Entre o Zé Regrinhas e o Maluco Beleza
16/05/2012 às 19:31 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentárioTags: filosofia, futebol
Todo ser humano oscila entre esses dois extremos: o Zé Regrinha e o Maluco Beleza, uns pendendo mais para um lado ou para o outro. Vejam essa crônica do Tostão de hoje. E quem disse que ele escreve sobre futebol ? Ou melhor: quem disse que ele escreve só sobre futebol ? Confiram:
Vivemos em busca de algo que nos complete. Nunca vamos achar. Darcy Ribeiro, outro maluco beleza, como Raul Seixas, mesmo com histórias bem diferentes, dizia que seu grande sonho era ser Deus.
Um torcedor do Santos disse que os dribles de Neymar são tão malucos que ele dribla até a si mesmo. O mundo e o futebol precisam de malucos beleza, competentes, e também de Zé Regrinhas, tecnocratas. Os malucos beleza são mais interessantes
MALUCOS BELEZA (Tostão) ![]()
Volto das férias com saudades de bons jogos, de ver Neymar atuar. O futebol, de clubes, brasileiros e sul-americanos, está muito distante de seu extraordinário talento.
Estamos percebendo que Neymar é e será ainda maior que os mais otimistas imaginavam. Para confirmar isso, que será um fenômeno, mais que um craque, terá de brilhar, com a mesma intensidade e regularidade, contra os melhores times e seleções do mundo. Isso tem tudo para acontecer, em pouco tempo.
Agora, todas ou quase todas as partidas da Copa do Brasil e da Libertadores serão equilibradas. Acabaram as molezas.
Além de Neymar, o Santos mudou após a derrota para o Barcelona. O time troca mais passes e cruza menos bolas para o gol, bem diferente do São Paulo, várias vezes campeão com Muricy.
Por outro lado, os zagueiros, encostados à grande área, ficam muito distantes dos volantes. Os meias e atacantes adversários deitam e rolam. Isso ocorre com todos os times brasileiros, especialmente com o São Paulo. O Corinthians é exceção, um dos motivos de sofrer poucos gols.
No sábado, veremos a final da Copa dos Campeões da Europa. O Bayern é superior. Mas não há certeza de nada. O Chelsea não eliminou o Barcelona porque jogou bem, dentro de seu estilo. Ganhou por detalhes surpreendentes e incomuns. A fraquíssima seleção grega, na Eurocopa de 2004, armou uma retranca, como o Chelsea contra o Barcelona, e ganhou o título.
Toda equipe tem o direito de jogar do jeito que pode e sabe. O que não se deve é enaltecer o futebol medíocre por causa de uma vitória.
O Barcelona, no fim de temporada, cansado, não tomou a bola no outro campo com a mesma eficiência. Com isso, criou menos chances de gol e sofreu mais contra-ataques. Faltou também mais um grande atacante, para não depender tanto de Messi.
Além do mais, o Barcelona, acostumado com tanto sucesso, desconcentrou-se e perdeu o medo da derrota. A incerteza e o medo do desconhecido, do futuro e da morte são, com frequência, a chama que anima nossas vidas.
Vivemos em busca de algo que nos complete. Nunca vamos achar. Darcy Ribeiro, outro maluco beleza, como Raul Seixas, mesmo com histórias bem diferentes, dizia que seu grande sonho era ser Deus.
Um torcedor do Santos disse que os dribles de Neymar são tão malucos que ele dribla até a si mesmo. O mundo e o futebol precisam de malucos beleza, competentes, e também de Zé Regrinhas, tecnocratas. Os malucos beleza são mais interessantes.
Em homenagem ao maior time do Nordeste
13/05/2012 às 12:23 | Publicado em Midiateca | 1 ComentárioTags: esporte, futebol
Fazendo mais uma homenagem ao Esporte Clube Bahia, que conseguiu o campeonato baiano hoje com toda justiça, republico este post de 16 de outubro de 2011, acrescentando o hino do clube ! Mais um Bahia !…
Hoje é domingo, e domingo é dia de futebol. O depoimento do ex-jogador quase chorando e o último em que o torcedor diz que se o Bahia está bem ele passa a semana com fome e feliz são surrealistas, como a torcida do Bahia ! Esse filme vai estourar aqui na Bahia, vai bater todos os récordes de bilheteria, pode anotar. 
