Vem ai o estatuto da palavra
27/04/2012 às 3:16 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentárioTags: língua, Português
Censura de palavras constantes em dicionário ? Endoidou todo mundo ? Vejam essa do Ubaldo, publicada no ATARDE, de Salvador/BA, dia 11 do mês passado.
Eliminar do dicionário uma palavra lexicograficamente legítima não só é uma violência despótica, como uma inutilidade, pois a palavra sobreviverá, se tiver funcionalidade na língua, para que segmento seja.
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De resto, a língua é viva e livre e ninguém manda nela, nem mesmo as ditaduras. E não insulta ninguém, depende para isso de seus usuários, que criam o que é considerado ofensa.
VEM AI O ESTATUTO DA PALAVRA (João Ubaldo Ribeiro)
Para mim, é sinal de atraso, mas acho que sou minoria. Estamos atravessando um interessante processo sociopolítico, em que o comportamento pessoal e particular é cada vez mais controlado, com a nobre finalidade de nos proteger, geralmente de nós mesmos. Já imaginei várias possíveis consequências disso, inclusive a criação das figuras da ortocópula e da cacocópula. Não, o Estado não instalará câmeras de tevê nas alcovas, para monitorar a intimidade dos casais. Só creio que isso pudesse acontecer, ainda que muito remotamente, em São Paulo, onde hoje é bem mais fácil ser assaltante do que fumante. Se o assaltante estiver fumando, duvido que assalte qualquer coisa em Congonhas, por exemplo, porque, assim que passar por baixo da marquise, um ou dois policiais o pegarão. Já assalto simples, sem cigarro, é outra coisa.
Não haverá necessidade da monitoração, a não ser por ordem judicial. O Estado definiria uma cópula otimizada, numa escala, vamos dizer, de um a cinco. Nessa faixa, teríamos a ortocópula. Passando de cinco, já se começaria a pisar o arriscado terreno da cacocópula. A iniciativa da ação estatal seria nos mesmos moldes da lei da palmada. O cônjuge atingido poderia denunciar o autor da cacocópula, ou isso poderia caber a quem quer que tivesse condição de levantar suspeitas, tais como vizinhos e parentes. Se o casal vizinho tem uma trilha sonora exuberante durante suas conjunções carnais, aludindo, em voz audível através de um copo na parede, a práticas consideradas inaceitáveis pelos padrões oficiais, o longo braço da lei pode alcançá-lo. Mesmo que tanto ela quanto ele garantam que fazem aquilo somente entre os dois e gostam desse jeito, serão classificados como anormais e levados a tratamento psiquiátrico. Não se obtendo êxito, paciência. Compete ao Estado zelar pelo bem deles e, portanto, o divórcio será obrigatório, podendo ambos inscrever-se no programa governamental “Refaça Sua Vida”, que permitirá novo casamento aos que comprovarem ter abandonado atos sexuais ilícitos. Os filhos estarão bem entregues a parentes e, na falta destes, a alguma das exemplares instituições que o Estado mantém para a guarda e educação de menores desamparados.
Agora há novamente paladinos da sociedade perfeita, o que lá seja isso, que querem censurar dicionários. De vez em quando, aparece um desses. Censurar a lexicografia é uma curiosa inovação. Dicionário é um trabalho lexicográfico, não uma peça normativa. O lexicógrafo não concorda ou discorda do uso de uma palavra ou expressão qualquer. Obedecendo a critérios tão objetivos e neutros quanto possível, constata o uso dessa palavra ou expressão e tem a obrigação de registrá-la. Eliminar do dicionário uma palavra lexicograficamente legítima não só é uma violência despótica, como uma inutilidade, pois a palavra sobreviverá, se tiver funcionalidade na língua, para que segmento seja.
Não se pode legislar o funcionamento da língua. O que se pode, no máximo, é regular a chamada norma culta, que poderia ter qualquer outro nome, porque é destinada apenas a manter um pouco da estabilidade da comunicação necessária à sociedade, desde o convívio interpessoal aos documentos de uso comum, da propaganda às leis. Se não fosse assim, dentro de pouco tempo a comunicação verbal seria quase impossível. De resto, a língua é viva e livre e ninguém manda nela, nem mesmo as ditaduras. E não insulta ninguém, depende para isso de seus usuários, que criam o que é considerado ofensa.
