As únicas mulheres sérias são a minha mãe e a mãe do leitor

29/04/2012 às 19:01 | Publicado em Artigos e textos, Fotografias e desenhos, Zuniversitas | 1 Comentário
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Essa é de Pittigrilli, segundo Ubaldo na crônica domingueira de hoje, publicada abaixo. Alguns amigos (e eu inclusive) criticam o João Ubaldo quando ele exacerba nas críticas a algumas personalidades, como fez com Lula algumas vezes. Mas os textos dele são imperdíveis. Para mim é o melhor escritor da língua portuguesa vivo, pelo menos do ‘lado de baixo do equador’. A charge abaixo (jornal A TARDE de hoje) tem tudo a ver com o texto dele, a falta de justiça está na raiz do que ele coloca.

JUSTIÇA_SEMVERGONHA


Reflexão dominical (João Ubaldo Ribeiro, numa pancada de jornais de hoje)

Domingo não devia ser dia de pensar ou fazer besteira, pois é o dia do Senhor. Não tem nada de ficar olhando disfarçadamente a cunhada de shortinho, dar beijinhos furtivos de canto de boca em quem topar, nem encher a cara e cantar a mulher do dono da casa enquanto ele cuida do churrasco. Nem tem nada de mostrar, fingindo que não nota, os peitos aos presentes, ou dar um apertãozinho mais caprichado no braço do marido da amiga, na hora em que se apoia nele para mudar de lugar. Muito menos essa sem-vergonhice, ainda vigorosamente praticada em todo o Brasil, de roçar joelhos e coxas por baixo da mesa, para no dia seguinte ou não se lembrar de nada ou cair numa ressaca moral devastadora. Devíamos todos estar meditando sobre a vida e o aperfeiçoamento espiritual, já que nos afastamos um pouco das refregas de todo dia.
Mas não estamos, a verdade é essa, embora eu devesse cumprir a praxe e mencionar a existência de exceções. Claro que há exceções, em quase tudo há exceções. Lembro agora a frase de Pittigrilli escritor na época considerado muito picante, hoje esquecido e provavelmente tedioso para uma adolescente de 15 anos, na abertura de um texto que cito de memória: “As únicas mulheres sérias são minha mãe e a mãe do leitor.” Podíamos combinar algo assim. Todo mundo faz besteira no domingo, mas nós não e, principalmente, nossas mãezinhas. E as santas esposas de todos também, naturalmente.
E se, no afã de não melindrar ninguém, formos adiante, acabaremos achando tantas exceções que ninguém mais se enquadrará na regra. Concluímos assim que ninguém faz besteira no domingo, nem em dia nenhum, pensando bem. Ou melhor dizendo, quem faz besteira são os outros. Há não muito tempo, falei aqui sobre isto, a mania, ou vício, ou neurose coletiva que nós, brasileiros, temos de atribuir tudo o que de mal ou inconveniente nos atinge é culpa “deles”. Ninguém sabe direito quem são eles. É o governo, são os políticos, são os ignorantes, os bandidos e assim por diante. Mas nós não temos responsabilidade nisso, é com “eles” ou “os homens”.
