Cartum – Cau Gomez

18/03/2012 às 8:44 | Publicado em Baú de livros, Fotografias e desenhos | Deixe um comentário
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Por que no “Baú de livros”, se é de “Fotografias e desenhos” ? Porque a essência da mensagem é essa: o livro e a leitura iluminando a cabeça do homem !


LivroLeitura

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador/BA, 18/03/2012

FRANKFURT VEM AÍ

06/06/2011 às 3:50 | Publicado em Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Nos preocupamos com o Rock in Rio, com a Copa, com as Olinpíadas, e a Feira do Livro de 2013 em Frankfurt, onde o Brasil será o país tema ? Vale a pena a leitura e refelxão desse artigo de Affonso Romano de Sant’Anna !

Books


FRANKFURT VEM AI

Milhares se pessoas estão se mobilizando para o próximo  Rock in Rio, no final de 2011,  milhares de outras estão envolvidas nos projetos da Copa do Mundo em 2014  e milhares, talvez milhões, na preparação das Olimpíadas 2016.

E para a Feira do Livro de 2013, em Frankfurt, quando o Brasil será o país tema, como estão as coisas?

Essa Feira, na Alemanha, a maior do mundo, deveria ter a importância do festival internacional do rock, da Copa e das Olimpíadas.

Frankfurt é  a olimpíada, a copa e o rock do “povo do livro”.

Estava em Paris, há dias. E tive que experimentar uma vez mais essa melancólica humilhação: a literatura brasileira é a literatura de um autor só- Jorge Amado. Olhei, como venho fazendo há mais de 50 anos, as estantes dedicadas a tchecos, poloneses, asiáticos, russos, japoneses, nórdicos, americanos e latino americanos. Cadê o Brasil? Nada. Procurando muito, lá está Jorge Amado (sempre) entre eles, os de língua espanhola. Mais ninguém. Nem Clarice, nem Drummond, nem Guimarães Rosa ou Machado de Assis. Nelson Rodrigues, nem pensar.

Pergunto cinicamente ao vendedor: -Por que não tem uma estante de autores brasileiros? Ele, condescendente, diz: – Não há autores suficientes.

A gente quando olha o mundo a partir daqui, acha que além dos maiores rios e florestas do mundo, temos a melhor música, a melhor literatura, o melhor cinema, etc. Olhado o Brasil de fora para dentro, é diferente: não existimos. Somos uma coisa exótica abaixo do Equador. Lembro-me de quando dava aulas de literatura brasileira no exterior, as pessoas ao saberem disto, me perguntavam:- Mas existe isto? Me olhavam como Montesquieu olhava um persa em Paris. Aos seus olhos eu estava dando aulas de uma coisa inexistente.

A primeira vez que fui à Itália, nos anos 60, vi um livro de Rosário Fusco sendo vendido numa banca da Via Veneto         . Pensei: Rosário Fusco está arrebentando na Europa. Não era verdade. Deve ter acontecido com ele o que acontece com qualquer autor brasileiro: algum editor ou tradutor entusiasmado faz essa proeza. E fica nisto. Não há política cultural, Não há um projeto contínuo e consequente  de exportação da literatura brasileira .

Digo isto por ter sido um dos articuladores da presença brasileira na Feira de Frankfurt em 1994, quando presidia a Fundação Biblioteca Nacional. Foi um esforço memorável, apesar de todos os problemas. O pavilhão brasileiro conseguiu ser mais visitado que o da França, que detinha o récorde de visitas. Havíamos criado estratégias de exportação da cultura brasileira e um projeto de tradução de nossos autores. O país tinha  então 160 milhões de habitantes, hoje 200 milhões. Estávamos ( ainda) em crise. Durante os seis anos que passei na FBN convivi tive seis ministros da cultura. Era impossível um planejamento sério, a longo prazo. Hoje é diferente.

Hoje a revista “The Economist” vive dizendo que o Brasil é uma maravilha e  estamos até acreditando nisto. Houve melhoras louváveis  na gestão Gil-Juca no Ministério da Cultura. Conseguimos botar uma biblioteca em cada município e temos milhares de programas de “mediadores de leitura”. O governo desonerou a indústria editorial de impostos esperando que ela invista na produção de leitores e não de livros apenas.  Mas continuamos sendo o pais de um autor só. E para sair disto é simples e barato: basta lançar um projeto não só de tradução, mas de financiamento de edições de 200 autores por ano. Uma andorinha só não faz verão. Se em 2013 tivéssemos 600 autores ( ou títulos) novos em outras línguas, aí, quem sabe, o livreiro europeu ia descobrir que a literatura brasileira existe?

