Uganda, quem diria, a terra de Idi Amim Dada, o ditador sanguinário, é também o berço de pesquisadores como o Dr. Venansius Baryamureeba. Salve a mãe África, mais uma vez nos ensinando o caminho!
ÁFRICA É TERRENO PROPÍCIO À CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO
Ele poderia ter se contentado apenas em ensinar milhares de universitários de Uganda a usar computadores, criar redes, gerenciá-las e programar softwares básicos. Em um país africano pobre com uma das populações que crescem mais rápido no mundo _ e que faz um uso cada vez maior da Internet _ apenas isso já teria representado uma enorme conquista.
Venansius Baryamureeba, porém, tinha ideias mais ambiciosas. Em 2005, quando voltou para sua terra natal após ter concluído doutorado na Universidade de Bergen, na Noruega, ele era apenas um dos poucos cientistas da computação de Uganda. E teve um timing certo. A economia, predominantemente agrícola, vinha crescendo cerca de 7 por cento ao ano, impulsionando uma enorme expansão da classe média alta, assim como a vontade de estudar ciência e engenharia de ponta que a elite urbana sentia.
Animado com a relativa paz e prosperidade de Uganda, Baryamureeba fundou uma nova faculdade, abrangendo os Departamentos de Ciência da Computação e Engenharia da Computação da antiga Universidade Makerere, na capital de Uganda, Kampala. No alto de uma colina perto da entrada da universidade, com vista para a descuidada escola de Direito, de um lado, e para uma mesquita-escola não menos descuidada, do outro, dois edifícios de vidro resplandecente foram erguidos, aparentemente sem problemas. Não demorou até que multidões de alunos se amontoassem no local _ e o corpo docente passou a oferecer aulas até mesmo à meia-noite para acomodá-los.
Baryamureeba queria mais do que uma escola profissionalizante. Ele criou também um programa de pós-graduação que, segundo ele esperava, formaria dezenas de cientistas e doutores que se tornariam professores universitários e contribuiriam com pesquisas de relevância internacional.
Surpreendentemente, a iniciativa de Baryamureeba está ganhando força na Universidade Makerere. Jovens cientistas da região estão concluindo seus doutorados. Membros do corpo docente estão realizando experimentos de ponta. Uma das pesquisas em curso está desenvolvendo telefones celulares “inteligentes”, implantando neles pequenos softwares estruturados por algoritmos matemáticos, a fim de identificar pragas em plantações ou malária na corrente sanguínea de uma pessoa.
Ernest Mwebaze, aluno de doutorado e professor, disse que sérios obstáculos ainda se impõem ao prosseguimento de tais pesquisas em Uganda, como a existência de uma Internet pouco confiável e falhas elétricas. Entretanto, ele também acredita que o país possui um potencial enorme.
“Uganda oferece vários desafios únicos de pesquisa e problemas cujas soluções podem realmente trazer benefícios mais locais do que, digamos, soluções para os problemas da Europa”, disse ele.
Toda segunda-feira, em um laboratório bem equipado com computadores, Mwebaze dá aulas de Inteligência Artificial a uma pequena turma de 10 alunos de pós-graduação. Esse campo, considerado esotérico por muitos, foi o tema de sua pesquisa de doutorado.
Além disso, o potencial que os africanos formados na África possuem para fazer uma ciência sintonizada com as realidades do continente não se limita à computação. “Há um interesse crescente na pesquisa e na ciência em geral na região”, disse Calestous Juma, professor de Harvard, especializado no estudo da tecnologia e do desenvolvimento.
A rápida disseminação dos telefones celulares tem valorizado os usos práticos da ciência e da tecnologia entre os africanos. E os filhos das elites do continente também estão se dando conta das possibilidades de seguirem carreira em Ciência da Computação e Engenharia, além das tradicionais áreas da Medicina, Direito e Economia ou, ainda, de estudarem para atuar em um setor mais típico do país: a Agronomia.
“A Ciência da Computação tem um apelo junto a uma geração de alunos de áreas urbanas que cresceram cercados por aparelhos digitais”, afirmou Chanda Chisala, da Zambia Online, uma empresa de desenvolvimento de softwares e provedora de Internet baseada em Lusaka, capital da Zâmbia.
A área também pode atrair universidades africanas que têm problemas crônicos de falta de financiamento, porque o ensino da Ciência da Computação é relativamente barato. Não são necessários grandes aceleradores de partículas, diferentemente da Física; nem telescópios gigantes, diferentemente da Astronomia.
