Por uma leitura da leitura

22/05/2012 às 3:12 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Apesar de o autor se referir a uma certa briga ou dicotomia entre a política concentrada da ‘leitura na escola’ e a política difusa da ‘leitura na rua’ eu ainda entendo que estamos deficitários em ambas e não há que se falar em nenhuma delas em detrimento da outra. A frase final dele resume o que eu penso:

Que a leitura se perca na cidade. Que assim, acertadamente errante, empoderada de todos os textos do mundo, seja em que linguagem forem eles concebidos, a leitura possa construir sua autonomia e maturidade. E que ela encontre, para recebê-la, também em constante renovação, uma escola mais integrada ao ato de ler o mundo.

leitura


POR UMA LEITURA DA LEITURA (Sérgio C Rivero)

De volta do seminário Retratos da Leitura do Brasil, em Brasília, onde foi apresentada a terceira edição de uma pesquisa quantitativa sobre um tema sempre preocupante, volto estarrecido. Nem tanto pela pesquisa, que pouco se diferenciou das edições anteriores (2000 e 2007), mas preocupado, sim, com a limitação dos conceitos que hoje ainda permeia o que chamamos de ‘Leitura’.

Sou cria do hoje agonizante Programa Nacional de Incentivo à Leitura, o PROLER, que vai sumindo do mapa por falta de um QG (tal como funcionava a Casa da Leitura, entre 92 e 96) que o conecte de novo em rede, e que o faça resgatar seus tempos áureos de Política Pública nascida da sociedade civil. Pois bem, lá, há quase vinte anos atrás, imersos na ‘Leitura de Mundo de Paulo Freire’, espaço terno de acolhimento para todas as linguagens, o que nos bastou fazer era ampliar os conceitos de leitura e texto, trazer todas as linguagens para o exercício pleno da produção dos sentidos, destacando a literatura como trampolim para a reflexão, e contribuir na formaçao de mais e mais cidadãos. Era simples assim.

Hoje vejo que do muito que já se falou lá atrás, ainda falam de novo, e falam como se fosse novidade. Mas, se formar leitores é tarefa árdua, sempre vão merecer destaque − e é claro que o PROLER é a inspiração − todas as iniciativas em todos os espaços da sociedade, sem distinção. Vejo o Estado brasileiro com excelentes ações neste sentido, iniciando políticas que hão de se tornar mais densas se não forem atropeladas por novas gestões desconectadas do bem público; e vejo a sociedade civil prosseguindo em seu silencioso trabalho de formiguinha incansável.

Por isso me surpreendo quando no tal seminário, de dentro do próprio MinC, ouço dizerem que é uma bobagem a ‘desescolarização da leitura’. Eu poderia citar pelo menos uns dois programas, que me lembre sem nenhum esforço, capitaneados hoje pelo MinC, e que trabalham a leitura, não na escola, como a obviedade espera, mas na vida em sociedade.

Acho necessário explicar que este conceito da ‘desescolarização’, abertamente usado pelo PROLER que experimentei, não pretende tirar da escola sua responsabilidade, mas, por outro lado, urge, mais do que nunca, incluir a escola, leia-se a Educação, no campo maior que certamente a contém e não a rejeita: o da Cultura.

Se fazemos isso, fica claro que a responsabilidade pela leitura é de todos. Já na escola, sabemos, a leitura é sempre matéria-prima de todas as disciplinas que compõem as grades curriculares do ensino, em todos os níveis escolares, do fundamental ao superior. A leitura é muito claramente o lugar comum dos saberes.

A limitação de conceitos como texto e leitura, que ficam amarrados ao texto escrito, bem como ao letramento, como únicas referências possíveis, o que parece funcionar, unicamente, como uma espécie de tábua de salvação para alguns profissionais, é o que também acaba justificando que muitos leitores, entrevistados na referida pesquisa, digam ingenuamente que não leem mais, pois já saíram da escola.

Vejo também que toda a munição pesada que o Estado brasileiro dispara na direção da inclusão digital, lugar pleno das multimidiações, não surtirá nenhum efeito se permanecermos arcaicos em discursos que parecem existir para defender zonas de profundo conforto, ainda separando, teimosamente, aqueles que sempre merecem estar em constante diálogo. O mundo está aí todinho para ser lido, mas, em tempos de parecer o que não somos, vamos apenas carregando, muito prosas, em arrojadas mochilas, toda esta tecnologia fashion que o nosso tablet da hora ostenta. E é só.