Essa intervenção maciça no mercado é urgente, até para compensar a invasão de best-seller estrangeiros em nosso país. Basta comparar as listas de mais vendidos dos anos 60 e 70 com a de agora, para ver como o nosso QI literário baixou alarmantemente.

Sei que o atual governo está começando a cuidar deste assunto. Até estive numa reunião do “povo do livro” na FBN comandada por Galeno Amorim. Mas por mais que esse assunto operacionalmente esteja na área de dois ou três ministérios, só resultará num avanço histórico caso se transforme numa ação do Estado, num assunto de interesse maior da Presidência da República.

Repito: Frankfurt  2013 é  a olimpíada, a copa e o rock do “povo do livro”.

(Fonte: CorreioBraziliense, 15 de maio de 2011)

As intermitências da morte

05/05/2011 às 3:39 | Publicado em Baú de livros | Deixe um comentário
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SaramagoA cada obra de Saramago que acabo de ler me dá logo vontade de compatilhar com os amigos. E este ‘Baú de Livros’ é para mim o melhor espaço para isso. Nas “Intermitências da Morte’ Saramago segue com seu estilo já tradidiconal (apesar de abaixo quem fez o resumo na Wikipedia se referir a ‘capítulos’, não é isso que se vê na edição que acabo de ler!): parágrafos enormes, ausência de nomes próprios e aqui e acolá de uma maiúscula e outras licenças que só mesmo um gênio da língua pode se dar ao luxo, e nos brindar com um enredo que nos encanta sempre pelo ineditismo, criatividade e exploração da nossa condição humana. Desta vez num país imaginário (seria o nosso velho e bom Portugal – 10 milhões de habitantes ?), a partir de um certo 1º de janeiro ninguém mais morre. Quem ainda não leu esta obra, e teve a infelicidade de até hoje nunca ter lido Saramago, pode imaginar o que há de vir nas duzentas próximas páginas do livro. Abaixo um resumo:


AS INTERMITÊNDCIAS DA MORTE Intermitencias_Morte

As Intermitências da Morte é um livro do escritor português José Saramago publicado em 2005. Sua frase inicial “No dia seguinte ninguém morreu” é ponto de partida para ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.

Fiel ao seu estilo e ainda mais sarcástico e irônico, Saramago vai além de reflexões existenciais, fazendo uma dura crítica a sociedade moderna (o país da obra é fictício) ao relatar as reações da Igreja, do Governo, do Clero, dos repórteres, dos filósofos, dos economistas, das funerárias, casas de pensão, hospitais, seguradoras, das famílias com um moribundo em casa, da máphia, etc.

Morte

Pode-se dividir a obra em três partes. A primeira é a intermitência da morte, uma visão panorâmica dos fatos a partir do dia 1º de janeiro, quando ninguém mais morreu naquele país. Aqui são abordados os paradoxos da ausência da morte, conflitos, discussões e soluções para o problema dos que não morrem nem podem voltar a viver, os moribundos.

No sétimo capítulo há uma carta encaminhada pela morte a uma emissora de televisão, para que seja levada a público a notícia de seu retorno. Contudo, o retorno dar-se-á sob novas regras: “a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios (…) ofereci uma pequena amostra do que para eles seria viver para sempre (…) a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em dia o que ainda lhe resta na vida”. Para cada um a quem estivesse a chegar a temida hora da partida sem volta, o tal prazo de sete dias seria precedido pelo recebimento de uma carta, de autoria da morte, anunciando-lhe a “rescisão deste contrato temporário a que chamamos vida”. Este novo sistema de anunciação e a reação das pessoas – também calamitosa – tomará os próximos três capítulos.

No décimo capítulo, uma dessas cartas – que deveria ser recebida por um violoncelista – é devolvida à remetente (tal como o pode ocorrer em autênticas correspondências postais), e a partir daí há uma narração mais clássica com personagens (a morte e o músico), espaço e conflitos bem definidos. Nesta parte a morte é humanizada, para muitos o ponto alto do livro. Gabriel Perisséu, escritor e crítico, afirma que “importa saborear a sabedoria com que o autor aborda a personificação da morte e a necessidade que esta sente (feminina ela se apresenta) de ser amada”.

[editar] Discussões acerca da linguagem e da obra

“As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu.”

