Em nome de quem ?

05/08/2020 às 3:53 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse eu recebi de uma grande amiga que é Psicóloga, via zapzap. É de fato um excelente texto sobre nossa realidade. O paralelo entre João de “Deus” e o atual presidente da República é muito bom. Os esclarecimentos com base em grandes filósofos e o resgate histórico da época de Hitler são esclarecedores.

Exclamacao


Em nome de quem?

Depois de ter que digerir muita angústia, raiva, nojo e tristeza, consegui terminar de assistir ao documentário “Em nome de Deus”, produzido pela Globoplay. Trata-se de uma série, em 6 capítulos, que revela história de João Teixeira de Faria, desde o seu surgimento como líder espírita, até sua transformação em João de Deus, seguida de sua condenação e prisão por abuso sexual em 2018. O líder espírita fundou, em 1976, a “Casa de Dom Inácio de Loyola” e, desde então, se destacou fazendo curas e cirurgias espirituais de toda a espécie, se consolidando assim, como o maior médium brasileiro da atualidade. Localizada em Abadiânia, Goiás, “a Casa” recebia semanalmente milhares de pessoas de várias partes do Brasil e do mundo, muitas delas desenganadas pela medicina tradicional, em busca de curas e milagres. Nos seus mais de 40 anos de trabalho religioso, João de Deus conquistou respeito, admiração e fama, inclusive, internacional. Um “homem santo”, à prova de qualquer suspeita.

Mas em 2018, no programa Conversa com Bial, da Rede Globo, a holandesa Zahira Lieneke Mous deu uma entrevista denunciando João de Deus por abuso sexual durante uma “consulta espiritual”. Depois da repercussão da entrevista, centenas de mulheres também decidiram se pronunciar, acusando o médium de abuso e estupro. Algumas delas, inclusive, já haviam denunciado o médium anteriormente, pelos mesmos crimes, inclusive por tentativa de assassinato, mas foram desacreditadas na época. Dentre as vítimas está a própria filha de João Teixeira, abusada desde os 10 anos de idade. As investigações de abuso acabaram por abrir caminhos para desmontar diversas facetas criminosas que sustentavam João de Deus e “a Casa”, envolvendo armas, muito dinheiro e uma espécie de rede miliciana de poder.

O documentário é indigesto por motivos óbvios, em especial pelos depoimentos fortes, carregados de sofrimento, vergonha e revolta, das mulheres que toparam falar sobre as violências sofridas, regadas com medo e silêncio. A série se ocupa de traçar o perfil de abusador serial do médium, um predador compulsivo de mulheres, que se aproveitava da fragilidade e da confiança das mesmas, de seu suposto poder divino e de seu poder político na região de Abadiânia, para impor suas vontades sexuais. Deste modo, a obra jornalística cumpre, principalmente, a função de dar lugar à palavra das mulheres silenciadas e fazer cair um mito.

Entretanto, o documentário nos leva a outras questões importantes,, especialmente nesses tempos de hoje. Como e por que milhares e milhares de pessoas se deixaram enganar por mais de 40 anos, pela “santidade” de João de Deus? O que faz as pessoas depositarem sua fé e se entregarem de modo tão subserviente, abnegado e sem crítica a essas espécies de líderes charlatões e cretinos? Sim, porque João de Deus não está sozinho e nem é raro. Tanto na religião quanto no campo da política, invariavelmente, despontam esses líderes de massa que tiram proveito perverso de sua posição, parasitando e violentando seu rebanho, para exercício de poder e gozo próprios.

