Autobiografia de Nikola Tesla decifra o visionário
05/05/2013 às 6:01 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros | 1 ComentárioTags: ciência, livro, Tecnologia
Tesla já esteve aqui antes algumas vezes. É uma personalidade digna de estudo. Estava de fato bem além do seu tempo. Li recentemente este livro, recomendo. Segue um artigo publicado no jornal A TARDE, Salvador-BA, sobre o tema.
Autobiografia de Nikola Tesla decifra o visionário
Além de Leonardo da Vinci e Albert Einstein, poucos homens da ciência geraram tanto interesse, referências na cultura pop e interrogações quanto Nikola Tesla (1856-1943). Um bom começo para tentar decifrá-lo é através de suas próprias palavras, no livro Minhas Invenções: A Autobiografia de Nikola Tesla, recém-publicada no Brasil.
O engenheiro elétrico, mecânico e físico, nascido em Smiljan, uma vila remota do que hoje é a Croácia, é no mínimo, um dos homens que projetaram o mundo em que vivemos hoje, com energia elétrica, radares, raios- x, comunicação wireless e aparelhos de controle remoto (incluindo os horríveis drones).
E mais: ele pode ser o homem que projetou o mundo em que viveremos amanhã. Suas ideias e projetos eram tão avançados no tempo, que até hoje cientistas de toda parte coçam as cabeças tentando entendê-los.
Saiba mais
Idealismo versus capitalismo - Em seu livro, curiosamente curto e objetivo, Tesla confirma sua vocação de visionário de forma bastante literal: “Na minha infância, sofria de uma estranha perturbação devido ao aparecimento de imagens, geralmente acompanhadas de fortes clarões de luz”, descreve.
Intrigado, resolveu se concentrar naquilo que as visões lhe mostravam. Acabou por domina-las, de forma que passou a criar, projetar e até mesmo a operar suas invenções mentalmente. “É absolutamente irrelevante para mim se testo a minha turbina em pensamento ou na oficina”, escreveu.
Depois de emigrar para os Estados Unidos e trabalhar na então nascente indústria da energia elétrica, para a qual desenvolveu inúmeras patentes, tomou um calote de Thomas Edison, que riu na sua cara e lhe disse que ele “não entendia o senso de humor americano”.
Tesla acreditava que o sistema de corrente alternada (AC) para transmissão de energia era muito mais eficiente e lucrativo do que o da corrente direta (DC), usado ainda hoje.
Mais tarde, desenvolveu sua teoria mais ambiciosa: extrair energia do campo eletromagnético da Terra. Uma única torre transmissora, que começou a ser construída em Long Island (NY), mas que nunca concluída, seria o bastante para fornecer energia infinita e gratuita para todo o planeta.
“O problema é o seguinte: Tesla era um idealista”, define o sérvio Boris Petrovic, fundador do Instituto de Energias Sustentáveis Nikola Tesla, criado em dezembro último, em Brasília.
“Ele nunca entendeu como o capitalismo funciona. Puxar do campo eletromagnético energia gratuita para todos vai contra muitos interesses”, vê.
Depois de gastar todo o dinheiro das patentes de suas invenções nos próprios experimentos, Tesla, que nunca se casou, morreu aos 86 anos, de trombose coronária, falido e solitário em um quartinho de hotel em Nova York. Seu legado (e sua figura), porém, sobrevivem na consciência coletiva das comunidades científicas e culturais.
Cartum – Cau Gomez
18/03/2012 às 8:44 | Publicado em Baú de livros, Fotografias e desenhos | Deixe um comentárioTags: livro
Por que no “Baú de livros”, se é de “Fotografias e desenhos” ? Porque a essência da mensagem é essa: o livro e a leitura iluminando a cabeça do homem !
FONTE: Jornal A TARDE, Salvador/BA, 18/03/2012
FRANKFURT VEM AÍ
06/06/2011 às 3:50 | Publicado em Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentárioTags: Brasil, filosofia, livro
Nos preocupamos com o Rock in Rio, com a Copa, com as Olinpíadas, e a Feira do Livro de 2013 em Frankfurt, onde o Brasil será o país tema ? Vale a pena a leitura e refelxão desse artigo de Affonso Romano de Sant’Anna !
Milhares se pessoas estão se mobilizando para o próximo Rock in Rio, no final de 2011, milhares de outras estão envolvidas nos projetos da Copa do Mundo em 2014 e milhares, talvez milhões, na preparação das Olimpíadas 2016.
E para a Feira do Livro de 2013, em Frankfurt, quando o Brasil será o país tema, como estão as coisas?
Essa Feira, na Alemanha, a maior do mundo, deveria ter a importância do festival internacional do rock, da Copa e das Olimpíadas.
Frankfurt é a olimpíada, a copa e o rock do “povo do livro”.