Ainda assim, o desenvolvimento da Ciência da Computação na África ainda enfrenta a noção de que é preferível estudar e trabalhar na Europa ou nos Estados Unidos, mesmo que isso signifique deixar a África em definitivo. Essa mentalidade precisa mudar para que a Ciência da Computação floresça na região. Em um estudo realizado no Instituto de Tecnologia da Geórgia, um grupo de pesquisadores recomendou que os educadores africanos concentrem o currículo do ensino de Ciência da Computação no atendimento das “necessidades locais”.
A falta de professores qualificados também continua sendo um problema. Os principais departamentos de Ciência da Computação do continente _ segundo pesquisas _ estão todos na África do Sul. No entanto, mesmo lá, o número de professores de nível universitário é limitado. “Os nossos departamentos de Ciência da Computação são muito menores do que seus congêneres nos Estados Unidos”, disse Bill Tucker, americano que trabalha como professor catedrático da Universidade do Cabo Ocidental.
Além disso, as diferenças de práticas éticas entre as instituições acadêmicas da África e dos Estados Unidos complicam as coisas. Quando V.S. Subrahmanian, cientista da computação da Universidade de Maryland, decidiu firmar uma parceria de pesquisa com professores da Nigéria no ano passado, foi recebido com entusiasmo. Mas quando ofereceu dados compilados pela Universidade de Maryland ao centro de computação da Nigéria, o centro começou a vendê-los. Subrahmanian, que acredita que os dados deveriam ter sido disponibilizados gratuitamente para pesquisadores, considerou o ocorrido “muito preocupante”.
A iniciativa de Baryamureeba ajudou a Universidade Makerere a superar tais obstáculos. Ele agora está à frente de toda a universidade, garantindo que a Ciência da Computação e a Engenharia tenham um alto nível de apoio. Parcerias com universidades da Noruega e dos Países Baixos também se mostraram cruciais. Estudantes de graduação de Uganda puderam estudar tanto no país como no exterior. E as universidades europeias se comprometem a exigir que os alunos voltem a Uganda para terminar seu doutorado.
É também possível perceber a existência de um sentimento, entre os jovens acadêmicos, de que a África é um lugar bacana _ e que as melhorias das universidades do continente podem ajudar a dar vazão às ambições de pesquisa dos cientistas ocidentais.
Tomemos como exemplo o escocês John Quinn. Ele estudou na Universidade de Cambridge e concluiu doutorado em Ciência da Computação na Universidade de Edimburgo. Com vistas à realização de uma pesquisa fora do comum, ele contatou a Universidade Makerere bem na época em que Baryamureeba estava à procura de professores estrangeiros para reforçar seu corpo docente. Quinn aceitou se unir à equipe e não se arrependeu. Formou um grupo de pesquisas dedicado à Inteligência Artificial que recebeu financiamento da Microsoft e do Google. Um de seus projetos consiste em desenvolver um código que transforma um celular em um sofisticado microscópio. Ele apresentou sua pesquisa, sobre a possibilidade de diagnosticar a malária com o uso do celular, durante uma conferência internacional realizada em São Francisco em agosto.
“As pessoas estão cada vez mais cientes da necessidade de se concentrar em uma área, de se especializar e de competir em âmbito internacional”, contou Quinn a respeito de si mesmo e de seus colegas.
Em parte, o interesse de empresas do setor de computação na pesquisa de Quinn se justifica porque a iniciativa do escocês pode trazer benefícios práticos e potencialmente lucrativos: transformar telefones celulares em microscópios e dispositivos de reconhecimento de padrões de baixo custo pode ajudar as pessoas em países desenvolvidos a economizar, oferecendo diagnósticos imediatos de problemas de saúde simples.
Até o momento, o trabalho em Uganda apenas colaborou com a reputação de Quinn, e ele está ganhando um salário decente. Os valores pagos mensalmente a pós-doutorandos em Ciência da Computação na Europa não são muito diferentes dos cerca de 3 mil dólares que Quinn recebe na Universidade Makerere. Ele acredita que ainda vai ficar em Kampala durante algum tempo. Inicialmente, tinha planejado residir no país por dois anos, mas já está há quatro na universidade africana e vê inúmeras possibilidades de desenvolver a Ciência da Computação no local, de modo a trazer benefícios para si mesmo e para a África.
(De Kampala, em Uganda, Josh Kron contribuiu com a reportagem).
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