Seria Bolsonaro um lobisomem?

02/04/2020 às 3:20 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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Jânio Ferreira Soares. Para mim, como sempre digo aqui, ele me faz lembrar muito João Ubaldo. Das terras dessa bela Bahia de Todos os Santos é, sem dúvida, um dos que melhor escreve. É poesia em prosa, mesmo que às vezes a triste realidade não permita tanto, como na crônica que publico agora.

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Seria Bolsonaro um lobisomem? janinho-2012_thumb

Até meados desta agitada semana de noias e quarentenas, minha ideia era escrever sobre a boa relação que tenho com a solidão, já que vivo praticamente sozinho num sítio. É tanto que até já tinha bolado uns dois parágrafos que faço questão de publicar abaixo e aspeados, quando nada, pra dar uma leveza nesses dias, como diria Elis, de down total, tanto na high quanto na low society. Simbora.

“Fui apresentado pela primeira vez à solidão quando minha mãe teve que ir pra Salvador fazer uma cirurgia de emergência e por lá ficou mais de mês. Na ocasião, ainda em fraldas e sem nem imaginar que aquela agonia beliscando meu franzino coração era a tal saudade, coube a minha tia Aldinha a difícil missão de dar continuidade a algo que não tem receita, embora suas generosas pitadas de carinho na mamadeira tenham sido fundamentais para que aqueles dias não azedassem meu gagau”.

Mas aí, quando eu ia continuar dizendo que ela: “na lucidez de seus 93 adora contar essa nossa aventura, sempre lembrando que por mais que se esforçasse no papel que biologicamente a vida não lhe foi benfazeja, eu tinha o olhar distante, como se querendo atravessar as paredes do quarto, o curral e depois o São Francisco, pra ter de volta aquele inexplicável amor que só quando se perde é que se sabe”, eis que surge na TV o nosso capitão com sua língua de corvina fora d’água que, observe bem, parece querer fugir pela lateral de sua boca, certamente por não suportar mais o triste papel de condutora das sandices e perdigotos que diariamente passam por ela.

Falando nisso, chego à conclusão de que perdemos nosso tempo escrevendo sobre as atitudes de um camarada que passou quase 30 anos sendo bombardeado por deputados de todos os partidos e nunca melhorou. Aliás, se ele já era casca grossa naquela época, parece que agora adquiriu uma camada de potentes anticorpos de uma espécie que só os extremamente imbecis têm a capacidade de desenvolver, cuja principal função é repelir qualquer possibilidade de penetração do vírus do bom senso.

Do mesmo modo, de nada adianta tentar mudar a opinião dos seus eternos apaixonados, pois esses, para muito além da balela de que o ódio ao PT era a justificativa de seus votos, continuarão rezando pela sua cartilha e comungando da hóstia feita com as sobras do rancor que o alimenta.

A propósito, vê-los cegos por conveniência, me faz lembrar de uma propaganda dos tubos e conexões Tigre, onde um vendedor vive se queixando ao chefe de que um colega com aspecto de lobisomem está lhe roubando os clientes. Chamado de invejoso, ele se desespera e diz: “mas ele é um lobisomem!”. No que o patrão, pensando apenas no lucro, olha o peludo coçando o rosto como só os lobos fazem e diz, com desdém: “nããããão! Vai trabalhar!”. Vale um Google.

(Jânio Ferreira Soares)

FONTE: Jornal A TARDE , Salvador-BA, 28.03.2020

UM SABADO QUALQUER

01/04/2020 às 11:05 | Publicado em Espaço ecumênico, Midiateca | Deixe um comentário
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Nesse Dia da Mentira, um ótimo cartum de UmSábadoQualquer !


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Milton Santos

01/04/2020 às 3:39 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Neste dia da mentira, uma grande verdade. Salve Milton Santos !


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Ninguém sairá o mesmo desta quarentena

31/03/2020 às 2:13 | Publicado em Artigos e textos, Espaço ecumênico, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Um dos melhores textos que li sobre a realidade atual. Parabéns Fernanda Torres, sempre lúcida e didática. E a gente ainda fica com vontade de ler o livro…

Exclamacao


Ninguém sairá o mesmo desta quarentena

Devo a João Ubaldo Ribeiro a indicação do livro “A Distant Mirror”, da historiadora americana Barbara Tuchman, sobre o calamitoso século 14 na Europa. Trata-se do período da peste negra, originada na Ásia central, que dizimou dois terços da população europeia e deu um fim à Idade Média.

