A água do lago perdeu a serenidade

7, Novembro, 2009 at 7:19 am | In Artigos e textos, Zuniversitas | 4 Comments

Do blog do Azenha e enviado por um grande amigo, também professor, José Lourenço da Rocha, midia_convencional compartilho com os leitores este artigo muito interessante porque aborda as transformações que vem sofrendo a mídia nos dias atuais.

Tudo começou com ele, Lulinha, quando disse que “a figura do chamado formador de opinião pública, que antes decidia as coisas nesse país, já não decide mais “. E aí, é claro, parte da imprensa, pretensa formadora de opinião num mundo interligado cada vez mais pelas novas mídias, caiu de pau mais uma vez. Apenas no Brasil temos mais de um terço da população acessando a Internet, o mundo mudou, mudamos também nós, só quem não muda é parte da imprensa.

Em destaque algumas perguntas colocadas ao final do artigo, muito bem escrito:

  • Alguém, além dos senadores do DEM ou do PSDB, leva a Veja e seus colunistas a sério?
  • Qual a importância das “análises” de Miriam Leitão ou de Lúcia Hipolyto, inimigas da lógica e divorciadas da realidade.
  • Arnaldo Jabor, macaqueando asneiras na tela da TV influencia algo além do discurso do Agripino Maia para um plenário vazio?
  • Ou o formador de opinião é o Willian Bonner, interpretando uma expressão indignada após exibir mais uma reportagem  com discurso do presidente Lula.
  • Dora Kramer e Eliane Catanhede, quando muito, incomodam suas manicures com seus discursos.

Generosidade no dia de Finados (por Jefferson Melo, jornalista)

“E aí vocês vão compreender porque a figura do chamado formador de opinião pública, que antes decidia as coisas nesse país, já não decide mais”. A aguda simplicidade da frase do presidente Lula, dirigida aos jornalistas que cobriam um evento em São Paulo, guarda uma verdade complexa e diz respeito à série de mudanças que atingem e redefinem, numa velocidade espantosa, o modo como se opera a comunicação social nesse início de século.
A constatação que os ditos formadores de opinião perderam importância mexeu com os brios da “mídia” brasileira, principalmente por expor um fato amplamente comprovado. Os “formadores de opinião” alcançaram alguma importância no início da década de 90, mas hoje, quase 20 anos depois, se tornaram irrelevantes. O próprio presidente Lula e sua popularidade estratosférica são o melhor exemplo da verdade contida no enunciado.
Assim como estabilizou sua aprovação popular na casa dos 80%, o presidente alcançou a unanimidade entre os articulistas, editorialistas, colunistas, comentaristas, pauteiros e até entre editores e repórteres da chamada grande imprensa. Quase todos, diariamente, se dedicam a atacar, distorcer e criticar negativamente todos os atos e ações do governo. E quando isso não é possível, a solução recorrente é a omissão dos fatos. E, mesmo assim, não se altera a percepção dos brasileiros.
A estratégia das empresas de comunicação brasileiras é adotada no momento em que o acesso à internet se expande e se consolida no país. Nesse meio, um turbilhão de informações está disponível ao cidadão, que pode ter acesso à fonte primária da notícia, além de opiniões distintas e variadas sobre qualquer tema de interesse. Gratuitamente. Os jornais, ao contrário, editorializaram a notícia e eliminaram a diversidade de opinião. Nos veículos brasileiros, independente de quem assina, o conteúdo pertence à mesma matriz ideológica. Uma ladainha monótona, com conclusão previamente conhecida. Não comporta análises, nem reflexões. É dispensável.
A última pesquisa Ibope Nilesen On Line mostra que 64,8 milhões de brasileiros já acessam a internet. Concomitantemente, o país registra a maior mobilidade social de sua história, com mais de 30 milhões ingressando na classe média. Gente que passou a consumir bens e produtos, entre os quais, a informação. E não é informação de jornal, porque estes registram retrações históricas de vendas, chegam aos números de  tiragens de jornal de bairro. Também não é a informação veiculada nos velhos telejornais, que perdem o monopólio da audiência.
A lenda em torno do poder dos formadores de opinião ganhou corpo na década de 90, quando ainda vigorava a chamada “teoria da pedra no lago”, que recorria à imagem para comprovar que uma opinião emitida por determinada pessoa ou veículo se difundia através de ondas concêntricas para atingir parcela significativa da população. Com os blogs, sites, portais, páginas de relacionamentos, grupos sociais pendurados na internet, a água do lago perdeu a serenidade.
Receptores se transformaram em emissores. O lago é apedrejado diuturnamente. É uma babel onde o editorial, artigo ou reportagem da última edição faz tanta onda quanto a postagem de alguns blogueiros. Com a força que a crítica da mídia ganhou na internet, opiniões ou notícias publicadas pelos veículos tradicionais alcançam alguma relevância quando são alvos da desconstrução por parte dos blogs dedicados ao tema. Esse processo, estimulado pela falta de compromisso com a verdade por parte de quem noticia, mina o maior patrimônio de um veículo de comunicação: a credibilidade.
A internet produziu outro fenômeno, que é a difusão da informação de maneira colaborativa. Determinado assunto é debatido por diversas pessoas, que oferecem detalhes, novidades, opiniões e abordagens distintas sobre a questão em pauta. Tece-se uma rede ou uma corrente de opinião, cujos elos são mais fortes e perenes que ondinhas no lago. São recorrentes os exemplos em que os navegantes interferiram no rumo dos veículos ou no curso da história.
Casos como a farsa em torno dos atentados de Madri, em 2004, cuja versão que atribuía a autoria ao ETA para favorecer a eleição de Jose Maria Asnar foi desmentida. E também a coleção de pseudo-fatos gerados pela Folha de São Paulo, que incluem a tentativa de amenizar a ditadura militar no Brasil, classificando-a como “ditabranda”, neologismo do ditador Pinochet; o spam com a ficha fajuta da ministra Dilma Rousseff; ou o mexerico sobre “agilizar” processos na Receita Federal. Todos provocaram correntes de protestos e também de chacotas  tendo como alvo o próprio jornal.
Uma rápida observação na escalação do time dos formadores de opinião brasileiros endossa a observação do presidente. O grupo se reduz a figurinhas carentes de credibilidade e adestradas para repetir um discursinho ultrapassado. Alguém, além dos senadores do DEM ou do PSDB, leva a Veja e seus colunistas a sério? Qual a importância das “análises” de Miriam Leitão ou de Lúcia Hipolyto, inimigas da lógica e divorciadas da realidade. Arnaldo Jabor, macaqueando asneiras na tela da TV influencia algo além do discurso do Agripino Maia para um plenário vazio? Ou o formador de opinião é o Willian Bonner, interpretando uma expressão indignada após exibir mais uma reportagem  com discurso do presidente Lula. Dora Kramer e Eliane Catanhede, quando muito, incomodam suas manicures com seus discursos.
Engana-se quem pensa que o presidente Lula jogou uma pá de cal no formador de opinião. Ao expor a irrelevância alcançada por essa turma, ele generosamente depositou flores em túmulos abandonados.

Fraude a correntista – decisão inédita

31, Outubro, 2009 at 5:20 am | In Artigos e textos, Zuniversitas | 5 Comments

SEGURANÇA_INFORMAÇ A tendência normal do Judiciário é, ou deveria ser, decidir a favor do hipossuficiente. É assim com o trabalhador, o servidor, o consumidor, o correntista e outros atores do mundo jurídico.GRANA

No caso de fraudes envolvendo a Internet e os bancos, estes últimos normalmente eram condenados a ressarcir os custos e os danos causados aos correntistas. Entretanto, decisão recente do TJ do Rio Grande do Sul inverteu esta ‘ordem lógica’ num caso concreto onde isenta o banco Itaú do ressarcimento a um correntista que teve uma quantia retirada de sua conta-corrente pela Web.

Diante deste fato, e para alertar os leitores dos perigos e dos cuidados que devemos ter quando usamos a grande rede para acessos a bancos e empresas, lembro alguns cuidados básicos retirados do site IDG-NOW. Na continuação deste post, veja notícia na íntegra.

Atualizar programas de segurança
É fundamental checar com regularidade se seu antivírus e firewall estão atualizados. Trata-se de uma regra básica mas nem sempre seguida.

