A Universidade que conhecemos hoje ainda é a Universidade que a ditadura pariu !

21/05/2012 às 3:57 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Desfaço hoje mais um ‘erro histórico’ deste blog, pois nunca havia publicado nada de Marilena Chauí. Então, sob os ecos ainda do 31 de março da ‘gloriosa’, quer dizer, o primeiro de abril, segue abaixo uma entrevista da professora e filósofa da USP. Os destaques são meus. No final ela é bastante pessimista quanto ao papel transformador da escola nos moldes de hoje, ainda tenho a esperança de não concordar muito com isso, mas a opinião dela tem o peso de quem teorizou, viveu e fez.


OS EFEITOS DA DITADURA NA EDUCAÇÃO PÚBLICA

Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública

“Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, se ia ser

preso, se ia ser morto. Não sabia.”

São Paulo – Violência repressiva, privatização e a reforma

universitária que fez uma educação voltada à fabricação de

mão-de-obra, são, na opinião da filósofa Marilena Chauí, professora

aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

USP, as cicatrizes da ditadura no ensino universitário do país. Em

conversa com a Rede Brasil Atual, Chauí relembrou as duras passagens

do período e afirma não mais acreditar na escola como espaço de

formação de pensamento crítico dos cidadãos, mas sim em outras formas

de agrupamento, como nos movimentos sociais, movimentos populares,

ONGs e em grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos

políticos.

Chauí, que “fechou as portas para a mídia” e diz não conceder

entrevistas desde 2003, falou com o editor da Revista do Brasil, Paulo

Donizetti de Souza, após palestra feita no lançamento da escola 28 de

de Agosto, iniciativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo que

elogiou por projetar cursos de administração que resgatem conteúdos

críticos e humanistas dos quais o meio universitário contemporâneo

hoje se ressente.

Quais foram os efeitos do regime autoritário e seus interesses

ideológicos e econômicos sobre o processo educacional do Brasil?

Vou dividir minha resposta sobre o peso da ditadura na educação em

três aspectos. Primeiro: a violência repressiva que se abateu sobre os

educadores nos três níveis, fundamental, médio e superior. As

perseguições, cassações, as expulsões, as prisões, as torturas,

mortes, desaparecimentos e exílios. Enfim, a devastação feita no campo

dos educadores. Todos os que tinham ideias de esquerda ou

progressistas foram sacrificados de uma maneira extremamente violenta.

Em segundo lugar, a privatização do ensino, que culmina agora no

ensino superior, começou no ensino fundamental e médio. As verbas não

vinham mais para a escola pública, ela foi definhando e no seu lugar

surgiram ou se desenvolveram as escolas privadas. Eu pertenço a uma

geração que olhava com superioridade e desprezo para a escola

particular, porque ela era para quem ia pagar e não aguentava o tranco

da verdadeira escola. Durante a ditadura, houve um processo de

privatização, que inverte isso e faz com que se considere que a escola

particular é que tem um ensino melhor. A escola pública foi devastada,

física e pedagogicamente, desconsiderada e desvalorizada.

E o terceiro aspecto?

A reforma universitária. A ditadura introduziu um programa conhecido

como MEC-Usaid, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, para a

América Latina toda. Ele foi bloqueado durante o início dos anos 1960

por todos os movimentos de esquerda no continente, e depois a ditadura

o implantou. Essa implantação consistiu em destruir a figura do curso

com multiplicidade de disciplinas, que o estudante decidia fazer no

ritmo dele, do modo que ele pudesse, segundo o critério estabelecido

pela sua faculdade. Os cursos se tornaram sequenciais. Foi

estabelecido o prazo mínimo para completar o curso. Houve a

departamentalização, mas com a criação da figura do conselho de

departamento, o que significava que um pequeno grupo de professores

tinha o controle sobre a totalidade do departamento e sobre as

decisões. Então você tem centralização. Foi dado ao curso superior uma

característica de curso secundário, que hoje chamamos de ensino médio,

que é a sequência das disciplinas e essa ideia violenta dos créditos.

Além disso, eles inventaram a divisão entre matérias obrigatórias e

matérias optativas. E, como não havia verba para contratação de novos

professores, os professores tiveram de se multiplicar e dar vários

cursos.

“Fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade

social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil”

Houve um comprometimento da inteligência?