Mas os usuários são renitentes, de forma que, como no caso da cópula, isso tem que ser regulado, não é possível permitir que o dicionário registre termos que poderiam ofender algum indivíduo ou categoria. Acho que tem muita limpeza a ser feita e agora mesmo me ocorrem cretino, imbecil, idiota, boçal e outras palavras muito usadas para insultos, que, ainda por cima, são empregadas erroneamente, pois sabe-se atualmente que o boçal não tem culpa de sua boçalidade. Há muita gente que acha que se trata de um triste problema genético e todo boçal é uma vítima que, assim como o bandido, foi marginalizada (ou excluída, que está mais na moda) e sofreu bullying na infância.
Urge também o banimento de palavras que agravem povos irmãos, mesmo que hoje seus países não existam mais politicamente, como beócios e capadócios. Os já citados cretinos são outro caso deplorável, pois, para grande vergonha nossa, a palavra vem do francês crétin, a qual, por sua vez, vejam como o mundo dá voltas – se originou de chrétien, ou seja, cristão. Patenteia-se aí um claro insulto a toda a cristandade e cretino merece dupla proibição. Baiano burro (aliás, mentalmente prejudicado, para não ofender o burro e incutir nas crianças desprezo por um animal tão útil à humanidade) nasce morto, bem sei, mas não se fazem mais baianos como antigamente e não duvido que surja um grupo na Bahia, empenhado em abolir termos e expressões como “baianada” e “gelo de baiano”. E certamente apoiarão seus irmãos paulistas na justa revolta destes, ao serem informados de que lombo de carne de boi é chamado na Bahia de “paulista” e que muitos baianos, a cada dia, dizem casualmente “hoje eu vou comer um paulista lá em casa”.
Com os dicionários expurgados, não mais compreenderemos livros escritos antes desta era. É um preço pequeno a pagar, para nos livrarmos de uma herança maldita e tornar nossa língua própria para os anjos que em breve seremos. Aguardo agora normas sobre as artes. As artes deverão ser obrigadas à imparcialidade e a conceder espaço igual a todos. Assim, se o vilão de um romance for católico e o mocinho evangélico, será exigida, concomitantemente, uma versão com os papéis invertidos. Se um samba falar que “minha nega me traiu”, vai ter que haver outra versão, com a mesma melodia, cantando “minha loura me chifrou”. E por aí vamos, ainda chegamos ao primeiro mundo.
“Chegar, ver e vencer” era o lema de César. “Cair e erguer-se” não humilham ninguém !
28/06/2011 às 3:39 | Publicado em Zuniversitas | 2 ComentáriosTags: língua, Português
Ainda sobre a recente polêmica do livro didático, publico estes comentários e lições muito equilibradas, como sempre, da Professora Dad Squarisi, que para mim servem também para confirmar a regra de que nossa língua não é fácil e que temos que estudá-la todos os dias (destaque para o título deste post, as duas frases estão corretas.
Valha-nos, Deus! A briga pega fogo. De um lado, o livro didático adotado pelo MEC. Ele não considera erro escrever “os livro” ou “nós pega o peixe”. De outro, os críticos. Pais, estudantes, políticos, profissionais se indignam porque têm a escola como lugar de conhecimento. Ela deve, portanto, ensinar a norma culta. Enquanto a batalha rola, vale analisar os exemplos citados. Ambos ignoram a concordância.
O que é isso? É isto: aonde os mandachuvas vão, os subordinados vão atrás. Em bom português: artigos, adjetivos e pronomes concordam com o substantivo em gênero e número (o livro, os livros; a casa, as casas; livro colorido, livros coloridos; casa colorida, casas coloridas; meu livro, meus livros; minha casa, minhas casas). O verbo concorda com o sujeito em pessoa e número — eu pego, tu pegas, ele pega, nós pegamos, vós pegais, eles pegam.
Ao dizer “os livro”, todos entendem. O mesmo ocorre com “nós pega o peixe”. A polêmica não se resume ao entende-não entende. Vai além. Trata-se da obediência ao pacto linguístico. Entre as tantas formas de falar e dizer existentes, uma sobressai. É a norma culta. Vestibulares, concursos, empresas a exigem. As demais devem ser ridicularizadas? Claro que não. Cada uma tem sua hora.
