Anita Leocádia Benário Prestes

06/09/2012 às 3:05 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
Tags: , , ,

Já havia feito, em 11/10/2010 , um post com o título MEMÓRIAS DO EXÍLIO PRESTES, em homenagem a Luz Carlos Prestes. Agora recebi um email de um amigo com esse artigo da Anita Leocádia Benário Prestes sobre o (ou será os) Partido Comunista do Brasil. No email indicava apenas Anita Leocádia Prestres, mas eu fiz questão de colocar o nome completo, onde aproveito para homenagear uma das mulheres mais marcantes e corajosas que já passou por essa terra: Olga Benário !


PCdoB: a falsificação da história dos comunistas brasileirosAnitaPrestes

O movimento revolucionário mundial socialista e comunista conviveu, desde o século XIX, com correntes reformistas de diferentes tipos. Os pais fundadores do marxismo – Marx, Engels, Lenin –, assim como teóricos do comunismo e dirigentes revolucionários da estatura de A. Gramsci e R. Luxemburgo, tiveram que levar adiante uma luta sem tréguas contra os reformistas do seu tempo. …

Os reformistas precisaram justificar sempre a adoção de políticas de conciliação de classes, ou seja, de políticas baseadas em concessões às classes dominantes e no abandono dos objetivos revolucionários do proletariado e dos seus aliados; políticas de caráter evolucionista, marcadas pela negação do momento revolucionário, indispensável, segundo os marxistas, para a conquista do poder político pelos trabalhadores, única maneira efetiva de realizar as transformações revolucionárias necessárias para a construção de uma nova sociedade, livre da exploração do homem pelo homem.

Nesse esforço de justificação, os reformistas precisaram e ainda precisam recorrer à falsificação da História, inclusive da História do movimento operário e revolucionário, em busca de argumentos que contribuam para a aceitação de suas posições por amplos setores sociais, argumentos de prestígio, que sirvam de aval para sua atuação política.

A postura atual do PCdoB constitui exemplo edificante de semelhante tentativa de avalizar sua política atual recorrendo à falsificação da História dos comunistas brasileiros. Na medida em que o PCdoB passou a trilhar o caminho reformista da chegada ao poder sem revolução, tornou-se natural sua adesão às escolhas feitas por Lula e a direção do PT, na virada do século XX para o XXI, e agora mantidas por Dilma.

Foram escolhas reveladoras da capitulação de Lula e da direção do PT diante dos interesses do grande capital internacionalizado, em especial, do capital financeiro, ou seja, dos banqueiros internacionais. Tal capitulação ocorreu após três tentativas frustradas de alcançar o poder, nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. Para conquistar a presidência, em 2002, foi escolhido o caminho mais seguro:

O governo do PT, sem coragem de afrontar os interesses constituídos, sem nenhuma disposição para arriscar uma mudança na postura do Estado que o tornasse capaz de enfrentar os problemas experimentados pelo país, escolheu a reafirmação da lógica perversa que já estava em curso e a entrega total do Brasil às exigências da acumulação privada. [1]

Da mesma maneira que nos governos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso, nos Governos Lula e Dilma o capital financeiro permanece hegemônico, embora esteja em curso uma reforma do neoliberalismo, voltada para a construção de uma “nova versão do modelo capitalista neoliberal”[2].

A adesão por parte do PCdoB a semelhante política de reforma do capitalismo o conduziu à tentativa de buscar no passado heróico dos comunistas brasileiros – embora eivado de erros provocados pela presença de falsas concepções – o aval para seu comportamento político atual. Tirando proveito do jubileu de 90 anos da fundação do Partido Comunista no Brasil, os atuais dirigentes do PCdoB divulgam uma versão falsificada da História desse partido. Distorcendo a realidade, apresentam a História do PC como uma sucessão retilínea de êxitos, cujo apogeu seria a política atual do PCdoB. Ao mesmo tempo, silenciam sobre as teses oriundas de uma falsa concepção nacional-libertadora da revolução brasileira, responsável pelas ilusões nas possibilidades de um “capitalismo autônomo”, cujo corolário foi o abandono, na prática, da luta pela revolução socialista no Brasil, concepção que esteve presente tanto n a história do antigo PCB quanto na de quase todos os seus “filhotes”, inclusive o PCdoB.