É uma leitura e tanto para a quarentena de agora.

A Guerra dos Cem Anos, o príncipe negro e a Batalha de Crecy; os dois papados, um romano e um francês empenhadíssimo no ignóbil mercado de indulgências; a corrupção na Igreja e os primeiros cristãos indignados que, décadas depois, influenciariam a reforma protestante de Lutero. Está tudo lá.

Mas nada, no relato de Tuchman, se compara às procissões de penitentes em meio à peste. “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado”, do Monty Python, e “O Incrível Exército de Brancaleone”, de Mario Monicelli, têm cenas impagáveis sobre o tema. A diferença é que a autora descreve o caos com realismo e minúcia desoladora.

Clamando pela proteção do Senhor, os tementes se juntavam às romarias ainda sãos, caíam doentes no decorrer do trajeto e terminavam o périplo em covas rasas. Foi necessário o alarmante milagre da multiplicação de óbitos para que a Igreja suspendesse missas, procissões e aglomerações de fiéis.

Sete séculos depois, Edir Macedo solta um vídeo na internet afirmando que o medo da Covid-19 é obra de Satanás.

Não satisfeito, procura fundamentar a tese com o depoimento de um patologista, doutor Beny Schmidt, que deveria ter o registro de CRM cassado.

“Morrer é o destino humano”, diz o doutor. “A gente morre de hipertensão, de diabetes, de câncer e de hemorragia, mas de coronavírus a gente não morre, porque Deus não quis.”

Sete séculos depois da disseminação da peste, Jair Bolsonaro desce a rampa do Planalto para trocar gotículas com seus seguidores como se não houvesse amanhã

O Posto Ipiranga da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, preferiu não comentar a indiferença do superior à curva exponencial de contágio pela Covid-19. O ministro tem crédito, estaríamos perdidos na mão do Weintraub. E os panelaços falaram por ele.

Jair governa para o próprio gueto. Se reinasse na Europa do século 14, pregaria o Apocalipse e incitaria o autoflagelo em cortejos suicidas.

Janaina Paschoal pediu a cabeça do presidente depois do abraça e beija dominical. Arrependida confessa do voto que concedeu ao capitão, a deputada representa uma fatia considerável de eleitores conservadores que começam a perceber que o ódio ao PT não pode servir de justificativa para o apoio a um furioso.

A aliança entre o ultraliberalismo econômico e o populismo de extrema direita enfrenta seu primeiro desafio com uma crise que mais parece lição divina.

A iniciativa privada será incapaz de substituir o Estado no atual salve-se quem puder. Todos os países do mundo estão abrindo as torneiras. Paulo Guedes será obrigado a agir na direção contrária de tudo o que aprendeu em Chicago e sonhou e planejou e prometeu. Duro acaso.

Torço para que o centro ressurja dessa emergência. E que o coronavírus, a exemplo da peste negra na Europa do século 14, venha abreviar o obscurantismo medieval travestido de liberal em que nos metemos.

É isso ou a procissão do “FODA-SE” dos possuídos do domingo passado, dispostos a se imolar pelo capitão. Na Europa trecentista, pelo menos, morria-se por Deus.

Há método na loucura de Macedo e de Messias. Quanto mais fatalidades, mais temor ao Altíssimo e mais Altíssimo para confortar. O bispo tem razão, o medo é a arma de Satanás.

No lado pagão, é preciso reconhecer, nota-se o mesmo estado de negação. Por não se sentirem ameaçados pela doença, os jovens descumprem o resguardo e lotam praias, bares e baladas. O egoísmo também serve de instrumento para o Capeta.

Ninguém sairá o mesmo desta quarentena. Daqui a quatro meses atingiremos, dizem, a imunidade de rebanho. Enterrados os mortos, espero que voltemos às ruas mais humanos e menos afeitos a fundamentalismos religiosos, políticos e econômicos.

Talvez esse vírus seja mesmo o recado de Deus. Deus natureza cansado do ódio, da ignorância, da irracionalidade, da brutalidade, da violência e da vileza dos mitos e profetas. Um Deus farto das trevas e ansioso por um Renascimento.

Aconteceu na Europa, 700 anos atrás.

(Fernanda Torres)


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