Estava em Paris, há dias. E tive que experimentar uma vez mais essa melancólica humilhação: a literatura brasileira é a literatura de um autor só- Jorge Amado. Olhei, como venho fazendo há mais de 50 anos, as estantes dedicadas a tchecos, poloneses, asiáticos, russos, japoneses, nórdicos, americanos e latino americanos. Cadê o Brasil? Nada. Procurando muito, lá está Jorge Amado (sempre) entre eles, os de língua espanhola. Mais ninguém. Nem Clarice, nem Drummond, nem Guimarães Rosa ou Machado de Assis. Nelson Rodrigues, nem pensar.
Pergunto cinicamente ao vendedor: -Por que não tem uma estante de autores brasileiros? Ele, condescendente, diz: – Não há autores suficientes.
A gente quando olha o mundo a partir daqui, acha que além dos maiores rios e florestas do mundo, temos a melhor música, a melhor literatura, o melhor cinema, etc. Olhado o Brasil de fora para dentro, é diferente: não existimos. Somos uma coisa exótica abaixo do Equador. Lembro-me de quando dava aulas de literatura brasileira no exterior, as pessoas ao saberem disto, me perguntavam:- Mas existe isto? Me olhavam como Montesquieu olhava um persa em Paris. Aos seus olhos eu estava dando aulas de uma coisa inexistente.
A primeira vez que fui à Itália, nos anos 60, vi um livro de Rosário Fusco sendo vendido numa banca da Via Veneto . Pensei: Rosário Fusco está arrebentando na Europa. Não era verdade. Deve ter acontecido com ele o que acontece com qualquer autor brasileiro: algum editor ou tradutor entusiasmado faz essa proeza. E fica nisto. Não há política cultural, Não há um projeto contínuo e consequente de exportação da literatura brasileira .
Digo isto por ter sido um dos articuladores da presença brasileira na Feira de Frankfurt em 1994, quando presidia a Fundação Biblioteca Nacional. Foi um esforço memorável, apesar de todos os problemas. O pavilhão brasileiro conseguiu ser mais visitado que o da França, que detinha o récorde de visitas. Havíamos criado estratégias de exportação da cultura brasileira e um projeto de tradução de nossos autores. O país tinha então 160 milhões de habitantes, hoje 200 milhões. Estávamos ( ainda) em crise. Durante os seis anos que passei na FBN convivi tive seis ministros da cultura. Era impossível um planejamento sério, a longo prazo. Hoje é diferente.
Hoje a revista “The Economist” vive dizendo que o Brasil é uma maravilha e estamos até acreditando nisto. Houve melhoras louváveis na gestão Gil-Juca no Ministério da Cultura. Conseguimos botar uma biblioteca em cada município e temos milhares de programas de “mediadores de leitura”. O governo desonerou a indústria editorial de impostos esperando que ela invista na produção de leitores e não de livros apenas. Mas continuamos sendo o pais de um autor só. E para sair disto é simples e barato: basta lançar um projeto não só de tradução, mas de financiamento de edições de 200 autores por ano. Uma andorinha só não faz verão. Se em 2013 tivéssemos 600 autores ( ou títulos) novos em outras línguas, aí, quem sabe, o livreiro europeu ia descobrir que a literatura brasileira existe?
Essa intervenção maciça no mercado é urgente, até para compensar a invasão de best-seller estrangeiros em nosso país. Basta comparar as listas de mais vendidos dos anos 60 e 70 com a de agora, para ver como o nosso QI literário baixou alarmantemente.
Sei que o atual governo está começando a cuidar deste assunto. Até estive numa reunião do “povo do livro” na FBN comandada por Galeno Amorim. Mas por mais que esse assunto operacionalmente esteja na área de dois ou três ministérios, só resultará num avanço histórico caso se transforme numa ação do Estado, num assunto de interesse maior da Presidência da República.
Repito: Frankfurt 2013 é a olimpíada, a copa e o rock do “povo do livro”.
(Fonte: CorreioBraziliense, 15 de maio de 2011)
As intermitências da morte
05/05/2011 às 3:39 | Publicado em Baú de livros | 1 ComentárioTags: livro, Saramago
A cada obra de Saramago que acabo de ler me dá logo vontade de compatilhar com os amigos. E este ‘Baú de Livros’ é para mim o melhor espaço para isso. Nas “Intermitências da Morte’ Saramago segue com seu estilo já tradidiconal (apesar de abaixo quem fez o resumo na Wikipedia se referir a ‘capítulos’, não é isso que se vê na edição que acabo de ler!): parágrafos enormes, ausência de nomes próprios e aqui e acolá de uma maiúscula e outras licenças que só mesmo um gênio da língua pode se dar ao luxo, e nos brindar com um enredo que nos encanta sempre pelo ineditismo, criatividade e exploração da nossa condição humana. Desta vez num país imaginário (seria o nosso velho e bom Portugal – 10 milhões de habitantes ?), a partir de um certo 1º de janeiro ninguém mais morre. Quem ainda não leu esta obra, e teve a infelicidade de até hoje nunca ter lido Saramago, pode imaginar o que há de vir nas duzentas próximas páginas do livro. Abaixo um resumo:
As Intermitências da Morte é um livro do escritor português José Saramago publicado em 2005. Sua frase inicial “No dia seguinte ninguém morreu” é ponto de partida para ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência.
