Noel e Adoniram: ritual de passagem da nossa música

18/04/2010 às 5:02 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 1 Comentário

 

Ao escrever um bom artigo homenageando Noel e Adoniran pela passagem dos 100 anos dos dois, que ocorreria neste 2010, o Professor Jorge Portugal faz uma espécie de crítica da época do ‘beletrismo’ e cita esta obra prima de Catulo da Paixão Cearense, “Ontem ao Luar”, para afirmar que Noel e Adoniran conseguiram o feito de popularizar as canções e o samba em nosso país. Brindo meus leitores, neste domingo, com as duas épocas, no vídeo de Marisa Monte e no texto de Jorge Portugal.


NOEL E ADONIRAN: SINGULARES (Jorge Portugal, ATARDE, semana de 11 a 17/04/2020)

Duas figuras fundamentais da nossa MPB fariam cem anos neste 2010: Noel Rosa e Adoniram Barbosa.Dois letristas, poetas da canção, pessoas que marcaram nossa poesia cantada pela singularidade de suas obras.
Noel trouxe o discurso informal, a coloquialidade, a fala cotidiana para as letras de nossa canção ainda lá pelos anos 1930.Antes, como a nossa informação principal vinha dos livros e jornais, nossos primeiros letristas se esforçavam ao máximo para copiar os princípios parnasiano-simbolistas da escrita, sobretudo o vocabulário rebuscado, as inversões de ordem e tudo o mais que estivesse ligado ao “beletrismo” da época.Na composição Rosa, temos a “estátua majestosa do amor por Deus esculturada”; em Ontem ao Luar, “o amaríssimo travor do seu dulçor” e o “luar travesso e tão taful”, confirmando Bilac e Cruz e Sousa como referências máximas.
Aí chega Noel com sua Conversa de Botequim e manda um “ ‘seu’ garçom , faça o favor de me trazer depressa/uma boa média que não seja requentada/um pão bem quente com manteiga à beça…/. A música popular ganha sotaque brasileiro e, assim, passa a conversar com muito mais gente.Sem dispensar a poesia em “quando a fábrica apita faz reclame de você”.
Adoniram traz uma São Paulo escondida nas periferias sociais, que mistura línguas, linguagens, sofrimento e alegria na poética solidão dos seus sambas originais.Cronista de seu tempo, fixou em nosso imaginário uma cidade suburbana, às vezes sub-humana, mas demasiadamente humana.”Se o doutor não tá lembrado/dá licença de eu contar/aqui hoje onde está esse edifício “arto”/ era uma casa grande, um palacete assombradado…/. Ou o coração em conflito dos extraordinários amores ordinários: “ e além disso, mulher/ tem outra coisa/minha mãe não dorme enquanto eu não chegar/sou filho único/tenho minha casa pra morar/eu não posso ficar”/
Obviamente que é muito raro ouvirmos hoje, nas FMs da vida, os geniais sambas de Adoniram e Noel.Mas são eternos sucessos da nossa memória musical e os passamos de boca em boca para as gerações que chegam.Eles representam boa parte do mel do melhor de nossa cultura.Afinal, “tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia/ é brasileiro, já passou de português”.

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1 Comentário »

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  1. […] do nome, ele não era cearense. Catulo da Paixão Cearense era maranhense. Lendo esse artigo a gente fica com vontade de ouvir o disco e ler o livro. Grande […]


Comentários são livres, só não aceito nem publico xingamentos !

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