13 de maio (de 1888)

13/05/2009 às 19:53 | Publicado em Artigos e textos | 10 Comentários

Mais uma vez republico este post que teve boa repercussão nas vezes anteriores, em homenagem ao dia de hoje:

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Republico o post “Em homenagem ao dia da consciência negra e á revolta da chibata” (de 22/11/2007) pelo dia de hoje, data por demais significativa para o Brasil, para a Bahia em especial, e para o Ceará, não à toa chamada de “Terra da Luz”, mas exatamente porque foi em Redenção, cidade interiorana, onde pela primeira vez os escravos foram libertos neste país, em primeiro de janeiro de 1883. Na entrada da cidade pode-se apreciar o monumento abaixo.

Precursor desse acontecimento, outro fato e personagem marcante da história: o jangadeiro Francisco José do Nascimento, o “Dragão do Mar”, de apelido “Chico de Matilde”. Ele se recusou a transportar para os navios negreiros, fundeados no porto de Fortaleza, os escravos que seriam vendidos para o sul do país, isso em 1881.

A REVOLTA DA CHIBATA

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(João Cândido, o Almirante Negro)

 

O Congresso brasileiro restabeleceu, no mês de agosto de 2003, os direitos de todos os marinheiros envolvidos na chamada “Revolta da Chibata”, ocorrida em 1910. O decreto devolve aos marinheiros suas patentes, permitindo que recebam na Justiça os valores a que teriam direito se tivessem permanecido na ativa. Após 93 anos, resgata-se a memória dos marujos, especialmente do líder da Revolta, João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro”.

Para entender a história de João Cândido e da Revolta da Chibata – uma das poucas revoltas populares que atingiu seus objetivos no Brasil – é preciso voltar a 1910. Neste ano, no meio de uma grande instabilidade política, o militar Hermes da Fonseca é eleito para a presidência.

Na noite do dia 22 de novembro de 1910, o novo presidente recebe a notícia: os canhões de alguns dos principais navios de guerra da Marinha Brasileira – neste momento ancorados em frente à cidade, na Baía de Guanabara – apontam para a capital do Rio de Janeiro e para o próprio palácio de governo. As tripulações se rebelaram e tomaram os principais navios da frota.

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(O Minas Gerais, um dos modernos navios recém-adquiridos pela Marinha na época da Revolta)

Três oficiais e o comandante do encouraçado Minas Gerais, João Batista das Neves, estão mortos. Os demais oficiais são pegos de surpresa: os marinheiros manobram a frota exemplarmente, como não acontecia sob seu comando. O movimento, articulado por marinheiros como Francisco Dias Martins, o “Mão Negra” e os cabos Gregório e Avelino, tem como seu porta-voz o timoneiro João Cândido.

A última chicotada

Os motivos principais da Revolta eram simples: o descontentamento com os baixos soldos, a alimentação de má qualidade e, principalmente, os humilhantes castigos corporais. Estes haviam sido abolidos no começo do século, acompanhando o final da escravidão, sendo depois reativados pela Marinha como forma de manter a disciplina a bordo.

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(Ao lado de um dos Marinheiros, João Cândido lê o manifesto da Revolta: fim dos castigos corporais)

 

No Minas Gerais, por exemplo, no dia da Revolta, o marinheiro Marcelino Menezes é chicoteado como um escravo por oficiais, à frente de toda a tripulação. Segundo jornais da época, recebe 250 chibatadas. Desmaia, mas o castigo continua. O movimento então eclode. João Cândido no primeiro momento não está presente. No calor da luta, são mortos os oficiais presentes no navio, o que terá conseqüências trágicas para os revoltosos.

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(Para surpresa dos oficiais a marujada manobrava sozinha os navios)

Além do Minas Gerais, os marinheiros tomam os navios Bahia, São Paulo, Deodoro, Timbira e Tamoio. Hasteiam bandeiras vermelhas e um pavilhão: “Ordem e Liberdade”. A frota inclui mais de 80 canhões, que são apontados para a cidade. Alguns tiros de aviso chegam a ser disparados. Os marujos enviam um radiograma, onde apresentam ao governo suas exigências: querem o fim efetivo dos castigos corporais; o perdão por sua ação e que melhorem suas condições de trabalho.