Fiel ao seu estilo e ainda mais sarcástico e irônico, Saramago vai além de reflexões existenciais, fazendo uma dura crítica a sociedade moderna (o país da obra é fictício) ao relatar as reações da Igreja, do Governo, do Clero, dos repórteres, dos filósofos, dos economistas, das funerárias, casas de pensão, hospitais, seguradoras, das famílias com um moribundo em casa, da máphia, etc.
Pode-se dividir a obra em três partes. A primeira é a intermitência da morte, uma visão panorâmica dos fatos a partir do dia 1º de janeiro, quando ninguém mais morreu naquele país. Aqui são abordados os paradoxos da ausência da morte, conflitos, discussões e soluções para o problema dos que não morrem nem podem voltar a viver, os moribundos.
No sétimo capítulo há uma carta encaminhada pela morte a uma emissora de televisão, para que seja levada a público a notícia de seu retorno. Contudo, o retorno dar-se-á sob novas regras: “a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios (…) ofereci uma pequena amostra do que para eles seria viver para sempre (…) a partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em dia o que ainda lhe resta na vida”. Para cada um a quem estivesse a chegar a temida hora da partida sem volta, o tal prazo de sete dias seria precedido pelo recebimento de uma carta, de autoria da morte, anunciando-lhe a “rescisão deste contrato temporário a que chamamos vida”. Este novo sistema de anunciação e a reação das pessoas – também calamitosa – tomará os próximos três capítulos.
No décimo capítulo, uma dessas cartas – que deveria ser recebida por um violoncelista – é devolvida à remetente (tal como o pode ocorrer em autênticas correspondências postais), e a partir daí há uma narração mais clássica com personagens (a morte e o músico), espaço e conflitos bem definidos. Nesta parte a morte é humanizada, para muitos o ponto alto do livro. Gabriel Perisséu, escritor e crítico, afirma que “importa saborear a sabedoria com que o autor aborda a personificação da morte e a necessidade que esta sente (feminina ela se apresenta) de ser amada”.
[editar] Discussões acerca da linguagem e da obra
“As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu.”
Aliando-se a uma tendência de desconstrução surgida no século XX, o narrador em Saramago por diversas vezes dialoga com o leitor, rompe o fluxo ficcional para discussões sobre o léxico ou sobre a própria narrativa. Em certo momento o narrador brinca com a verosimilhança ao dizer que o leitor perguntará como a morte pagou os ingressos com os quais veria uma apresentação do músico (quando, na verdade, a própria existência física da morte já seria racionalmente inverosímil).
[editar] Trechos
- “A vantagem da igreja é que, embora às vezes o não pareça, ao gerir o que está no alto, governa o que está em baixo. (…) a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso”.[1]
- “De Deus e da morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas.”, página 146
- “Os amantes da concisão, do modo lacônico, da economia de linguagem, decerto se estarão perguntando porque, sendo a idéia assim tão simples, foi preciso todo este arrazoado para chegarmos enfim ao ponto crítico. A resposta também é simples, e vamos dá-la utilizando um termo atual, moderníssimo, com o qual gostaríamos de ver compensados os arcaísmos com que, na provável opinião de alguns, hemos salpicando de mofo este relato, Por mor do background.”, página 67
- “É possível que só uma educação esmerada, daquelas que já se vêm tornando raras, a par, talvez, do respeito mais ou menos superticioso que nas almas timoratas a palavra escrita costuma infundir, tenha levado os leitores, embora motivos não lhes faltassem para manifestar explícitos sinais de mal contida impaciência, a não interromperem o que tão profusamente viemos relatando e a quererem que se lhes diga o que é que anunciou o seu regresso.”, página 123
- “Por um instante a morte soltou-se a si mesma, expandindo-se até às paredes, encheu o quarto todo e alongou-se como um fluido até à sala contígua, aí uma parte de si deteve-se a olhar o caderno que estava aberto sobre uma cadeira, era a suite número seis opus mil e doze em ré maior de johann sebastian bach composta em cöthen e não precisou de ter aprendido música para saber que ela havia sido escrita, como a nona sinfonia de beethoven, na tonalidade da alegria, da unidade entre os homens, da amizade e do amor. Então aconteceu algo nunca visto, algo não imaginável, a morte deixou-se cair de joelhos, era toda ela, agora, um corpo refeito, e por isso é que tinha joelhos, e pernas, e pés, e braços, e mãos, e uma cara que entre as mãos escondia, e uns ombros que tremiam não se sabe porquê, chorar não será, não se pode pedir tanto a quem sempre deixa um rasto de lágrimas por onde passa, mas nenhuma delas que seja sua. Assim como estava, nem visível nem invisível, em esqueleto nem mulher, levantou-se do chão como um sopro e entrou no quarto.”, páginas 158 e 159
- “Não entendo nada, falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida, Você não é a vida, Sou muito menos complicada que ela.”, página 198
- “Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.”, página 214
Referências
- ↑ José Saramago. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 19-20.
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