Entre a ‘escolarização do pavor de ler’, e a banalização da leitura, por todos os cantos e recantos da sociedade, fico com a segunda opção.

Que a leitura se perca na cidade. Que assim, acertadamente errante, empoderada de todos os textos do mundo, seja em que linguagem forem eles concebidos, a leitura possa construir sua autonomia e maturidade. E que ela encontre, para recebê-la, também em constante renovação, uma escola mais integrada ao ato de ler o mundo.

A Universidade que conhecemos hoje ainda é a Universidade que a ditadura pariu !

21/05/2012 às 3:57 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Desfaço hoje mais um ‘erro histórico’ deste blog, pois nunca havia publicado nada de Marilena Chauí. Então, sob os ecos ainda do 31 de março da ‘gloriosa’, quer dizer, o primeiro de abril, segue abaixo uma entrevista da professora e filósofa da USP. Os destaques são meus. No final ela é bastante pessimista quanto ao papel transformador da escola nos moldes de hoje, ainda tenho a esperança de não concordar muito com isso, mas a opinião dela tem o peso de quem teorizou, viveu e fez.


OS EFEITOS DA DITADURA NA EDUCAÇÃO PÚBLICA

Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública

“Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, se ia ser

preso, se ia ser morto. Não sabia.”

São Paulo – Violência repressiva, privatização e a reforma

universitária que fez uma educação voltada à fabricação de

mão-de-obra, são, na opinião da filósofa Marilena Chauí, professora

aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

USP, as cicatrizes da ditadura no ensino universitário do país. Em

conversa com a Rede Brasil Atual, Chauí relembrou as duras passagens

do período e afirma não mais acreditar na escola como espaço de

formação de pensamento crítico dos cidadãos, mas sim em outras formas

de agrupamento, como nos movimentos sociais, movimentos populares,

ONGs e em grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos

políticos.

Chauí, que “fechou as portas para a mídia” e diz não conceder

entrevistas desde 2003, falou com o editor da Revista do Brasil, Paulo

Donizetti de Souza, após palestra feita no lançamento da escola 28 de

de Agosto, iniciativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo que

elogiou por projetar cursos de administração que resgatem conteúdos

críticos e humanistas dos quais o meio universitário contemporâneo

hoje se ressente.

Quais foram os efeitos do regime autoritário e seus interesses

ideológicos e econômicos sobre o processo educacional do Brasil?

Vou dividir minha resposta sobre o peso da ditadura na educação em

três aspectos. Primeiro: a violência repressiva que se abateu sobre os

educadores nos três níveis, fundamental, médio e superior. As

perseguições, cassações, as expulsões, as prisões, as torturas,

mortes, desaparecimentos e exílios. Enfim, a devastação feita no campo

dos educadores. Todos os que tinham ideias de esquerda ou

progressistas foram sacrificados de uma maneira extremamente violenta.

Em segundo lugar, a privatização do ensino, que culmina agora no

ensino superior, começou no ensino fundamental e médio. As verbas não

vinham mais para a escola pública, ela foi definhando e no seu lugar

surgiram ou se desenvolveram as escolas privadas. Eu pertenço a uma

geração que olhava com superioridade e desprezo para a escola

particular, porque ela era para quem ia pagar e não aguentava o tranco

da verdadeira escola. Durante a ditadura, houve um processo de

privatização, que inverte isso e faz com que se considere que a escola

particular é que tem um ensino melhor. A escola pública foi devastada,

física e pedagogicamente, desconsiderada e desvalorizada.

E o terceiro aspecto?

A reforma universitária. A ditadura introduziu um programa conhecido

como MEC-Usaid, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, para a

América Latina toda. Ele foi bloqueado durante o início dos anos 1960

por todos os movimentos de esquerda no continente, e depois a ditadura

o implantou. Essa implantação consistiu em destruir a figura do curso

com multiplicidade de disciplinas, que o estudante decidia fazer no

ritmo dele, do modo que ele pudesse, segundo o critério estabelecido

pela sua faculdade. Os cursos se tornaram sequenciais. Foi

estabelecido o prazo mínimo para completar o curso. Houve a

departamentalização, mas com a criação da figura do conselho de

departamento, o que significava que um pequeno grupo de professores

tinha o controle sobre a totalidade do departamento e sobre as

decisões. Então você tem centralização. Foi dado ao curso superior uma

característica de curso secundário, que hoje chamamos de ensino médio,

que é a sequência das disciplinas e essa ideia violenta dos créditos.