A Marinha quer punir a insubordinação e a morte dos oficiais. O governo, contudo, cede. A ameaça à cidade e ao poder de Hermes da Fonseca são reais. Aprovam-se então medidas que acabam com as chibatadas e também um projeto que anistia os amotinados. Depois de cinco dias, a revolta termina vitoriosa.

A despedida do marinheiro

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(Os jornais da época anunciam o término da Revolta: quase 3.000 pessoas. Os mais ricos – fugiram da cidade. A população subiu aos morros para ver as manobras da Armada)

Os marinheiros, em festa, entregam os navios. O uso da chibata como norma de punição disciplinar na Marinha de Guerra do Brasil finalmente está extinto.

Logo, no entanto, o governo trai a anistia. Os marinheiros começam a ser perseguidos. Surgem notícias de uma nova revolta, desta vez no quartel da Ilha das Cobras. O governo recebe plenos poderes do Congresso para agir. A ilha é cercada e bombardeada.

Cerca de 100 marinheiros são presos e mandados, nos porões do navio “Satélite” – misturados a ladrões, prostitutas e desocupados recolhidos pela polícia para “limpar” a capital – para trabalhos forçados na Comissão Rondon, ou simplesmente para serem abandonados na Floresta Amazônica. Na lista de seus nomes, entregue ao comandante do “Satélite”, alguns estão marcados por uma cruz vermelha. São os que morrerão fuzilados e, depois, serão jogados ao mar.

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(João Cândido é conduzido para a prisão)

João Cândido, embora não tenha participado do novo levante, também é preso e enviado para a prisão subterrânea da Ilha das Cobras, na noite de Natal de 1910, com mais 17 companheiros. Os 18 presos foram jogados em uma cela recém-lavada com água e cal. A cela ficava em um túnel subterrâneo, do qual era separada por um portão de ferro. Fechava-a ainda grossa porta de madeira, dotada de minúsculo respiradouro. O comandante do Batalhão Naval, capitão-de-fragata Marques da Rocha, por razões que ninguém sabe ao certo, levou consigo as chaves da cela e foi passar a noite de Natal no Clube Naval, embora residisse na ilha.

A falta de ventilação, a poeira da cal, o calor, a sede começaram a sufocar os presos, cujos gritos chamaram a atenção da guarda na madrugada de Natal. Por falta das chaves, o carcereiro não podia entrar na cela. Marques da Rocha só chegou à ilha às oito horas da manhã. Ao serem abertos os dois portões da solitária, só dois presos sobreviviam, João Cândido e o soldado naval João Avelino. O Natal dos demais fora paixão e morte.

O médico da Marinha, no entanto, diagnosticou a causa da morte como sendo “insolação”. Marques da Rocha foi absolvido em Conselho de Guerra, promovido a capitão-de mar-e-guerra e recebido em jantar pelo presidente da República.

João Cândido continuou na prisão, às voltas com os fantasmas da noite de terror. O jornalista Edmar Morel (1979, p. 182) registrou assim seu depoimento pessoal: “Depois da retirada dos cadáveres, comecei a ouvir gemidos dos meus companheiros mortos, quando não via os infelizes, em agonia, gritando desesperadamente, rolando pelo chão de barro úmido e envoltos em verdadeiras nuvens da cal. A cena dantesca jamais saiu dos meus olhos.

Atormentado pela lembrança dos companheiros mortos, João Cândido é algum tempo depois internado em um hospício.

Perto do mar, as “pedras pisadas do cais”

Aos poucos, ele se restabelece. É solto e expulso da Marinha. Os navios mercantes não o aceitam: nenhum comandante quer por perto um ex-presidiário, agitador, negro, pobre e talvez doido. João Cândido continuará contudo perto do mar, até morrer, em 1969, aos 89 anos de idade, como simples vendedor de peixe.