Um caso de concordância
Os exemplos do livro são pra lá de simples. Há casos mais complexos. Um deles:
Comer pouco, dormir bem e praticar atividades físicas … ops!
a. faz bem à saúde?
b. fazem bem à saúde?
Escolheu a letra a? Acertou. A regra: sujeitos constituídos de inifinitvos mantêm o verbo no singular. Mais amostras?
Fazer as provas e participar das atividades escolares é dever do estudante.
Pagar as contas, fazer economia e educar os filhos norteia a vida dos imigrantes que querem vencer no país que os acolhe.
Chegar, ver e vencer era o lema de Júlio César.
Olho vivo
“A gramática”, dizem os gozadores, “é um sistema de ciladas.” Ao menor descuido, pega o desavisado pelo pé. Uma armadilha tem tudo a ver com a regra anterior. Com infinitivos, o verbo vai para o plural se houver contraste entre os sujeitos:
Viver e morrer fazem parte da vida.
Trabalhar e descansar não são luxo. São necessidade.
Cair e erguer-se não humilham ninguém.
Há mais
Acabou? Não. Há mais um pormenor importante. Os sujeitos constituídos de orações desenvolvidas (com verbo conjugado) também levam o verbo para o singular: Que ele estude, progrida no emprego e chegue à direção da empresa não constitui surpresa.
Resumo da opereta
O domínio da norma culta não cai do céu nem salta do inferno. Exige estudo. A língua é como se fosse uma grande escada. Cada assunto aprendido corresponde a um degrau vencido. Quanto mais alto estivermos, mais ampla a nossa visão. Quem chega ao topo conquista a liberdade plena. Aí, entre as opções da língua, escolhe a mais adequada ao recado que quer transmitir. Língua é isto: um sistema de possibilidades. Como se inclinar por uma ou outra sem conhecê-las?
Polêmica ou ignorância ?
18/05/2011 às 3:37 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 8 ComentáriosTags: língua
Fiz já três posts com textos do professor Marcos Bagno, todos com o título: “Afinal, de quem é a língua?“. Diante da recente polêmica dos livros didáticos, faço questão de postar este, recebido de um amigo via e-mail:
POLÊMICA OU IGNORÂNCIA? (DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA) 
Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudo especialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro
do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados
para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é
uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu,
teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam
eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em
perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e
entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o
branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado
e por aí vai.
Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do
macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se
originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não
interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais
disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais
distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa nãosignifica automaticamente combater a outra. Defender o respeito à
variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola
introduzi-los aomundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona.
Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é
preciso repetir isso a todo momento.
Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”,
porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já
faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso
ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da
gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda
servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é
dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles –
se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la
TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?
Marcos Bagno
Universidade de Brasília
A língua do futuro
15/03/2011 às 3:43 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia, Zuniversitas | 6 ComentáriosTags: Internet, língua
Provoco, de vez em quando, o estudo da língua pátria neste espaço. Na minha opinião, os melhores textos até agora são os de Marcos Bagno e Rubem Alves. Agora posto este de Arnaldo Niskier sobre a ‘língua e a nova era da cibercultura’, ou simplesmente, o ‘informatiquês’. E, como estamos aqui para provocar o pensamento, seguem abaixo duas, uma de encontro ao que diz o autor, outra ao encontro:
1) Das ‘Dicas de Português’, da professora Dad Squarisi, Correio Braziliense de domingo, dia 13/03, explicando a conjugação do imperativo dos verbos. No imperativo afirmativo o correto é: estuda tu, estudai vós. Porém não estuda tu está errado, porque no imperativo negativo, que sai todo do presente do subjuntivo, não se retira o ‘s’. Assim, o correto é não estudes tu! Ai eu digo para não perder o tom deste blog, com o ‘pré-perdão’ de minha querida amiga portuguesa Milu: isso não é uma ‘língua de português ?’ Difícil ? Dificílimo. Isso sem falar nas regras do hífen, que entra reforma sai reforma e ninguém resolve simplificá-las.