Domingo, dia também de jornal grosso, dia de revistas semanais, vejo-me aqui entontecido e incapaz de raciocinar, em meio ao turbilhão de notícias sobre corrupção, ladroagem e bandidagem. Não são somente as de hoje, são as que vêm chegando há tanto tempo que já perdi a conta. Duvido que alguém consiga fazer um levantamento das gatunagens, maracutaias, furtos, desvios, roubos e todo tipo de falcatrua envolvendo, direta ou indiretamente, algum órgão público ou poder da República. Somente uma equipe diligente e bem treinada talvez conseguisse fazer uma base de dados razoável, mas, ainda assim, acho que sempre seria uma tarefa incompleta, pois muita coisa se apura e se guarda em segredo, outras coisas se abafam, outras são meramente ignoradas, outras passam por cima da lei, num panorama a que estamos acostumados desde que nascemos.
Façamos uma abstraçãozinha e imaginemos uma hipótese. Se o povo brasileiro de hoje por acaso desaparecesse, como desapareceram civilizações da antiguidade oriental, e alguns vestígios fossem descobertos? Decifrada a escrita, o que se formaria seria o retrato de uma sociedade corrupta de cima abaixo, governada despoticamente e insensível a valores morais. Não veriam “eles”, veriam nós. Descreveriam uma curiosa coletividade, oficialmente regida por leis escritas, mas, na verdade, leis consuetudinárias, ou seja, baseadas no costume. Essa conversa de lei escrita é enrolação para constar, o que vale mesmo é o costume. Tanto assim que há leis que não pegam e leis que não despegam, há até artigos da Constituição que o costume manda não observar. E não adianta a lei escrita punir os corruptos, porque a maioria não vai ser mesmo, não é o que manda o nosso soberano direito consuetudinário.
E, verdade que também não gostamos de encarar, os costumes não são recentes. Agora, por uma série de razões, inclusive a tecnologia, estão piorando muito, mas sempre foi assim. Sempre se roubou dinheiro público aqui e sempre o poder político foi disputado para premiar os vencedores e seus aliados com cargos vitalícios, remunerações nababescas e privilégios inacreditáveis. A carreira política é vista apenas como um meio de subir na vida e amealhar tanto para si quanto para a família e os aliados. Os partidos políticos também só servem para conseguir “colocações” e postos de influência, onde continuará a medrar a corrupção enraizada, no rodízio dos de sempre, com o qual já temos bastante familiaridade. Até fisicamente isso é visível, nos inúmeros políticos que se elegem pela primeira vez com ares famélicos e ansiosos, para estarem, poucos anos mais tarde, gordinhos, bem-humorados, sorridentes e de paz com a vida: é o bendito sinal de que já se fizeram, ideal de tantos brasileiros, que pode ser tanto o Congresso Nacional quanto o Big Brother Brasil.
Não sei quem foi o gringo que, se referindo ao Brasil, disse que “um país em que o sujeito cospe um caroço de fruta numa frincha da calçada e logo nasce comida não pode dar certo”. Não sei bem por que, acho que a explicação vem pela indolência assim fomentada e, claro, vem também pela nossa ignorância e falta de educação, pelo egoísmo e ausência de espírito público, pela nossa moral santarrona mas hipócrita, pelo nosso treinamento como súditos e não como cidadãos. Não estamos acostumados a ter mandatários e representantes, temos apenas governantes, a quem obedecemos sem discutir. E continuarão assim porque esquecemos que “eles” não são “eles”. Enquanto formos como somos, eles continuarão a ser como são, porque é de nós que saem. Um povo que pratica, tolera – e até admira – todo tipo de desonestidade é um povo honesto? Tudo leva a crer que não, embora com a exceção da gente.