Mas, é importante compreender que alguém só alcança esse nível de poder porque conta com a conivência, a participação e a autorização de muitas pessoas. O tamanho da capacidade de sugestão e de domínio de um líder é diretamente proporcional a quantidade de pessoas, de instâncias e instituições que o autoriza. Pensando deste modo, dizer que João de Deus é um criminoso-canalha-perverso que se aproveitou de sua condição para parasitar suas vítimas, não é suficiente para explicar o fenômeno. É preciso também considerar que aquela massa de fiéis desejava um João de Deus para servir. Desejava um homem poderoso e santo, para o qual poderiam entregar seu desamparo e seu sofrimento. João de Deus chegou aonde chegou porque contou com o apoio, a conivência e o silêncio de muita gente e por muito tempo.

No século XVI, Étienne de La Boétie, escreveu o Discurso da Servidão Voluntária; uma ode à liberdade. As questões levantadas pelo jovem pensador eram: Como pode apenas um homem subjugar milhões? O que faz com que as massas se curvem a um único tirano? Para La Boétie, elas não o fazem por serem forçadas ou constrangidas, já que são muito mais fortes que seu líder, elas o fazem voluntariamente. Elas desejam sacrificar sua liberdade alienando-a ao tirano, e escolhem essa opção por serem educadas para tal, já que o ser humano seria naturalmente livre.

Freud trabalhou o mesmo tema, mas de uma forma um pouco diferente. Para Freud, os sujeitos se submetem voluntariamente a líderes, mesmo os mais perversos e tirânicos, mas por ser esse o recurso humano mais primário para lidar com o desamparo. Para a psicanálise, a fragilidade e imaturidade biológica do ser humano, o obriga a ingressar no mundo numa condição de total alienação a um outro ser, aquele que cumpre as funções de maternagem. A função-mãe seria nosso primeiro “tirano”, tirania sem a qual não sobreviveríamos. Portanto, a alienação e a submissão são nossa passagem de entrada na cultura, é ao longo da vida e do processo educativo que vamos nos separando desse Outro primordial, e criando condições de liberdade. Todavia, em situações de desamparo e fragilidade, ficamos suscetíveis a uma espécie de regressão que busca encontrar na submissão a certas lideranças (políticas ou religiosas), aquela condição originária de alienação; um lugar psiquicamente mais confortável para lidar com afetos, como angústia e medo.

Mas é muito importante que se entenda que essa escolha de alienação, submissão e subserviência é uma escolha voluntária, como dirá La Boétie, entretanto, na compreensão freudiana, não se trata de um voluntarismo racional e consciente. Na medida em que existe o inconsciente, e o eu de um sujeito não é “senhor em sua própria casa”, esse voluntarismo ocorre à revelia do comando da razão. São esses mecanismos inconscientes a matéria-prima e o alvo de líderes messiânicos e tirânicos. O fato é que figuras como João de Deus não se explicam apenas pelo seu carisma e falta de caráter, elas só existem porque há centenas de milhares de pessoas dispostas a autorizá-las e desejosas em acreditar nelas e suas soluções milagrosas.

A psicologia fascista

Cheguei até aqui para dizer que o documentário “Em Nome de Deus” é uma obra importante também para compreendermos o Bolsonarismo e sua estrutura psicológica fascista. Diferente de outros presidentes que tivemos, Bolsonaro não é um fenômeno da política democrática republicana, apesar de ter chegado ao poder pelo voto. Dois anos depois de sua posse, fica cada vez claro que o que ainda sustenta Bolsonaro no poder tem a ver com o que chamamos psicologia das massas. Bolsonaro já quebrou todas as pontes políticas possíveis; com partidos, com aliados políticos, com as instituições democráticas, com instâncias internacionais e com a imprensa. Tal como João de Deus, Bolsonaro só se mantém na presidência porque foi capaz de encarnar um tirano messiânico milagreiro, que tanto agrada as massas desalentadas e amedrontadas. Graças ao mecanismo psíquico regressivo próprio de relações do tipo fascista, Bolsonaro pode até mesmo violentar, vilipendiar e subjugar seu povo, e ainda assim, mantê-lo fiel e obediente, aguardando o milagre. Uma foto recente de Bolsonaro diante de seus seguidores mais fervorosos, levantando com as duas mãos uma caixa de cloroquina, é emblemática para ilustrar esse fato. É o Messias oferecendo a salvação para seu povo assolado por uma pandemia de escala mundial, que já matou 87 mil brasileiros. Tal como acontecia com os frequentadores da Casa Santo Inácio de Loyola, os adeptos do Bolsonarismo já abandonaram a ciência,deixaram de escutar as orientações da medicina tradicional – talvez porque elas não são capazes mesmo de oferecer o milagre que tanto desejam. O Bolsonarismo é capaz de fazer com que essa Nação siga suportando o absurdo de estar, há cerca de 3 meses, sem Ministro da Saúde, ou seja, sem nenhuma estratégia política racional a nível nacional. Mas Bolsonaro oferece o milagre da cloroquina, e isso basta para manter o transe coletivo da massa.