Além disso, eles inventaram a divisão entre matérias obrigatórias e

matérias optativas. E, como não havia verba para contratação de novos

professores, os professores tiveram de se multiplicar e dar vários

cursos.

“Fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade

social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil”

Houve um comprometimento da inteligência?

Exatamente. E os professores, como eram forçados a dar essas

disciplinas, e os alunos, a cursá-las, para terem o número de

créditos, elas eram chamadas de “optatórias e obrigativas”, porque não

havia diferença entre elas. Depois houve a falta de verbas para

laboratórios e bibliotecas, a devastação do patrimônio público, por

uma política que visava exclusivamente a formação rápida de mão de

obra dócil para o mercado. Aí, criaram a chamada licenciatura curta,

ou seja, você fazia um curso de graduação de dois anos e meio e tinha

uma licenciatura para lecionar. Além disso, criaram a disciplina de

educação moral e cívica, para todos os graus do ensino. Na

universidade, havia professores que eram escalados para dar essa

matéria, em todos os cursos, nas ciências duras, biológicas e humanas.

A universidade que nós conhecemos hoje ainda é a universidade que a

ditadura produziu.

Essa transformação conceitual e curricular das universidade acabou

sendo, nos anos 1960, em vários países, um dos combustíveis dos

acontecimentos de 1968 em todo mundo.

Foi, no mundo inteiro. Esse é o momento também em que há uma ampliação

muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio

ideológico para a ditadura era dado pela classe média. Ela, do ponto

de vista econômico, não produz capital, e do ponto de vista política,

não tem poder. Seu poder é ideológico. Então, a sustentação que ela

deu fez com que o governo considerasse que precisava recompensá-la e

mantê-la como apoiadora, e a recompensa foi garantir o diploma

universitário para a classe média. Há esse barateamento do curso

superior, para garantir o aumento do número de alunos da classe média

para a obtenção do diploma. É a hora em que são introduzidas as

empresas do vestibular, o vestibular unificado, que é um escândalo, e

no qual surge a diferenciação entre a licenciatura e o bacharelato.

Foi uma coisa dramática, lutamos o que pudemos, fizemos a resistência

máxima que era possível fazer, sob a censura e sob o terror do Estado,

com o risco que se corria, porque nós éramos vigiados o tempo inteiro.

Os jovens hoje não têm ideia do que era o terror que se abatia sobre

nós. Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, não

sabia se ia ser preso, se ia ser morto, não sabia o que ia acontecer,

nem você, nem os alunos, nem os outros colegas. Havia policiais dentro

das salas de aula.

Houve uma corrente muito forte na década de 60, composta por

professores como Aziz Ab’Saber,  Florestan Fernandes, Antonio Candido,

Maria Vitória Benevides, a senhora, entre outros, que queria uma

universidade mais integrada às demandas da comunidade. A senhor tem

esperança de que isso volte a acontecer um dia?

Foi simbólica a mudança da faculdade para o “pastus”, não é campus

universitário, porque, naquela época, era longe de tudo: você ficava

em um isolamento completo. A ideia era colocar a universidade fora da

cidade e sem contato com ela. Fizeram isso em muitos lugares. Mas essa

sua pergunta é muito complicada, porque tem de levar em consideração o

que o neoliberalismo fez: a ideia de que a escola é uma formação

rápida para a competição no mercado de trabalho. Então fazer uma

universidade comprometida com o que se passa na realidade social e

política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil.

“Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede

privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura

era dado pela classe média”

Não há tempo para um conceito humanista de formação?

É uma luta isolada de alguns, de estudantes e  professores, mas não a

tendência da universidade.

Hoje, a esperança da formação do cidadão crítico está mais para as

possibilidades de ajustes curriculares no ensino fundamental e médio?

Ou até nesses níveis a educação forma estará comprometida com a

produção de cabeças e mãos para o mercado?

Na escola, isso, a formação do cidadão crítico, não vai acontecer.

Você pode ter essa expectativa em outras formas de agrupamento, nos

movimentos sociais, nos movimentos populares, nas ONGs, nos grupos que

se formam com a rede de internet e nos partidos políticos. Na escola,

em cima e em baixo, não. Você tem bolsões, mas não como uma tendência

da escola.