São distorcidos os fatos relacionados com a cisão de 1962, quando um grupo de dirigentes do antigo PCB, discordando das posições políticas aprovadas no seu V Congresso (1960), usou o pretexto da mudança do nome do partido com vistas ao seu registro eleitoral, para criar outro partido – o PCdoB. Partido este que, durante várias décadas, combateu com violência o PCB e o seu ex-secretário-geral Luiz Carlos Prestes. Partido este que, durante toda a década de 1980, foi insistentemente criticado por Prestes pela postura oportunista de entendimentos espúrios com os governantes para alcançar o registro eleitoral e de apoio à candidatura de Tancredo Neves nas eleições indiretas de 1985 e, em seguida, de apoio ao governo de José Sarney. Segundo Prestes, tratava-se do abandono de todo compromisso com os interesses dos trabalhadores e com os ideais de verdadeiras transformações socialistas em nosso país.

É este partido, o PCdoB, que trata hoje de apropriar-se indevidamente do legado de Prestes para, tirando proveito do prestígio do Cavaleiro da Esperança, justificar-se perante amplos setores populares. Tal falsificação deve ser denunciada, pois a permanência de uma versão distorcida da trajetória dos comunistas brasileiros, difundida por um partido que se apresenta como comunista e fala em nome do socialismo, serve aos desígnios dos inimigos da emancipação social dos trabalhadores brasileiros, contribui para a manutenção da exploração capitalista em nossa terra, dificultando o caminho efetivo da construção de uma sociedade socialista no Brasil.

[1] PAULANI, Leda Maria. Quando o medo vence a esperança (um balanço da política econômica do primeiro ano do governo Lula). Crítica Marxista, n. 19, outubro de 2004, p. 23.

[2] BOITO, Armando. O Governo Lula e a reforma do neoliberalismo. Revista da Adusp, maio de 2005. (www.cecac.org.br)

Por Anita Leocadia Prestes

2 Comentários »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. Prestes: o Brasil tem seus heróis, não é um país de canalhas
    7 de março de 2015 | 13:08 Autor: Fernando Brito
    prestes1
    Há exatos 25 anos, muitos de nós caminhamos sob o sol forte que fazia, na última coluna que seguiu Luiz Carlos Prestes, a marcha que o túmulo no Rio de Janeiro.
    Nunca fui “prestista”, como alguns companheiros de esquerda, então.
    Mas, sim, como outras gerações, tinha-lhe uma admiração reverencial que começou criança, no bairro do Realengo (que tinha o apelido de “Moscouzinho”) na casa de meu avô, operário.
    E nas histórias de minha mãe, a mais letrada da família humilde, embora nos seus 12 anos, apenas, resmungando que o pai lhe obrigava a copiar os panfletos de Yedo Fiúza- candidato de Prestes na primeira eleição após o Estado Novo – para que ele, na ruas escuras da madrugada, a caminho da estação do trem, os colasse nos postes.
    Ele e Getúlio Vargas, para aquela gente simples e boa, eram indiscutíveis, porque não se discute o amor.
    Nunca me explicaram, pois um guri não era grande para entender, porque estiveram juntos, sempre ou quase sempre, mas sendo esta exceção a cruel prisão e sofrimento de um deles.
    Os dois acabariam mostrando que suas vidas não importavam, senão para suas causas políticas, que começaram juntas, na insurreição contra a República Velha e terminaram com a defesa do nacionalismo.
    Ali, acompanhando o cortejo encabeçado por Lula e Leonel Brizola, era possível sentir a história caminhar, viva, conduzida pelo corpo morto de um seu personagem e a minha própria vida, porque era de onde eu vinha.
    Com erros e acertos, como é próprio dos homens, Prestes é uma destas lembranças inevitáveis, bem a propósito do que vivemos hoje, de que este país não é feito de canalhas, embora os tenha em profusão.
    O tempo que nos amolece os corpos, talvez a alguns refinem os sentimentos.
    E os faça compreender que não é o brilho que nos torna grandes, mas a perseverança e a nossa utilidade coletiva.
    É isso que constrói os heróis, o gestos que não pertencem apenas ao instante em que são praticados, mas que brotam sem planos, sem vaidades.
    E que por isso continuaram heróis por toda a vida, e depois dela.

  2. […] esse livro de Anita Leocádio Prestes. Recomendo fortemente aos interessados em História do Brasil. Também convido quem por aqui passar […]


Comentários são livres, só não aceito nem publico xingamentos !

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: