Capitalismo parasitário

08/12/2011 às 3:40 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | 1 Comentário
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Com este artigo, divulgo o livro CAPITALISMO PARASITÁRIO, de Zygmount Bauman.

CapitalismoParasitario


Do capitalismo como ’sistema parasitário’, por Zygmunt Bauman Bauman

“Ainda não começamos a pensar com seriedade na sustentabilidade da nossa sociedade movida a crédito e consumo”, afirma o sociólogo Zygmunt Bauman em artigo publicado no jornal argentino Clarín, 27-12-2009. A tradução é do Cepat.

Para o autor de Modernidade Líquida e Confiança e medo na cidade, entre outros livros, governos e instituições aprenderam muito pouco da crise econômica recente: a resposta à quebra foi endividar-se ainda mais.

Eis o artigo.

Tal como o recente “tsunami financeiro” demonstrou a milhões de pessoas que acreditavam nos mercados capitalistas e na banca capitalista como métodos evidentes para a resolução exitosa de problemas, o capitalismo se especializa na criação de problemas, não em sua resolução.

Assim como os sistemas dos números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel, o capitalismo não pode ser ao mesmo tempo coerente e completo. Se é coerente com seus próprios princípios, surgem problemas que não pode abordar; e se trata de resolvê-los, não pode fazê-lo sem cair na falta de coerência com suas próprias premissas. Muito antes que Gödel escrevesse seu teorema, Rosa Luxemburgo publicou seu estudo sobre a “acumulação capitalista” em que sugeria que o capitalismo não pode sobreviver sem economias “não capitalistas”; pode proceder de acordo com os seus princípios sempre que tiver “territórios virgens” abertos à expansão e à exploração. Mesmo quando os conquista com finalidades de exploração, o capitalismo os priva de sua virgindade pré-capitalista e dessa forma esgota as reservas que o nutrem. Em boa medida, é como uma serpente que devora o seu próprio rabo: num primeiro momento os alimentos são abundantes, mas logo se torna cada vez mais difícil comê-los, e pouco depois não resta mais nada para comer nem quem os coma…

Cinco “As” e um Democricídeo

26/10/2011 às 3:35 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | 6 Comentários
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Há muito, muito tempo, não via um vídeo assim. Abradeço ao amigo Mongini, de Aracaju/SE, pelo envio. Eduardo Marinho com seu depoimento e testemunho de vida desnuda todos nós ! O vídeo está no Youtube, mas originalmente acessei via “Coluna Zero”. É estranho admitir isso: mas sabe você ver uma pessoa se comportando e falando exatamente como você gostaria de um dia fazer? É isso, só isso.

O site dele é o “Observar e Absorver”, de onde destaquei o post abaixo que me fez lembrar meu velho e saudoso pai nos ensinando a ‘vencer na vida’ (eu sempre quis pelo menos ‘empatar’, agora, depois dos 50 e vendo o mundo em que vivo, quero apenas ‘perder de pouco’):

…Eu teria vergonha de aderir aos valores dessa sociedade perversa. De ostentar riqueza como falso símbolo de vitória. Não estou aqui pra competir. Privilégios me constrangem, desperdícios me dão repulsa e entristecem. Superioridade social é uma encenação ridícula, subalternidade humana é uma ilusão triste.
Não compartilho dos valores vigentes. Não tenho como andar com as correntes. Sigo somente minha própria consciência. Minha “pobreza” é minha riqueza, minha “derrota” é minha vitória. Teria vergonha, neste mundo, de ser um “vencedor”.