E-mails com links
Sinal de alerta quando receber mensagens eletrônicas que pedem para clicar em links. Essa é uma das formas mais tradicionais utilizadas por criminosos virtuais. Os códigos maliciosos podem ser enviados por meio de spams e também pelo e-mails de seus amigos, que podem não saber que estão contaminados. É a técnica do phising-scam.

Navegação
Muito cuidado com os sites que você acessa. É muito comum chegarmos a canais desconhecidos por meio de mecanismos de busca. Tome cuidado: tem crescido o número de sites falsos criados para infectar usuários desavisados. Sites de sexo estão entre os mais perigosos.

Sites de bancos
Como os mecanismos de segurança das instituições financeiras costumam ser bem protegidos, os crackers passaram a investir na clonagem desses espaços virtuais. Em outras palavras, eles criam uma página muito parecida com a dos bancos, para que o usuário a visite e informe sua senha bancária. Portanto, a dica é para ficar atento a qualquer mudança, por mais sutil que seja, ao lay out do site (logotipo, cores usadas, seções). Se ficar em dúvida, telefone para o banco e se certifique de que aquele site é mesmo da instituição.

===> UMA DICA BEM SIMPLES MAS QUE POUCA GENTE USA É DIGITAR SUA SENHA ERRADA, CADA VEZ QUE INICIAR UM ACESSO A SITE BANCÁRIO. SE FOR O SITE VERDADEIRO UMA MENSAGEM DE ERRO SERÁ ENVIADA, CASO CONTRÁRIO É CERTAMENTE UM SITE PIRATA !

Informações confidenciais
Não vá passando qualquer informação que lhe pedirem. É comum em sites clonados a solicitação de dados confidenciais, como RG, CPF e endereço de sua residência – além da senha. Mas, como seu banco já possui seus dados pessoais, dificilmente eles lhe pediria novamente pela internet. Se isso acontecer, telefone para a instituição e relate o ocorrido.
Sites de empresas
Uma modalidade de crime virtual em moda atualmente é a infecção de sites de companhias conhecidas. Por isso, a recomendação para ficar atento a mudanças de visual nas páginas também vale para este caso. Outro cuidado também é importante: se aparecer alguma janela diferente da que você se acostumou a ver no site, com mensagens do tipo “”warming security” ou com solicitação de dados confidenciais, desconfie.

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Livro impresso – a última novidade

19, Outubro, 2009 at 8:30 am | In Artigos e textos, Baú de livros | 1 Comment

Com a entrada no mercado de equipamentos de leitura de e-books, como o kindle e os vooks (cruzamento de livro com multimídia), já se fala do fim do livro impresso tal qual o conhecemos hoje.

A despeito de todas as inegáveis vantagens que a tenologia de edição nos trouxe, o papel do livro parece persistir, o de fazer a gente pensar, meditar e construir mentalmente idéias e pensamentos, pelo seu próprio substrato e ritmo.

Ao lançar seu mais novo livro hoje em São Paulo, O ALBATROZ AZUL, João Ubaldo nos brindou no último domingo com uma bela crônica sobre este tema, a qual reproduzo abaixo.

AlbatrozAzul


FUTURO TECNOLÓGICO (João Ubaldo Ribeiro)

UbaldoAlbatrozAzul

Olho para o monitor à minha frente e lembro como, faz tão pouco tempo, eu estaria diante de uma pilha de laudas em branco, ajeitando pelo menos duas delas na máquina de escrever, com uma folha de papel-carbono ensanduichada entre elas. Os erros eram apagados com uma sucessão de xis e as emendas feitas laboriosamente a caneta, resultando disso um texto imundo e desfavoravelmente comparável a um papiro deteriorado. Dicionário era na base do levantamento de peso e da lupa de leitura e descobrir se o nome de um sujeito era com q ou com k às vezes demandava até pesquisa telefônica. E, depois de escrever a matéria, ainda se tinha de enfiá-la num malote e rezar para que chegasse a tempo.

