De toureiros, óleo de coco e “travesseiro de gato”
20/05/2012 às 11:52 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentárioTags: humor, Literatura
Mais uma domingueira de Ubaldo. Curtam, no final ele faz aluzão a uma moqueca, coisa bem baiana…
A MULHER, A CIÊNCIA E O COCO (João Ubaldo Ribeiro) ![]()
Sim, cativante leitora, gentil leitor, fiquei devendo algumas explicações, depois da deplorável barafunda de assuntos com que os tenho vitimado, nos últimos domingos. Mas, apesar de tudo, creio que acabei esclarecendo mais ou menos a questão da gordura do coco e discorrendo um pouco sobre a inconstância do que nos apresentam como perenes e irretorquíveis verdades científicas. Não cheguei, contudo, a dizer direito o que via nisso de relevante para as mulheres. Hoje essa grave lacuna, como é destino de todas as lacunas, será preenchida.
No domingo passado, escrevi que havia novidades científicas para as mulheres, relacionadas com o coco. Disse também que não sabia se era caso de as mulheres desconfiarem de mais esse achado científico. De minha parte, creio que sim – e não somente porque os achados vivem se contradizendo, mas porque minhas contemporâneas sofreram bastante, por causa da verdade científica. A maioria das queridas leitoras, todas na flor da idade, talvez não possa recordar o tempo em que a gente se referia às mulheres, a sério, como “o sexo frágil” ou “o belo sexo” e as considerava umas instintivas mais ou menos destituídas de real inteligência. Claro que essa maneira de ver se originava na ciência vigente. Sem achar que estavam ofendendo ninguém, os homens e muitas mulheres repetiam uma porção de besteiras sobre as mulheres, nenhuma delas abertamente desmentidas pela ciência e algumas até confirmadas.
As besteiras se estendiam sobre todas as áreas, inclusive aquela em que o óleo de coco está ganhando destaque, ou seja a tensão pré-menstrual. Pois é, a cada dia aparece uma matéria em algum jornal ou noticiário, anunciando essa maravilha. Desconheço a posologia e não estou receitando nada, mas li que, num porcentual altíssimo, as mulheres que sofrem de TPM ficam curadas ingerindo óleo de coco diariamente, do qual já existem não sei quantas marcas em circulação. Espero que as sofredoras fiquem boas mesmo, mas, como disse domingo passado, tenho algumas lembranças do progresso da ciência e do conhecimento comum sobre a questão, que talvez devam ser ponderadas.
No começo, não havia menstruação. Ou seja, não se falava nisso na presença de homem algum, a não ser o médico, a cujos consultórios as mulheres só iam acompanhadas. Geralmente eram os homens que tinham irmãs que começavam a revelar aos outros a existência desse estranho fenômeno, encarado por muitos com ceticismo. Os mais sofisticados pegavam anúncios de Modess na revista O Cruzeiro, em que apareciam misteriosas mensagens cifradas, dirigidas às mulheres e mencionando “as antiquadas toalhinhas”. Mas não se mostrava nem a toalhinha, nem o secretíssimo produto anunciado. Havia grandes discussões masculinas sobre o que seriam as antiquadas toalhinhas e até hoje não faço delas uma ideia clara. Neném, um amigo de infância, certa vez abriu um pacote de Modess para ver como era e o descreveu como “um travesseiro de gato”, o que não contribuiu muito para o entendimento. E a moça não ficava menstruada, ficava “incomodada”, ou até “doente”.
O conhecimento comum e o conhecimento científico sobre o assunto, tanto quanto eu saiba, diferiam apenas na terminologia. Em Itaparica, não se usava a expressão na presença de alguém do sexo oposto, mas a menstruação era designada como “boi”, em falas como “acho que o boi dela chegou, você precisa ver como o feijão está salgado e mal catado”, “ele disse que vai casar com ela e eu retruquei que não tinha nada contra, só fiz lembrar que a família dela tem os bois mais brabos da ilha e ele que se precate, porque vai tomar porrada todo mês”. Quando eu era menino e ficava na quitanda de Bambano para ouvir as conversas dos adultos, a finada Lindaura, de finado Cartésio (nomes mudados por uma questão de discrição), às vezes passava batendo os tamancos e assoprando forte e Bambano comentava que “compadre Cartésio hoje vai se ver, espere só ela abrir a cancela e soltar esse boi”. E de fato, quando sentia que o boi de Lindaura estava perto, Cartésio sempre arranjava uma viagenzinha de negócios a Salinas e ficava por lá até ele acalmar.
