TRAGÉDIA MATEMÁTICA BRASILEIRA: o verdadeiro gargalo na formação de engenheiros

08/05/2013 às 3:28 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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Alarmante ! Para pensar, não só os Engenheiros e estudantes, mas a sociedade como um todo. Há duas referências no ZEducando ao PISA:

1 ) China, Coréia do Sul e…. Finlândia - http://joserosafilho.wordpress.com/2012/05/24/china-coreia-do-sul-e-finlandia/

2 ) Qual o segredo ?http://joserosafilho.wordpress.com/2012/04/20/qual-o-segredo/


O VERDADEIRO GARGALO NA FORMAÇÃO DOS ENGENHEIROS – TRAGÉDIA MATEMÁTICA BRASILEIRA

MAIS VAGAS EM CURSOS DE ENGENHARIA NÃO COMPENSAM A MÁ QUALIDADE DA EDUCAÇÃO BÁSICA[1]

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(Fernando Paixão – Professor do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp e Marcelo Knobel – Pró-reitor de graduação da Unicamp e professor do Instituto de Física Gleb Wataghin)

Entre as questões em debate em educação, destacam-se hoje a motivação dos nossos jovens para cursar o ensino médio e a quantidade de profssionais em áreas de ciência e tecnologia. Muitos encaram o desafo com propostas pensadas no sentido de solucionar o obstáculo para a frente no tempo escolar: reformar o ensino médio para torná-lo atrativo, por exemplo. Ou formar mais engenheiros e mais professores de química e física criando vagas no ensino superior para essas carreiras. Essas propostas são importantes, mas não levam em consideração limitações de perfl dos alunos, resultantes de falhas no ensino fundamental.

O que de fato limita a qualidade e o número de formandos nas áreas de ciências exatas e tecnológicas? Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) [2]   apontam que a maior restrição está no número de jovens com habilidades mínimas em matemática. Habilidades que os capacitem a seguir, com sucesso, o ensino médio e, depois, uma carreira nas áreas de exatas e tecnológicas. Essa defciência na formação, que ainda pode ser somada a outras (leitura, por exemplo), impedirá que qualquer eventual reforma produza resultados na escala esperada.

Os resultados de avaliações internacionais tendem a repercutir entre nós apenas pela constatação de que estamos nas últimas colocações. Mas o PISA vai muito além de um mero ranking: fornece dados sobre o desempenho dos jovens de 15 anos distribuídos em seis níveis distintos de competência. Explorar mais atentamente esses dados pode ajudar a iluminar o debate.

O exame do PISA em 2009 foi feito por aproximadamente 470 mil estudantes com 15 anos de idade em todo o mundo. A amostra representa 26 milhões de alunos de 15 anos dos 65 países participantes. Cada exame avalia três áreas – leitura, matemática e ciências – e estabelece seis níveis de competência, em ordem crescente de desempenho.

Para dar uma ideia do que signifca um aluno estar em cada um desses níveis (ou abaixo de todos), seguem exemplos de questões na área de matemática. No nível um, ele deve ser capaz de, dada uma quantidade de dinheiro numa moeda, utilizar uma taxa de câmbio para calcular o seu valor em outra. No nível dois, é dada uma altura a ser atingida por uma escada, com um número determinado de degraus, e ele deve calcular qual é a altura de cada degrau. No nível três, é dado um gráfco com duas curvas de onde o aluno deve tirar informações tais como em qual região uma curva é maior que a outra. No nível quatro, volta, com algumas alterações, a questão da taxa de câmbio, com apergunta: a troca foi favorável? No cinco, é dado um gráfco com a distribuição de notas para duas turmas em que o aluno deve argumentar sobre a comparação entre elas. No nível seis, são dadas diversas fguras planas e pede-se para avaliar as de mesmo perímetro.