Exatamente. E os professores, como eram forçados a dar essas

disciplinas, e os alunos, a cursá-las, para terem o número de

créditos, elas eram chamadas de “optatórias e obrigativas”, porque não

havia diferença entre elas. Depois houve a falta de verbas para

laboratórios e bibliotecas, a devastação do patrimônio público, por

uma política que visava exclusivamente a formação rápida de mão de

obra dócil para o mercado. Aí, criaram a chamada licenciatura curta,

ou seja, você fazia um curso de graduação de dois anos e meio e tinha

uma licenciatura para lecionar. Além disso, criaram a disciplina de

educação moral e cívica, para todos os graus do ensino. Na

universidade, havia professores que eram escalados para dar essa

matéria, em todos os cursos, nas ciências duras, biológicas e humanas.

A universidade que nós conhecemos hoje ainda é a universidade que a

ditadura produziu.

Essa transformação conceitual e curricular das universidade acabou

sendo, nos anos 1960, em vários países, um dos combustíveis dos

acontecimentos de 1968 em todo mundo.

Foi, no mundo inteiro. Esse é o momento também em que há uma ampliação

muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio

ideológico para a ditadura era dado pela classe média. Ela, do ponto

de vista econômico, não produz capital, e do ponto de vista política,

não tem poder. Seu poder é ideológico. Então, a sustentação que ela

deu fez com que o governo considerasse que precisava recompensá-la e

mantê-la como apoiadora, e a recompensa foi garantir o diploma

universitário para a classe média. Há esse barateamento do curso

superior, para garantir o aumento do número de alunos da classe média

para a obtenção do diploma. É a hora em que são introduzidas as

empresas do vestibular, o vestibular unificado, que é um escândalo, e

no qual surge a diferenciação entre a licenciatura e o bacharelato.

Foi uma coisa dramática, lutamos o que pudemos, fizemos a resistência

máxima que era possível fazer, sob a censura e sob o terror do Estado,

com o risco que se corria, porque nós éramos vigiados o tempo inteiro.

Os jovens hoje não têm ideia do que era o terror que se abatia sobre

nós. Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, não

sabia se ia ser preso, se ia ser morto, não sabia o que ia acontecer,

nem você, nem os alunos, nem os outros colegas. Havia policiais dentro

das salas de aula.

Houve uma corrente muito forte na década de 60, composta por

professores como Aziz Ab’Saber,  Florestan Fernandes, Antonio Candido,

Maria Vitória Benevides, a senhora, entre outros, que queria uma

universidade mais integrada às demandas da comunidade. A senhor tem

esperança de que isso volte a acontecer um dia?

Foi simbólica a mudança da faculdade para o “pastus”, não é campus

universitário, porque, naquela época, era longe de tudo: você ficava

em um isolamento completo. A ideia era colocar a universidade fora da

cidade e sem contato com ela. Fizeram isso em muitos lugares. Mas essa

sua pergunta é muito complicada, porque tem de levar em consideração o

que o neoliberalismo fez: a ideia de que a escola é uma formação

rápida para a competição no mercado de trabalho. Então fazer uma

universidade comprometida com o que se passa na realidade social e

política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil.

“Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede

privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura

era dado pela classe média”

Não há tempo para um conceito humanista de formação?

É uma luta isolada de alguns, de estudantes e  professores, mas não a

tendência da universidade.

Hoje, a esperança da formação do cidadão crítico está mais para as

possibilidades de ajustes curriculares no ensino fundamental e médio?

Ou até nesses níveis a educação forma estará comprometida com a

produção de cabeças e mãos para o mercado?

Na escola, isso, a formação do cidadão crítico, não vai acontecer.

Você pode ter essa expectativa em outras formas de agrupamento, nos

movimentos sociais, nos movimentos populares, nas ONGs, nos grupos que

se formam com a rede de internet e nos partidos políticos. Na escola,

em cima e em baixo, não. Você tem bolsões, mas não como uma tendência

da escola.


Entre o Zé Regrinhas e o Maluco Beleza

16/05/2012 às 19:31 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Todo ser humano oscila entre esses dois extremos: o Zé Regrinha e o Maluco Beleza, uns pendendo mais para um lado ou para o outro. Vejam essa crônica do Tostão de hoje. E quem disse que ele escreve sobre futebol ?  Ou melhor: quem disse que ele escreve só sobre futebol ?  Confiram:

Vivemos em busca de algo que nos complete. Nunca vamos achar. Darcy Ribeiro, outro maluco beleza, como Raul Seixas, mesmo com histórias bem diferentes, dizia que seu grande sonho era ser Deus.

