CAPACIDADE EMPÁTICA x EGOÍSMO SOCIAL

09/04/2013 às 3:18 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Esse texto é muito interessante. Boas reflexões sobre a origem do capitalismo, o darwinismo social, a sociobiologia, a capacidade empática e o egoísmo social. Vale a pena a leitura.

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O mito do capitalismo “natural”

Há séculos, ideia de que ser humano é “em essência”
egoísta-competitivo justifica relações capitalistas. Descobertas
recentes estão derrubando tal crença.

(por Rafael Azzi)

O modelo capitalista de sociedade premia e estimula o comportamento
individualista, utilitário e egoísta. Diversos pensadores, como o
economista Alan Greenspan, acreditam que tal comportamento apenas
reflete a verdadeira essência da natureza humana e, portanto, não há
muito a fazer a respeito. Entretanto, essa visão do ser humano foi
moldada ao longo da história e, na verdade, os estudos de hoje
discordam da noção de que somos essencialmente individualistas e
agressivos.

Alguns filósofos, como Thomas Hobbes, John Locke e Adam Smith,
contribuíram para a consolidação da ideia de que o ser humano é, por
natureza, racional, autônomo, utilitário e voltado principalmente para
a satisfação egoísta de seus próprios interesses. As principais
instituições políticas e econômicas que hoje moldam a sociedade foram
fundadas a partir desses preceitos sobre a natureza humana.

O modelo social adotado pelos princípios capitalistas põe em cena uma
perspectiva de Estado-Nação que tem como objetivo estimular as forças
do livre mercado e proteger a propriedade privada. O homem é então
considerado um indivíduo autônomo e racional que, ao optar por viver
em sociedade, acredita que esta é a melhor forma de proteger seus
próprios interesses, evitando assim um estado de selvageria natural
representado pela expressão hobbesiana “guerra de todos contra todos”.

Da mesma forma que os indivíduos proclamam sua autossuficiência, os
Estados são vistos na política internacional como autônomos na busca
do próprio interesse. Sob tal perspectiva, as nações encontram-se em
eterna batalha em busca de poder e de bens materiais. A narrativa
histórica é construída a partir de uma constante dicotomia
estabelecida entre Estados e indivíduos isolados, público e privado,
termos ocasionalmente unidos apenas por razões de utilidade ou de
lucro.

O mito do homem que sobrevive como indivíduo é difundido na literatura
universal em heróis como Robinson Crusoé: o homem que consegue,
sozinho, através do uso da razão, utilizar a natureza a seu favor e
sobrevive sem o auxílio de outras pessoas. Porém, o que não está dito
é que Crusoé é um homem adulto, que cresceu em uma sociedade complexa,
na qual dependia diretamente de outras pessoas. Além disso, ele apenas
aprendeu os conhecimentos necessários para a sua sobrevivência na ilha
deserta através do contato com experiências de outras pessoas e outras
gerações.

Essa visão filosófica, que se transformou em política, foi
naturalizada por um conjunto de teorias científicas. O darwinismo
social é uma interpretação estreita da teoria de Darwin aplicada à
sociedade humana. Tal teoria enfatiza a ideia de que a evolução se
relaciona à competição e à sobrevivência do mais forte, pondo-a em
prática na sociedade humana. Dessa forma, características como
individualismo, agressividade e competição seriam os agentes naturais
da evolução. Argumenta-se que a competição pela sobrevivência
fundamenta a evolução humana, a fim de justificar a sociedade
capitalista como o modelo natural a ser adotado.

Atualmente, tal noção é considerada bastante reducionista. Já se
observou, por exemplo, que não apenas a competição mas também a
cooperação entre os indivíduos são fatores de extrema importância na
sobrevivência de espécies sociais. Recentes estudos de sociobiologia
vêm comprovando a hipótese de que o ser humano é, na verdade, um dos
animais mais sociais que existe. Não é difícil comprovar esse fato:
vivemos em grupos cada vez maiores, em sociedades cada vez mais
complexas com indivíduos interdependentes. Temos a necessidade
constante de nos sentir conectados a outras pessoas e de pertencer a
um grupo, em um sentimento que remonta às ideias ancestrais de
coletividade e de comunidade.

Uma descoberta biológica recente vem corroborar essa ideia. Os
neurônios-espelhos fazem parte de um importante sistema cerebral que
atua diretamente em nossa conexão com outros indivíduos. Esse conjunto
de neurônios é mobilizado quando vemos outra pessoa fazendo algo.
Pesquisadores constataram que, quando uma pessoa observa outra
realizando uma ação, no cérebro do observador são estimuladas as
mesmas áreas que normalmente regem a ação observada. Portanto, ao que
tudo indica, nossa percepção visual inicia uma espécie de simulação ou
duplicação interna dos atos de outros.

Os neurônios-espelhos são a base do aprendizado e da aquisição da
linguagem humana. Mais do que isso, eles tornam fluida a fronteira
entre nós e os outros; são a origem da empatia, que é a capacidade de
nos colocar no lugar de outra pessoa. Pode-se dizer que, ao observar
alguém sorrindo, imediatamente nos sentimos impelidos a sorrir também.
Quando percebemos alguém que está em uma situação que causa dor, a
reação natural é partilhar o sentimento de dor alheia.

A capacidade empática e a necessidade de fazer parte de um grupo
formam as bases, por assim dizer, das religiões organizadas e do
sentimento de nacionalismo. O problema é que, ao mesmo tempo em que
fomentam a empatia coletiva, estas instituições limitam o sentimento
empático pelos indivíduos que não fazem parte do mesmo grupo. Assim, o
indivíduo que faz parte de outra ordem — seja ela uma nação, uma
religião, uma etnia ou uma classe social — é considerado diferente,
distante e, eventualmente, intolerável. Tais rótulos limitam a
capacidade empática e impedem de ver o outro como um semelhante na
partilha de sentimentos, desejos e angústias intrínsecos à natureza
humana.

Um exemplo de que a empatia é natural ao ser humano é a forma como ela
ocorre de maneira livre e instintiva nas crianças. Quando uma criança
observa outra pessoa em situação desfavorável, como a mendicância e a
falta de moradia, a primeira reação é o questionamento.
Invariavelmente, as respostas que fazem uso de rótulos auxiliam a
explicar a situação: “é apenas um mendigo” ou “é só um menino de rua”.
Com frases assim, está-se afirmando que o outro não é alguém como nós;
trata-se apenas de alguém diferente, em uma realidade distante da
nossa. Portanto, ao estimular constantemente o egoísmo e o interesse
individualista, a sociedade baseada no modelo atual desestimula a
capacidade empática existente em cada um.

Dessa forma, pode-se afirmar que o desafio do nosso tempo é
desnaturalizar o egoísmo social que foi imposto e recuperar nossa
empatia natural, não apenas em relação aos grupos de pertencimento,
mas sobretudo ampliada em relação a toda nossa espécie.

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