Hoje acho que teria dificuldade em encontrar papel-carbono para comprar, a juventude nem sabe o que é máquina de escrever, os dicionários, enciclopédias e até papiros deteriorados estão a um par de cliques de distância e tudo, de textos a ilustrações, se manda por via eletrônica. Claro, ninguém ou quase ninguém tem saudade dos velhos tempos trabalhosos, até porque não adianta e quem não gostar pode descer do bonde. E minha situação não é diferente, mas de vez em quando fico pensando em certos progressos e cá me acorrem algumas dúvidas.

Uma das vantagens atuais em que mais se fala é a possibilidade de trabalhar em casa que agora muita gente tem, em vez de se engravatar, pegar transporte ou se estressar de carro e comparecer a um escritório todos os dias. Há cada vez mais felizardos que trabalham de bermuda, sem camisa e até à beira de uma piscina, almoçam comidinha caseira e econômica, estão na vida que pediram a Deus. Mas acho que, se, em certos casos, isso é verdade, em outros nem tanto, pelo menos a longo prazo. Será que é melhor mesmo não conviver mais com colegas, não participar do bom e do educativamente chato que a convivência diária no trabalho enseja? Será que podemos mesmo dispensar, sem grande prejuízo, as amizades feitas assim, a experiência e o conhecimento que assim nos adviriam? E, se essa prática dá certo no trabalho, por que não dará na escola? Os estudantes teriam aulas pela internet, com diversas vantagens sobre o sistema atual, dispendioso e cheio de riscos, ocasionados até mesmo pela convivência com colegas violentos ou inconvenientes.

Não tenho tanta certeza dessas vantagens, como acho que pelo menos alguns de vocês também não têm. Sei de gente que dedica todas as suas horas vagas à internet, no sem-número de grupos de que se pode participar. Assim mesmo, não sobra tempo para responder à enxurrada diária de e-mails e mensagens variadas. O contato pessoal direto, já ameaçado pelo medo que temos de sair (embora também tenhamos medo de ficar em casa, a vida é dura), se torna, para a turma mais radical, um risco desnecessário, uma coisa até meio passée, quando dispomos de recursos como os programas de conversa e as webcams. Tudo muito certo, tudo muito bom, mas me incluo no time dos que acham que, nesse passo, vamos nos resignar de vez a viver em tocas e morder, se por acaso toparmos inesperadamente, um semelhante. Esse progresso para mim é retrocesso.

Assim como, do ponto de vista do leitor, tenho certeza de que encontrarei companheiros de ideal, em relação a esse negócio de máquina de ler livros, dos quais aquele em que mais se fala é o já famoso Kindle. Para quem não gosta de livros e apenas os usa porque precisa e não pode evitar, com certeza terá utilidade. Para quem tem necessidade de ler notícias apressadamente, também. E, enfim, quebrará o galho de uma porção de gente, em áreas que nem podem ser bem previstas agora.

Mas, para quem gosta de ler, como eu e vocês (se não gostassem, não estariam lendo isto aqui, achariam coisa melhor para fazer sem muita dificuldade), as trapizongas que estão criando para se ler já chegam causando perplexidade por uma razão elementar, que não pode deixar de ter ocorrido a quem quer que haja pensado um pouquinho sobre o assunto. Antes dessa tremenda invenção, qualquer um podia pegar um livro e lê-lo, tendo como equipamento indispensável, no máximo, uns óculos. De agora em diante, se a moda pegar, isso acabará sendo inviável. Escapa-me à compreensão o progresso contido num livro que requer um aparelho – e não tão baratinho assim – para ser lido, quando hoje não se precisa de nada, basta saber ler.

E já vêm aí os vooks, Deus nos valha. Os vooks são livros que também incluem outros elementos, tais como depoimentos de voz, barulhos, clipes de vídeo, peças musicais e assim por diante. Nesse caso, por que não ir logo ao cinema ou assistir a um DVD? Para que descrever cenas ou relatar episódios, se eles podem ser mostrados com o mínimo de intermediação possível? Por que escrever um livro – indagação, no meu caso pessoal, algo inquietante – e não fazer logo um filme, com todos esses elementos, que a palavra escrita não dá?

