Saudade do Ted Boy Marino

26/01/2012 às 12:50 | Publicado em Artigos e textos | 3 Comentários
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Palhaçada por palhaçada era bem melhor a dos tempos de Ted Boy Marino X Homem Montanha que as lutas do UFC de hoje, como bem disse o Veríssimo nessa crônica, publicada em vários jornais do país hoje. E é como eu sempre digo, para mim UFC é Universidade Federal do Ceará, onde eu pisei pela primeira vez na Universidade, lá para os idos de 1979. A conclusão dele (Veríssimo) é quase igual à minha, ele acha que empobrecemos, eu tenho certeza !


Saudade do Ted Boy Marino (Veríssimo)

Alguma coisa aconteceu no coração do Brasil quando acabaram com as lutas de “catch”. Elas eram um sucesso na TV e seus astros viajavam em caravanas pelo País, apresentando-se em ginásios e circos. As lutas não eram lutas, eram teatro. Não eram exatamente combinadas, mas seguiam um roteiro estabelecido e havia um acordo tácito de que ninguém sairia do ringue machucado, mesmo que saísse arremessado.

O roteiro básico não variava: era os bons contra os maus, e os bons sempre ganhavam. Ou só perdiam quando o adversário traiçoeiro recorria a um golpe especialmente baixo, sob uivos de raiva da plateia. E a reação da plateia fazia parte do teatro.

Havia uma suspensão voluntária de descrença, e todos torciam pelo Bem contra o Mal – ou pelo bonito contra o feio, o esbelto contra a barrigudo, o correto contra o falso – com um fervor que não excluía a consciência de que era tudo encenação.

Era fácil distinguir os bons e os maus. Os bons eram atletas como o Ted Boy Marino, caráter tão irretocável quanto os seus cabelos loiros, que lutava limpo. Os maus tinham nomes como Verdugo e Rasputin, e comportamento correspondente ao nome.

Lembro de um Homem Montanha, que mais de uma vez derrubou o juiz junto com o adversário. E não havia um Tigre Paraguaio? Os bons geralmente começavam apanhando e, quando parecia que estavam liquidados e que o Mal triunfaria, vinha a eletrizante reação, durante a qual o inimigo pagava por todas as suas maldades.

Humilhação e vingança, nada na história do teatro é tão antigo e tão eficaz. Nove entre dez novelas de televisão têm o mesmo enredo.

Não sei se ainda fazem espetáculos de “catch” pelo interior do País. Hoje na TV o que se vê é o “ultimate fighting”, ou “mixed marital arts”, dois lutadores simbolizando nada trocando socos e pontapés sem simulação, quando não se engalfinham no chão como um bicho de duas costas e oito patas em convulsão.

Nessas lutas não vale, exatamente, tudo – parece que esgoelar o outro e xingar a mãe não pode. Mas é o “catch” despido da fantasia, com sangue de verdade.

Não há mais mocinho e vilão, apenas duas máquinas de brigar, brigando. Nem Ted Boy Marino nem Homem Montanha, apenas a violência em estado puro. Sei não, acho que empobrecemos.

3 Comentários »

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  1. Muito bom texto, saudoso na medida certa. E a reflexão proposta é verdadeira, além de abranger muito mais do que o exemplo passado: as coisas (atrações, produtos, serviços, etc.) estão ficando mais modernas mas estão perdendo o significado.

    Triste…

  2. Estamos realmente empobrecendo.Naquele tempo não havia maldade e era tudo um teatro; era tudo lúdico. O catch era um programa que agradava a gregos e troianos.Até as avós torciam na hora do telecatch.
    Na década de oitenta,cheguei a ver o saudoso lutador Mongol,na R. da Carioca no Centro do Rio,onde trabalhava de vigia.O lutador Mongol chamava a atenção das crianças pela careca e pela barba grande.
    Naquele tempo,em que eu via televisão na casa do vizinho,o catch não passava de brincadeira cheia de criatividade ,que,por sua vez,não enriquecia os lutadores agonistas,antagonistas e protagonistas.
    Ao ler o texto senti saudade do tempo em que se via televisão em preto e branco,mas cheia de inocência.

  3. Walber, lembra do Lilico, humorista já falecido ?
    “Tempo bom, lê lê, não volta mais…”
    abs,
    José Rosa.


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