A origem do forró (ou do forrobodó)

22/06/2011 às 11:46 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 7 Comentários

Em tempos forrozísticos, segue abaixo um artigo sobre a origem da festa-dança mais popular do Nordeste brasileiro.


Nota para a História do forró (Francisco José Alves – 13/06/2011)

No português corrente, forró tem duplo significado. De um lado é,  conforme um dicionário, “festa popular”, ou, com algum laivo de  preconceito, “baile reles”. Do outro, o vocábulo remete a um conjunto de gêneros musicais: coco, baião, xote, etc. Na acepção de baile, forró  tem muitos sinônimos populares: bate-chinela, bate-coxa, rala-bucho,  arrastapé e aria a fivela, etc. Como se vê, baile e gênero musical  circunscrevem o campo de significados do termo popular.

Parece  assente, entre os estudiosos do vocabulário português, que o termo forró é mera corruptela de forrobodó. Na gíria técnica dos peritos, o  vocábulo sofreu uma apócope, ou seja, a supressão ao final de um fonema  ou silaba. Não é fato incomum, na história da língua. Assim, por  exemplo, o latim mare tornou-se, na língua portuguesa, mar. Por outro  lado, a explicação de que forró é derivado da expressão inglesa for all (para todos), introduzida durante a 2ª Guerra Mundial  (1939-1945), parece mais um caso da chamada etimologia folclórica,  explicações fantasiosas da origem das palavras, pois, como veremos, há  registro do termo desde 1905.

De forrobodó, como festa, temos  registros desde o século XIX. Vejamos alguns dados históricos sobre o  termo e o fenômeno em apreço.

Um dos registros mais recuados do  vocábulo forrobodó vem de 1833, conforme Luís da Câmara Cascudo  (1898-1986). O jornal carioca o Mefistófeles traz em seu número 15: “O  ator Guilherme na noite do seu forrobodó”. A nota é por demais concisa,  impossibilitando-nos descortinar o significado do termo no contexto  aludido. Para a pesquisadora Edinha Dinis, a nota carioca alude a uma  forma de teatro popular à época. Reforçando a hipótese da pesquisadora,  há uma nota na revista América Ilustrada, de 1882: “Um arremedo de  folhetim, cheirando a forrobodó”.

Muito provavelmente é em 1883 e 1884 que forrobodó recebe o seu primeiro registro em dicionários da língua portuguesa. Naqueles anos, o estudioso Henrique Pedro Carlos de Beaurepaire-Rohan (1811-1899)  publica, na Gazeta Literária, o seu Glossário de Vocábulos Brasileiros  que se tornaria livro, em 1889, com o título de Dicionário de Vocábulos  Brasileiros. É uma espécie de oficialização do termo, inserindo-se no  monumento da língua, o dicionário. Dez anos após, em 1899, forrobodó  volta a figurar noutro dicionário da língua portuguesa. Desta feita, é o dicionarista Antônio Cândido de Figueiredo (1846-1925) que documenta o  termo no famoso Novo Dicionário da Língua Portuguesa. O vocábulo difuso  entra definitivamente na nossa língua. O estudioso registra: “Forrobodó – baile reles”.

O incontornável Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) nos oferece ainda alguns dados sobre o forrobodó nas décadas iniciais  do século XX. O mestre potiguar encontrou registros do termo em jornais  cariocas de 1905 e 1913. A nota de 1913 chega a descrever o forrobodó  daquela época. Menciona os instrumentos musicais: violão, sanfona,  reco-reco; a origem social de seus participantes: “a ralé”. É, ainda, em 1913 que o termo forró é dicionarizado pela primeira vez, conforme o  Houaiss. O fato ocorre na segunda edição do Novo Dicionário da Língua  Portuguesa de autoria de Antônio Cândido de Figueiredo (1846-1925).

Para os anos de 1930, temos o registro do sergipano Laudelino Freire  (1873-1937). O dicionário do autor documenta tanto forró quanto  forrobodó. Forró, no entender do perito, é “baile de gente ordinária”. Já forrobodó vem com três acepções: baile reles; pagodeira; confusão ou  desordem.