Era mais ou menos o que a ciência dizia, com outras palavras. Questão de personalidade da vítima de bois brabos, histeria. Quando a infeliz se queixava de cólicas que a deixavam rolando na cama, o médico, como eu vi acontecer, só faltava dar uma risadinha de condescendência para com o eterno feminino (sim, havia também o eterno feminino) e explicava que as cólicas eram psicológicas. “Está tudo em sua cabecinha”, dizia o médico a uma paciente que evidentemente não tinha dor nenhuma na cabeça, mas na barriga mesmo.
Agora, ao que parece, as cólicas não são mais psicológicas e a ciência reconhece a existência da TPM. Segundo me contam, entidades científicas questionam essa existência, mas outras não só a aceitam, como ainda acharam algo pior, chamado Transtorno Disfórico Pré-Menstrual. Pela descrição, a mulher nas vascas do TDPM é capaz de metralhar a vizinhança ou jogar o gato no liquidificador. Óleo de coco nela, atual palavra de ordem. Como eu disse antes, espero que dê certo mesmo e, a julgar pelo material que me mandaram depois que falei nele, deveremos entrar em breve na Era do Coco. Aliás, lá na ilha já entramos, com resultados ainda duvidosos, o que dá pra rir dá pra chorar e até cheiro bom tem sua hora. Um toureiro (marido ou amancebado com mulher de boi brabo) lá do Bar de Espanha se ofereceu para um teste e, de fato, o boi da sua dele santa esposa amansou muito, depois que ela passou a tomar leite de coco várias vezes por dia.
- Mas eu suspendi o tratamento – disse ele. – Muito antes um boi brabo do que o sujeito ir deitar e achar que está dormindo com uma moqueca.
Queda de Gigantes
20/05/2012 às 6:25 | Publicado em Baú de livros | Deixe um comentárioTags: história, Literatura, Política
Assim como Azyncourt, este livro é uma delícia. Um romance histórico passado no tempo da Primeira Grande Guerra. Eu confesso que não estudei muito esse período da História, acho que pelo fato de não cair muito no vestibular… Uma falha que compensei agora. São 912 páginas que você não consegue desgrudar desde o início. Ali você descobre a causa da primeira e da segunda GG: grana ! E relembra, entre outros fatos históricos, a Revolução Russa de 1917 e os bolcheviques (parece que o autor leu OS 10 DIAS QUE ABALARAM O MUNDO, de John Reed). Recomendo mais este livro e quem quiser ver um resumo razoável clique em: KENN FOLLET – QUEDA DE GIGANTES.(http://mundodaleitura.wordpress.com/2012/01/13/ken-follet-queda-de-gigantes/ )
De Niburus, caixões e outros ões
17/05/2012 às 3:59 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentárioTags: ciência, Literatura
Alguém ai já ouviu falar em Niburu, os milhares de caixões que estão sendo preparados pelos EUA, além de campos de concentração FEMA ? Coisa de doido, basta procurar no São Google. E o pior é que cientificamente pode acontecer, não este ano, mas qualquer ano, e é bem provável que já tenha ocorrido antes (vide o desaparecimento dos dinossauros).
O melhor texto sobre isso achei mesmo foi no jornal em papel, A TARDE (31/03/2012), de Salvador, da pena de Jânio Ferreira, que já frequentou este espaço antes, uma delícia de texto, compartilho agora.
Antes que o mundo acabe (Janio Ferreira Soares) ![]()
Leio que o mundo acaba ainda este ano, mais precisamente no dia 21 de dezembro, fim do calendário Maia. Quem diz isso são os adeptos dessa civilização surgida há mais de três mil anos, famosa pelas previsões astronômicas. Segundo a profecia, o fim de tudo se dará quando Niribu, também conhecido como Planeta X, se chocar com a Terra, provavelmente bem na hora em que Roberto Carlos estiver fazendo um dueto com Michel Teló no seu especial de fim de ano (“ai, ai, assim você me… bum!”).
Embora a NASA já tenha desmentido tudo, não precisa ser vidente para ver que o nosso maltratado planeta, mais cedo ou mais tarde, irá se findar. E aí eu fico pensando como será quando esse dia chegar.
