Eu também tenho

08/01/2012 às 19:08 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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João Ubaldo, se preparando para passar mais umas férias na Ilha de Itaparica. E desta vez com o desafio de participar do Comitê Proletário de Defesa do Vérnaculo, comandado por seu amigo famoso Zecamunista !

 


SAINDO DE FÉRIAS (João Ubaldo, nos jornais de hoje)

UbaldoEste ano, como sempre, vou viajar nas férias. Mas desta vez acho que lamentarei um pouco o afastamento daqui do terraço. Há muito tempo não lhes conto os acontecimentos no terraço, há novidades. Herculano, o gavião que volta e meia fazia ponto na esquina do alambrado, sumiu de vez. Em compensação, estabeleceu-se nas redondezas o casal de sabiás Wanderley e Ademilde, que deve ter ninho aqui perto e apresenta alguns duetos admiráveis, de manhã cedo e ao entardecer. Instalou-se também um clã de bem-te-vis, chefiado por Arnaldão, bem-te-vizão parrudíssimo, maior que certos pombos, e por Hildete, sua esposa, igualmente fortezinha e disposta.
Pensando bem, Herculano pode ter sido escorraçado daqui por Arnaldão e Hildete e talvez mais alguém da turma de bem-te-vis. Bem-te-vi é jogo duro para qualquer um, inclusive gavião pequeno. Quem conseguir pegar num bem-te-vi tem que ter muito cuidado, porque ele vira o pescoço e dá umas bicadinhas poderosas, que furam a mão. Muitos gaviões do porte de Herculano se dão mal, quando se metem a besta com um bem-te-vi. O gavião localiza o bem-te-vi lá de cima, do meio das nuvens, assenta a mira, recolhe as asas para trás e mergulha em alta velocidade, na direção do que ele imagina ser sua presa. Enquanto isso, o bem-te-vi, cuja visão permite que ele enxergue quem vem lá de qualquer lado, fica na dele, como se não estivesse notando nada. Mas, quando o gavião chega quase a tocá-lo, ele faz uma manobra que o atacante, caça a jato e não helicóptero, não tem tempo nem equipamento para acompanhar. Aí o bem-te-vi fica por cima e desce a lenha no cocuruto do gavião, que chega a babatar no ar, meio desgovernado, para depois recuperar-se e se mandar de volta a seu hangar, certamente decidido a pensar melhor, da próxima vez em que topar com um bem-te-vi.
Mas a novidade interessante mesmo, cá no terraço, não é com o reino animal e, sim, com o vegetal. Receio ter de confessar que o ambiente criado aqui pelas plantas não condiz com a moral e os bons costumes. Admito que salacidade sempre foi geral, com a colaboração diuturna de um exército de polinizadores sem senso de propriedade e sem qualquer pudor, mas agora está passando dos limites. Me lembra uma árvore da casa de finado Jugurta, em Itaparica. Nunca vi essa árvore, não sei nem qual a espécie dela, mas era famosa. Segundo contavam, ela promovia tamanha safadagem que Jugurta e sua dele santa esposa, d. Nadinha, chegaram a pensar em derrubá-la, não o fazendo somente pelo pecado que é derrubar uma árvore. Quando ela florava, mais exibida que 200 rumbeiras de circo, cada flor mais indecentíssima que a outra, se oferecendo a beija-flores, morcegos, borboletas, mamangavas, abelhas, mosquinhas e toda a malta sem-vergonha que se acumplicia nessas horas, eles mandavam cobrir o quadro oval do Sagrado Coração de Jesus que ficava na sala, e não deixavam as crianças ver a descaração transcorrendo no jardim.
Aqui no terraço está assim. Assim, não, pior. Num dos vasos maiores, reside uma fruteira cítrica com problemas sérios de identidade, que resultaram numa situação constrangedora. Ela chegou ainda mocinha, como laranja-lima, mas nunca deu laranja-lima nenhuma. Sua primeira fruta era uma laranja sem caroço, insuportavelmente azeda. Da segunda vez, era uma laranja com caroço, bastante docinha. Mas, de repente, um lado dela começou a produzir, em ritmo industrial, limões galegos. Suspeitei que se tratava de enxertos, mas temo que seja a manifestação mais explícita do clima de promiscuidade reinante. A razão da suspeita é o surgimento, no mesmo vaso, de uma outra arvorezinha, cujos tronco e raízes já se entrelaçam com a tal cítrica que não resolve o quer ser na vida. Não tenho certeza, mas creio que é uma goiabeira e isso poderá não definir-se ainda durante minhas férias. Uma conclusão, porém, já se impõe. A verdade dói, mas tem que ser dita: é uma deslavada suruba vegetal e acho que publicar uma fotografia dela seria proibido em países recatados.
Melhor mesmo, pensando bem, é viajar, escapar um pouco deste ambiente carregado. Embora não seja fácil como pode parecer e requeira prática, minha intenção é não fazer nada. Somado a fortes traços genético-antropológicos, tenho um certo traquejo. Quando Caymmi e eu morávamos na Bahia, de vez em quando não fazíamos nada juntos, na casa dele. Um dia resolvemos dar uma pausa e compor um samba, mas só passamos um tantinho mais que 30 anos nesse trabalho. O tempo foi curto e aí ficamos apenas no estribilho que, aqui no Rio, cantávamos sempre que nos víamos.
Mas nem sempre as coisas se passam como a gente quer e tudo indica que, na minha condição de saltimbanco das letras, vou ser chamado a trabalhar durante as férias. Em telefonema da ilha, Zecamunista me comunicou que está criando o Comitê Proletário de Defesa do Vernáculo e eu, que, apesar de intelectual pequeno-burguês e alienado, pelo menos sei conjugar a maior parte dos verbos e não costumo errar os plurais, serei convocado para a luta.
– Eu não aguento mais! – disse ele. – Você sabe o que outro dia eu ouvi, lá em Espanha? Um xibungueta me disse “eu tinha trago o jornal do senhor, mas o senhor não estava”. Eu tinha trago! Não é mais “trazido”! Isso é caso de paredão! Você tem que me ajudar nesse combate!
É, acho que o dever me chama, a situação se agrava. Num segundo telefonema, Zeca relatou o mais recente exemplo da língua atual, um novo particípio passado de “falar”, que ele colheu numa roda de pôquer em Salvador.
– Eu tinha falo! – reclamou, a certa altura, um parceiro.
– Pois eu ainda tenho – respondeu Zeca. – Não muito fanático, mas tenho.