Os que fizeram a Revolta da Chibata morreram ou foram presos, desmoralizados e destruídos. Seu líder terminou sem patente militar, sem aposentadoria e semi-ignorado pela História oficial. No entanto, o belíssimo samba “O Mestre-Sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre “nas pedras pisadas do cais”. A mensagem de coragem e liberdade do “Almirante Negro” e seus companheiros resiste.

HOMENAGEM DE JOÃO BOSCO E ALDIR BLANC À “REVOLTA DA CHIBATA”

Sobre a censura à música, o compositor Aldir Blanc conta: “Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que a Marinha não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as idéias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, (…) mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o “bonzinho”, disse mais ou menos o seguinte:

  • Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…
  • Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um “telefone” nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:

– O problema é essa história de negro, negro, negro…”

MÚSICA DE JOÃO BOSCO E ALDIR BLANCI

EM HOMENAGEM A REVOLTA DA CHIBATA

Mestre-Sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 70, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre “nas pedras pisadas do cais”. A mensagem de coragem e liberdade do “Almirante Negro” e seus companheiros resiste.

Para ouvir: http://www.divshare.com/download/2850321-faa

O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco / Aldir Blanc)
(letra original sem censura)
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo  

O Mestre Sala dos Mares
(João Bosco / Aldir Blanc)
(letra após censura durante ditadura militar)
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo  

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  1. Valeu Zé,
    não conhecia a história, apesar de gostar muito da música.
    Beijos,

    Flaviana.

  2. […] publicou hoje, em homenagem ao Dia da Consciência Negra, um post sobre a Revolta da Chibata que é uma verdadeira aula de […]

  3. Adorei o Post Zé, engraçado que enquanto lia fiquei com a música abaixo no pensamento:

    Olhos Coloridos
    Sandra de Sá
    Composição: Macau

    Os meus olhos coloridos
    Me fazem refletir
    Eu estou sempre na minha
    E não posso mais fugir
    Meu cabelo enrolado
    Todos querem imitar
    Eles estão baratinados
    Também querem enrolar
    Você ri da minha roupa
    Você ri do meu cabelo
    Você ri da minha pele
    Você ri do meu sorriso
    A verdade é que você,
    Tem sangue crioulo
    Tem cabelo duro
    Sarará crioulo
    Sarará crioulo, sarará crioulo

    Saudades
    Beijos

  4. Valeu Kênia,

    Belo complemento a este post, obrigado, a música é bacana.

    um bjo.

  5. Abaixo o texto “Brasileiros não estavam acostumados”, enviado por um amigo, retirado do site “Sentando a pua”: http://www.sentandoapua.com.br/

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    Dia 24.03 uma sexta feira que não era 13, uma ingrata surpresa estava reservada a todos nós do Grupo de Caça. Recebemos ordens de entrar em forma e ir do alojamento para o rancho agrupados. Após o café fomos instruídos a ler a seguinte “Ordem de Serviço”:

    “FICA PROIBIDO AOS SOLDADOS IREM AO PX, CINEMA, PISCINA E QUALQUER LUGAR DESTA BASE SEM QUE ESTEJA ACOMPANHADO POR UM SARGENTO. FICA O RESTANTE, PROIBIDO ATÉ SEGUNDA ORDEM.”

    A Ordem deixou a todos estupefatos. Ninguém sabia os motivos. Fomos almoçar, já cumprindo as novas determinações, acompanhados por um sargento, e cada mesa também era comandada por um sargento.

    No dia seguinte, sábado 25.03, inspeção do alojamento, depois a de armamento. Às 10:00, fomos para o Cassino aguardar a ordem de saída. O Ten. ASSIS, em nome do comandante, nos transmitiu a seguinte BOMBA !
    1- CANCELADA A SAÍDA DE TODOS
    2- VETADA A IDA DE QUALQUER HOMEM DO GRUPO DE CAÇA AOS SEGUINTES LUGARES:
    2.1 PISCINA
    2.2 CINEMA
    2.3 P.X.
    2.4 SAIR DO ALOJAMENTO.

    Nesta altura dos acontecimentos, ninguem estava entendendo NADA. O Ten. ASSIS, não tinha dado os motivos para o castigo tão violento. Em nosso alojamento, o 807,o assunto não era outro. Nós, os soldados e cabos, resolvemos apelar para o Ten Aurélio, a fim de conhecermos os fatos que levaram o nosso comandante a julgá-los tão graves que o levaram a tomar esta decisão tão drástica.