COLTAN: sabes o que significa ?

16/04/2012 às 3:19 | Publicado em Artigos e textos, Midiateca, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esta matéria me foi enviada pelo amigo Eduardo Marinho. É de arrepíar. Participamos disso, somos todos responsáveis por isso, mesmo sem consciência. Segue para reflexão, o PPT (via site slidshare) e o texto do Eduardo em seguida:


Coltan3

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Pedro, lembra de quando eu te falava do Congo? O telefone chinês, que a… putz, esqueci o nome, Dani?… me deu, até hoje funciona. Mal, como sempre, atende quando quer, às vezes nem toca, troca as configurações, liga sozinho pros amigos, no bolso mesmo, liga uma tv minúscula que não pega nada além de chuvisco e nunca teve data, nem hora certa. Eu pedi, alegando a guerra no Congo, o chino tava na gaveta dela havia tempos. De tanto eu falar do Congo, tava até virando brincadeira. E não via nada saindo em lugar nenhum, nem mídia privada, nem imprensa de esquerda ou mídia alternativa, exceção a uma nota aqui, uma reportagem ali, de raro em raro. Ninguém sabia de nada. Eu era o maluco.

Não é só celular. O consumo como o centro da vida tá criando inferno em  todo lado, destruindo, poluindo, maltratando meio ambiente e comunidades, povos inteiros pelo mundo afora. Boçais e soberanos, continuamos comprando no shopping, comendo comidas de longe, portando marcas como prova da nossa alienação, da nossa cooptação. Temos a mídia aí, mesmo, pra nos formar opiniões confortáveis, visões de mundo que nos apegam à forma hedionda de ser dessa sociedade que nós compomos. Entorpecentes conscienciais acomodativos, idiotizantes, egoizantes e egocentrantes criam comportamentos, opiniões, valores e objetivos que tornam o mundo um manicômio destruidor de extrema crueldade, um campo de batalha com a esmagadora maioria derrotada desde antes de nascer – salvo raríssimas exceções exibidas como regra.

Quando todos se bastarem com direitos, todos terão direitos.

Patrícia, tem como arrumar alguém pra traduzir isso aí? Em algum formato que eu possa por no blogue, além de servir a qualquer que se interesse em divulgar.

Isso aí é um ponto, dentro de um processo planetário que somos levados a construir com nossa concordância senão em todos, em quase todos os setores da nossa vida. Não é à toa que a vida é tão sem sentido. Que se toma tanto anti-depressivo. E se alguém disser por aí que “minha vida tem sentido, sim”, respondo “não tô falando contigo e sim com a esmagadora maioria”.

Recebi isso aí de Alida Mazzoni, gente interessada na humanidade. Tô mandando prum monte e se arrumar traduzido vô ponhá no blogue.

Abraços a todos,

Eduardo.


Somos todos coniventes com a situação.

Nosso erro não é usar as marcas citadas, e sim ser conivente com a forma com que a tecnologia chega a nós.

Todos nós somos contra a fome, a miséria, o abuso de poder, o abuso e exploração sexual, as guerras, a humilhação para com nossos irmãos, porém nada fazemos para mudar…

Julia Bacha: prestem atenção à não-violência

05/04/2012 às 3:43 | Publicado em Midiateca, Zuniversitas | 1 Comentário
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Seguidores de Gandhi no mundo atual !


 

Facebook: CIA + J. Edgar Hoover (FBI) + Kafka

08/03/2012 às 3:31 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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A frase que mais me chamou a atenção nesse artigo foi “não há nada mais perigoso do que um império em decadência.”
Aconteceu comigo algo parecido, guardando as devidas proporções é claro: há alguns meses o WordPress me bloqueou, quer dizer, bloqueou este ZEducando. E pelo que pude ver era porque eu havia postado algo indevido (???). Depois de alguns e-mails eles voltaram o acesso, pedindo desculpas, etc, etc…

Liberdade na grande rede ? Querem enganar quem ?

Liberdade


Facebook: CIA + J. Edgar Hoover (FBI) + Kafka Liberdade2

Dias atrás, cometi um erro imperdoável: criticar veementemente a Secretária de Estado Hillary Clinton, quando diante do quinto assassinato de um cientista iraniano se limitou a encolher os ombros e dizer que aquilo era resultado das provocações de Teerã ao se negar a suspender seu programa nuclear. Um programa, diga-se de passagem, que começou na época do Xá, e que foi retomado em meados dos anos 80, sem que até agora, mais de 30 anos depois, aparecesse o tão temido arsenal nuclear iraniano.

Disse, então, e repito agora, que Clinton é o “elo perdido entre as aves de rapina e a espécie humana”, recordando sua repugnante gargalhada quando a comunicaram do linchamento de Kadafi. Porém, meu erro foi postar essa opinião no Facebook: poucas horas depois, tive o acesso a minha conta proibido e, dessa forma, também bloqueado o contato com mais de 7 mil seguidores. O que veio depois é uma história realmente kafkiana, ainda inconclusa, para tratar de recuperar o acesso a minha conta.