2) Poeminha (da coluna FALE Zé – não sou eu ! – também do mesmo jornal do dia 13/03:
“… Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.”
(Carlos Drummond de Andrade)
E fica a pergunta: será que com o ‘internetiquês’ se conseguiria escrever uma poesia dessas ?
A língua do futuro (Arnaldo Niekier, CorreioBraziliente, 12/03/2011) ![]()
Quem se der ao trabalho de levantar todos os termos da língua portuguesa, em sua versão culta, poderá chegar a cerca de 600 mil vocábulos. Só o Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, editado pela Academia Brasileira de Letras, tem perto de 400 mil verbetes. É uma das 10 línguas mais faladas do mundo, abrangendo povos que, somados, chegam a 240 milhões de falantes. É por essas e outras que existem movimentos de valorização do nosso idioma, como recentemente ocorreu com a defesa da latinidade, em que os próprios franceses se encontram firmemente empenhados. É uma forma, na verdade, de tentar uma reação ao predomínio inglês, graças à parafernália eletrônica de que é pródiga a inclusão digital, como se verá a seguir.Vamos supor que o indivíduo tenha levado uma pancada na cabeça. Demorou 20 anos para se recuperar. Quando finalmente acordou, pensou que estava em outro mundo. Não entendeu nada do que diziam os jornais e as pessoas à sua volta.
Pousou os olhos curiosos numa página digital. Depois de 10 minutos de garimpo, pediu socorro ao médico que o atendia. Achava que tinha ficado louco.
Não era para menos. Leu que o IRF ANVIEW permite fazer conversões de várias imagens ao mesmo tempo. Se quiser utilizar alguns programas gratuitos no seu PC com Windows, é preciso ver a lista de aplicativos. Vai além e registra que o VLC Player é uma excelente opção para ver vídeos e filmes no formato .AVI. E reconhece que toca músicas com uma fidelidade maior que a do Windows Media Player. A enfermeira ajuda, dizendo que as fotos de um bebê podem ser organizadas pelo F-Spot, gerenciador grátis para Linux. Lembrou do sobrinho que não via há muito tempo.
O nosso herói aprende ainda que o formato .RMVB é mais compacto, baixa da internet mais rápido e pode ser visto no Media Player Classic. Fica animado quando sabe que o Winamp ganhou até versão para Android e desconfia que esse seja um assunto para amantes da música. Mas não tem certeza. Logo sua atenção se volta para o AVG Free, boa alternativa para proteger o PC. Quase desiste quando verifica que o BrOffice edita e salva documentos em formato Word, Excel e Power point e ainda pode exportar para PDF, que ele não sabe o que é. Nem Blackberry.
Fica um pouco mais animado quando sente algo mais humano nessa descoberta: um cientista da Universidade de Osaka, no Japão, criou um minirrobô que pode virar o smartphone do futuro e imita movimentos humanos. Pensa que, enfim, estamos salvos.
Baixa os olhos para outra seção do jornal e descobre que há um programa que facilita pesquisa visual em anexos de e-mails. Como tinha parado de estudar aos 16 anos de idade — e nada disso era falado há 20 anos — levou um baita susto e perguntou para o irmão mais velho o que tinha acontecido. Recebeu uma explicação de como o desenvolvimento científico e tecnológico havia se expandido rapidamente em níveis inimagináveis, especialmente no campo da informática, que antigamente chamavam de cibernética, termo criado por Norbert Wiener: “Deve-se dar ao homem o que é do homem e à máquina o que é da máquina”. Até aí ele lembrava.
Teve paciência para ouvir um pouco mais sobre significado de Facebook, Twitter, Google, Gmail, tablets, thumbnails (ordenados alfabeticamente ou por data), YouTube, plug-in, startup, Chrome, IPhone, iPad etc. Ficou espantado quando soube que foi uma garotada que bolou isso tudo, cada um deles tornando-se bilionário com os seus inventos, nascidos em grandes universidades norte-americanas.
O irmão, solidário como deveria ser, sugeriu que uma das primeiras providências a serem tomadas, quando tivesse alta, seria entrar num cinema e assistir ao premiado filme A rede social. Enquanto isso, começou uma outra longa conversa sobre o internetês. Tudo tranqs. Também não soube o que era isso.
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