A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico

08/01/2012 às 3:33 | Publicado em Artigos e textos, Espaço ecumênico, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Domingo, dia de missa…Esse é mais um texto ‘provocativo’ que posto aqui justo no ‘Espaço ecumênico’ deste ZEducando. Só quem é ateu que sabe o que isso significa. Mas mesmo os crentes, de uma maneira geral, podem e devem ler e refletir sobre o que consta neste texto.


A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico (Eliane Brum)

A parábola do taxista e a intolerância. Reflexão a partir de uma conversa no trânsito de São Paulo. A expansão da fé evangélica está mudando “o homem cordial”?

ELIANE BRUM

Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada.

O diálogo aconteceu entre uma jornalista e um taxista na última sexta-feira. Ela entrou no táxi do ponto do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, por volta das 19h30. Como estava escuro demais para ler o jornal, como ela sempre faz, puxou conversa com o motorista de táxi, como ela nunca faz. Falaram do trânsito (inevitável em São Paulo) que, naquela sexta-feira chuvosa e às vésperas de um feriadão, contra todos os prognósticos, estava bom. Depois, outro taxista emparelhou o carro na Pedroso de Moraes para pedir um “Bom Ar” emprestado ao colega, porque tinha carregado um passageiro “com cheiro de jaula”. Continuaram, e ela comentou que trabalharia no feriado. Ele perguntou o que ela fazia. “Sou jornalista”, ela disse. E ele: “Eu quero muito melhorar o meu português. Estudei, mas escrevo tudo errado”. Ele era jovem, menos de 30 anos. “O melhor jeito de melhorar o português é lendo”, ela sugeriu. “Eu estou lendo mais agora, já li quatro livros neste ano. Para quem não lia nada…”, ele contou. “O importante é ler o que você gosta”, ela estimulou. “O que eu quero agora é ler a Bíblia”. Foi neste ponto que o diálogo conquistou o direito a seguir com travessões.

– Você é evangélico? – ela perguntou.
– Sou! – ele respondeu, animado.
– De que igreja?
– Tenho ido na Novidade de Vida. Mas já fui na Bola de Neve.
– Da Novidade de Vida eu nunca tinha ouvido falar, mas já li matérias sobre a Bola de Neve. É bacana a Novidade de Vida?
– Tou gostando muito. A Bola de Neve também é bem legal. De vez em quando eu vou lá.
– Legal.
– De que religião você é?
– Eu não tenho religião. Sou ateia.
– Deus me livre! Vai lá na Bola de Neve.
– Não, eu não sou religiosa. Sou ateia.
– Deus me livre!
– Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
– (riso nervoso).
– Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?
– Por que as boas ações não salvam.
– Não?
– Só Jesus salva. Se você não aceitar Jesus, não será salva.
– Mas eu não quero ser salva.
– Deus me livre!
– Eu não acredito em salvação. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
– Acho que você é espírita.
– Não, já disse a você. Sou ateia.
– É que Jesus não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
– Olha, sinceramente, acho difícil que Jesus vá me pegar. Mas sabe o que eu acho curioso? Que eu não queira tirar a sua fé, mas você queira tirar a minha não fé. Eu não acho que você seja pior do que eu por ser evangélico, mas você parece achar que é melhor do que eu porque é evangélico. Não era Jesus que pregava a tolerância?
– É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto…