Toda sorte de trâmites e obstáculos foram postos em prática e ainda hoje, noite de 19 de janeiro, três dias depois do incidente, não pude voltar a utilizar minha conta. Como se não bastasse, não pude mais retomar contato com pessoa alguma no Facebook, e todas as perguntas que como vítima de tal arbitrariedade poderia fazer eram estereotipadas, devendo escolher um “menu” absurdo só para obter, de um robô informante, respostas igualmente estúpidas e estereotipadas. Em todo caso, algo era razoavelmente claro: nenhuma respondia a pergunta crucial, que era, e é, por que me bloquearam o acesso a minha conta no Facebook?

A conclusão disso tudo é algo que já sabia e venho dizendo há muitos anos, em contraposição a sociólogos e analistas “da moda” que afirmam besteiras tais como “a web é o universo da liberdade, não há centro, não existe controle, é democracia em grau superlativo”. Esses teóricos da resignação e do desalento, que com seus ditames fortalecem a crença na eternidade capitalista, ignoram que a web está super-controlada – não que estará em breve, mas já está, de fato – e que as infames iniciativas legislativas estadunidenses como o SOPA e o PIPA não são nada além de tentativas de legalizar o que já estão fazendo, e essa é uma das novas tarefas a cargo da CIA e do FBI, espiando próprios e estranhos, dentro e fora dos Estados Unidos.

Como também venho dizendo há anos, não há nada mais perigoso do que um império em decadência. A história ensina que se tornam mais brutais, imorais, inescrupulosos. Agora, diante do surgimento de uma perigosa onda mundial anticapitalista na Europa e até nos EUA (com o movimento Ocuppy Wall Street), que se agrega ao que vem agitando a América Latina há uma década, os drones (caças não tripulados) e assassinatos seletivos de líderes, práticas a que apelava o império, são insuficientes.

Para eles, é preciso cortar a comunicação “por baixo” e “entre os de baixo”, porque sabem muito bem que um pré-requisito para a organização e a resistência, e a ofensiva, contra a burguesia imperial e seus sequazes da periferia é exatamente essa possibilidade de estabelecer comunicações e intercambiar informações entre os oprimidos e as vítimas do sistema. Sabem muito bem que tal coisa é essencial para frustrar essa onda insurgente, muito mais grave e de maiores repercussões do que as que um dia teve o maio francês.

Por isso tudo, estão apertando os torniquetes. Por isso devemos redobrar a luta para democratizar não só o Estado e as empresas, mas também as comunicações, a imprensa e, mais que tudo, a web. Não é a troco de nada que um dos generais do exército estadunidense declarou em uma audiência no Congresso de seu país que “hoje a luta anti-subversiva se trava nos meios de comunicação”, um dos quais, talvez o mais importante, a internet. Daí que vêm tantos controles e tanto empenho em travar a luta contra os “terroristas” do ciberespaço.


ESCRITO POR ATILIO A. BORON

QUARTA, 25 DE JANEIRO DE 2012

Atilio Borón é doutor em Ciência Política pela Harvard University, professor titular de Filosofia Política da Universidade de Buenos Aires e ex-secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

 

Tradução: Gabriel Brito, jornalista do Correio da Cidadania.

Cadeia para os assassinos

14/02/2012 às 15:30 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Este post é uma “homenagem” à juíza brasileira que decretou a prisão domiciliar de um morador de rua e à ministra francesa que aconselhou os sem teto de seu país (eles existem lá também !!!) a não sair de casa. E eu que pensava que aquele velho ditado era só da Bahia (“pense num absurdo, na Bahia há precedente !“). Quem dera elas e outros iguais lessem esse artigo de Santayana, refletissem e mudassem seus comportamentos…


CADEIA PARA OS ASSASSINOS (Mauro Santayana)

Algumas religiões santificam a mendicância, como o ato mais expressivo da humildade. Pedir aos outros o pão, em lugar de o obter mediante o trabalho, é visto, assim, como o contraponto à vaidade e à arrogância. As sociedades, sendo profanas, não vêem com os mesmos olhos o ato de pedir. Os costumes, diferentes das razões éticas, sobretudo os construídos pela consciência burguesa, condenam a mendicância, ainda que admitam, com certo cinismo, a caridade. É interessante registrar que Sartre, senhor de grande lucidez e, em algum tempo, militante revolucionário, andava com moedas nos bolsos, que distribuía aos mendigos do Quartier Latin. Talvez se sentisse, com isso,  menos culpado dos desajustes do mundo.