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A Austrália tem 38,1% dos seus alunos no nível quatro ou superior na avaliação de matemática do PISA; o Canadá, 43,3%; a Coreia do Sul, 51,8%; a China, 71,2%.  O Brasil tem 3,8%

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A distribuição dos alunos brasileiros pelos níveis do PISA está assim: 38,1% estão abaixo do nível um; 31%, no nível um; 19%, no nível dois; 8%, no três; 3%, no nível quatro; 0,7%, no cinco e 0,1%, no seis. Signifca que 88,1% dos alunos não sabem tirar informações de gráfcos e que 96,1% não conseguem explicar o que ocorre numa troca de moeda se a taxa mudar.

A distribuição limita o percentual dos nossos jovens em áreas que exijam competências mínimas em matemática (classifcados do nível quatro para melhor), um dos requisitos que o aluno deve ter para que exista boa chance de sucesso nas carreiras das áreas de exatas e tecnológicas. Só 3,8% dos participantes brasileiros do PISA alcançaram esse desempenho. Considerando que a população de jovens com 15 anos no Brasil é de aproximadamente 3,2 milhões, teríamos, no máximo, cerca de 122 mil jovens aptos para essas carreiras. Tal número cai, no fnal do ensino médio, porque evidentemente há estudantes com habilidades mínimas que optam por outras carreiras, entre outros motivos.

Em 2011, o Ministério da Educação anunciou que dobraria as vagas nos cursos de engenharia. Mas, em 2009, os 1.500 cursos existentes ofereciam aproximadamente 150 mil vagas por ano, tinham 300 mil alunos matriculados (e não 750 mil, que poderiam distribuir-se nos cinco anos de duração) e formaram apenas 30 mil. Uma alta evasão, para a qual contribui o défcit de habilidade matemática que o PISA evidencia.

Reiteramos: 88,1% dos estudantes brasileiros não passam do nível dois do PISA em matemática. Assim, em média, uma turma terá esse percentual de alunos com difculdades em acompanhar os gráfcos das aulas de física, por exemplo. Difculdades na questão típica do nível quatro podem se manifestar ao trabalhar com concentração de substâncias em química.

Certamente há difculdade de encontrar docentes licenciados para física e química, mas sua existência não resolverá as difculdades que os alunos terão em acompanhar essas disciplinas, pois o atraso principal ocorre no ensino fundamental. Somente considerando o limitado desenvolvimento em matemática, tais disciplinas se transformam em barreiras para o aprendizado.

A Austrália tem 38,1% dos seus alunos no nível quatro ou superior na avaliação de matemática do PISA; o Canadá, 43,3%; a Coreia do Sul, 51,8%; a China, 71,2%. O Brasil tem 3,8%. Esses   países têm proporcionalmente pelo menos dez vezes mais alunos aptos para as áreas de exatas e tecnológicas. Mesmo com uma população bem menor, a Coreia pode formar muito mais engenheiros do que nós.

A política educacional nos últimos 20 anos tem sido colocar os alunos na escola, uma etapa muito importante. Porém, hoje, os desafos de tornar o país uma sociedade mais justa e qualifcada requerem ação que vise melhorar, em muito, a qualidade do ensino fundamental. Neste momento em que se discute um novo Plano Nacional de Educação, deveríamos propor ações concretas para atacar a raiz do problema.


[1] Versão resumida deste artigo foi publicada na seção “Tendências / Debates” do jornal Folha de S.Paulo, edição de domingo,  9 de setembro, e comentada em editorial dois dias depois
[2] Em OCDE (2010), PISA 2009 Results: What Students Know and Can Do – Student Performance in Reading, Mathematics and Science (volume 1) http://dx.doi.org/10.1787/9789264091450-en


AnexoArtigo

Dia de prova

29/04/2013 às 3:23 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Esse é mais um bom artigo da Revista Cálculo (nro. 24/2013). Questiona algo que sempre me preocupei em tempos de TIC: como avaliar ?

 

NO DIA A DIA TODOS CONSULTAM LIVROS, AMIGOS E A INTERNET PARA RESOLVER PROBLEMAS MATEMÁTICOS. POR QUE A ESCOLA NÃO APLICA PROVAS MAIS PARECIDAS COM SITUAÇÕES REAIS ? ESPECIALISTAS RESUMEM OS MOTIVOS NUMA PALAVRA: MEDO !