Se escola fosse estádio e educação fosse copa …

14/05/2012 às 3:25 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros | 2 Comentários
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Ainda no ‘mesmo rumo da prosa’ do post de ontem, publico hoje onze crônicas do livro “Se escola fosse estádio e educação fosse copa…” do professor baiano Jorge Portugal. Separei por página para facilitar a leitura, abaixo um índice. E, como não poderia deixar de ser, seguem duas críticas ao livro que não diminuem em nada o seu valor:

1) Na ‘orelha’ do livro há um erro de Português, suponho por algum problema de revisão: “Idealizou, sendo apresentador, dos programas …”. O correto não seria “Idealizou, sendo apresentador, os programas …” ?

2) Os artigos publicados no livro saíram em diversos jornais e em blogs. Entretanto não há menção sobre a origem dos artigos em cada um deles, para mim uma falha.

LivroJorgePortugal

Página 2: Se escola fosse estádio e educação fosse copa…

Página 3: Um reitor estadista

Página 4: TV, CYBER e SABER.

Página 5: PIB e ensino público: agora vai

Página 6: Soy loco por ti, poeta!

Página 7: Marcados para perder

Página 8: Máquina de fazer democracia

Página 9: Crescimento social e educação

Página 10: Cursinhos sociais: a porta de saída

Página 11: A Flip e o resto do Brasil

Página 12: Que ensino é esse? – O massacre


REVISTA LIZ – LANÇAMENTO DIA 12/05

11/05/2012 às 3:15 | Publicado em Baú de livros, Fotografias e desenhos | 1 Comentário
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Essa eu recomendo ! A Revista LIZ em quadrinhos, pura criatividade. Parabéns Liz, parabéns Daniel e Juju !

RevistaLiz


REVISTA LIZ – LANÇAMENTO DIA 12/05 NA HG OFFICE

Sábado, dia 12 de maio, às 15hs na HG Office do shopping Varanda Mall (FORTALEZA/CE), haverá o lançamento da revista LIZ. Esta publicação é uma edição especial com uma compilação de tiras.
Liz é minha filha e uma das minhas maiores inspirações. Ela tinha 6 anos quando eu criei sua personagem e suas primeiras tirinhas. Ela está nos créditos como co-autora, não só porque a maioria dos roteiros é baseada em fatos reais, mas também por ela ajudar com ideias, desenhos e colorizações.
O universo de uma criança já é fascinante por si só, devido ao lúdico, fantasias, descobertas e sinceridade absoluta. Mas considero a Liz uma criança especial. Ela é diferente. Bem humorada, inteligente, comunicativa, educada, carinhosa, brincalhona e cheia de tiradas engraçadas. Uma personagem pronta. Não tive trabalho nenhum. Bastou observá-la, ouvi-la e conviver com ela para que a Liz dos quadrinhos ganhasse vida e alegrasse não só a mim e a mãe dela, mas também o mundo.
Portanto, esta revista tem um significado todo especial e o seu lançamento precisa ser celebrado de uma forma simples e afetiva.

Serviço:
LIZ
– Uma edição especial com uma compilação de tiras – R$ 5,00 – 24 páginas – tamanho A5 na horizontal
Edição: Daniel Brandão
Autores: Daniel Brandão e Liz Bezerra Brandão
Lançamento dia 12/05
Local: HG Office no shopping Varanda Mall – Av. Senador Virgílio Távora, 999, sobreloja 1
Horário: de 15:00 às 18:00
Seção de autógrafos, coffee break, e uma pequena exposição.

LIZ é uma publicação do Estúdio Daniel Brandão
Como adquirir: daniel.s.brandao@gmail.com
Maiores informações: 3264-0051 ou daniel.s.brandao@gmail.com
www.estudiodanielbrandao.com


Os autores:
DANIEL BRANDÃO

Co-editou o quadrinho independente “Manicomics” com o qual foi agraciado com 3 prêmios HQ Mix. Quadrinizou o “Capitão Rapadura”, do cartunista Mino, por cerca de 10 anos.
Estudou na Joe Kubert School e publicou na DC Comics, Dark Horse, Marvel, Panini, Abril e Maurício de Sousa Produções.
Possui um estúdio onde ministra aulas de desenho, quadrinhos e mangá.
LIZ BEZERRA BRANDÃO
Uma linda garota de 8 anos. A inspiração para a criação da personagem principal da tira e co-autora de boa parte das ideias. Ajudou em alguns desenhos e arte-finais. Também colore no computador.