    Fomos a seguir, informados que deveríamos aguardar no alojamento uma comunicação muito importante. Saimos às 12:00h para o almoço e às 13:00h retornamos ao 807 e aguardamos o Ten. ASSIS, que chegou pouco depois das 14:00h. Para tristeza minha e consternação geral, disse que nossa detenção e restrições de lazer, tinha como causa a queixa feita pelo Comandante americano da Base ao nosso comandante Cel. Nero, pela presença entre nós de militares negros.

    Uma vez que a segregação racial adotada pelos norte-americanos era total, os gringos se recusaram a frequentar a piscina, o px e o cinema, devido a presença dos nossos escurinhos.

  6. Abaixo e-mail recebido hoje, dia 20/11/2008, de um amigo em homenagem ao DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. Em várias cidades brasilerias é feriado hoje, e em Salvador (onde 80 % tem fenótipo negro e 99.99 % também o genótipo, eu incluso) não é feriado !

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    20 de novembro – Salve a miscigenação. Salve a consciência negra!

    Palmares! a ti meu grito!
    A ti, barca de granito,
    Que no soçobro infinito
    Abriste a vela ao trovão.
    E provocaste a rajada,
    Solta a flâmula agitada
    Aos uivos da marujada
    Nas ondas da escravidão!
    (Saudação a Palmares – Castro Alves)

    O dia de hoje – 20 de novembro – é dedicado ao Dia da Consciência Negra: data não para comemorar, mas para refletir sobre as diferentes formas de escravidão que ainda existem no Brasil, sobre o racismo velado e sobre o que deve ser feito para superar as desigualdades que persistem quando a cor da pele entra em cena.

    A data foi escolhida pelo Movimento Negro em homenagem a Zumbi dos Palmares – líder do Quilombo dos Palmares, maior foco da resistência negra à escravidão na história do Brasil, morto nesse dia no ano de 1695 e se contrapõe ao 13 de maio (dia da suposta abolição da escravatura).

    Passados mais de 3 séculos da morte do mártir, a questão racial no Brasil infelizmente está longe de ser superada: aqui, a pobreza tem cor e endereço – é negra e vive no Nordeste. Entre os que vivem abaixo da linha da pobreza, os negros são maioria; entre as crianças fora da escola, as negras são maioria, entre os desempregados, idem. Entre os bancários, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) divulgado este ano, apenas 2,4% são negros.

    O motivo para esse cenário: preconceito e diferença de oportunidades que, acumulados ao longo da história, resultam num país extremamente desigual, imerso num modelo de sociedade onde ainda prevalece o desrespeito a mulheres, negros e crianças.

    A cultura afro, assim como a indígena e a dos demais povos que formam o Brasil são os responsáveis pela riqueza que é a cultura brasileira – tanto nos aspectos visíveis (na culinária, na formação da língua que nos une…) quanto nos aspectos subjetivos (como a coragem, a disposição, a hospitalidade…). A dívida brasileira com os negros é enorme, daí a necessidade de políticas que reparem e tratem diferenciadamente aos negros, não porque sejam melhores ou piores, mas por uma questão de justiça. O caminho para a reparação das injustiças históricas é longo, mas “o caminho se faz caminhando”…

    A AFBNB, neste dia, saúda a todos os negros que, com sua coragem e honradez ajudam a construir o Brasil. A luta pelo fim das desigualdades, bandeira de luta nossa e de tantos outros companheiros, só será plena se contemplar também as questões raciais. A morte de Zumbi pela liberdade de seu povo, que também somos nós, não pode ter sido em vão. “Valeu Zumbi! O grito forte dos Palmares!”

    Documentário
    A agência Brasil produziu um documentário sobre a luta dos quilombolas pelo reconhecimento de seus direitos. Para assisti-lo, veja o site da afbnb.com.br.