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DIA DE PROVA É MESMO DIA DE MATEMÁTICA ?

Como alguém usa matemática no dia a dia? Primeiro, tem um problema a resolver e lhe parece importante resolvê-lo, E por isso usa uma calculadora científica, consulta livros, busca informações na internet, rascunha as primeiras tentativas de resolução, conversa com amigos, vai dormir. No dia seguinte, usa uma calculadora científica, consulta livros, busca
informações na internet, revisa as primeiras tentativas de resolução e rascunha as segundas, conversa com amigos, vai dormir. E assim por diante até que o problema esteja equacionado e resolvido. Mas que imagem da matemática os professores passam a seus
alunos quando é dia de prova? O aluno não pode usar calculadora, nem consultar nenhum livro, nem navegar na internet, nem conversar com amigos e é melhor que não cochile, ou vá ao banheiro, pois deve gastar no máximo 5 minutos por questão. “Não enchemos a boca para dizer que incentivamos o trabalho em grupo?” pergunta o matemático argentino Adrián Paenza. “Não enchemos a boca para dizer que incentivamos as consultas bibliográficas, as interconsultas com outros especialistas, as discussões e debates em foros? Por que não reproduzimos essas situações na ficção que é a aprendizagem?”

Em poucas palavras: “O professor tem medo.” A autora do diagnóstico é Aline dos Reis Matheus, uma professora de professores (ela dá aulas no Centro de Aperfeiçoamento do Ensino de Matemática da USP), uma professora de alunos comuns (ela também dá aulas de matemática no Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo) e uma coordenadora de professores de matemática (no mesmo colégio). O professor tem medo de organizar uma prova diferente e virar alvo de seus colegas professores, do coordenador, do diretor da
escola, dos pais – e dos próprios alunos.

Os olhos do mundo

Adrián critica o modo como as provas são feitas, mas acha que todo professor deve aplicar algum tipo de prova. “Não proponho o não exame”, ele se explica. “Acho óbvio que, para progredir em qualquer área, em  qualquer estágio da educação, precisamos demonstrar
de alguma forma que sabemos o que deveríamos saber. Isso está fora de discussão.” Em tese, 100% dos professores concordam com Adrián. Aline diz que está bem disseminada a ideia de que as provas não servem para avaliar o aluno, mas sim o professor, a escola para a qual o professor trabalha, o país no qual professores e alunos vivem. “Eu queria que a classe aprendesse isso, isso e mais isso”, explica Aline. “Será que ela aprendeu? Posso seguir adiante ou terei de contornar um problema, pois muitos da classe não entenderam esse ponto ou aquele?” Segundo essa ideia, aplicar provas não significa exatamente medir o que o aluno já sabe, mas sim diagnosticar problemas no sistema de ensino. Embora esse jeito de encarar a função das provas esteja bem disseminado, na prática a prova ainda é bastante
usada como mecanismo de punição.

Quando um professor aplica uma prova, para ele muita coisa está em jogo. Se os alunos obtiverem notas muito boas, a diretoria da escola vai desconfiar: será que ele deu uma prova muito fácil? Os pais também vão desconfiar: será que esse professor é mole? É possível que os próprios alunos queiram desafiar o professor. “No imaginário do aluno”, diz Aline, “professor bom é o professor que cobra, que é exigente. Então exigente é aquele que torna as coisas difíceis?” E se as notas forem muito baixas? A diretoria também vai desconfiar: será que ele sabe ensinar a matéria? Os pais vão reclamar: esse professor não
ensina direito, mas depois, durante a prova, quer que meu filho saiba por milagre o que ele não ensinou. Os próprios alunos vão reclamar. Caso as perguntas da prova não sejam idênticas às perguntas exibidas durante as aulas, de modo que o aluno aplique o método já visto em classe para obter a “resposta certa”, os alunos falam mal do professor para seus pais e para a diretoria. “Esse problema não foi trabalhado em sala de aula é uma reclamação muito comum”, diz Aline. “Muita gente, inclusive os alunos e seus pais, tem essa visão de que a escola serve para reproduzir. Se o aluno tem todas as ferramentas para resolver um
problema, mas esse tipo de problema não foi detalhadamente explicado em sala de aula, então, segundo essa visão, não pode ser usado na prova.”