O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida. Mas ele fora doutrinado para acreditar que um ateu é uma espécie de Satanás. Como resolver esse impasse? (Talvez ele tenha lembrado, naquele momento, que o pastor avisara que o diabo assumia formas muito sedutoras para roubar a alma dos crentes. Mas, como não dá para ler pensamentos, só é possível afirmar que o taxista parecia viver um embate interno: ele não conseguia se convencer de que a mulher que agora falava sobre o cartão do banco que tinha perdido era a personificação do mal.)

Chegaram ao destino depois de mais algumas conversas corriqueiras. Ao se despedir, ela agradeceu a corrida e desejou a ele um bom fim de semana e uma boa noite. Ele retribuiu. E então, não conseguiu conter-se:

– Veja se aparece lá na igreja! – gritou, quando ela abria a porta.
– Veja se vira ateu! – ela retribuiu, bem humorada, antes de fechá-la.
Ainda deu tempo de ouvir uma risada nervosa.

A parábola do taxista me faz pensar em como a vida dos ateus poderá ser dura num Brasil cada vez mais evangélico – ou cada vez mais neopentecostal, já que é esta a característica das igrejas evangélicas que mais crescem. O catolicismo – no mundo contemporâneo, bem sublinhado – mantém uma relação de tolerância com o ateísmo. Por várias razões. Entre elas, a de que é possível ser católico – e não praticante. O fato de você não frequentar a igreja nem pagar o dízimo não chama maior atenção no Brasil católico nem condena ninguém ao inferno. Outra razão importante é que o catolicismo está disseminado na cultura, entrelaçado a uma forma de ver o mundo que influencia inclusive os ateus. Ser ateu num país de maioria católica nunca ameaçou a convivência entre os vizinhos. Ou entre taxistas e passageiros.

Já com os evangélicos neopentecostais, caso das inúmeras igrejas que se multiplicam com nomes cada vez mais imaginativos pelas esquinas das grandes e das pequenas cidades, pelos sertões e pela floresta amazônica, o caso é diferente. E não faço aqui nenhum juízo de valor sobre a fé católica ou a dos neopentecostais. Cada um tem o direito de professar a fé que quiser – assim como a sua não fé. Meu interesse é tentar compreender como essa porção cada vez mais numerosa do país está mudando o modo de ver o mundo e o modo de se relacionar com a cultura. Está mudando a forma de ser brasileiro.

Por que os ateus são uma ameaça às novas denominações evangélicas? Porque as neopentecostais – e não falo aqui nenhuma novidade – são constituídas no modo capitalista. Regidas, portanto, pelas leis de mercado. Por isso, nessas novas igrejas, não há como ser um evangélico não praticante. É possível, como o taxista exemplifica muito bem, pular de uma para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas “inimigas” lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.

Tenho muitos amigos ateus. E eles me contam que têm evitado se apresentar dessa maneira porque a reação é cada vez mais hostil. Por enquanto, a reação é como a do taxista: “Deus me livre!”. Mas percebem que o cerco se aperta e, a qualquer momento, temem que alguém possa empunhar um punhado de dentes de alho diante deles ou iniciar um exorcismo ali mesmo, no sinal fechado ou na padaria da esquina. Acuados, têm preferido declarar-se “agnósticos”. Com sorte, parte dos crentes pode ficar em dúvida e pensar que é alguma igreja nova.

Já conhecia a “Bola de Neve” (ou “Bola de Neve Church, para os íntimos”, como diz o seu site), mas nunca tinha ouvido falar da “Novidade de Vida”. Busquei o site da igreja na internet. Na página de abertura, me deparei com uma preleção intitulada: “O perigo da tolerância”. O texto fala sobre as famílias, afirma que Deus não é tolerante e incita os fiéis a não tolerar o que não venha de Deus. Tolerar “coisas erradas” é o mesmo que “criar demônios de estimação”. Entre as muitas frases exemplares, uma se destaca: “Hoje em dia, o mal da sociedade tem sido a Tolerância (em negrito e em maiúscula)”. Deus me livre!, um ateu talvez tenha vontade de dizer. Mas nem esse conforto lhe resta.

Ainda que o crescimento evangélico no Brasil venha sendo investigado tanto pela academia como pelo jornalismo, é pouco para a profundidade das mudanças que tem trazido à vida cotidiana do país. As transformações no modo de ser brasileiro talvez sejam maiores do que possa parecer à primeira vista. Talvez estejam alterando o “homem cordial” – não no sentido estrito conferido por Sérgio Buarque de Holanda, mas no sentido atribuído pelo senso comum.

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele.

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