E VIVA O BAÊA !!!
Cópia nunca é igual ao original
15/04/2012 às 14:37 | Publicado em Artigos e textos | 3 ComentáriosTags: filosofia, futebol
Tostão e sua domingueira. E citando Millor: “O perigo de uma meia verdade é você dizer exatamente a metade que é mentira”
A história não conta toda a verdade. Falta o que está nas entrelinhas, na subjetividade, no que não foi dito. Isso é tão ou mais importante. Outras vezes, a história diz inverdades, de acordo com os desejos e as ideologias dos narradores. Não existe observador totalmente neutro. Em volta de uma verdade, há sempre uma mentira.
Muitas coisas ditas e repetidas sobre o futebol e sobre as pessoas, da época em que eu era atleta, não são verdadeiras. A ditadura foi terrível,mas Zagallo não convocou Dario porque o presidente Médici pediu ou ordenou. Dario merecia ser chamado.
Escuto, com frequência, que os jogadores do passado tinham amor à camisa, que o futebol era maravilhoso e que, hoje, é apenas um grande negócio. São meias verdades. “O perigo de uma meia verdade é você dizer exatamente a metade que é mentira” (Millôr Fernandes).
Não há dúvidas de que, antes, os jogadores, por terem mais chances de ficar um longo tempo em um clube, criavam mais vínculos afetivos. Isso é essencial para um profissional desenvolver seu talento. Por outro lado, havia mais atletas baladeiros, que treinavam pouco e que, por não terem ótimas condições físicas, corriam menos. O doping era mais frequente, pois não havia exames.
Como hoje, existiam comportamentos bem diferentes. Quando saí do Cruzeiro para o Vasco, fiquei abismado com tanto pagode e com tão poucos treinos. A concentração era pouso para alguns jogadores recuperarem o sono.
Havia mais Jobsons e Adrianos que hoje. No Cruzeiro, antes do Mineirão, tinha um jogador que, com frequência, desaparecia. Dias depois, voltava com cara de anjo. Outro, centroavante, só fazia gols se fugisse da concentração, na noite anterior ao jogo, para encontrar com sua amada, em um cabaré. Voltava inspirado.
As partidas eram menos tumultuadas, mas os lances isolados, individuais, de violência, eram mais graves que hoje. Pernas eram mais quebradas.
Havia mais craques em um grande time ou na seleção, mas havia também muitos pernas de pau. Os espaços maiores serviam para os craques mostrarem seus talentos e, para os medíocres, suas limitações. Ninguém enganava. Medíocre tinha jeito e cara de medíocre. Não fazia pose de craque.
A lembrança é diferente da memória. Não lembramos tudo que está na memória, nem todas as lembranças são exatas. Não adianta consultar o Google para confirmar. O Google apenas copia, não sei de quem. A cópia nunca é igual ao original.
A pegada e a posse de bola
01/04/2012 às 18:26 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentárioTags: futebol, sociologia
Prestem atenção a esta crônica dominical de Tostão. Nos primeiros três parágrafos parece até que ele não está nem vai escrever sobre futebol. É só uma introdução sociológica sobre o tema. Os textos do Tostão ainda serão estudados por alguém. Quem se habilita ?
A violência no futebol é a mesma que ocorre em toda a sociedade, em suas várias formas.
Dois anos atrás, depois de viver 11 anos mais próximo da natureza e de pequenos animais, voltei a morar na cidade. Estou impressionado com tanto barulho e desrespeito aos cidadãos e às leis. O ser humano involuiu. Infrações frequentes, presentes nas classes pobres e ricas, como jogar papel na rua, estacionar em fila dupla, dificultar a passagem de pedestres pelas calçadas e tantas outras, são o começo para graves infrações, violências e maracutaias.
Escuto, desde a infância, que o brasileiro é dócil, de paz. Ele é agressivo, como os outros. A sociedade, cada vez mais individualista, narcisista e consumista, favorece o crescimento da violência.
Em grupo, como nas torcidas organizadas, o ser humano sente-se mais poderoso, onipotente, corajoso e seguro. É também facilmente sugestionado. Faz o que nunca faria sozinho. Segue o grupo, como se houvesse uma única mente coletiva. Fica mais violento.