Provas se tornaram assunto difícil porque são usadas na burocracia do sistema escolar. São documentos formais oriundos de um procedimento formal: um funcionário de escalão mais alto que o professor vai anotar as notas nalgum documento oficial, que depois enviará para secretarias e ministérios. “Se você reparar bem”, diz Aline, “o gestor da escola vai olhar para a avaliação, isto é, para o desempenho dos alunos na avaliação. Os pais do aluno também. Os olhos de todo mundo se voltam muito mais para a avaliação do que para a aula.” Isso significa que até mesmo professores ousados em sala de aula se comportam de modo mais conservador no dia da prova.

Daniel Cérgoli, professor do Colégio Objetivo nos cursos do ensino médio e nos cursos pré-vestibulares, e também professor do Caem-USP, vê uma manifestação disso no colégio onde dá aulas – embora todos no Objetivo estejam conscientes das discrepâncias entre aulas, provas e vida real. “No primeiro e no segundo ano do ensino médio”, diz Daniel, “a gente consegue colocar [na prova} questões que exigem mais raciocínio do aluno.” No terceiro ano, contudo, todo mundo – alunos, professores e pais – está preocupado com o vestibular. Neste caso, a prova deve medir se o aluno será capaz de passar num bom vestibular. A consequência é inevitável: o professor fica com menos opções, e as provas se transformam em eventos parecidos com minivestibulares. Em outras palavras, de certo modo a prova se ajusta automaticamente ao que professores, pais e alunos esperam da escola.

Mero teatro

Se um brasileiro qualquer quer saber como uma escola encara o papel das provas, deve estudar como ela prepara o planejamento. Aline ilustra esse ponto com um exemplo: no sexto ano, a escola deve ensinar números primos à criançada. Numa escola mais moder-
na, ela começará o planejamento com as “expectativas de aprendizagem”, isto é, respondendo à pergunta: depois que o aluno concluir o sexto ano, ele terá de saber que coisas a respeito de números primos? Afinal, números primos são um tema amplíssimo; no mundo inteiro matemáticos brilhantes ganham o pão de cada dia pensando a respeito deles. “O que esperamos que o aluno do sexto ano aprenda sobre números primos? Quando entendemos melhor as expectativas de aprendizagem, podemos criar um mapa melhor para orientar o dia a dia do professor.”

Uma vez que a escola saiba o que o aluno deve aprender, fica mais fácil escolher as ferramentas: Que objetos o aluno vai manusear? Que atividades vai realizar com computadores? Que atividades vai realizar fora da escola? Que textos vai ler ou escrever? Que filmes vai ver? Um planejamento caprichado, diz Aline, praticamente grita o modo como as provas devem ser aplicadas, e com quais objetivos. Para todos dentro da escola (exceto talvez para os alunos e seus pais, que não têm a visão do todo), ficará claro que a prova não serve para castigar ou premiar professores ou alunos por desempenho, nem para emular o vestibular, nem para rechear os arquivos de órgãos do governo. A prova serve tão somente para saber se os alunos estão aprendendo o que deveriam aprender de acordo com o planejamento.

Por isso, nas escolas nas quais a prova serve mais para castigar que para orientar, o planejamento quase sempre é mero teatro. Nessas escolas, há anos o professor ensina o mesmo assunto do mesmo jeito para jovens da mesma idade. Se o planejamento lhe for im-
posto, vai achar um mecanismo pelo qual deixá-lo de lado: talvez possa encará-lo como mera burocracia que a escola deve cumprir, mas que ele pode ignorar. “Isso é muito frequente”, diz Aline. Quando uma escola ganha o apoio do professor, é porque negociou o planejamento do ano com ele, de modo a fazê-lo ver que o planejamento muda todo ano porque as circunstâncias mudam todo ano – uma turma pode ser mais forte ou mais fraca, mais interessada ou menos interessada. Além disso, a legislação pode mudar de um ano para
outro, ou pode surgir alguma técnica pedagógica nova, ou talvez a escola decidiu usar outra coleção de livros didáticos.