Claro, alguma coisa não tem sido bem pensada, nessa história toda. Há quem argumente que, progresso ou não, é a realidade e esta aponta na direção da obsolescência do livro . A fundamentação principal, segundo a qual o livro dá muito trabalho ao leitor, tem como derradeira consequência lógica a de que, no futuro, o que hoje se consegue com a leitura se conseguirá sem esforço, por meio de uma injeçãozinha ou da implantação de um chip no cérebro. Quanto ao trabalho, principalmente mental, que o livro dá ao leitor, pergunta-se: a ideia não era essa? Com certeza não chegarei até lá, mas antevejo o dia em que o livro impresso será apresentado como a última novidade.

Clique a seguir para ler um trecho do novo livro:

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A revolução das TIC e a questão da autoria

6, Outubro, 2009 at 5:15 am | In Artigos e textos, Zuniversitas | 4 Comments

Recentemente recebi e-mail de um amigo no qual constava a indignação de uma Mestra e doutoranda da UFBA se dizendo indignada por ter ‘descoberto’ vários sites (abaixo) onde se pode comprar todo tipo de trabalho acadêmico.

Isso nada mais é que o sintoma de que estamos vivendo uma nova era com a cibercultura e as novas TIC. E que, infelizmente, a academia, os professores e os alunos não conseguem se adaptar aos novos tempos ! O maior desafio hoje de um professor, na minha opinião, não é apenas o de se manter atualizado para ficar minimamente no mesmo nível dos seus alunos em termos tecnológicos, e sim o de propor questões, trabalhos e pesquisas nas quais os alunos têm que pensar e escrever por eles próprios ! E usar sim, todos os meios disponíveis hoje na web. Não está aqui uma apologia à ‘apropriação indébita’ do conhecimento intelectual e sim uma proposta nova para se encarar esta questão. Mais uma vez, ou o homem/sociedade se adapta aos novos tempos, que ele próprio criou, diga-se de passagem, ou vai perecer no anacronismo da história.

A questão da autoria, num mundo cada vez mais hipertextual, tem que ser necessariamente revista. O sinal mais visível disso é o já cansativo anacronismo da nossa academia !

Seguem cinco sites. Logo abaixo, clique em continuar para ver um artigo interessante do Professor André Lemos da UFBA que aborda a revolução das TIC.

http://www.estudopronto.com/artigo.htm

http://www.trabalhosuniversitarios.com.br/site/2008/trabalhosuniversitarios/artigo-cientifico-pronto/

http://www.clickmonografias.com.br/artigo_cientifico.htm

http://www.monografiasedissertacoes.com.br/inde.htm


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Festa do livro e das ideias / Solo le pido a Dios

5, Outubro, 2009 at 7:19 am | In Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | 3 Comments

Em homenagem à grande artista latino-americana Mercedes Sosa, falecida ontem em Buenos Aires, republico este post feito em 17 de setembro do ano passado.

Mercedes_Sosa2


Este post é inspirado num belo artigo de Frei Beto, publicado no Correio Braziliense do dia 12 deste mês, e no vídeo com a linda música “Solo le pido a Dios” que acrescenta ainda no final uma mensagem de Gandhi. As fontes foram um irmão e um amigo. Deixando a modéstia de lado, acho que este foi um dos melhores posts do Zeducando dos últimos tempos, concentrando esses dois “poemas hipermidiáticos”, um em prosa outro em vídeo/som, num só lugar. Quem tiver a paciência de ler o texto e ver/ouvir o vídeo verá que vale a pena, e quem quiser ver a letra na língua original, clique a seguir, depois do vídeo.

“A vida existe para que saibamos desfrutá-la, cultivando amizades, o gosto pela arte, a comunhão com a natureza, o aprimoramento de nossos talentos e o aprofundamento de valores subjetivos”.