Que vencedor, que nada

Diante de uma sociedade que me obriga a coexistir com situações de extrema fragilidade e sofrimento, em que se aceita como “naturais” ou “inevitáveis” realidades como a fome, a miséria e a ignorância, se aponta como valores principais a propriedade, o consumo, a ostentação e se impõe a competição como forma de relacionamento vivencial entre as pessoas, só posso colocar minha vida em contraposição às correntes dominantes. Tanto em valores, quanto em comportamento e em objetivos de vida.
É preciso revelar dentro de nós os valores induzidos pelos meios de comunicação de massa, pelo massacre publicitário, pela propaganda ideológica, psicológica, inconsciente, sub-liminar ou não. Pela pressão social daqueles que aderem aos valores artificiais e, na falta de convicção, precisam impor aos demais, compor grupos e discriminar os que não lhes apóiam valores que, por si, não se sustentam. Temos em nós estes condicionamentos, em maior ou menor grau. São valores-causas do desequilíbrio social – a cultura da competição, em que todos são adversários potenciais, e a do consumo, em que o objetivo principal da vida é consumir, possuir, desfrutar, alcançar o máximo da fartura material, entre a ostentação e o desperdício. São enormes e estratégicas mentiras.
Não há competição onde há desigualdade de condições. Há covardia.
A massa dos “derrotados” aumenta, os “vencedores” se empilham em pirâmides de poder e privilégios ascendentes. No topo, o pequeno grupo. Os donos das mega-empresas transnacionais, dos grandes bancos e corporações financeiras, interferindo e controlando as políticas públicas e a mídia para os favorecer e encher, mais ainda, de poder e privilégios, em prejuízo dos direitos básicos da população e das obrigações principais do Estado.
Este é o sentido das minhas ações, do meu trabalho, da minha vida. Não tenho a ingenuidade de esperar ver o mundo conforme eu gostaria. Também não me é possível aderir a esses valores planejados e implantados como “a realidade”, que fazem de irmãos, adversários e do objetivo da vida, o consumo excessivo, a posse, o conforto físico. Perdemos o contato direto com as necessidades abstratas, as principais do ser, o sentimento de integração, a sensação de utilidade ao coletivo, o eqüilíbrio emocional, as relações afetivas, a solidariedade, o senso de justiça, o desenvolvimento da consciência.
Existe em mim a necessidade incontrolável de plantar idéias, valores, questões, sentimentos. Denunciar as mentiras em que tantos acreditam, os valores falsos, as necessidades artificiais, a mediocridade da vida e a mesquinharia dos objetivos oferecidos. Apregoar os valores do espírito, solidariedade, integração, consciência. Denunciar o egoísmo da mentalidade competitiva, a crueldade – ou indiferença – das minorias dominantes.
Não espero colher os frutos das árvores que planto. E isso não diminui minha necessidade de seguir plantando, de trabalhar em direção contrária às correntes, aos valores vigentes, nocivos à grande maioria, embora – e por isso mesmo – a submetendo.
A discriminação, a perseguição dos organismos repressivos da administração pública, o desprezo dos convencionais são, por outro lado, elogios a quem não se submete. Eu teria vergonha de aderir aos valores dessa sociedade perversa. De ostentar riqueza como falso símbolo de vitória. Não estou aqui pra competir. Privilégios me constrangem, desperdícios me dão repulsa e entristecem. Superioridade social é uma encenação ridícula, subalternidade humana é uma ilusão triste.
Não compartilho dos valores vigentes. Não tenho como andar com as correntes. Sigo somente minha própria consciência. Minha “pobreza” é minha riqueza, minha “derrota” é minha vitória. Teria vergonha, neste mundo, de ser um “vencedor”.
Eduardo

Bandidos de toga

29/09/2011 às 11:39 | Publicado em Artigos e textos | 4 Comentários
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O primeiro problema do Judiciário brasileiro é a investidura, já tratada aqui em alguns posts.

Já a Corregedoria é órgão importante em qualquer área do serviço público. E por que não também no Judiciário ? Segue a entrevista da Ministra Eliana Calmon que abalou as estruturas do Poder Judiciário, porque o desnudou, seguido de post do site do Nassif.