    Canto Das Três Raças (Clara Nunes – Composição: Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)

    Ninguém ouviu
    Um soluçar de dor
    No canto do Brasil

    Um lamento triste
    Sempre ecoou
    Desde que o índio guerreiro
    Foi pro cativeiro
    E de lá cantou

    Negro entoou
    Um canto de revolta pelos ares
    No Quilombo dos Palmares
    Onde se refugiou

    Fora a luta dos Inconfidentes
    Pela quebra das correntes
    Nada adiantou

    E de guerra em paz
    De paz em guerra
    Todo o povo dessa terra
    Quando pode cantar
    Canta de dor

    ô, ô, ô, ô, ô, ô
    ô, ô, ô, ô, ô, ô

    E ecoa noite e dia
    É ensurdecedor
    Ai, mas que agonia
    O canto do trabalhador

    Esse canto que devia
    Ser um canto de alegria
    Soa apenas
    Como um soluçar de dor

    Fonte: AFBNB

    ——————————————————————

    Assunto: O debate sobre as cotas para afrodescendentes e a necessidade de políticas para assegurar igualdade

    A realidade das cotas

    Nicolau Soares

    O debate sobre as cotas para afrodescendentes e a necessidade de políticas para assegurar igualdade.

    Um dos temas mais polêmicos dos últimos anos no Brasil, as cotas em vestibulares voltaram à pauta recentemente com boas notícias para seus defensores.

    Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Federal da Bahia (Ufba), que adotam medidas que beneficiam afro-descendentes, indígenas e estudantes de escolas públicas nos exames vestibulares, divulgaram levantamentos sobre o desempenho dos cotistas.

    Resultado: em todas elas, os universitários que disputaram vaga pelo sistema tiveram desempenho igual ou superior aos não-cotistas. Os dados batem de frente com um argumento muito utilizado pelos críticos do sistema, que as cotas fariam cair a qualidade do ensino superior por conta da entrada de estudantes “não qualificados”.

    A discussão sobre cotas levou muito tempo para amadurecer no Brasil. Hoje, não se fala mais em ‘contra’ ou ‘a favor’, mas em como vai se dar a implantação para que sejam atingidas todas as áreas vitais da sociedade, e como garantir a qualidade de ensino para todos”, afirma Acácio Almeida Santos, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

    “Temos clareza hoje de que as políticas universalistas sempre foram excludentes no Brasil. Sempre atenderam a um grupo, que é a população branca, ou grande parte dela. Todas as pesquisas (feitas por órgãos do governo, mas por demanda do movimento negro), mostram que em todas as políticas públicas, seja para trabalho, educação ou saúde, os negros estão sempre muito abaixo da população branca”, destaca.

    O tema já faz parte das reivindicações do movimento negro, organizado há décadas. “Em 1945, o militante negro Abdias do Nascimento já falava de cotas no ensino e no mercado de trabalho durante o Congresso Negro, que ocorreu em São Paulo”, conta Jaques Jesus, assessor de Diversidade e Apoio aos Cotistas da Universidade de Brasília (UnB).

    Foram quase 60 anos até que alunos cotistas iniciassem sua vida acadêmica em 2003, na Uerj, primeira instituição de grande porte no Brasil a adotar o sistema. A UnB chegou um ano mais tarde, sendo a primeira universidade federal a instituir uma política de cotas, em junho de 2004.

    Hoje, cerca de 40 instituições públicas utilizam algum tipo de ação afirmativa no país. Segundo dados do governo federal, ações afirmativas viabilizaram a entrada de aproximadamente 100 mil cotistas nas universidades federais e tramita no Congresso Nacional o projeto de lei nº 73/99, que institui reservas de vagas para alunos oriundos de escolas públicas, respeitando a proporcionalidade de negros e indígenas em cada unidade da federação.

    Além disso, 200 mil bolsistas que ingressaram em faculdades particulares por meio do ProUni declararam-se afro-descendentes. Na primeira turma da UnB estava Wesley Pereira Grangeiro, hoje cursando o sétimo semestre de Artes Plásticas.

    “Foi muito importante para mim, seja do ponto de vista pessoal, intelectual ou social”, avalia. O peso foi ainda maior se considerarmos que aquela era a quinta vez que Wesley prestava o exame.