Hipnose Coletiva

Freud considerava a hipnose como um fenômeno que ocorre entre duas pessoas, entretanto, em se tratando de psicologia de massas, ele afirma que o líder é capaz de coletivizar esse encantamento hipnótico. Foi isso que permitiu que Hitler garantisse o consentimento da sociedade alemã para assassinar de forma intencional, premeditada e racional, 7 milhões de Judeus.

“Em Nome de Deus” mostra os frequentadores “da Casa”, embalados numa espécie de transe hipnótico coletivo, se submetendo a todo tipo de intervenção. Sob a vista de todos, e sem nenhum cuidado especializado, os fiéis são cortados, perfurados e costurados. Já em ambientes restritos, aconteciam os abusos e estupros denunciados pelas mulheres. No relato delas também fica evidente um tipo de submissão hipnótica. Demoravam a se dar conta do abuso, e quando isso acontecia, usavam a negação como mecanismo de defesa. Talvez uma recusa em enxergar a verdade insuportável; de que foram abusadas, de que o mito que endeusavam tanto não existia, e de que o milagre que esperavam não viria.

Parte do Brasil está sob a onda hipnótica fascista do Bolsonarismo, e outra parte está refém dessa massa irracional, tentando descobrir o que fazer para acordá-la. Já faz tempo que entendemos que não existe argumento racional capaz de tirá-la desse transe. Também já está evidente que o comando hipnótico está sendo feito, preponderantemente, pelas redes sociais, em especial pelo Whatsapp, com a ajuda dos robôs. A pesquisadora e antropóloga, Rosana Pinheiro Machado, escreveu no dia 21 de julho, para o The Intercept Brasil, sobre o último monitoramento realizado por sua equipe. Eles analisaram 2.513 grupos de WhatsApp bolsonaristas, 93.886 usuários e mais de 5 milhões de mensagens conspiracionistas sobre o coronavírus compartilhadas desde fevereiro. A constatação é de que eles continuam a todo vapor, fabricando as verdades que interessam a manutenção do governo. Ela afirma ainda que acabar com o “gabinete do ódio” não é suficiente para quebrar essa rede, já que ela é muito mais autônoma, horizontal, autofinanciada do que se imagina.

Theodor Adorno, escreve em 1951,sobre a propaganda Fascista de Hitler. Ele afirma que os alemães não acreditavam realmente que os judeus eram o demônio, mas toparam participar dessa encenação, pois assim eles puderam, autorizados uns pelos outros, extravasar seus ímpetos pulsionais primitivos, sem terem que assumir que estavam revogando o pacto civilizatório. É exatamente esse caráter fictício da psicologia de grupo, que torna as multidões fascistas tão impiedosas e inalcançáveis. “Se elas parassem para refletir por um segundo, toda a encenação se despedaçaria e elas entrariam em pânico”, diria Adorno.