Aliando-se a uma tendência de desconstrução surgida no século XX, o narrador em Saramago por diversas vezes dialoga com o leitor, rompe o fluxo ficcional para discussões sobre o léxico ou sobre a própria narrativa. Em certo momento o narrador brinca com a verosimilhança ao dizer que o leitor perguntará como a morte pagou os ingressos com os quais veria uma apresentação do músico (quando, na verdade, a própria existência física da morte já seria racionalmente inverosímil).

[editar] Trechos

  • “A vantagem da igreja é que, embora às vezes o não pareça, ao gerir o que está no alto, governa o que está em baixo. (…) a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso”.[1]
  • “De Deus e da morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas.”, página 146
  • “Os amantes da concisão, do modo lacônico, da economia de linguagem, decerto se estarão perguntando porque, sendo a idéia assim tão simples, foi preciso todo este arrazoado para chegarmos enfim ao ponto crítico. A resposta também é simples, e vamos dá-la utilizando um termo atual, moderníssimo, com o qual gostaríamos de ver compensados os arcaísmos com que, na provável opinião de alguns, hemos salpicando de mofo este relato, Por mor do background.”, página 67
  • “É possível que só uma educação esmerada, daquelas que já se vêm tornando raras, a par, talvez, do respeito mais ou menos superticioso que nas almas timoratas a palavra escrita costuma infundir, tenha levado os leitores, embora motivos não lhes faltassem para manifestar explícitos sinais de mal contida impaciência, a não interromperem o que tão profusamente viemos relatando e a quererem que se lhes diga o que é que anunciou o seu regresso.”, página 123
  • “Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto.”, páginas 158 e 159
  • “Não entendo nada, falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida, Você não é a vida, Sou muito menos complicada que ela.”, página 198
  • “Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.”, página 214

Referências

  1. José Saramago. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 19-20.

Livro em papel, autoria, biblioteca universal

21/04/2011 às 3:16 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Confesso uma falha nestes mais de três anos de ZEducando: nunca havia postado um texto de Dimenstein, jornalista que tanto admirei no passado. Corrijo agora com este artigo publicado na Folha de São Paulo, dia 10 deste. Como podem constatar com a leitura, o título bem que poderia ser algo como : “O destino do livro em papel, a questão da autoria e a biblioteca universal”. A reflexão é sobre o ‘fim do livro’ como o conhecemos hoje, mas vai além, colocando questões como a autoria num paralelo interessante com o que ocorreu com a música e o Napster, além da notícia sobre a grande biblioteca universal. Todos estes três temas básicos já foram postados aqui, mas é sempre bom ler sobre eles na pena de um grande jornalista que se dedica a Educação há vários anos.


O LIVRO DE PAPEL JÁ MORREU ? (Gilberto Dimenstein) Dimenstein

Com a proliferação dos e-books, surgiu um mercado paralelo legal e clandestino de distribuição de arquivos
USANDO AS NOVAS ferramentas de comunicação, um grupo de professores da África do Sul está inovando o jeito como se produzem livros didáticos e acabaram se transformando numa experiência acompanhada por diversos centros de tecnologia do mundo.
Espalhados em diversas partes do país, eles escrevem coletivamente, numa página da internet, livros sobre todas as matérias ensinadas nas escolas. Mas cada professor adapta o conteúdo para sua realidade local, a começar do seu bairro. Um mesmo livro, portanto, pode ter centenas de diferentes versões.
Como nem todas as escolas têm acesso à internet (onde os conteúdos estão disponíveis gratuitamente), encontraram uma saída.
Sem cobrar direitos autorais, eles organizam o material e entregam textos para editoras tradicionais. O livro chega às escolas com um preço mais barato. “Em pouco tempo, o papel será dispensável”, disse o físico Mark Horner, um dos coordenadores do projeto batizado de Siyavula.
Essa foi uma das experiências que chamaram a atenção num encontro na semana passada que reuniu, nos EUA, alguns especialistas em inovações tecnológicas e educação. Serve como mais uma provocação sobre o futuro da produção e distribuição do conhecimento no geral e dos livros e dos escritores em particular.

O fim do livro de papel é tido como uma questão de tempo. Isso significa que as livrarias vão desaparecer? Para quem, como eu, tem prazer de andar por livrarias e sentir o papel, essa é uma pergunta incômoda.
Andando aqui no metrô, vemos quanta gente aderiu ao livro eletrônico. Algumas escolas resolveram aposentar os livros didáticos de papel, usando até o argumento de que, assim, deixam as mochilas mais leves e preservam a saúde dos estudantes. Comemora-se até o fato de que, com os novos aparelhos, cresce a venda entre os mais jovens.
Com o aumento do consumo dos e-books, surgiu um mercado paralelo legal e clandestino de distribuição de arquivos.

