Pingback por Programa Aprovado, TV Bahia « ZÉducando— 14/01/2012 #
[...] excelente programa, com uma entrevista de Nelson Pretto, educador da UFBA. E vejam, ele toca no âmago da questão da Educação ! Programa Aprovado Bloco [...]
Pingback por Programa Aprovado, da Bahia, para o mundo ! « ZÉducando— 14/01/2012 #
[...] mancha por sinal no curriculum dele): “inversão da dinâmica desejável” ? desde os tempos de Antônio Vieira que se sabe que o processo ‘ensino-aprendizagem’ é via de mão dupla (“A prática [...]
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