Terei tempo de rever alguns filmes de Fellini ou ouvir Gal cantando pela última vez Sua Estupidez, ou será que só teremos direito a um derradeiro telefonema? Neste caso, ligar para quem? Para alguém que você sempre quis dizer “te amo”, mas nunca teve tempo? Para seu chefe, mandando-o àquele lugar? Para um “bença, mãe, será que a senhora pode fazer o melhor bife do mundo em 2 minutos?”. Na dúvida, é melhor seguir Raul (que beleza de filme!) e não ficar com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.
Eu mesmo já comecei a separar livros, discos, cartas de amor e centenas de fotografias para uma retrospectiva geral e ando mapeando a memória em busca de velhas lembranças que possam me acalmar na hora H.
Já consegui me lembrar do gosto do sorvete de coco de seu Manoel e estou perto do sabor de uma baba de moça (posso ser processado, deputados?) que eu comi na ainda bela Salvador. Também já sei que meu fascínio pela sequência esverdeada das penas do beija-flor é por conta de um carrinho de tons semelhantes, até hoje estacionado na garagem da memória. Ainda falta achar a sensação de quando eu mergulhava no São Francisco, embora já saiba que o som das águas é parecido com o do líquido amniótico que eu ouvia quando encostava o ouvido na barriga de minha mulher para um papo antecipado com meus filhos. Que venha Niribu.
Dom Casmurro
03/05/2012 às 3:03 | Publicado em Baú de livros, Espaço ecumênico | 1 ComentárioTags: Literatura, religião
Corrigindo mais uma falha ‘histórica’ deste ZEducando, posto um trecho interessantíssimo de Dom Casmurro, obra de Machadinho que quem um dia passou por um banco escolar neste nosso país já deve ter lido. O porquê de eu colocar também no Espaço Ecumênico ? só lendo para ver…
TRECHO DE DOM CASMURRO – MACHADO DE ASSIS ![]()
–A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimirás, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente…
(…)
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu,–compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
–Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés…
–Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
–Mas, Senhor…
–Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
–Ouvi agora alguns ensaios!
–Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem c mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
–Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados, poucos os escolhidos”. Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
FONTE? um grande amigo, por email (valeu Panta !)
E viva Helinho Codorna !
22/04/2012 às 18:44 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentárioTags: humor, Literatura
Hilário, como sempre, João Ubaldo nos brinda hoje com mais esta crônica domingueira. Quem não leu ainda é a hora. E, poupando meus leitores de ir ao pai de todos nós, segue o significado de anserino (via Aurélio).
anserino
[Do lat. anserinu.]
Adjetivo.
1.Semelhante ou relativo ao pato ou ao ganso. ~ V. marcha —a, pele —a e voz —a.
ISSO NÃO VAI DAR CERTO (João Ubaldo Ribeiro)
Acabo de ler que há suspeitas de que, nos Estados Unidos, existam alguns homens com mil filhos – ou muito mais, segundo os exaltados – de ambos os sexos e aproximadamente da mesma idade. Para mim foi uma grande surpresa, embora seja natural de Itaparica, ilha de mulheres famosamente ferazes e varões façanhudamente femeeiros, onde proles numerosas são a regra. E as exceções a ela são descendências legendárias, como a de um certo tio-avô meu cujo nome deixemos pra lá, que, diz o povo, fez mais de 20 em casa e, variando conforme o narrador, 70 e tantos na rua, entre teúdas, manteúdas, fugazes aventuras galantes, casadas inquietas, viúvas inconsoláveis, comadres traquinas, maus passos da mocidade e raparigas diversas. Falam até que ele nem era o recordista, havia vários outros que o superaram.
Mas mil, meus caros amigos, mil nem o finado Helinho Codorna, que justamente levava esta alcunha por, no enfático dizer de Jacob Branco, “ser um fenomenal erotômano, que só pensava nisso, só fazia isso e morreu de fazer isso”. Por mais que o sujeito seja despachado, fazer mil filhos – e todos mais ou menos da mesma idade, ainda por cima – não parece empresa simples. Mas isso é porque ainda não nos acostumamos direito aos novos tempos e não nos damos conta das implicações de fatos que já fazem parte do cotidiano. Deve haver mesmo pais com mais de mil filhos, é bem possível.