Um sinal de que a escola inclui o professor na negociação, em vez de lhe dar ordens, é que ela matricula o professor em cursos especiais para professores. Aline diz que o professor ignora o planejamento não porque é birrento, mas porque não sabe matemática o suficiente
para variar o estilo da aula. “Esse professor tem muita dificuldade para usar ferramentas pouco conhecidas”, diz Aline, e cita o exemplo dos programas de computador especializados em geometria, como o Geogebra. Se o planejamento inclui um item do tipo “dar aos alunos
uma visão mais intuitiva do comportamento de funções importantes”, então tem de treinar o professor, para que saiba entrar em sala de aula e ajudar os alunos a piorar o gráfico de funções importantes e a usar os gráficos na resolução de problemas (veja o texto na pá-
gina 46). Um item como esse não se materializa apenas com palavras no planejamento.

Para Adrián Paenza, uma escola só consegue aplicar provas mais semelhantes a situações reais quando persegue um objetivo difícil de alcançar: fazer com que as crianças e os jovens façam a si mesmos as perguntas que, numa escola convencional, são propostas pelo professor. ”A primeira coisa que um bom professor deveria fazer é gerar perguntas”, diz Adrián. “Quando conseguimos despertar a curiosidade de um jovem, quando tocamos a corda adequada, ele sai em busca da resposta porque lhe interessa encontrá-Ia.” Visto que um jovem assim confia mais em seu professor, tende a encarar a prova como um momento em que ambos, ele e o professor, saberão se seus métodos estão funcionando, e não como um momento em que vale a pena trapacear.

Como salvar vidas com Matemática

27/04/2013 às 3:50 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Este post é dedicado a todos os profissionais de saúde: de como uma brilhante enfermeira utilizou métodos estatísticos e matemáticos para melhorar a saúde pública de seu país (Fonte: Revista Cálculo nro. 24/2013).

FLORENCE NIGHTINGALE USOU MUITA ESTATÍSTICA PARA MELHORAR A SAÚDE PÚBLICA DA INGLATERRA. DEU TÃO CERTO QUE QUASE DOIS SÉCULOS DEPOIS ESPECIALISTAS AINDA USAM SEUS MÉTODOS PARA MELHORAR A VIDA DA POPULAÇÃO.

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Como salvar vidas com Matemática

Uma garotinha inglesa de nove anos, chamada Florence Nightingale, vai até a horta de sua casa colher pepinos, pêssegos e morangos. Sempre que colhe alguma coisa, toma notas. Depois de meses, examina o caderno cheio de tabelas e anotações e busca formas de organizar os dados da melhor maneira possível. Uns 30 anos mais tarde, trabalha num hospital militar na guerra da Crimeia (veja quadro), onde faz novas anotações. Mas desta vez toma notas sobre mortos, doentes e feridos.

Há alguns anos Eileen Magnello, especialista no trabalho de Florence Nightingale, era como muitas pessoas: sabia que Florence tinha reformado a saúde pública no século 19, e que tinha formalizado o papel da enfermagem, mas não sabia que figurava entre as primeiras a organizar e estudar estatísticas sociais. Aliás, na maior parte da reforma que fez na saúde, usava estatística: primeiro para descobrir o que tinha de errado no sistema, depois para convencer políticos a lidar com as descobertas. Ainda hoje, porém, muitos a conhecem apenas como “a senhora da lâmpada”, uma bondosa enfermeira que vagava à noite pelo hospital cuidando dos soldados que lutavam na guerra.

Eileen trabalha no departamento de ciência e tecnologia da University College London (UCL) e só conhece o trabalho estatístico de Florence porque fez um doutorado sobre Karl Pearson (1884-1936), matemático fã das ídeias e trabalhos estatísticos da enfermeira. Quando conseguiu uma bolsa de pós-doutorado no Instituto Welcome para a História da Medicina na UCL, Eileen explorou melhor o trabalho e a influência de Florence nas estatísticas médicas. “Florence Nightingale é reconhecida e venerada por seu papel na reforma de enfermagem, mas merece mais reconhecimento por usar estatística nessa reforma”, explica Eileen. “Seu
trabalho de pesquisa estatística reduziu as mortes evitáveis em hospitais ingleses, sejam militares ou civis. Ela foi pioneira, e transformou a medicina baseada em evidências numa diretriz apoiada por médicos e políticos.”