A verdade difícil de escutar é que, nem João de Deus e nem Bolsonaro subjugam e abusam do seu povo Em Nome de Deus, eles o fazem em nome do seu próprio povo. Eles são o que são porque há muitos que querem que seja assim, e sabemos que não há argumento suficientemente forte para mostrar a verdade para quem não deseja  enxergá-la, mesmo que isso signifique arriscar-se à morte. Essas pessoas preferem à morte real à morte subjetiva, o que aconteceria caso tivessem que admitir que estavam vivendo uma mentira.

Há uma cena no documentário, que ilustra muito bem o parágrafo acima. Nela, Bial entrevista o ator Marcos Frota, um dos seguidores, amigos e assistentes de João de Deus. Frota está nitidamente desconfortável, tentando elaborar as informações que levaram João de Deus para a prisão, e em dado momento, repete em sequência, por cerca de 10 vezes, a seguinte frase: “Não sou eu quem cura, quem cura é Deus” (frase que era dita pelo médium). Ao terminar a repetição, com o olhar absorto, como se recitasse uma profissão de fé, o ator diz: “Não pode haver hipocrisia numa frase como essa… E Deus é um mistério tão grande!” Frota diz isso como quem prefere acreditar que Deus poderia ter autorizado todas aquelas atrocidades, do que admitir que, por 20 anos, se deixou enganar por uma mentira.

Como quebrar o encanto das massas?

Na Alemanha Nazista, a massa só despertou com a derrocada na guerra e a morte de Hitler. Houve os que preferiram se matar ou se deixar matar, a enxergar o que haviam feito com os judeus, tudo em nome de Deus e da Pátria.

O documentário talvez nos dê algumas pistas importantes de como quebrar esse encanto. Primeiramente, é fundamental que o líder seja retirado de cena. Sem ele, a estrutura se desmonta. E para derrubar o líder, não há outro caminho que não seja denunciá-lo, nesse ponto a imprensa é peça chave. Mas a melhor denúncia, a mais efetiva, é aquela feita por quem já esteve do lado de lá, por quem já experimentou daquele torpor hipnótico. Por isso, temos que sim, dar voz aos decepcionados, acolher seus discursos, não para perdoá-los ou coisa parecida (não é disso que se trata aqui), mas para possibilitar que muitos outros se identifiquem a esse novo discurso, e participem dessa nova coletividade: a dos “Bolsonaristas reabilitados”.

João de Deus agiu por 40 anos sem ter sua imagem arranhada e a entrevista de uma só mulher despertou mais de 500 outras, em alguns meses, desmontando seu império. É preciso entender que ninguém vai abandonar a massa Bolsonarista para ficar sozinho, essas pessoas vão precisar de acolhida em uma nova coletividade. Elas vão precisar fazer parte de uma outra coisa. Também vai ser necessário ganhar a guerra, que no nosso caso, é virtual, e segundo a antropóloga Rosana Pinheiro Machado, eles estão nos vencendo por W.O.

Adorno dizia que o grito de guerra nazista “desperte Alemanha!” escondia precisamente o seu contrário. Não consigo deixar de pensar no nosso lema de 2013, “O gigante acordou!” que, ao que parece, serviu também a esse propósito de nos botar pra dormir.

Só espero que ainda haja tempo de acordarmos.

(Rita Almeida)

Ensaio sobre a imbecilidade frente à realidade do Brasil de hoje

04/08/2020 às 2:52 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Esse artigo recebi de meu sobrinho Daniel, do Estúdio Daniel Brandão, mas não sabemos a autoria nem o título. Como para mim o mais importante é o conteúdo e este é muito bom, como podem verificar abaixo, resolvi publicá-lo aqui. O título então é meu.

Exclamacao


Ensaio sobre a imbecilidade frente à realidade do Brasil de hoje

Ortega y Gasset, ainda na Espanha no início do século 20 relatou sua angústia e tomento com a experiência de entrar em contato com a imbecilidade e, perplexo, se perguntava o porquê de não haver um estudo sobre esse fenômeno… um “ensaio sobe a imbecilidade”. Passados quase 90 anos, muito se escreveu sobre esse comportamento humano, mas é hora de analisá-lo frente à realidade do Brasil de hoje.