Um torcedor do Santos disse que os dribles de Neymar são tão malucos que ele dribla até a si mesmo. O mundo e o futebol precisam de malucos beleza, competentes, e também de Zé Regrinhas, tecnocratas. Os malucos beleza são mais interessantes


MALUCOS BELEZA (Tostão)  Toatao2

Volto das férias com saudades de bons jogos, de ver Neymar atuar. O futebol, de clubes, brasileiros e sul-americanos, está muito distante de seu extraordinário talento.

Estamos percebendo que Neymar é e será ainda maior que os mais otimistas imaginavam. Para confirmar isso, que será um fenômeno, mais que um craque, terá de brilhar, com a mesma intensidade e regularidade, contra os melhores times e seleções do mundo. Isso tem tudo para acontecer, em pouco tempo.

Agora, todas ou quase todas as partidas da Copa do Brasil e da Libertadores serão equilibradas. Acabaram as molezas.

Além de Neymar, o Santos mudou após a derrota para o Barcelona. O time troca mais passes e cruza menos bolas para o gol, bem diferente do São Paulo, várias vezes campeão com Muricy.

Por outro lado, os zagueiros, encostados à grande área, ficam muito distantes dos volantes. Os meias e atacantes adversários deitam e rolam. Isso ocorre com todos os times brasileiros, especialmente com o São Paulo. O Corinthians é exceção, um dos motivos de sofrer poucos gols.

No sábado, veremos a final da Copa dos Campeões da Europa. O Bayern é superior. Mas não há certeza de nada. O Chelsea não eliminou o Barcelona porque jogou bem, dentro de seu estilo. Ganhou por detalhes surpreendentes e incomuns. A fraquíssima seleção grega, na Eurocopa de 2004, armou uma retranca, como o Chelsea contra o Barcelona, e ganhou o título.

Toda equipe tem o direito de jogar do jeito que pode e sabe. O que não se deve é enaltecer o futebol medíocre por causa de uma vitória.

O Barcelona, no fim de temporada, cansado, não tomou a bola no outro campo com a mesma eficiência. Com isso, criou menos chances de gol e sofreu mais contra-ataques. Faltou também mais um grande atacante, para não depender tanto de Messi.

Além do mais, o Barcelona, acostumado com tanto sucesso, desconcentrou-se e perdeu o medo da derrota. A incerteza e o medo do desconhecido, do futuro e da morte são, com frequência, a chama que anima nossas vidas.

Vivemos em busca de algo que nos complete. Nunca vamos achar. Darcy Ribeiro, outro maluco beleza, como Raul Seixas, mesmo com histórias bem diferentes, dizia que seu grande sonho era ser Deus.

Um torcedor do Santos disse que os dribles de Neymar são tão malucos que ele dribla até a si mesmo. O mundo e o futebol precisam de malucos beleza, competentes, e também de Zé Regrinhas, tecnocratas. Os malucos beleza são mais interessantes.

Primeiro como tragédia, depois como farsa

04/05/2012 às 3:11 | Publicado em Baú de livros | Deixe um comentário
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Neste livro, o escritor e filósofo eslovaco Slavoj Zizek (não tenho como colocar os acentos para nós meio doidos, vai assim mesmo o nome dele) faz uma análise dos últimos acontecimentos nos EUA e reavalia o papel do comunismo na sociedade atual. Cita no início o 18 de Brumado de Marx e faz um interessante paralelo com o que ele diz ter ocorrido primeiro como tragédia, a queda das torres gêmeas, em 2001, e depois como farsa, a crise financeira de 2008. Um interessante livro, de leitura não tão fácil, para quem um dia já foi revolucionário, de carteirinha ou não, como quase todos os meus amigos e contemporâneos. Recomendo.

Primeiro

Sua senha como testamento

02/05/2012 às 3:45 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Ivan Lessa já esteve aqui antes, em dois artigos polêmicos, um sobre a recente reforma ortográfica e outro sobre o caso do prisioneiro Bradley Manning. Retorna agora com outro artigo igualmente polêmico sobre a morte na era da cibercultura. Recebi por email de um amigo, colaborador deste espaço, no qual dizia se tratar de texto da BBC Brasil (segue sem link).


BAIXADO E FORA DE LINHA (Ivan Lessa)

Quem vai herdar seus dados online e do seu computador quando você morrer?