    “Eu não teria condições de pagar uma faculdade particular, então a UnB era minha única opção”, conta. Sem fazer cursinho, o vestibular era uma barreira, que só foi transposta após a implantação do sistema de cotas.

    “O vestibular é um sistema de eliminação de concorrentes, não de avaliação. Ele não diz nada sobre a vontade de alguém de estudar. Se alguém quer estudar, estuda, todo mundo tem essa capacidade”, defende.

    “Não há uma estreita relação entre o desempenho do estudante no ensino médio e no superior. Os cotistas, muitas vezes, são a primeira pessoa da família ou da comunidade de onde vêm a entrar numa universidade, é uma chance importante”, ressalta Jesus.

    A UnB reserva 20% das vagas de cada curso para afro-descendentes. Os candidatos precisam atingir patamares mínimos definidos pela instituição no vestibular e se autodeclararem negros para participar. Os resultados até agora são expressivos: havia apenas 2% de negros na entidade antes do sistema. Hoje, são cinco vezes mais.

    “No curso de Medicina, antes das cotas, havia apenas um negro, e era um estudante de intercâmbio africano”, conta Jesus.
    A autodeclaração é um dos muitos focos de críticas que as cotas recebem e a UnB protagonizou um caso exemplar dessa discussão no vestibular do meio deste ano.

    Os irmãos Alex e Alan Teixeira da Cunha, gêmeos idênticos e filhos de pai negro e mãe branca, se inscreveram no sistema. Apenas Alan foi aceito de início, sendo que Alex entrou posteriormente com um recurso e conseguiu sua inscrição.

    A falha levou a uma enorme grita contra as cotas, dizendo ser impossível definir quem é negro e quem não é. A UnB modificou seu vestibular, trocando a avaliação de fotos que eram enviadas por todos os candidatos por entrevistas com os classificados, mas isso não impediu a grita de continuar.

    Nicolau Soares é colunista da Revista Forum

  7. Valeu, Zezinho. esse blog tá porreta!

    Abs

    Enildo

  8. Essa história de maus tratos,escravidão e motins envolvendo o negro levou-me a lembrar do filme AMISTAD, cuja roteiro foi baseado na história real ocorrida em 1839.O filme é uma aula de Direitos Humanos que tem como objeto a defesa de 53 negros amotinados num navio-negreiro.Após o motim,os escravos iam voltar para a Africa, mas por circuntancias adversas, foram parar nos EUA capturados por um navio americano.Em razão do navio ser de bandeira espanhola, ficou no ar a pergunta:A quem pertencem os negros do Amistad?
    Este impasse diplomático provocou um dos mais belos julgamentos da História dos EUA, onde a Suprema Corte Americana, ao final, determina que os 53 negros são pessoas livres,com o direito de decidirem pelo destino de suas próprias vidas.

    Nos EUA o movimento abolicionista motivou uma sangrenta guerra civil.

    Aqui no Brasil,os metodos desumanos praticados nas senzalas fizeram escola até na Republica,onde os marinheiros recebiam chibatadas nos navios da Marinha de Guerra; Este método acabou provocando um motim dos marinheiros contra este tipo de humilhação denominado A Guerra das Chibatas,cujo lider foi chamado de Almirante de Negro em homengem a sua bravura e coragem.Mas é interessante o que este Blog mosra que o Almirante Negro terminou sem patente militar, sem aposentadoria e semi-ignorado pela História oficial.

    A escravidão dos negros e o tráfico de escravos é um assunto dificil de ser digerido, porque denuncia a irracionalidade do ser humano quando defende seus interesses econômicos às custas do trabalho escravo.

    A repercussão cultural deste processo de dominação irracional que foi praticado em todo o mundo, durante mais de 400 anos, guarda consequências estigmatizantes, irreversíveis, até os dias de hoje, incrustadas nas mentes das classes dominantes,principalmente, aqui no Brasil.

