O VÍCIO DA GUERRA E QUEM SOMOS

11/07/2013 às 3:54 | Publicado em Artigos e textos | 3 Comentários
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Esse excelente artigo nos faz pensar. Vem do blog “O meio e o si”, de André Averbug. Pouca gente pensa nessa consequência da Guerra para quem a vê de perto e/ou participa dela.


O VÍCIO DA GUERRA E QUEM SOMOS

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Outro dia assisti ao programa do Bill Maher, na HBO americana, quando entrevistou um experiente correspondente de guerra. Entre outras, Bill fez a seguinte interessante pergunta: Porque uma minoria de pessoas – soldados, jornalistas, voluntários – literalmente torna-se “viciada em guerra”, ou seja, faz de tudo para voltar às áreas de conflito e não consegue viver novamente uma vida convencional?

Meu impulso foi logo associar a figura de um viciado em guerra à de um facínora, sanguinário, uma espécie de Rambo ávido pela adrenalina de matar, ou algo parecido. A resposta, no entanto, foi muito mais surpreendente e profunda.

Primeiro, o jornalista explicou que, durante situações de vida ou morte como as encontradas em batalhas, os seres humanos experimentam sentimentos únicos e embriagantes. Quando você depende do próximo para sobreviver, como um companheiro de batalhão, passa também a estar disposto a arriscar sua vida pelos demais. Desenvolve imensa compaixão pelas pessoas com quem compartilha tal experiência. Trata-se de um instinto coletivo de sobrevivência (afinal, somos um “animal social”) que cria um vínculo intenso, incomparável aos que experimentamos nas situações de relativo conforto nas quais vivemos. É um sentimento de conexão tão forte que não pode sequer ser replicado entre amigos íntimos ou mesmo familiares.

Outro aspecto é a nova perspectiva e importância que são dadas à vida e seus detalhes. No ambiente de guerra, se você come mais do que precisa hoje, pode faltar amanhã; se você faz um ruído descuidado, pode alertar o inimigo; em um dia mais calmo, se não aproveitar para dormir, pode ser que não haja outra oportunidade naquela semana. Todo gesto tem seu significado e preço. Isso faz com que a pessoa dê atenção aos pormenores da vida e passe a valorizar cada momento e escolha. Embora essas situações sejam extremamente desconfortáveis, perigosas e normalmente algo a se evitar, os “viciados” entram num estado de euforia e intensidade – mistura de medo, amor, companheirismo, dependência, apreciação – que torna qualquer outra experiência monótona.

Como exemplo, o entrevistado citou sua ida ao supermercado, após voltar aos EUA de uma das guerras que cobrira. Olhando ao seu redor, viu as prateleiras com dezenas de opções para cada item; o chão limpo cheirando a detergente; as pessoas com aspecto entediado e indiferente na fila do caixa. Foi tomado de uma forte melancolia: como vivemos sem ardor, sem valorizar o que temos, sem desenvolver laços verdadeiros com os demais! Após viver experiências tão intensas, até mesmo as questões que normalmente consideramos importantes em nossas vidas – uma conquista profissional, um divórcio, uma questão financeira – em perspectiva tornam-se caprichos.

A intensidade da guerra cutuca de diferentes maneiras o homem-bicho adormecido dentro de nós. Uma vez acordado, ele dificilmente volta a ser domado. A consequência varia entre trauma, horror, depressão e, aprendi agora, dependência.

3 Comentários »

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  1. Zé,

    Que Post interessante. Gostei mesmo. Jamais tinha pensado sobre esse angulo. Tentarei não ficar mais entediado na fila no Super mercado. Rsrsrs. Abraço, meu amigo.

  2. Caro amigo Matu,
    Qualquer elogio vindo de pessoas como você me enchem de alegria e me incentivam a seguir em frente nessa batalha diária com o ZEducando.
    abs,
    José Rosa.

  3. Caro José,
    Que bom que gostou do post e obrigado por publicá-lo no seu blog. Volte sempre ao blog “O Meio e o Si”! Convido-o também a ler o livro, do mesmo nome.
    Grande abraço,
    AA


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