O mar não vai virar sertão

14/09/2013 às 3:29 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Este é mais um bom artigo sobre o cangaço, tema que já pesquisei muito e já postei algumas vezes aqui neste ZEducando. Desta feita Hélio Pólvora nos brinda com uma interessante comparação entre o cangaço da época de Lampião e o da era Sarney.

cangaço


O MAR NÃO VAI VIRAR SERTÃO

Longe de terem desaparecido, os jagunços e cangaceiros se multiplicam, Apenas mudaram
de cenário, da caatinga para as cídades. Trocaram aquele “banditismo de ostentação”, ligado à indurnentária feita de couro, e seus adornos, entre estes o chapé estrelado, pelo paletó e gravata – e mais comumente pela camisa de malha.

Cangaço, aliás, é uma palavra rica de sentidos etimológicos. É mais do que o bagaço da uva
pisada, como está no dicionarista Moraes, 1831. É o aumentatiyo de canga, que significa jugo, domínio, opressão. Também é um dispositivo de madeira a que são jungidos bois para transporte. De acordo com Beaurepaire Rohan, de 1889, cangaço quer dizer o conjunto de armas portadas por um valentão, ou, ainda, trastes de gente humilde, sequndo Domingos Vieira, do Porto, que remonta a 1872.

Algo a ver, portanto, com pobreza e escravidão, embora cangaceiros atuais, metidos na po-
litica, andem podres de ricos e não se deem por satisfeitos. Nas suas pesquisas semânticas, o folclorista Luísda Câmara Cascudo afirma que, para os sertanejos do Nordeste brasileiro, cangaço é a matalotagem do cangaceiro, “inseparável e característica”, ou seja: roupas, suprimentos de boca (em geral, alimentos sesos), bornais, armas, mezinhas consagradas pelo vulgo.

No Brasil da República Velha, anota Cascudo no livro Flor de Romances Trágicos, a atividade do cangaço já valia a pena, era meio de vida apreciado. Ele próprio registra estes versos:

Há quatro coisas no mundo/ Que alegram um cabra macho: /Dinheiro e moça bonita,/       Cavalo estradeiro baixo, /Clavinote e cartucheira/ Pra quem anda no cangaço.

Ninguém nasce para cangaceiro, é claro. Mas quem vê a luz nos sertões, há de sofrer fatal-
mente os efeitos do meio. Além da terra adusta e semiárida, da vegetação raquítica e espinhenta, das pedras, dos rios e cõrregos temporários, das secas prolongadas que matam rebanhos, da água escassa, às vezes quase lama, o sertanejo antes de tudo desvalido perde o feijão, o porco, a vaca e os legumes, passa fome. Uns migram, outros ficam à espera da chuva redentora.

É natural que, em ambiência geográfica hostil, alguém acabe por perder a paciência. E, para
aperrear ainda mais, há os donos da terra, a polícia a seu serviço, a justiça pronta a despachar em seu favor. Projetos de irrigação avançam lentamente; açudes com dinheiro público só para os poderosos; verbas desaparecem no ralo da corrupção.

É uma verdade histórica. A civilização começou pelo litoral, gostou do mar e ali plantou-se
com os seus luxos. De vez em quando o sertão ameaçava virar mar, como aconteceu com Antônio Conselheiro e seu bando esfarrapado de penitentes. O mar é que jamais quis ser sertão.

Historiadores, romancistas e sociólogos setêm debruçado sobre o aspecto psicossocial do
banditismo. Decerto a influência do meio pesa, e muito, mas naqueles tempos bicudos ser ladrão e saqueador dava algum lucro, servia ao menos para comer e vestir, apesar das forças volantes das polícias estaduais atiçadas pelos coronéis. Não tanto quanto hoje, com a extensa atividade política – mas sempre garantia a carne seca.

O cangaceiro surgia em geral por força de conflitos de família, de posse de terras e reses, de
agressões da polícia, casos de amor desfeito, ofensas públicas. Desfeiteado, irijustiçado até o fundo da alma, partia para uma vingança longa e generalizada. Foi o que se deu com o mais famoso deles, o capitão Virgulino Ferreira Lampião. Perdera o pai José Ferreira da Silva, assassinado (segundo consta) pelo alferes José Lucena, comandante de volante, por instigação de um vizinho incômodo, José Saturnino, a quem Virgulino, vaqueiro da família,
acusara de furtar bodes.

Lampião teria em seu favor esse ingrato começo ditado por maus fados. Comparado ao cangaceiro de hoje, foi ingênuo. Bandidos atuais contam com regalias nunca dantes sonhadas: o cargo público, em especial o de representação popular; o parentesco com o político de alta influência; o empréstimo a fundo perdido do banco oficial; o narcotráfico. Por isso o mar não quer virar sertão.

FONTE: JORNAL A TARDE (SALVADOR/BA), em papel, em algum dia do mês de agosto deste ano.

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