A matéria explica que muitos homens são doadores de sêmen, mas poucos têm um sêmen “ideal”. Ele pode conter traços genéticos indesejados e outras “impurezas”, com o resultado de que uma amostra do bom, ou do mais em demanda, se valoriza e é muito usada pelo banco que a fornece para inseminação artificial. Daí se temer que um número inestimável de meios-irmãos, ou seja, filhos do mesmo pai com dezenas, centenas ou milhares de mães, já esteja circulando por aí, correndo até o risco de virem a casar-se entre si. Não sei se há exagero nisso, mas, se houver, não deverá ser muito, porque já se formam movimentos de possíveis prejudicados, notadamente entre os pais de filhos gerados por sêmen de doadores anônimos. Tampouco sei em que medidas concretas isso vai dar – talvez a exigência de que os noivos façam sempre testes de DNA, para ver se não são irmãos ou filho um de outro, embora eu não creia que isso evite grandes traumas e mesmo tragédias.
É possível que seja mera caturrice minha, mero apego a valores destituídos de fundamentos sólidos, mas não acho certo esse negócio de o sujeito ter milhares de filhos, é muito estranho. Não creio que haja muitos homens que, depois de pensarem um pouco, gostem da ideia de ter filhos seus anonimamente espalhados por aí, quando o impulso que antigamente era tido como natural seria conhecê-los, conviver com eles, aprender com eles e, enfim, ter a relação que a maior parte dos pais quer ter com os filhos. Compreendo quem queira gerar um filho por inseminação artificial, mas creio que os critérios, a começar pela própria área médica, poderiam ser revistos, porque assim chega a parecer coisa de gado, de animais criados quase em moldes industriais.
Mas nada deverá ser revisto, a não ser na direção oposta. Alegam-se impedimentos éticos e legais para a realização de certos experimentos com seres humanos, mas nada de fato impede que eles venham sendo feitos, pois há muita glória e, principalmente, dinheiro, envolvidos nesse campo. E os cientistas não constituem, ao contrário do que são levados a crer os leitores das páginas de ciências dos jornais, uma comunidade homogênea, que partilha dos mesmos valores, tem a mesma ideologia e os mesmos princípios e, enfim, não conta com canalhas e possíveis delinquentes em seu meio. Há tantos carreiristas venais entre eles quanto na sociedade maior de que são parte.
Não sei em que escala isso já se dá, mas é possível, por exemplo, escolher o sexo do bebê a resultar da inseminação. Em breve, quem sabe se essa escolha não virará rotina, ou até obrigação, por força de alguma lei que pretenda regular a composição demográfica do País? Onde ter filhas dê prejuízo (como nos casos em que o pai precisa oferecer um dote), o sexo preferido vai ser o masculino. O mesmo nas culturas genericamente denomináveis de machistas. Só pode inspirar pesadelos, em que exércitos de donzelões chineses invadirão países vizinhos, dispostos a tudo para asfixiar o anserino (vão ao dicionário somente esta vezinha; não foi por pernosticismo que escrevi isso aí, foi para pôr traje social numa expressão normalmente um pouco deselegante). E os países que produzirão meninas adolescentes para exportação?
Já se começa também a pensar nas aptidões que poderão ser “aplicadas” ao bebê em formação. Não devo estar muito equivocado em apostar que a maior parte dos pais vai querer que seus filhos nasçam com aptidão para ganhar dinheiro. Mas um país exclusivamente de banqueiros, políticos e malandros não pode subsistir (ou pode? examinar o caso do Brasil numa ocasião futura). Tem que haver quem trabalhe e então, naturalmente, o governo criará a Agência Nacional do Nascimento e da Vocação, destinada a produzir critérios e metas para organizar a caótica reprodução humana estabelecida com as novas tecnologias. Metas serão traçadas pelos economistas e demógrafos, para a criação da correta mão de obra para cada década. Mas, como de hábito, as metas vão revelar-se todas furadas e o pandemônio populacional se apresentará em novas formas. Isso para não falar nas exigências de cotas para profissões, tipos físicos, cores da pele, vocações, opções sexuais e assim por diante. E, finalmente, talvez mais cedo do que se espere, a Polícia Federal executará a Operação Cromossomo, com a prisão de vários implicados na adulteração e falsificação de gente. Mas ninguém vai ficar na cadeia.
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