Está acontecendo com os escritores o que, no passado, ocorreu com os músicos, quando surgiu o Napster. Depois de muita briga por causa da troca clandestina de arquivos, começaram a reinventar um novo modelo de negócios. Mas cada vez se ganha menos dinheiro vendendo CDs aliás, quase ninguém mais vende CDs. Assim como os mais jovens já não usam mais relógios de pulso. Nem e-mail. A onda de aplicativos está tornando até obsoleta a internet do www.
Os músicos podem compensar a queda da renda fazendo shows. O que os escritores deveriam fazer? Palestras remuneradas?
Podemos não gostar quando uma mudança tecnológica nos afeta, mas adoramos poder falar pelo Skype sem pagar a ligação telefônica.
Não é tão diferente assim dos desafios do jornal que se estruturam para cobrar os conteúdos digitais.
É um desafio que atinge as escolas. Os conteúdos das matérias já podem ser encontrados na internet, algumas vezes com recursos mais interessantes e provocativos do que os dados em sala de aula. O Media Lab, do MIT, desenvolveu uma plataforma (Scratch) em que as próprias crianças fazem seus jogos e trocam suas criações pelo mundo aliás, o MIT desenvolveu conteúdos gratuitos só para o ensino médio.

Como a transmissão do conhecimento não para de crescer, os modelos de negócio, depois do baque, vão se reinventando, gerando perdedores e ganhadores. Alguém poderia imaginar que jornais pagariam parte dos salários dos jornalistas com base no número de clicks em suas páginas ou matérias na internet?
Estudos têm mostrado que, depois da onda provocada pelo Napster, não diminuiu a produção musical pelo mundo e a produção de aplicativos foi estimulada.
Os desafios da sustentabilidade são enormes, mas as oportunidades são maiores ainda.
Um caso está correndo aqui em Harvard, onde ganha força um ambicioso projeto para criar a maior biblioteca digital do mundo, que é acessível a todos. A pretensão é nada menos do que selecionar todo o conhecimento já produzido pela humanidade. Uma das inspirações é a Europeana, na qual se encontra 15 milhões de versões digitais de livros e obras de arte.
Além de Harvard, estão aderindo ao projeto as maiores universidades americanas com seus monumentais acervos de livros, além da biblioteca do Congresso americano. Representantes da Apple, Microsoft e Google estão participando dos encontros.

Os livros de papel, os CDs e até as escolas tradicionais podem morrer. Mas o conhecimento está cada vez acessível.
PS- Coloquei na internet (www.catracalivre.com.br) mais detalhes dos projetos citados nesta coluna.

Criança, entre o Livro e a TV !

19/04/2011 às 3:19 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Bebe_LerHá mais ou menos 23 anos,  quando minha filha nasceu, um amigo me indicou um livro: “Como Ensinar o Bebê a Ler”, do neurocirurgião norte-americano Glenn Doman. O livro é interessantíssimo, recomendo a todos que são e aos que ainda pretendem ser pais. Marinheiro de primeira (e no meu caso) única viagem, professor, claro que tentei usar o método do Dr Glenn com minha filha. E como a maioria acho que ela teve uma evolução natural nessa área. O livro eu emprestei a um casal de amigos que nunca me devolveu. A despeito do método, interessante, simples e prático, o que mais me impressionou no livro foram os ensinamentos do autor (e ao final do livro os depoimentos de pais e mães) sobre o funcionamento do cérebro humano. Lembro-me muito bem que ele menciona ali experiências de hemisferectomia (ou um palavrão semelhante), nas quais ele retirarava a parte lesionada do cérebro de crianças (algumas vezes a metade do cérebro – lado) e a criança evoluía com o crescimento quase sem problemas, ‘provando’ que a parte boa como que assumia as funções da outra parte do cérebro. Isso para mim foi algo fantástico, e nos faz pensar em todas as terorias (e livros) explicando as funções (???) do lado direito e as do lado esquerdo do cérebro… Como ficam estas teorias diante das experiências do Dr Glenn ? (e isso há mais de duas décadas !).

Mas tudo isso foi só o mote para o artigo de Frei Betto que posto agora, atualissimo. Saiu no Correio Braziliense, de 08 de abril, onde ele cita no início o Dr Glenn e sua esposa e nos faz refletir sobre o uso da TV e a importância dos livros para nossas crianças. Vale a reflexão.