Matar mendigos não é um esporte novo. A civilização cristã oscila entre o exercício da caridade (que, em alguns casos, costuma ser negócio lucrativo) e da repressão. Entre a piedade e a forca, conforme o ensaio do historiador Bronislaw Geremek sobre os miseráveis e pequenos bandidos da Idade Média.  No Brasil, a agressão e o assassinato dos diferentes estão assumindo dimensões insuportáveis. Numerosos moradores de rua em Salvador foram trucidados durante a greve dos policiais militares. Há suspeitas de que foram policiais, eles mesmos, os matadores. Coincidindo com os fatos da Bahia, um jovem universitário tentou intervir, ao assistir à agressão de um morador de rua na Ilha do Governador, no Rio, por cinco jovens. Foi quase linchado, teve seu rosto arrebentado pelas patadas, só reconstituído mediante o emprego de 63 pinos de platina.

Não é um fato isolado. Ao ser confundido como mendigo, conforme confessaram os matadores, um índio pataxó foi queimado por jovens bem situados de Brasília. No Rio de Janeiro, há décadas, os adversários de um governador da Guanabara o acusaram de mandar matar mendigos e atira-los junto à foz do Rio da Guarda. E houve quem sugerisse o incêndio, como uma forma de resolver o problema das favelas no Rio de Janeiro. Mais cínicas, autoridades de São Paulo decidiram criar obstáculos sob as marquises e os viadutos, a fim de impedir que ali os miseráveis pudessem repousar. No Rio, outras autoridades dividiram os bancos dos jardins, para que, sobre eles, os mendigos não pudessem deitar.

Esses caçadores de mendigos naturalmente são conduzidos pelo senso estético da ordem do capitalismo totalitário. Uma cidade sem pedintes é muito mais bela. Mas é também muito mais bela, se nela não houver pessoas feias ou enfermas. Assim pensavam os nazistas, em sua cruzada de eugenia – embora não fossem belos nem fisicamente saudáveis homens como Himmler e Goebbels, entre outros. Da mesma forma que pretendiam a eliminação completa dos judeus, incomodava-os, pelo menos no discurso, a existência de homossexuais. Depois se soube que muitos deles eram homossexuais, mais dissimulados uns, menos dissimulados outros, como Ernst Röhm. Joachim Fest, o grande biógrafo de Hitler, chegou a suspeitar que houvesse uma ligação homossexual entre o líder nazista e seu arquiteto predileto e possível sucessor, Albert Speer.

E como o caminho da perfeição, de acordo com essa insanidade,  é sem fim, quiseram eliminar, alem dos judeus,  outros perturbadores de sua ordem estética e “moral”, como os ciganos, os negros, os mestiços, os eslavos – e os comunistas.

O racismo e a insânia dos nazistas não desculpam – e, sim, agravam – os atos estúpidos contra os miseráveis brasileiros que, sem teto, sem famílias, sem amigos, sem destinos, são nômades nas ruas, onde alguns nascem, e muitos quase sempre morrem. Mas, dessa visão curta de humanismo,  padecem pessoas instruídas e aparentemente responsáveis, como a ministra francesa, que aconselhou os sem teto de seu país a não sair de casa, por causa do frio europeu que vem matando os desabrigados às centenas, e a juíza brasileira, que decretou a prisão domiciliar de um morador de rua.

A polícia tem o dever de identificar os matadores de mendigos e de levá-los à Justiça. E os juízes não podem se deixar engambelar pelos advogados dos assassinos. Em uma sociedade já tão injusta com os pobres, cabe ao Ministério Público e à Justiça socorrer os que, desprovidos de tudo, só têm a lei como consolo e esperança.

A sociedade se emociona com a coragem solidária do jovem Vitor. O Estado deve a ele uma manifestação oficial de reconhecimento. Seria louvável se a Assembléia Legislativa lhe concedesse a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração do Estado.

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