Ecos do Carnaval I (Agora era cinzas)

24/02/2012 às 7:50 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Veríssimo, nessa crônica de ‘quinta-feira-de-cinzas’ confessa que se atrasou e que a quarta-feira de cinzas já era, o mundo mudou e o Carnaval idem. Eu, com os ares dessa boa Terra da Bahia de Todos os Santos, também me atrasei e só publico o texto hoje, sexta. Mas com ou sem atraso vale a pena a leitura (e é dele mesmo, li no papel !)


Agora era cinzas  

Quando ainda se escrevia crônicas de carnaval, as da Quarta-feira de Cinzas eram as mais comuns. Tratavam de ressaca e remorso, de fim da folga e volta ao trabalho, e de todas as possibilidades dramáticas ou patéticas de um carro alegórico abandonado e um falso marquês estirado na sarjeta. Havia até uma subcategoria de crônica de Quarta-feira de Cinzas, a crônica da volta do marido para casa. Do reencontro, às vezes catastrófico, do brasileiro com a realidade na forma da Adalgisa esperando no portão, e não aceitando desculpas.

Quarta-feira de Cinzas era uma coisa muito brasileira. Como ninguém tinha um carnaval parecido com o nosso, ninguém tinha um pós-carnaval tão triste. Uma queda de tanta altura. Mas o curioso é que quanto maior e mais coisa inédita brasileira fica o carnaval, mais o nosso pós-carnaval perde suas características – e seu valor literário. Hoje a figura típica do pós-carnaval não é mais o folião deixando sua fantasia no caminho na volta ao seu duro cotidiano, é o finlandês embarcando no avião e levando sua fantasia para mostrar em casa. E não tem mais Adalgisa esperando no portão. O marido que volta teve o mesmo destino de outros personagens clássicos: foi engolido pelo tempo e pela irrelevância. Ele não sai mais de casa no sábado e só reaparece na quarta-feira vestindo um cuecão e dizendo que foi sequestrado por sugadoras alienígenas, o que explica os chupões no pescoço. Isso é coisa do tempo antigo. De outros pós-carnavais.

Razão têm os baianos, que acabaram com o pós-carnaval. Lá chamam a Quarta-feira de Cinzas de “Recomeço”, e emendam. E como gênero literário as crônicas da Quarta-feira de Cinzas também perderam toda a legitimidade. Viraram anacrônicas. Como esta, que ainda por cima está saindo na quinta.

Silêncio. Estou escrevendo sem saber o resultado da votação para as escolas do Rio. Fiquei impressionado com a Salgueiro, mas estou sempre predisposto a ficar impressionado com o Salgueiro. Mas desconfio que este ficará na história como o carnaval da parada da bateria da Mangueira. Quer dizer, a coisa mais memorável do carnaval de 2012 será o silêncio.

1 Comentário »

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  1. Os textos de Veríssimo são sempre muito bons! É incrível como o povo ainda tenta imitá-lo, sem sucesso.

    Este texto, por exemplo, apesar de curto é a cara dele: leve apesar de direto, direto apesar de imprevisível.

    A conclusão, então, é impagável: [...] como gênero literário, as crônicas da Quarta-feira de Cinzas [...] viraram anacrônicas. Quer dizer, a coisa mais memorável do carnaval de 2012 será o silêncio.

    Muito bom!


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