CRIANÇA, ENTRE LIVROS E TV (Frei Betto) FreiBetto2

Foi o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, um dos mestres de meu irmão Léo, também terapeuta, que me despertou para as obras de Glenn e Janet Doman, do Instituto de Desenvolvimento Humano de Filadélfia. O casal é especialista no aprimoramento do cérebro humano.

Os bichos homem e mulher nascem com cérebros incompletos. Graças ao aleitamento, em três meses as proteínas dão acabamento a este órgão que controla os nossos mínimos movimentos e faz o nosso organismo secretar substâncias químicas que asseguram o nosso bem-estar. Ele é a base de nossa mente e dele emana a nossa consciência. Todo o nosso conhecimento, consciente e inconsciente, fica arquivado no cérebro.

Ao nascer, nossa malha cerebral é tecida por cerca de 100 bilhões de neurônios. Aos seis anos, metade desses neurônios desaparecem como folhas que, no outono, se desprendem dos galhos. Por isso, a fase entre zero e 6 anos é chamada de “idade do gênio”. Não há exagero na expressão, basta constatar que 90% de tudo que sabemos de importante à nossa condição humana foram aprendidos até os 6 anos: andar, falar, discernir relações de parentesco, distância e proporção; intuir situações de conforto ou risco, distinguir sabores etc.

Ninguém precisa insistir para que seu bebê se torne um novo Mozart que, aos 5 anos, já compunha. Mas é bom saber que a inteligência de uma pessoa pode ser ampliada desde a vida intrauterina. Alimentos que a mãe ingere ou rejeita na fase da gestação tendem a influir, mais tarde, na preferência nutricional do filho. O mais importante, contudo, é suscitar as sinapses cerebrais. E um excelente recurso chama-se leitura.

Ler para o bebê acelera seu desenvolvimento cognitivo, ainda que se tenha a sensação de perda de tempo. Mas é importante fazê-lo interagindo com a criança: deixar que manipule o livro, desenhe e colora as figuras, complete a história e responda a indagações. Uma criança familiarizada desde cedo com livros terá, sem dúvida, linguagem mais enriquecida, mais facilidade de alfabetização e melhor desempenho escolar.

A vantagem da leitura sobre a TV é que, frente ao monitor, a criança permanece inteiramente receptiva, sem condições de interagir com o filme ou o desenho animado. De certa forma, a TV “rouba” a capacidade onírica dela, como se sonhasse por ela.

A leitura suscita a participação da criança, obedece ao ritmo dela e, sobretudo, fortalece os vínculos afetivos entre o leitor adulto e a criança ouvinte. Quem de nós não guarda afetuosa recordação de avós, pais e babás que nos contavam fantásticas histórias?

Enquanto a família e a escola querem fazer da criança uma cidadã, a TV tende a domesticá-la como consumista. O Instituto Alana, de São Paulo, do qual sou conselheiro, constatou que num período de 10 horas, das 8h às 18h de 1º de outubro de 2010, foram exibidos 1.077 comerciais voltados ao público infantil; média de 60 por hora ou 1 por minuto!

Foram anunciados 390 produtos, dos quais 295 brinquedos, 30 de vestuário, 25 de alimentos e 40 de mercadorias diversas. Média de preço: R$ 160! Ora, a criança é visada pelo mercado como consumista prioritária, seja por não possuir discernimento de valor e qualidade do produto, como também por ser capaz de envolver afetivamente o adulto na aquisição do objeto cobiçado.

Há no Congresso mais de 200 projetos de lei propondo restrições e até proibições de propaganda ao público infantil. Nada avança, pois o lobby do Lobo Mau insiste em não poupar Chapeuzinho Vermelho. E quando se fala em restrição ao uso da criança em anúncios (observe como se multiplica!) logo os atingidos em seus lucros fazem coro: “Censura!”

Concordo com Gabriel Priolli: só há um caminho razoável e democrático a seguir, o da regulação legal, aprovada pelo Legislativo, fiscalizada pelo Executivo e arbitrada pelo Judiciário. E isso nada tem a ver com censura, trata-se de proteger a saúde psíquica de nossas crianças.

O mais importante, contudo, é que pais e responsáveis iniciem a regulação dentro da própria casa. De que adianta reduzir publicidade se as crianças ficam expostas a programas de adultos nocivos à sua formação?

Erotização precoce, ambição consumista, obesidade excessiva e mais tempo frente à TV e ao computador que na escola, nos estudos e em brincadeiras com amigos, são sintomas de que seu ou sua querido(a) filho(a) pode se tornar, amanhã, um amargo problema.

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