Daniel Brandão
(85) 3264-0051
http://estudiodanielbrandao.com/
www.fotolog.terra.com.br/danielbrandao
www.danielbrandao.deviantart.com
Twitter: danielbrandaoHQ

Um lugar comum histórico

05/05/2012 às 3:40 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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De fato é verdade: todos entendem que Educação é uma prioridade, isso historicamente. Esse artigo, publicado na Carta Maior em 10 de março último, traz uma boa reflexão sobre o tema, de Sócrates até os dias de hoje onde tem gente querendo’ fincar estaca no peito dos analfabetizadores’.


A EDUCAÇÃO E OS RINOCERONTES QUE RONDAM A HISTÓRIA DO BRASIL

Enio Squeff - Carta Maior - 10/03/2012  

A insistência dos políticos, dirigentes industriais, intelectuais, mas principalmente os trabalhadores de que a melhor solução para um país é a educação, apesar da urgência quase gritada, parece um lugar comum inclusive histórico. Euclides da Cunha achava que um professor faria pelo Brasil muito mais que o maior exército que se pudesse reunir. Coelho Neto, contemporâneo do autor de “Os Sertões” juntava as duas coisas. Insistia em que aos brasileiros fosse obrigatório o alistamento militar, pois, com isso, à parte o ter de aprender a marchar, atirar de fuzil, ele aprenderia a ler. Não uma era visão equivocada: se a guerra e a violência parecem cada vez mais refratárias à idéia de ser homem – ser alfabetizado ensaia – pelo menos hoje em dia – o mais próximo do ideal para a condição humana.

Que Cristo sabia ler, dizem os Evangelhos no episódio em que, ainda menino, Jesus teria espantado os sábios de uma sinagoga com algumas opiniões sobre os livros sagrados. Ele os teria surpreendido por suas reflexões, incompatíveis com um garoto de sua idade. Muitos pintores renascentistas imaginaram a cena. Tudo bem, conforme a tradição – o jovem, que, para os rabinos, não passava do filho de um humilde carpinteiro, -espantosamente, não era analfabeto. Mas nada garante que o primeiro filósofo considerado que tal que foi Sócrates – tivesse o menor interesse em ler ou escrever. O único que se sabe da sua filosofia nos foi legado por dois de seus maiores discípulos, Platão e Aristóteles. Ou seja, se Sócrates tivesse alinhavado qualquer coisa – seus escritos seriam necessariamente citados por seus também amigos. É explicável. Na época, ser alfabetizado era uma especialização, não propriamente de intelectuais, mas de escribas, principalmente peritos contadores: os primeiros escritos que se têm dos egípcios, não são poesias ou textos literários, mas levantamento econômicos. No começo, em suma, não foi o verbo, mas os números.

No entanto, impossível imaginar-se um país a crescer, sem o fim da analfabetismo. Por tal constatação ou insistência, um dos participantes de um programa de TV, chamado “Manhattan Connection”, sugeriu que, em Paulo Freyre, o educador brasileiro já falecido, respeitado no mundo inteiro por sua luta contra o analfabetismo, fosse cravada uma estaca no peito. A um morto “chato”, perseguidor pertinaz da alfabetização em massa, o jornalista só via uma maneira de eliminá-lo do imaginário brasileiro – da mesma forma que se matam vampiros. Um vampiro a favor da alfabetização, digamos.

Grosserias à parte há, de fato, quem, abomine temas que nos alertam o quanto estamos longe de uma civilização. E então, homens como Paulo Freyre são mal vindos. Foi o que pensou a ditadura militar: ela o cassou, enxotando-o para fora do Brasil. Não é de se imaginar que os militares, que deram o golpe, pensassem diferentemente do tal jornalista. Apesar disso, durante a ditadura militar brasileira, um dos temas que mais mobilizaram generais, jornalistas e intelectuais de direita, como Gustavo Corção foi justamente o analfabetismo. A discussão da época era se analfabeto tinha direito a voto. Ou seja, a mesma estrutura política e social que não incentivava qualquer programa de alfabetização, apegava-se à idéia de que o analfabeto – por não saber ler – não tinha como dirimir entre o bem e o mal. Ou entre o que lhe convinha e o que não o afetava.