Alguns dicionários da língua portuguesa publicados no  início do século XX documentam forrobodó como sinônimo de baile popular. É o caso de A Gíria Portuguesa, de Antônio Alberto Lessa, publicado em 1901. Para o autor lusitano, o termo é um brasileirismo e significa baile ordinário e sem etiqueta. É o avesso do sarau das elites da época. Doze anos após  Alberto Lessa, temos o registro do pernambucano Francisco A. Pereira da  Costa (1851-1923). Em 1917, o autor documenta forrobodó como baile  popular. Idêntico registro temos em A Gíria do Norte, de José Rodrigues  de Carvalho (1867-1935), editado em 1918.

Um outro registro que  documenta as formas forrobodó e forró data de 1905. Trata-se de um  levantamento vocabular do falar da Amazônia feito pelo escritor Vicente  Chermont de Miranda (1850-1907). O estudioso anota: “forrobodó ou  simplesmente forró, substantivo masculino – baile da ralé”.

O  documento amazônico, penso eu, assinala dois fatos significativos. Em  primeiro lugar a extensão geográfica do termo e do fato social. À época o vocábulo não circula somente no Sudeste ou Nordeste. Tem uso difuso. Um segundo aspecto, é  que o autor comprova a origem de forró no velho forrobodó. Em seu  entender, forró é mera forma simplificada de forrobodó. A forma é  diferenciada, mas o sentido continua o mesmo: “baile da ralé”. A  semântica foi conservada.

A dicionarização de forró, em 1913, me  parece, não significou a completa substituição do velho forrobodó. Sobre isto, temos o testemunho precioso do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953). Em São Bernardo, romance editado em 1934, e cujo enredo é  ambientado na zona rural alagoana, o romancista utiliza o termo  forrobodó para nomear baile popular. O protagonista narrador relata: “À  noite, enquanto a negrada sambava num forrobodó empestado …”. Ainda  hoje, forró e forrobodó têm registros nos nossos dicionários. Todavia,  entre os nordestinos o primeiro termo parece ser de uso mais freqüente.

No dicionário de Francisco Júlio Caldas Aulete (1823-1881), na edição de 1958, forró é  definido como sinônimo de “arrastapé”. Ele registra explicitamente: “Forró- forma abreviada de forrobodó”. Quanto a forrobodó temos: “festança, arrastapé animado com bebidas e comezinhas, farra, confusão,  desordem, festa ruidosa e ainda uma espécie de pão doce”.

Os  documentos aqui arrolados apontam para algumas conclusões. A origem  imediata de forró é forrobodó, e não for all. Por outro lado, forról não tem procedência exclusivamente nordestina, pois, como vimos, há  registro do termo noutras regiões do Brasil. Ao longo do tempo, todavia, o forró conservou o seu feitio popular, muito embora tenha sido, nos  últimos tempos, assimilado pela classe média urbana, como indicia o  surgimento do chamado forró universitário.

Publicado no Jornal da Cidade, Aracaju, 24 e 25 de Junho de 2007. Caderno B, p. 9.

Currículo
Doutor em História e professor do Departamento de História da UFS.
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7 Comentários »

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  1. [...] Parece  assente, entre os estudiosos do vocabulário português, que o termo forró é mera corruptela de forrobodó. Na gíria técnica dos peritos, o  vocábulo sofreu uma apócope, ou seja, a supressão ao final de um fonema  ou silaba. Não é fato incomum, na história da língua. Assim, por  exemplo, o latim mare tornou-se, na língua portuguesa, mar. Por outro  lado, a explicação de que forró é derivado da expressão inglesa for all (para todos), introduzida durante a 2ª Guerra Mundial  (1939-1945), parece mais um caso da chamada etimologia folclórica,  explicações fantasiosas da origem das palavras, pois, como veremos, há  registro do termo desde 1905. Lá no Zéducando [...]

  2. Se você quer dançar forró no Rio de Janeiro e não sabe aonde, aqui está uma Agenda Semanal, para você não deixar de forrozear porque não sabe aonde ir.

    http://www.inteliportal.com.br/prog/Agenda-Forro.aspx

  3. Muito boa a publicação

  4. Uma dica para se divertir muuuito no sao joao eh caruaru ou gravata em pernambuco!!! La tem muito forro e gente bonita em todos os lados!! Bjos! *-*

  5. nossa

  6. nao entendi nada

  7. Em Portugal, a origem da palavra vem das míticas festas que se davam no Palácio do Conde do Farrobo em Lisboa, algures no século XIX.


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