Ainda os ecos do Carnaval

13/02/2008 às 8:51 | Publicado em Zuniversitas | 1 Comentário

No mesmo “rumo da prosa” do post  Gregório e o juiz porreta, de 15 de janeiro, e também lembrando outro, o Engenheiros, médicos e… advogados, de 01 de fevereiro, coloco este, do Língua Brasil, intitulado “DO CARNAVAL NO SAMBA DO CONCURSO DOIDO”. 

Sempre que estudava Português, notadamente Gramática, os professores falavam de uma tal norma culta e eu sempre me perguntava: culta vem de cultura, então cultura de quem cara pálida ? Fico a um só tempo surpreso e feliz ao ver uma profissional da área concordando comigo, finalmente…

          Vamos então ao texto:

“Sendo carnaval, acho oportuno abordar um aspecto de vestibulares e concursos para preenchimento de cargos públicos. Trata-se da prova de português, também uma folia, mas sem confetes e serpentinas. Ao passar os olhos sobre os testes de alguns concursos e “simulados”, concluo que ainda há pouco a comemorar, pois alguns deles põem o candidato contra a parede com frases tão fora da realidade quanto o título desta coluna.

é louvável que a primeira eliminatória dos concursos públicos inclua questões de português. Seu mérito é justamente este: levar o pessoal a “correr atrás do prejuízo”. E haja apostilas e matrículas em cursos preparatórios!

Alguns concursos partem direto para  redação, ótimo (aí o problema pode ser a correção delas, mas nada é perfeito…). Outros começam com provas objetivas, que nem sempre avaliam o conhecimento do candidato; isso depende muito da maneira como se fazem as questões e que tipo de questão é feita. Pode se beneficiar mais aquele que conhece os macetes de marcar cruzinhas, eliminar isso e aquilo, fazer somas, do que o candidato que redige bem, tem bom vocabulário, mas desconhece a “psicologia” da prova objetiva ou a tendência (para não dizer o humor) de quem a elaborou.

Espera-se de um procurador ou juiz que conheça a língua nativa de modo a redigir com coerência, clareza e correção seus pareceres, sentenças, petições, acórdãos. E é importantíssimo que ele saiba consultar dicionários e livros para solucionar dúvidas. Mas na hora do “vamos ver”, esse pobre advogado tem que saber, sob pena de reprovação:

– que o plural de puxa-puxa, pele-vermelha e puro-sangue é puxa(s)-puxas (puxa vida!), peles-vermelhas e puros-sangues;

– que são todas frases “ERRADAS”: Estados Unidos atacam Afeganistão. Fiquem alertas! João namora com Maria. Não me simpatizei com ela. Aqui se come, se bebe e se é feliz. Sua atitude implicará em demissão (1). Deu nove horas no relógio da praça (2). Esqueci de seu nome;

– que na língua nativa as frases boas (“assinale a frase CORRETA”) são escritas assim: Fi-las com a dedicação de um monge. Nunca me esqueceram seus olhares marotos (3). Meus projetos, nunca lhos mostrarei. A elas, não lho entregarei (4). O senador favorável à nossa causa assiste em Brasília. Entrada é proibido (5). Dá-lo-ia, mandá-la-á…

Comentários:

(1) Temos que parar de ser implicantes com “implicar em”; felizmente bons vestibulares já não estão insistindo na regência deste verbo.

(2) Quanta história! Já em 1654, D. Francisco Manuel de Melo escreveu em “Relógios Falantes”: “Não dera ainda nove horas, que é taxa de todo cativeiro do matrimônio”.

(3) Que frase marota: os olhares não me esqueceram ou eu é que não esqueço tais olhares?? Com essa estrutura frasal, fiquei confusa! E ainda descubro que o filme “Esqueceram de mim” deveria se chamar “Esqueceram-se de mim”. Ora, se érico Verissimo, Mário de Andrade, Jorge Amado, José Lins do Rego e Clarice Lispector usaram “esquecer de” (sem o pronome oblíquo), por que nós, simples mortais, não temos esse direito?

(4) Afinal, o concurso é para trabalhar no Brasil ou em Portugal? Pois lá é que se usam os pronomes mo, ma, lho, lha…

(5) Qualquer pessoa normal que quiser afixar placa de interdição saberá escrever: PROIBIDO ENTRAR ou Entrada proibida ou é PROIBIDA A ENTRADA ou até mesmo Proibido entrada, mas nunca usará a opção sugerida no teste.

Gosto de gramática, prezo sua utilidade e defendo seu ensino. Porém há um evidente exagero nisso tudo. Não se pode ficar cobrando regras quando são inócuas ou polêmicas. Essa coisinha de exceção e de “pegadinha” só faz afastar as pessoas do estudo de português, criando nelas ojeriza ao idioma.

Até pode ser interessante saber que “informar e inflamável apresentam prefixos de mesmo significado” (in, “para dentro”) e que “amarelar, infelizmente e apedrejar não são formadas pelo mesmo processo”, pois na 1ª temos derivação sufixal, na 2ª derivação prefixal e sufixal e na 3ª uma parassíntese, mas se o candidato não tiver memória para decorar tudo isso, danou-se!”

* Maria Tereza de Queiroz Piacentini Diretora do Instituto Euclides da Cunha

1 Comentário »

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  1. Bom post!

    Pretendo tomar um curso para aprender Português corretamente (coisa que minha esposa já fez). Considero importante conhecer os porquês para fundamentar o aprendizado, mas também acho difícil memorizar as regras.

    Fico satisfeito em acertar ortografia e gramática ao escrever, mesmo se não lembrar qual regra estou seguindo… 😉


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