ENTREVISTA DA MINISTRA:

A ministra Eliana Calmon, a corregedora do CNJ: “Eu sou uma rebelde que fala”
A corte dos padrinhos
A nova corregedora do Conselho Nacional de Justiça diz que é comum a troca de favores entre magistrados e políticos
 
Em entrevista a VEJA, Eliana Calmon mostra o porquê de sua fama.
Ela diz que o Judiciário está contaminado pela politicagem miúda, o que faz com que juízes produzam decisões sob medida para atender aos interesses dos políticos, que, por sua vez, são os patrocinadores das indicações dos ministros.
Por que nos últimos anos pipocaram tantas denúncias de corrupção no Judiciário?
Durante anos, ninguém tomou conta dos juízes, pouco se fiscalizou. A corrupção começa embaixo. Não é incomum um desembargador corrupto usar o juiz de primeira instância como escudo para suas ações. Ele telefona para o juiz e lhe pede uma liminar, um habeas corpus ou uma sentença. Os juízes que se sujeitam a isso são candidatos naturais a futuras promoções. Os que se negam a fazer esse tipo de coisa, os corretos, ficam onde estão.
A senhora quer dizer que a ascensão funcional na magistratura depende dessa troca de favores?
O ideal seria que as promoções acontecessem por mérito. Hoje é a política que define o preenchimento de vagas nos tribunais superiores, por exemplo. Os piores magistrados terminam sendo os mais louvados. O ignorante, o despreparado, não cria problema com ninguém porque sabe que num embate ele levará a pior. Esse chegará ao topo do Judiciário.
Esse problema atinge também os tribunais superiores, onde as nomeações são feitas pelo presidente da República?
Estamos falando de outra questão muito séria. É como o braço político se infiltra no Poder Judiciário. Recentemente, para atender a um pedido político, o STJ chegou à conclusão de que denúncia anônima não pode ser considerada pelo tribunal.
A tese que a senhora critica foi usada pelo ministro Cesar Asfor Rocha para trancar a Operação Castelo de Areia, que investigou pagamentos da empreiteira Camargo Corrêa a vários políticos.
É uma tese equivocada, que serve muito bem a interesses políticos. O STJ chegou à conclusão de que denúncia anônima não pode ser considerada pelo tribunal. De fato, uma simples carta apócrifa não deve ser considerada. Mas, se a Polícia Federal recebe a denúncia, investiga e vê que é verdadeira, e a investigação chega ao tribunal com todas as provas, você vai desconsiderar? Tem cabimento isso? Não tem. A denúncia anônima só vale quando o denunciado é um traficante? Há uma mistura e uma intimidade indecente com o poder.
Existe essa relação de subserviência da Justiça ao mundo da política?
Para ascender na carreira, o juiz precisa dos políticos. Nos tribunais superiores, o critério é única e exclusivamente político.
Mas a senhora, como todos os demais ministros, chegou ao STJ por meio desse mecanismo.
Certa vez me perguntaram se eu tinha padrinhos políticos. Eu disse: “Claro, se não tivesse, não estaria aqui”. Eu sou fruto de um sistema. Para entrar num tribunal como o STJ, seu nome tem de primeiro passar pelo crivo dos ministros, depois do presidente da República e ainda do Senado. O ministro escolhido sai devendo a todo mundo.
No caso da senhora, alguém já tentou cobrar a fatura depois?
Nunca. Eles têm medo desse meu jeito. Eu não sou a única rebelde nesse sistema, mas sou uma rebelde que fala. Há colegas que, quando chegam para montar o gabinete, não têm o direito de escolher um assessor sequer, porque já está tudo preenchido por indicação política.
Há um assunto tabu na Justiça que é a atuação de advogados que também são filhos ou parentes de ministros. Como a senhora observa essa prática?
Infelizmente, é uma realidade, que inclusive já denunciei no STJ. Mas a gente sabe que continua e não tem regra para coibir. É um problema muito sério. Eles vendem a imagem dos ministros. Dizem que têm trânsito na corte e exibem isso a seus clientes.
E como resolver esse problema?
Não há lei que resolva isso. É falta de caráter. Esses filhos de ministros tinham de ter estofo moral para saber disso. Normalmente, eles nem sequer fazem uma sustentação oral no tribunal. De modo geral, eles não botam procuração nos autos, não escrevem. Na hora do julgamento, aparecem para entregar memoriais que eles nem sequer escreveram. Quase sempre é só lobby.
Como corregedora, o que a senhora pretende fazer?
Nós, magistrados, temos tendência a ficar prepotentes e vaidosos. Isso faz com que o juiz se ache um super-homem decidindo a vida alheia. Nossa roupa tem renda, botão, cinturão, fivela, uma mangona, uma camisa por dentro com gola de ponta virada. Não pode. Essas togas, essas vestes talares, essa prática de entrar em fila indiana, tudo isso faz com que a gente fique cada vez mais inflado. Precisamos ter cuidado para ter práticas de humildade dentro do Judiciário. É preciso acabar com essa doença que é a “juizite”.