A partir desse raciocínio, admira que, com a nova constituição, depois da ditadura, com a extensão do voto aos analfabetos, não tivessem se sucedido grandes surpresas. Verdade que muitos políticos hoje, em Brasília, não nos elogiam como nação – mas na eleição resolutamente alfabetizada de antes do golpe de 64, São Paulo sufragou um rinoceronte do Zoológico. Cacareco, este o nome do bicho, foi eleito deputado federal, com mais de 100 mil votos. Conjeturar que muitos eleitores alfabetizados, em São Paulo, ansiavam, já em 1959, pelo golpe de cinco anos depois, não parece uma ilação disparatada

Na verdade, afigura-se não haver porque jurar pela inteligência ou pelo bom senso das pessoas, apesar do domínio da escrita. Adolf Hitler, um dos maiores – senão o maior facínora da história – foi legalmente eleito por um dos povos mais cultos – e alfabetizados- da história. Não houve concorrentes comunistas ou socialistas de esquerda – proibidos pelo regime antes das eleições, isso é verdade. Mas muito dificilmente a esquerda alteraria o resultado que deu franco direito aos alemães, com todos os seus letrados, de votarem num homem que prometia mundos e fundos – mas principalmente a proeminência da nação alemã sobre os outros povos, para não mencionar o pior : um anti-semitismo escancarado e todo o resto de que se sabe o fim.

O problema da educação é que ela não induz necessariamente ao bem ou às melhores escolhas. Existem muitos assassinos semi-alfabetizados ou totalmente analfabetos, mas sobre advogados, juízes, médicos, professores e jornalistas francamente aliados à criminalidade e à bandidagem, o noticiário dos jornais, dos rádios e das televisões nos alertam diariamente.

Não se culpe a educação por isso, evidentemente. Mas há um desleixo pela escolaridade e tudo o que lhe diz respeito, que raia ao absurdo, Desde que se leve a sério a estatística de que mais de 60 por cento dos integrantes das escolas publicas saem de seus cursos, sem conhecerem matemática, como se revelou numa pesquisa feita em São Paulo, se não é propriamente um atentado à educação ou à almejada alfabetização, deveria alertar para a falácia escolar, a começar pelo Estado mais importante do País. Se em São Paulo é assim – o quanto é diferente ou igual em outros Estados?

Machado de Assis aprendeu a ler os clássicos quase que por acaso: o trabalho, numa gráfica de um jornal, obrigou-o a entender melhor as letrinhas que se acumulavam numa caixa baixa e outra alta ( daí as expressões, “caixa baixa”para as letras minúsculas e “caixa alta” para as maiúsculas). Joseph Conrad, um dos maiores estilistas ingleses de todos os tempos, aprendeu inglês quando se engajou na marinha mercante britânica, na qualidade de emigrante polonês. Karl Marx teve uma educação regular – mas nunca freqüentou aulas de economia em qualquer faculdade . São exceções, é verdade. Villa-Lobos brincava que tinha estudado, com Pixinguinha que era mais jovem do que ele; gostava do som do nome de seu amigo, o que dificultava a sua pronúncia pelos franceses e americanos. E os poucos meses que dedicou a um curso normal na Escola Nacional de Música, fizeram-no recuar de buscar uma educação formal. Mas um país não se fazem por exceções notáveis, por mais que nos animem o engenho e a arte inatas de muitas delas.

Que falem, enfim, os educadores, os políticos e – por que não – a população. O bordão de que o sujeito irá vencer, “apesar de ser professor, colocado em carros anos atrás, pode ser engraçado: supõe-se que mestres”, “professores, seja paradoxalmente os mais preparados para a vida. E os analfabetos sabem o que isso significa – mas, mais que todos, os semi-alfabetizados é que estão em questão: eles têm em seu currículo algumas centenas – ou milhares, sabe-se lá – de aulas na vida; muitos suportaram o diabo nas salas de aula mal iluminadas, quentes, empilhados lado a lado com outros colegas. Seria muito atentar que são eles o problema do futuro? Podem não ser tudo – já que o Brasil está importando muita mão de obra do exterior. Mas dizem o quanto estamos longe de sermos uma grande nação. E o problema não é de agora, convenhamos.

Talvez o melhor mesmo seja uma estaca no peito dos analfabetizadores – mas daí seremos acusados de atentarmos contra a liberdade de imprensa, de nos postarmos inutilmente contra a indústria cultural e tudo mais. E aí “são outros quinhentos ” , como se dizia nos tempos em que o Cacareco foi consagrado pelas urnas de São Paulo. – o mesmo estado, a propósito, que ostenta agora o vergonhoso índice recentemente apurado.

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