Combate às estatísticas

Florence era de família rica, porém liberal para a época. Seu pai acreditava que as mu-
lheres deviam estudar, por isso ele mesmo lhe ensinava matérias como matemática, filosofia e latim. Desde cedo ela demonstrou gosto por números e estatística. Eileen escreve num de seus artigos que, aos 20 anos, Florence tinha aulas de matemática com um tutor de Cambridge e ocupava suas manhãs examinando tabelas com dados a respeito de hospitais. Ela acumulava listas e listas de dados, e achava “renovador” olhar para aquele monte de nú-
meros.

Logo decidiu que queria ser enfermeira, mas sua família não era tão liberal a ponto de apoiá-Ia. Naquela época, as enfermeiras tinham péssima fama: viviam bêbadas, falavam palavrões, roubavam os pacientes, tiravam sarro quando um deles morria, e faziam sexo com os que podiam fazer sexo. Então, até os 31 anos, quando conseguiu sair de casa, Florence passou anos estudando medicina e saúde pública, e visitando sempre que podia crianças doentes e hospitais de bairros pobres.

A guerra da Crimeia estourou em outubro de 1853. Os jornais noticiavam a história de
soldados doentes e feridos que eram deixados para morrer sem nenhum cuidado médico.
Florence viu ali uma boa oportunidade de carreira. Mandou uma carta ao amigo e secretário de guerra, Sidney Herbert, para se voluntariar nos hospitais militares. Herbert tinha tido ideia parecida e a convidou para ser superintendente de enfermagem no Hospital Geral Inglês na Turquia.

Quando Florence chegou ao local, em outubro de 1854, encontrou instalações com pulgas e ratos por todo lado. Além disso, os relatórios sobre pacientes não eram padronizados e ninguém registrava muitas informações importantes, inclusive mortes. Com os dados que coletou, Florence descobriu que, por exemplo, em fevereiro de 1855, 42,7% das pessoas tratadas morreram. Além disso, as pessoas morriam mais por falta de higiene, isto é, de doenças que podiam ser evitadas, do que por ferimentos de guerra. Ela tinha dinheiro, doado por pessoas e instituições privadas, com o qual melhorou as condições do hospitaL Em poucos meses, reduziu as mortes de pacientes já tratados de 42,7% para 2,2%.

Após o final da guerra, em 1856, Florence voltou para a Inglaterra e usou estatística para convencer as autoridades de que, em outros hospitais militares, soldados também morriam por doenças evitáveis. Mostrou que a taxa de mortalidade de soldados doentes na guerra da Crimeia não era muito maior que o número de mortes de soldados na Inglaterra. Aliás, a taxa de mortalidade total das tropas britânicas na Crimeia era apenas 2/3 da mortalidade dos soldados na Inglaterra, ou seja, eles estavam morrendo porque viviam em condições insalubres. Eileen conta o que Florence escreveu: “Nossos soldados se alistam para morrer nos quartéis.”

Números convincentes

Florence gostava da pesquisa de campo, de coletar dados antes de tirar conclusões.
Mostrou o que hoje parece óbvio: a importância de obter informações sobre o paciente
antes de definir um tratamento. Ou ainda a importância de saber por que certo paciente
morreu e se os médicos poderiam ter evitado a morte. Florence promoveu a investigação
empírica que quase dois séculos depois ainda tem papel fundamental na saúde pública.
Hoje profissionais da saúde, pesquisadores e epidemiologistas usam análises estatísticas
aos montes para aumentar a qualidade de vida das pessoas, encontrar tratamentos para
novas doenças e combater epidemias.