 A corregedora e os “bandidos de toga”

Enviado por luisnassif, qua, 28/09/2011 – 09:07

Por Edmar Roberto P…

Do Unipress

Bandidos de toga: a denúncia da Corregedora Eliana Calmon

Por Edmar Roberto Prandini

Avançar na democratização da sociedade brasileira é um desafio permanente e que se apresenta cotidianamente a todas as instituições que compõem a arquitetura da constitucionalidade desenhada durante a Assembléia Nacional Constituinte e consolidada na Constituição Federal vigente desde 5 de outubro de 1988.

Nenhum dos poderes da República pode furtar-se de participar dos movimentos nesta direção, de democratização, visto que as conquistas de 1988, se é verdade que foram significativas, também é verdade que tinham como ponto de referência o arcabouço da ditadura, desenhado com a instauração dos atos institucionais, ou seja, um ambiente demasiadamente retrógrado, insuficiente para servir como parâmetro para a avaliação de uma sociedade que se pretenda democrática e progressista.

Neste contexto, são evidentes os avanços que se impuseram aos poderes executivo e legislativo, o que não significa dizer que eles já alcançaram estágios avançados enquanto padrões democráticos de organização e funcionamento cotidiano, de tal modo que ainda há muito que se progredir nesse sentido.

Já o poder judiciário, diferentemente do executivo e do legislativo, expostos com frequência ao processo de mudanças impostos pelos ciclos eleitorais, mantém-se mais distante dos influxos da pressão social. É fato que a implantação do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) representou um esforço na direção da criação de um mecanismo de controle externo do judiciário, mas ainda não está suficientemente consolidada a interpretação acerca dos precisos limites de sua atuação, razão pela qual o STF está chamado a posicionar-se nos próximos dias a este respeito.

Nos últimos dias, a Corregedora Geral do CNJ, Ministra Eliana Calmon, chamou a atenção em entrevista para o grave fato de que atuam no judiciário juizes que utilizam-se de suas atribuições para proteger e acobertar diversas modalidades de crime e, em consequência, de criminosos, obviamente.

A Ministra Eliana Calmon não foi específica em sua afirmação, evidentemente, mas o apontamento da existência desse problema no judiciário brasileiro não passou desapercebido nem incólume. Surgiram reações diversas de associações de magistrados e, sob a condução do Ministro Peluso, presidente do CNJ e do STF, os integrantes do Conselho Nacional de Justiça emitiram uma nota defendendo a dignidade dos magistrados brasileiros.

A Ministra Eliana Calmon é conhecida por sua profundidade e pelo zelo com que atua. Sua afirmação traz consigo o peso e a densidade da credibilidade conquistada pela Ministra em sua trajetória de vida. É por causa da força moral de que se reveste Eliana Calmon que sua denúncia traz consigo abalos no seio do judiciário.

A tentativa de invalidar a afirmação da Ministra Eliana Calmon ou de reduzir os danos conduzida pelo presidente do STF e do CNJ apenas servem para acalmar ânimos e exprimir a insegurança que o rigor da Ministra Calmon é capaz de trazer àqueles que fazem jus ao adjetivo que ela empregou: “bandidos de toga”.

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