A violência está também dentro de campo. O jogo, no Brasil, costuma ser tumultuado, com muitas faltas, reclamações, simulações, ofensas e desrespeito aos companheiros, adversários, árbitros e auxiliares.
Anos atrás, estava pior.
A palavra que mais se ouvia, entre jogadores, técnicos e na imprensa, era pegada. Um time ganhava ou perdia por causa da pegada. Durante a partida, alguns técnicos gritavam: “Pega, pega”. E explicavam que pegada era marcar de perto e ter garra. Na emoção da partida, os jogadores pegavam a canela do adversário.
Lembra da propaganda de uma cerveja, antes da Copa de 2010? O ambiente era de batalha.
Dunga, raivoso, fazia um discurso patriota. Se o Brasil tivesse vencido, ele seria condecorado como um herói de guerra.
Havia também violência no passado, mas era isolada, individual. O jogo não era tão tumultuado. Isso é uma das causas da queda de qualidade do futebol brasileiro.
As coisas começam a mudar, para melhor. Após a partida entre Santos e Barcelona, na final do Mundial de Clubes, a palavra pegada foi substituída por troca de passes e posse de bola. Só se fala nisso. Em qualquer pelada, há uma grande preocupação em medir a posse de bola.
Como no Brasil é oito ou 80, posse de bola se tornou a palavra mágica, solução para tudo, para a falta de talento e até para consolo. “O time perdeu, mas teve mais posse de bola.” Melhor que dizer: “Perdeu, apesar da pegada”.
Tostão, um bom cidadão
29/01/2012 às 10:34 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentárioTags: filosofia, futebol
A melhor frase desta crônica domingueira de Tostão para mim foi: “As coisas não precisam de você” (música Viagem, de Marina). ![]()
NÃO PRECSAM DE VOCÊ (Tostão, jornais do país, 29/01/2012) ![]()
Já posso me aposentar. Nessa semana, completei 65 anos. Por isso, procuraram-me para falar de minhas carreiras e de minha vida. Gosto de falar de futebol. Não sou mais protagonista. Sou comentarista, palpiteiro oficial.
Fiz coisas certas e erradas. Só os medíocres passam pela vida sem cometer erros, sem criar fantasmas e sem ter a consciência de que poderiam ter feito melhor e, às vezes, diferente.
Nunca quis parecer mais humilde do que a humildade, mais sábio do que a sabedoria nem mais generoso do que a generosidade. Tento apenas ser um bom cidadão. É minha obrigação. Nada mais do que isso.
Tive várias profissões. Fui atleta profissional, médico clínico, professor de medicina, comentarista de televisão e de rádio e, agora, sou colunista, além de filósofo de botequim. Quase me tornei psicanalista. Completei o curso teórico, mas desisti. Não me sentia capaz de desvendar os segredos e mistérios da alma, já que não entendia nem entendo a minha.
Hoje, incomoda-me menos a finitude da vida. Compreendo e aceito mais a fragilidade e a insignificância humanas. “As coisas não precisam de você”, diz a bela música “Virgem”, escrita por Antônio Cícero e Marina Lima, cantada pela Marina.
Fico contente e orgulhoso de ser reconhecido pelo jogador que fui. Isso é uma coisa. Outra é viver do passado. Não gosto de usufruir, no presente, de conquistas do passado nem que apreciem ou não meus textos influenciados por outras épocas. Como se vê, tenho algumas manias.
No passado, havia, como hoje, muitos craques, grandes times e também jogadores e equipes medíocres. É importante conhecer bem o futebol do passado para entender o do presente.
A moda é dizer que o Barcelona joga da mesma forma que as grandes seleções e equipes brasileiras do passado. Não é bem assim. Há semelhanças e diferenças. As semelhanças são as trocas de passes, as triangulações, a bola de pé em pé e o jogo bonito. A seleção de 1970, como o Barcelona, tinha no meio-campo um único volante (Clodoaldo) e dois craques armadores (Gerson e Rivellino), que marcavam, organizavam e chegavam ao ataque. No Barcelona, Busquets é o volante, e os armadores são Xavi e Iniesta.
As diferenças, além do preparo físico e da maior velocidade dos jogadores atuais, são, principalmente, a marcação por pressão e os poucos espaços que o Barcelona deixa entre seus setores. O Barcelona marca mais. Joga e não deixa jogar. É um time do presente.
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