Para os estudiosos do comportamento humano, a imbecilidade é consequência do desenvolvimento anormal da psique, condenando o indivíduo a uma eterna infância. Os imbecis são, portanto, pessoas de fácil sugestionabilidade, sendo que os paranoicos (portadores de outra patologia) exercem grande influência sobre eles, como adverte Enrico Altavilla: “cada paranoico que se tem passado por profeta, inventor ou coisa parecida, tem sempre conseguido arrastar alguns imbecis na órbita do seu delírio”.

Mas nos importa, aqui, a inserção desse elemento no corpo social.

Não é nova a perspectiva de que a sociedade nada mais é do que uma comunhão de pessoas que se comprometem em viver juntas, visando alguns resultados que interessem a todos. É vontade de convivência. Mas como toda organização, precisa de liderança.

Para o filósofo espanhol, a civilização só chegou a determinado estado de desenvolvimento social, científico, econômico e industrial porque foi liderada, na maioria das vezes, por personalidades que respeitaram o conhecimento histórico, que nada mais é do que a soma de valores, princípios e saber acumulados pelo ser humano em sua trajetória.

Destaca que os imbecis sempre existiram, estavam sempre presentes, mas não tinham qualquer papel fundamental na sociedade: eram desprezados.

Não se trata, ele explica, de fenômeno que tenha por origem qualquer diferenciação social ou econômica. O que diferencia os homens e os imbecis, segundo sustenta, é o espírito: para ele, há categoria de homens e mulheres que se exigem muito e acumulam sobre si dificuldades, deveres e insegurança e começam a “olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza, pois todo mundo é estranho e maravilhoso para as pupilas bem abertas”.

Essa categoria de pessoas, explica o filosofo, constitui um grupo em constante estado de alerta para os fenômenos da vida, da cultura, da arte, da ciência e do conhecimento: “todo aquele que se colocar diante da existência em uma atitude séria, e se fizer plenamente responsável por ela, sentirá certo tipo de insegurança que lhe incita a permanecer alerta”.

Não é por outra razão que Albert Einstein, um exemplo de homem com esse espírito, deixou registrado: “o mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece essa sensação, ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram”.

Há, por outro lado, as massas, representadas pelo homem médio, aquele que é “herdeiro de um passado imenso e genial, em inspiração e esforços”, mas não aprendeu qualquer lição ou experiência do passado e não tem, portanto, qualquer comprometimento com os avanços da civilização.

Essa ausência de comprometimento com valores, ideias e com o próprio conhecimento histórico e científico gerou um ser humano bastante curioso: cioso da sua completude, não busca maiores explicações para aquilo que não conhece.

Surge, nesses casos, o ideal do homem médio, que compõe as massas: é o ser humano que sabe tudo, opina sobre tudo e tem razão em tudo.

Ao contrário do homem inseguro, que busca segurança nas lições do passado ou em outros homens que se esforçam nas suas áreas de conhecimento, o homem massa é imutável: “tem um repertório de ideias dentro de si. Decide se contentar com elas e se considerar intelectualmente completo”.

Destaca o filósofo que, durante a história da civilização ocidental, esse homem médio sempre foi maioria, sempre estava presente, mas completamente ausente da condução da vida pública. No entanto, ainda no século 20, externou preocupações sobre o papel, cada vez mais relevante, que esses imbecis passaram a exercer na sociedade.

Orgulhosamente descomprometido com o conhecimento científico, cultural e social, mas paradoxalmente cioso de que tem pleno conhecimento sobre todos os temas que envolvam uma sociedade, o homem massa visará sempre impor a sua verdade: é o primeiro passo para o estado de violência.

“A violência fascina os seres moralmente mais fracos”, advertiu Albert Einstein, para quem “o homem livre, criador e sensível modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento”.