Eileen conta que Florence também popularizou o uso de gráficos para comunicar os dados estatísticos dos hospitais: com os gráficos, conquistaria o apoio de políticos importantes, visto que os políticos da época não tinham o hábito de examinar tabelas. Criou o gráfico polar e até lhe deu um toque feminino. “Foi um projeto artístico arrojado, com fatias e contornos bem definidos”, diz Eileen. “Ela inovou ao usar cores atribuindo ao gráfico uma individualidade inconfundível.” Sem esse gráfico, Florence teria mais trabalho para convencer políticos e médicos de que novas políticas sanitárias reduziriam as taxas de mortalidade nos hospitais. Ao invés disso, conseguiu mudar até projetos arquitetônicos. As autoridades passaram a projetar hospitais com mais portas para melhorar a circulação do ar e reduzir o contágio por vias respiratórias.

Se hoje as estatísticas estão em todo lugar para o bem e para o mal da população, naquela época era bem diferente. “Os políticos usam hoje dados estatísticos para fins eleitorais, muitas vezes para distorcer as informações em benefício próprio. Na era vitoriana [1837-1901, período em que a rainha Vitória comandou o Reino Unido], políticos negligenciavam as informações estatísticas.” Só se interessavam por estatísticas que lhes mostrassem quantos cidadãos poderiam se alistar no exército ou pagar impostos. Outras pessoas usavam estatísticas no comércio ou em propriedades rurais. Isso levou Florence a pensar na possibilidade de criar um departamento de estatística na Universidade de Oxford para que as pessoas aprendessem a coletar e interpretar dados estatísticos. “Mas a ideia não avançou, pois não recebeu apoio de outros acadêmicos.”

Além de diagramas e gráficos, especialistas também usam outra técnica influenciada por Florence: os ensaios clínicos aleatórios. Nesse método, o pesquisador organiza um
experimento com mais de uma intervenção e realiza cada intervenção a esmo nos pacien-
tes, isto é, sem escolhê-los. Funciona mais ou menos assim: um especialista separa os par-
ticipantes em dois grupos aleatórios, de maneira que formem grupos com características
parecidas. Um grupo (o de estudo) recebe o tratamento A, o outro grupo (de controle)
recebe um placebo; então o especialista compara uma informação estatística num grupo
com a mesma informação no outro. Depois verifica se, por exemplo, no grupo de estudo
as pessoas apresentaram menos casos de uma doença X, enquanto as pessoas que recebe-
ram o placebo apresentaram mais casos da doença X.

Eileen explica que Florence não pensava em teorias estatísticas como as conhecemos hoje, pois especialistas as criaram após seu tempo, mas seus trabalhos empíricos os influenciaram bastante. “Foi a introdução da matemática nos dados estatísticos, principalmente a partir de Karl Pearson no final do século 19 e de R. A. Fisher na década de 1920. Ambos forneceram a base teórica para essas teorias que conhecemos hoje.” Florence não se preocupava com a teoria matemática que pudesse explicar os dados, mas sim com “dados vitais”, isto é, dados ligados à saúde e à morte.

Ao longo dos anos, Eileen mudou de idéia sobre o trabalho de Florence Nightingale, pois percebeu que a enfermeira do século 19 é muito mais competente e capaz do que ela imaginava quando começou a pesquisa há 16 anos. O contato com o trabalho “prodigioso
e exaustivo” de Florence faz “muitas de suas ideias estatísticas continuarem relevantes
até hoje”. Eileen não pretende guardar o que descobriu nesses anos todos para si mesma. Irá publicar um livro sobre como Florence moldou a vida dela e suas ações com trabalhos estatísticos. Para Eileen, o assunto é tão universal que escreverá tanto para historiadores,
estatísticos, enfermeiros quanto para o público em geral. “Com esse livro quero colocar Florence Nightingale na vanguarda da ciência e da estatística, ao invés de relegar seu trabalho a segundo plano, como tantos autores têm feito. Ela era uma cientista e estatística
muito mais competente do que se pensa atualmente. Era muito mais do que apenas a
“senhora com a lâmpada.”


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Piadinha matemática

26/04/2013 às 3:45 | Publicado em Piadas e causos | Deixe um comentário
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FONTE: Revista Cálculo nro. 24/2013

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