    A próposito,este estigma foi denunciado no documentário “Negação do Brasil,produzido e autografado por Joel Zito Araújo, onde ele narra, com impressionante precisão, a trajetória do negro na teledramaturgia brasileira

    A negação do Brasil – O negro na telenovela brasileira, do diretor e roteirista de TV Joel Zito Araújo, vai fundo no tema da exclusão do negro das tramas do horário nobre. Os negros fazem parte da teledramaturgia brasileira desde o seu início, mas sua imagem sempre foi estereotipada.

    Muito raramente – e só de uns anos para cá – ele interpreta o papel de um rico empresário, de um grã-fino, de herói. Nas novelas brasileiras, o negro (ou o mulato) é sempre o malandro cheio de ginga, que samba no pé. No fundo, passa uma imagem de desleixo, falta de responsabilidade ou mesmo de marginal, o que é altamente negativo para fixação do seu caráter. O autor narra como essa idéia surgiu e mapeia, com impressionante precisão, a trajetória do negro na teledramaturgia brasileira.

    Mas a TV é apenas o espelho do preconceito e do que o autor chama de “a negação do Brasil”, um país que nega sua própria realidade. A ausência do negro na TV ou sua imagem subalterna, quando aparece, são conseqüências de um preconceito racial gerado pela exclusão social das populações negras do país, as mais marginalizadas e que apresentam os indicadores sociais mais desfavoráveis – apesar de o Brasil ser um país miscigenado, com predominância negra. A obra mostra que, mesmo na sociedade brasileira atual, negros e índios “continuam vivendo as mesmas compulsões desagregadoras de uma auto-imagem depreciativa, gerada por uma identidade racial negativa e reforçada pela indústria cultural brasileira, a qual insiste simbolicamente no ideal de branqueamento”, como pontua o autor, em uma passagem do livro.

    Segundo ele, entre 1980 e 1990, houve algumas mudanças nesse pensamento, ainda que tímidas. A telenovela Corpo a Corpo, onde aparece uma personagem vítima de preconceito racial, Sonia, vivida pela atriz Zezé Motta. Essas duas décadas são consideradas pelo autor como um período de ascensão do negro na telenovela brasileira. No entanto, teria permanecido a construção de uma identidade de “branquitude” na sociedade brasileira, onde as imagens dominantes, em especial dos subtextos, reforçam o elogio dos traços brancos como o ideal de beleza dos brasileiros. A nossa diversidade racial e cultural transforma-se, nas telenovelas, no paradoxo de um Brasil branco.

    Por fim, o livro mostra, de forma contundente, que o lugar do negro nas tramas exibidas na televisão não mudou e que continua a se reproduzir no século 21. O autor consegue aproximar a televisão da sociedade brasileira. Analisa o papel da mídia na história da telenovela brasileira, mostrando como são representados os negros, e as conseqüências dessa representação no processo de construção de sua identidade. Os dados apresentados no livro são irrefutáveis. Os gráficos, quadros e dados estatísticos provam que a telenovela brasileira ainda não dá visibilidade à composição racial do país, praticando, assim, uma negação da diversidade racial brasileira.

    Joel Zito Araújo é cineasta, diretor e roteirista de TV, além de doutor em ciências da comunicação pela ECA-USP, onde participa do Núcleo de Pesquisa de Telenovela. Sua relação com a questão do racismo vem de longa data. Realizou, a partir de 1984, 24 documentários e 22 médias metragens, sempre tratando das relações do negro na sociedade brasileira. Em 2000, dirigiu o documentário A negação do Brasil, sobre a participação de atores negros na televisão, que depois virou o livro ora em comento. Seu último filme, Filhas do Vento, também sobre o tema racismo, foi protagonizado pelos atores Milton Gonçalves e Thaís Araújo.

    Nesta data, 13 de maio de 2009,é o início de uma liberdade que precisa de uma ação afirmativa que recupere o espaço perdido do negro há mais de 500 anos fora das políticas de inclusão social do Estado brasileiro e fora da midia nacional como representante de um segmento da população que tem o maior peso demográfico deste país.

    Amigo José Rosa,desculpe o excesso,

  9. […] publicou hoje, em homenagem ao Dia da Consciência Negra, um post sobre a Revolta da Chibata que é uma verdadeira aula de […]

  10. […] já tendo passado o dia, compartilho a charge nesta sexta porque vale a […]


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