Não há, portanto, como não reconhecer a identidade de visão do filósofo e do cientista sobre a estreita relação das massas e o estado de violência.

Aliás, essa correlação entre ignorância e violência coletiva é antiga, como nos alerta Diderot: “Desconfie do julgamento da multidão em assuntos de reflexão e filosofia; sua voz é aquela da maldade, da estupidez, desumanidade, irracionalidade e preconceito (…) A multidão é ignorante e estupefata (…) Desconfie dela em questões de moralidade; ela não é capaz de ações forte e generosas (…)”.

Assim, a busca e a valorização do conhecimento; o respeito ao saber histórico; a constante evolução científica e o culto a valores civilizatórios são características que distanciam a sociedade do estado de imbecilidade e de violência. Em uma palavra: educação.

E o que assistimos no Brasil, atualmente? É assustador constatar que a imbecilidade lidera o país e seu destino.

Em nome da vida

03/08/2020 às 12:00 | Publicado em Artigos e textos, Fotografias e desenhos | Deixe um comentário
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Excelente artigo de Emiliano José, como sempre. Também não sou ingênuo, mas uma mudança rumo à utopia, em plena distopia, é sempre uma esperança.

aplausos


Em nome da vida

A vida das pessoas é o fundamento de tudo. Devia ser. Para o mundo do capital, no entanto, não é. A pandemia escancarou isso. Os governadores sérios, os prefeitos responsáveis sentem isso na pele. A pressão para abrir tudo, para permitir todas as aglomerações em meio ao pico do coronavírus, hoje em torno de mil mortes por dia e quase 100 mil vítimas, é quase insuportável. Só os mais fortes, os mais responsáveis, resistem. E o pior:apolítica genocida do governo federal estimula as irresponsabilidades, o desprezo pela vida, a celebração da morte.

Não se culpe as populações pela ida às ruas, pelas aglomerações. Onde houve combate efetivo à pandemia, aconteceu pela atitude firme e responsável dos governantes, a sinalizar e determinar as medidas capazes de enfrentar a peste, orientar o povo, dar-lhe consciência dos riscos. E adotar as medidas econômicas emergenciais, incluindo distribuição de renda para as classes trabalhadoras mais pobres, para garantir a permanência das pessoas em suas casas, única forma de enfrentar o vírus até o momento.

O esforço de autoridades sérias no Brasil muitas vezes colide com as orientações genocidas do atual governo federal. A tragédia seria ainda maior não fosse a política, por exemplo, dos governadores nordestinos, considerando, aí sim, a vida como fundamento de tudo. A pandemia podia servir como um momento de reflexão, de perguntas profundas sobre o capitalismo, o neoliberalismo, sobre a relação com a natureza, a monumental destruição do meio ambiente, a retração de direitos do mundo do trabalho, e isso está longe de acontecer na medida necessária.

Poderia a pandemia também ensinar o quanto os serviços públicos de saúde são essenciais, o quanto estavam sucateados em favor da saúde mercantilizada. É só olhar para o Brasil e suas políticas após o golpe de 2016, para observar o ataque concentrado ao SUS, sobretudo com a PEC da Morte, cujo congelamento de investimentos públicos por 20 anos é caso único no mundo.

Poderia, quem sabe, mostrar o quanto são desiguais as condições de renda das populações, especialmente no Brasil, onde o coronavírus atinge de modo desigual as pessoas, concentrando-se aceleradamente sobre as classes trabalhadoras, de modo especial sobre as mais pobres, sobre as nações indígenas, as comunidades tradicionais.

Não sou dos ingênuos. Não creio em mudanças profundas logo após o fim dessa pandemia. Desde já, a exigência é de muita luta. Não só para as condições de vida, para as mudanças na economia. Mas, luta político-cultural-ideológica voltada aos corações e mentes da nossa gente, de modo a constituir um novo pensamento, voltado à solidariedade, de combate ao consumismo, ao individualismo, de estímulo ao amor pela natureza, vida simples. Se sabemos onde chegar, é hora de dar os primeiros passos. Com pandemia e tudo. Em nome da vida.

