Insetos em volta da lâmpada
29/03/2010 às 5:16 | Publicado em Artigos e textos | 4 ComentáriosAndo ultimamente de saco cheio com a nossa mídia de tantos BBBs e tragédias sensacionalistas. Tanto que os leitores deste espaço devem ter notado que não comentei nada sobre este último BBB (não sei nem qual é o número) nem sobre a tragédia de nome estrangeiro – Nardoni. Mas lendo o que a Malu Fontes escreveu ontem no ATARDE de Salvador/BA não posso deixar de postar aqui o artigo. A questão da ‘peruca’ é definitiva: nossos conterrâneos que se deixam escravizar pela mídia e que se comportam como mariposas em volta de uma lâmpada ao ver a mínima possibilidade de aparecer precisam aprender muito, ler e refletir muito para que se eduquem e desenvolvam valores éticos para começar a ser chamado de povo. Tenho sofrido muito com o totalitarismo da mídia e seus temas chamativos (mel para o ‘povo’ inseto). Nessas horas gostaria de estar em Marte, o planeta sugerido pela Malu logo abaixo.
INSETOS EM VOLTA DA LÂMPADA (Malu Fontes, ATARDE, 28/03/2010)
A televisão pastichiza tudo. E, nesse processo, encontra o melhor dos mundos e dos cenários, pois o telespectador médio vive com a retina na mão em frente à tela, implorando para ser seduzido por um pastiche qualquer, não deixando nenhum deles escapar nem tampouco permanecer. A cada semana o objeto de sedução muda. Nos últimos dias, as atenções televisivas foram bipolarizadas entre dois temas que, embora não digam respeito, nenhum deles, diretamente à vida de ninguém, tornaram-se onipresentes e pularam para o lado de fora da tela, passando antes por todos os sites, por toda a blogostera, as redes de relacionamento on line, as capas de jornais e revistas e até pelos muros.
Somente quem estava em Marte, e lá continua, não leu, viu ou ouviu uma frase, uma imagem que seja, uma cena ou, mais provável, não viu nas ruas, em casa ou no trabalho um debate acalorado de pessoas próximas ou desconhecidas sobre os dois temas renitentes agendados no grau máximo pela televisão durante a semana: o julgamento do casal Nardoni e o paredão duplo BBB entre a ex-policial militar Anamara e a dançarina de boate Lia.
Fala-se da apatia, da desmobilização, da falta de interesse do povo brasileiro em participar das discussões nacionais, mas a Globo anuncia garbosa que mais 90 milhões de votos foram’ computados no tal paredão. Desmobilização sim, mas para quê?
Jeca Tatu
A tese da falta de mobilização do brasileiro caía por terra de novo quando se via o show popular armado desde segunda-feira em torno do Fórum de Santana, em São Paulo, durante o julgamento do casal Nardoni. Centenas de pessoas, dos mais diversos pontos da cidade e do estado de São Paulo, e até mesmo de outros estados, largaram suas casas, rotinas, famílias e trabalho para aboletar-se diuturnamente nas cercanias do Fórum.
Via-se na TV, jornais e internet dezenas de crianças muito pequenas organizadas em caravanas por pais fortemente imbuídos do espírito de justiça, dizem, ao ponto de confeccionar cartazes coloridinhos e fofos, com fotos e frases de efeito adocicadas para serem empunhados pelos rebentos, num ritual apropriadíssimo para uma criança.
Ao lado, à frente e atrás do batalhão dos profissionais de comunicação, havia no local crianças, donas de casa, mães, velhos, estudantes, desempregados e até um homem auto-crucificado, numa cruz imensa de madeira. Um desernpregado de Ibiúna traduziu o circo com um argumento que nem Jeca Tatu produziria melhor, com sotaque e tudo, veiculado no adocicado e domesticado Jornal Hoje: “ah, eu vim ver porque lá onde eu moro não tem essas coisa de morte, não. Lá só tem passarim e árvore”‘.
Bonzinho
Mas, mesmo diante de falas como a do rapaz de Ibiúna, as vozes autorizadas pelo saber constituído preferem autoenganar-se ou estão por demais adestradas a dizer para a TV exatamente aquilo que o veículo quer ouvir como resposta arrumadinha. Questionados sobre tamanho clamor popular no local do julgamento, psiquiatras, psicólogos e juristas tinham na ponta da língua uma resposta tão falsa quanto desconectada da verdade.
Todas essas vozes quando instadas a dar seu veredicto sobre a motivação popular para ir ao local do julgamento, afirmavam, com pequenas variações, que as pessoas estavam ali porque o povo brasileiro tem sede defazer justiça, está cansado de impunidade e é um povo solidário, que gosta de demonstrar apoio às pessoas cujos dramas são identificados como podendo ser seus. Quem dera esse povo idealizado existisse de fato assim tão bonzinho e mobilizável com a dor dos outros.
Peruca
A explicação é outra: a turba que não se contenta em ver a cobertura ininterrupta pela TV, pelo rádio, na internet e na mídia impressa sai de casa com suas caravanas de criancinhas coloridas, com sua cruz de madeira medonha e com seu desejo de trocar o tédio de uma paisagem de passarinhos por aquele pedaço de rua por um único detalhe: ali existem câmeras, microfones e jornalistas de todos os meios de comunicação importantes no País. Durante a semana, aquele local conectava-se com o mundo e é nesse fluxo que essas pessoas querem estar, numa sede insana de sair do anonimato, de ter platéia.
Um aloprado invadiu a tela da Globo durante uma entrada ao vivo de César Tralli, no Jornal Nacional de terça-feira, posicionando-se atrás deste e arrancando uma peruca, Que solidariedade ou clamor contra a impunidade nada … O que move as pessoas a se comportarem diante das câmeras e objetivas como insetos diante da luz é tão somente o prazer de saber-se podendo arrancar uma peruca para um País inteiro ver.
4 Comentários »
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Entradas e comentários feeds.

A ironia das votações no Brasil…
É surreal como o povo brasileiro investe tempo e dinheiro em coisas como o Big Brother Brasil. Uma atração irracional pela mídia e pela fama instantânea duramente criticada no texto de Malu Fontes publicado no Zéducando. Esse comportamento é tão absurd…
Trackback por jlcarneiro.com— 31/03/2010 #
as pessoas numa necessidade de não enfrentar a suas realidades, de enfrentar seus próprios problemas, acabam por atuar na vida dos outros para preencher o vazio em que elas mesmos se colocam pela inércia. Assim elas tem uma pseudo-vida, pseudo soluções. Se cada um pusesse cuidar da sua, naturalmente se encontrariam no coletivo, através das urnas, para solucionar problemas comuns, para atingir aspirações comuns. Tomara que a gente não precise ir para marte!
Comment by sandra— 02/04/2010 #
Cara Sandra,
Concordo com você e lembro que este ano é ano eleitoral.
Torçamos pois que os nossos conterrâneos deste imenso Brasil/Pindorama/Belíndia saibam votar, contrariando algumas personalidades que insistem em dizer que o povo brasileiro não sabe votar.
um abraço.
Comment by Jose Rosa— 02/04/2010 #
[...] Seguro bala-perdida ? Seguro funetal ? Será o fim do mundo ? Vejam este texto de ontem da Malu Fontes, colaboradora indireta deste blog. YES, YOU CAN [...]
Pingback por So, don’ t worry. Yes, you can ! « ZÉducando— 03/05/2010 #