Exatamente. Isso mesmo. Downloaded e off-line. Quer dizer, passou

desta para melhor, bateu as botas, morreu, pegou o boné, bateu com as

dez, se mandou.

Houve um tempo em que o dicionário Houaiss dava tudo issso e mais umas

graçoilas.

Está a se dizer nas palavras que dão título a este texto – baixado e

fora de linha – que, num sentido figurado, alguém deixou afinal de

batucar sua vida nas muitas milhões de páginas da entre-redes

(internet, pois não?).

Foi-se, subiu, pegou uma de “revertere ad locum tuum”, já que me

lembrei de mais três expressões populares para deixar este vale de

lágrimas (oquêi, quatro).

Como um piano de cauda abandonado num terreiro, o computador do

camaradinha em questão fica lá sozinho à espera de algo ou alguém que

vá e desvende seus segredos.

Quem manobrava o aparelho? De que redes sociais participava? Comprava

muita coisa? Seu carteiro eletrônico batia muita perna? E o que tinha

o falecido ou falecida a dizer?

Todo mundo informatizado vai um dia desses, hoje mesmo ou amanhã,

morrer – e vou logo pedindo desculpas por ser brutalmente franco.

Todo mundo informatizado não pode negar que não parou um minutinho ao

menos de googlar, ouvir musiquinha, procurar fotos de gatos jogando

futebol para considerar o que vai acontecer com seu legado histórico

cibernético. Em outras palavras, quem herdará suas vastas galerias, de

súbito vazias, onde até há pouco senhas, dados e muita sacanagem

faziam um tumulto dos diabos?

Estuda-se nos Estados Unidos a possibilidade de mudar as leis

testamentárias a fim de incorporá-las à vida online das pessoas, que,

como todos sabemos, a cada dia aumenta mais, ao contrário do que

acontece no Sudão ou na Somália, no que diz respeito à expectativa do

que, por aquelas bandas, sem ironia, também chamam de “vida”.

Forçoso nestes tempos pensar num destino a ser dado ao patrimônio

digital de Fulano ou Sicrano. É preciso, no entanto, muito cuidado.

Vem aí um Julian Assange ou hacker de publicação dúbia ou governo

totalitário abelhudo e dá todos os seus e meus plás para gente

desconhecida, a quem não tuitaríamos na net nem cumprimentaríamos na

rua.

O véu, ou “nuvem”, como vem sendo chamada, será desfeito e acabaremos

revelados, nus e sem qualquer mistério, onde começamos: na vala comum

do lápis e papel, caderninho de notas ou, com boa vontade, máquina de

escrever. Legislem-nos, pois, senhores, que isso é necessário e está

mais que na hora.

Senão, vejamos: aqui na Grã-Bretanha, os cidadãos têm cerca de £ 2,3

bi em bens digitais (mais de 6 bi de reais), o que inclui 80% da

população. Uma em 4 pessoas revelou em pesquisa recente que por volta

do ano 2020 não mais imprimirá fotos, apenas as guardará em seus

arquivos online. Três em cada 4 pessoas admitiram que suas coleções de

fotos e música digitais são, para elas, de grande valor sentimental.

21% dos britânicos calculam que armazenaram online mais de 200 libras,

ou 560 reais, em música, fotos e vídeos. Três em 10 dizem que

pretendem, por volta também do ano 2020, encaixotar online tudo que

curtem em matéria de música. E 1 em cada 10 pessoas deixará sua senha

em testamento.

Como Noel Rosa, de quem por sinal já downloadei muita coisa na “caixa

de fósqui” de meu box set, não quero choro nem vela, apenas que

marretem meu hard drive e joguem o que sobrar no Canal da Mancha. Se é

para informatizar, informatizo até o fim e debaixo da água.

diferença

Milton Santos – Globalização

19/04/2012 às 3:04 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Hoje é o Dia do Índio. Então, para seguir a profecia deste blog, eu (um branco ?) posto esta série de vídeos-aulas do Professor, Geógrafo e pensador baiano negro (?) Milton Santos (a primeira em forma de vídeo e as seguintes em forma de links). Branco, preto, índio ? Há que se falar nisso no Brasil ? E não é exatamente nisso, nessa miscigenação toda que os grandes pensadores como Darcy Ribeiro tanto se apoiam para profetizar a grandeza dessa ‘Nova Roma’ ? Essa nossa eterna ‘Utopia Selvagem’ ?

Comsumismo, o fundamentalismo atual !


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