(Emiliano José)

FONTE: Jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje


Cau_Gomez_03_agosto_2020

FUNCIONÁRIOS E DESEMPREGADOS

03/08/2020 às 3:25 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia | Deixe um comentário
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Esse vem do amigo Diego Rbor, publicado em seu blog dia 28.07.2020: A Arte Liberta. Sempre com seu verbo poético nos convoca à comunhão, diante de tanta e tamanha iniquidade.

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funcionários e desempregados

Boa tarde, batalhadora, batalhador, peço que me leia, serei breve, por favor
Trabalhador, já fui ofice-boy, estoquista, auxiliar, estagiário, vendedor…
Hoje sou um escritor, ganho a vida refletindo em literaturas; Poesia é minha maneira de vencer a dor

Trabalhadores, somos todos guerreiras e guerreiros, e o que nos diferencia são as nossas lutas nas variadas labutas do existir
Estou aqui te convidando para comigo refletir
E encorajar os nossos sonhos em cada decisão
Somos brasileiras e brasileiros, aqui não é um país de formar patrão…
Empregados são tratados como tapados, vendados, obturados
E não é para isto que fomos criados, a vida não nos fez para sermos tirados de otários
Temos ciência, sapiência, paciência e consciência
Não deixe seu salário manipular a sua competência
“Se tens um sonho, foque e seja
Se tens um dom, invista, proteja” – É o que a Luz me diz

Os mais ‘ricos’ do que nós, não querem nos ver tão ricos quanto eles
Eles pensam que nossas famílias, pobres, não merecem as felicidades existentes

Enquanto nós trabalhadores, sabemos mais sobre merecimentos
Construímos casas, barracos, favelas, carregamos os cimentos
Políticos de direita usam, nós, pobres como se fossemos jumentos
Nas rachaduras dessa sociedade candura que ainda quer a volta da ditadura
Para matar ainda mais os sonhos de muitos de nós, pobres de alma dura
Eu não aguento mais tanta injustiça!

A humildade me ensinou a pegar na terra e a plantar
A humildade me faz entender que não preciso só comprar, comprar, comprar
Está tudo na terra, esta que os ricos insistem em nos tirar
Está tudo na água, esta que políticos insistem em privatizar
Não podemos deixar! Não podemos tolerar!
Ou levantamos a cabeça ou eles irão nos ceifar
Assim como fizeram com os nossos ancestrais
Há pouco mais de 500 anos atrás

Estamos no segundo semestre de um 2020 pandêmico:
Os 42 bilionários do Brasil aumentaram a própria riqueza em 27 POR CENTO durante a maior crise sanitária dos últimos 100 anos
Às custas de nós, pobres
Do nosso esforço competente em enriquecer presidente branco que nem liga pra gente, mas liga pros ricos e milionários brancos
Enquanto alguém achar normal o branco cada vez mais rico e o preto cada vez mais pobre, tudo vai piorar

Estamos numa crise criada pelos ricos, brancos, em suas viagens e banquetes nojentos, caros!
Não respeitam nem os animais, imagine os nossos ancestrais vermelhos!

Por isto escrevo, pois espero nos unir um dia, caro trabalhador e cara trabalhadora
Porque se hoje eu escrevo é porque tive um professor, uma professora
Se hoje escrevo é porque fui parido, cuidado ao lado de um povo sofrido
E não quero que a gente morra sem ter no mínimo evoluído

Que seja em comunhão

Agradeço pelo seu tempo em me ler
Conte comigo rumo à revolução.

(Diego Rbor)

FONTE: https://diegorbor.com/2020/07/28/funcionariosedesempregados/#respond

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