Baía de todos os milagres

30/01/2012 às 3:22 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Aninha Franco, nos brindando a todos, baianos legítimos, importados como eu, ou simplesmente simpatizantes, com esta bela refelxão. Não seria a boa terra da Bahia de Todos os Santos um refelxo do próprio Brasil ?


BAÍA DE TODOS OS MILAGRES (Aninha Franco, A TARDE, 2901/2012) AninhaFranco

Salvador parece invadida pelo desejo coletivo de uma vida mais digna. Centro político e fi-
nanceiro da colônia, de 1549 a 1763, quando a capital do Reino Unido mudou-se para o Rio, a Baía continua, ainda agora, repleta de hábitos coloniais. Todos os seus habitantes, com raríssimas exceções, sempre noticiarão um fato com o aviso anterior de “não diga a ninguém que fui eu quem disse”. Assim, as notícias baianas não têm autores. São parte da criação hipotética do Correio Nagô.

Sem individualismo responsável, o coletivismo inexiste, daí que o baiano concorre com
outro baiano com selvageria e gasta dez mil réis para que seu semelhante, que deveria ser aliado, não ganhe cinco. Esse comportamento, detectado pelo governador Mangabeira (1886-1960) no século 20, é praticado hoje com a ferocidade de sempre. A sociedade baiana fragiliza-se também porque seus indivíduos raramente nascem. Eles estreiam em todas as áreas.

Pedreiros, eletricistas, chefes de cozinha surgem numa manhã e, numa semana, são alçados a gênios. Baianos há com sete profissões. João Henrique tornou-se alcaide da Baía por
oito anos, depois de requerer liminares contra o horário de verão e o pagamento de estacionamento em shoppings. Por isso, talvez, nenhum baiano confie em outro baiano, a não ser com um aval forasteiro avalizando sua competência. Confiamos tão pouco em nós mesmos que nosso governador é carioca e o prefeito, feirense.

Acostumados aos milagres desde 1549, aos santos que choravam lágrimas de sangue,
às súplicas em procissões pela chuva, pelo estio, pelo amor, pelo castigo aos inimigos, sacri-
ficando em festas religiosas, dia e noite, os baianos acreditam pouco na própria humanidade. E menos ainda em si mesmos. A aversão apaixonada dos baianos pela Bahia é catártica, vide Gregório de Maltos (1633-1696) e Waly Salomão (1943- 1990), poetas do amor com ódio. Se controlarmos esses empecilhos ao coletivismo, poderemos lutar em defesa dos acarajés de Regina e Cira, da rabada de Alaíde, do peixe frito de Tia Maria, da natureza, que não nos custa nada, todos em perigo, razões mais que suficientes para nossa união.

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