O país do quem diria

12/05/2008 às 5:49 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário

Inicio esta semana postando aqui, pela primeira vez, uma crônica do Veríssimo (Luis Fernando Veríssimo), o autor do Analista de Bajé e de tantos outros livros e textos que nos divertem e fazem pensar. Este, como não poderia deixar de ser vndo das bandas do sul, é mais uma crítica bem-humorada ao atual governo Lula. Se deleitem então com esse “O país do quem diria” publicado nos principais jornais brasileiros nesse último fim-de-semana.

Um brasileiro que tivesse ido para o espaço em 2002 e voltado agora teria toda a razão para estar tonto, e não apenas pelo choque da reentrada na atmosfera. Teria viajado em meio a manifestações de pânico do mercado financeiro com a iminência da eleição do Lula e voltado em meio à festa pelo governo Lula ter recebido a mais alta condecoração que a cabala financeira mundial pode dar, a Medalha do Pagador Confiável, grau de convertido mor. Nosso perplexo viajante no espaço não pararia de repetir a frase mais ouvida no país das expectativas furadas, nestes últimos tempos: “Quem diria… Quem diria…”

Quem diria que quem um dia pregou o calote acabaria um pagador premiado? Quem diria que os barbudos que mudariam tudo quando chegassem ao governo, começando pela política econômica, não apenas continuariam a mesma política como conseguiriam o reconhecimento internacional que as fatiotas do governo anterior não alcançaram?

Quem diria que em vez do caos que previam com a eleição do Lula os bancos se vissem, no seu governo, favorecidos e ricos como nunca antes? Quem diria que, com sua aprovação popular empatando com a aprovação da irmandade financeira, o governo do PT se transformaria num exemplo inédito de populismo conservador?

É verdade que o “quem diria” pode ser dito com tanto quanto agradável surpresa, dependendo da expectativa furada de cada um. Para quem tinha esperanças mais de esquerda, a decepção com o conservadorismo do PT no governo, mesmo compensada com o golpe para a auto-estima do patriciado brasileiro que é o prestígio do torneiro-mecânico nas altas rodas do dinheiro, e mesmo com os avanços simultâneos havidos na distribuição de renda no país, ainda é uma decepção.

Para quem já estava fazendo as malas para fugir do caos em 2002, mesmo após o Lula ter avisado que não faria nada do que eles estavam temendo no governo, o “quem diria” vem acompanhado de um sorriso incrédulo. Quem diria que seria logo num governo do PT a apoteose do pensamento único?

O grau de país seguro para investimentos significa, em linguagem menos cabalística, que é seguro jogar neste cassino. O crupiê não tira cartas da manga, a roleta está no nível certo. A analogia só não é completa porque nos cassinos reais a casa costuma ganhar mais do que os apostadores e, no Cassino Brasil, onde o dinheiro entra e sai sem controles — e agora entrará e sairá com mais volume —, a casa é a que menos ganha.

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