Frei Beto

“…não há felicidade sem apreensão do sentido, do significado, da existência e das coisas. No entanto, a pós-modernidade neoliberal procura nos destituir de filosofia, horizonte histórico, visões do mundo, para nos encerrar miseravelmente no jogo mesquinho de nossas tendências egoístas (tudo para mim, danem-se os outros, como se observa nas reações espontâneas no trânsito); egocêntricas (devo ter poder, fama e beleza para me tornar o centro das atenções); e egolátricas (devo ser venerado pelo olhar alheio, jamais criticado)”.

de Masi

Festa do livro e das idéias

Frei Betto


Participei, semana passada, da principal feira do livro da Itália, a de Mântua (em italiano, Mantova), cidade lombarda de 4.000 anos e 50 mil habitantes, terra de Virgílio (70-19 a.C.), autor de “Eneida”.
Em sua 12a edição, a feira reuniu 213 autores de todo o mundo. Da América Latina, presentes também a brasileira Márcia Teófilo, o uruguaio Eduardo Galeano, o mexicano Carlos Fuentes, o chileno Pedro Lemebel, o argentino Alberto Manguel e o cubano Leonardo Pádua Fuentes.
O que menos importa na feira é o comércio de livros. O objetivo principal é favorecer o contato dos autores entre si e com o público. Durante cinco dias, toda a cidade, cercada por três lagos e marcada pela arquitetura medieval, se mobiliza em função do evento.
Patrocinado pela prefeitura, seu êxito é assegurado por 600 moradores que trabalham como voluntários, como os motoristas que me buscaram e levaram ao aeroporto.
Para um público de cerca de 700 pessoas, sob um toldo armado num jardim, no domingo pela manhã troquei idéias com o sociólogo italiano Domenico de Masi, mais conhecido no Brasil pelo êxito de seu livro “O ócio criativo” (Sextante). Pela mesma editora temos um livro a quatro mãos, “Diálogos criativos”, cujo título da edição italiana, “Desenvolvimento e felicidade”, motivou o nosso diálogo.
Além da amizade que nos une, De Masi e eu temos em comum o amor pelo Brasil, que ele já visitou dezenas de vezes. No fim do mês, estará em Belo Horizonte, a convite da Fundação Dom Cabral. Oscar Niemeyer fez o projeto do centro cultural que ele mantém em Ravello e cuja nova construção será inaugurada em junho de 2009.
Nós dois coincidimos quanto à desumanidade da filosofia do trabalho baseada na competitividade e na excessiva produção de mercadorias supérfluas. A vida existe para que saibamos desfrutá-la, cultivando amizades, o gosto pela arte, a comunhão com a natureza, o aprimoramento de nossos talentos e o aprofundamento de valores subjetivos.
De Masi acredita que os dois países do futuro são o Brasil, pela alegria de viver de nosso povo e a pujança da natureza, e a China, pela criatividade e autodeterminação. Frisei que o maior bem que todos procuramos, sem exceção – a felicidade -, a lógica do mercado felizmente não consegue transformar em objeto de consumo.
Frente à impossibilidade, tenta nos convencer de que a felicidade resulta da soma de prazeres… consumistas! Assim, desloca-se a felicidade da fruição espiritual, como o amor, a mística, os valores éticos, para reduzi-la à posse de produtos que, revestidos de fetiche, passam a imprimir valor a quem os possui, numa inversão escabrosa que torna o objeto sujeito e o sujeito objeto.
Para De Masi, não há felicidade sem apreensão do sentido, do significado, da existência e das coisas. No entanto, a pós-modernidade neoliberal procura nos destituir de filosofia, horizonte histórico, visões do mundo, para nos encerrar miseravelmente no jogo mesquinho de nossas tendências egoístas (tudo para mim, danem-se os outros, como se observa nas reações espontâneas no trânsito); egocêntricas (devo ter poder, fama e beleza para me tornar o centro das atenções); e egolátricas (devo ser venerado pelo olhar alheio, jamais criticado).
A feira do livro de Mântua não concede prêmios e não cobra entrada em conferências, debates e exposições. Ali importam a cultura, a estética, as idéias, a diversidade literária que reúne escritores da nova geografia da Europa Central e do mundo árabe, da China e da África, todos dispostos a socializar seus métodos de criação e suas idéias.
Para o catálogo oficial do evento, uma única pergunta foi feita a mim e a cada um dos convidados: “Em que condições você escreve?” “Isolado”, respondi, “distante de todo acesso e mergulhado em meu ofício. Levanto cedo e, com intervalo para almoço, escrevo até o sol se pôr. À noite, descanso a mente com leitura ou filme. E cultivo uma superstição: jamais falo da obra que preparo, exceto quando a termino”.
- Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.

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