As Flores do Ruanda

26/09/2013 às 8:33 | Publicado em Baú de livros, Zuniversitas | 3 Comentários
Tags: ,

AS_FLORES_DO_RUANDA_Capa

Um daqueles livros que você lê e não quer que ele termine. Um romance escrito com muita poesia. Ali se aprende uma significativa parte da História da África. Com o genocídio do povo ruandês como pano de fundo e a luta entre as etnias hutu e tutsi (com os pequenos twas no meio), o autor, Adelson Correia da Costa, amigo dos velhos tempos dos Correios (Escola Superior de Administração Postal – ESAP/Brasília), consegue nos prender por mais de 400 páginas num enredo muito bem construído. E ao final de cada capítulo, além de outras partes durante o texto, ainda nos brinda com verdadeiras poesias em prosa. Como uma pequena amostra do que se pode encontrar naquele belo livro, destaco abaixo um trecho poético. Mais um detalhe deste livro: ele é escrito em primeira e em terceira pessoa, alternando quase que sem o leitor perceber. E funcionou muito bem essa técnica, para mim não muito comum. Recomendo assim fortemente este livro a todos que gostem de boa literatura. Na medida em que se lê este épico, automaticamente passa pela cabeça de quem gosta também de cinema um ótimo enredo para uma excelente película.

——————————————————————————————————-

Blogue do livro: http://asfloresdoruanda.blogspot.com.br

Email do autor: adelsonletras2010@hotmail.com


— Pegue um uísque no porta-luvas, Dra. Isabelle! — pediu-me animado.

Segurei uma garrafa de Johnny Walker pouco preenchida e servi-lhe uma dose generosa, não antes de tomar os meus próprios goles no gargalo. Por uns bons minutos de viagem, subindo e descendo serras envoltas por um céu pontilhado de estrelas, que escoltavam a lua mais cheia e luzidia que vira em toda minha vida, bebemos e cantamos, celebrando a fortuna twa. De tão grande que era, parecia que a lua estava logo ali no topo de cada morro, pronta para ser acariciada por um toque de minha mão, assim que a Land Rover alcançasse o cume de qualquer colina. Lá com minhas doses, eu me perguntava: não estaria a lua tão próxima para melhor nos bisbilhotar, ao iniciarmos nossos rituais de amor e entrega? Não me importava o quanto visse ou soubesse de nós a lua intrometida e ciumenta, pois aquele homem era meu e de mais ninguém.

A certa altura da viagem, o Dr. Mike parou a picape, desceu e fez uma rápida fogueirinha, a uns dez metros do caminho, não antes de me convidar para sentar com ele e iniciarmos um segundo Johnny Walker doze anos. Ele pegou um pedaço de queijo de leite de cabra da FBE, enfiou-o num graveto e o assou na fogueira, por meio do calor, com extremo cuidado para que não ficasse tostado pelas chamas altas. A fome, que me sublinhava a urgência, foi enganada ou saciada com uma parte do crestado petisco e tornou quieta para algum lugar dentro de mim, esperando sua vez. Ele pegou da viola de dentro do veículo, tangeu-a firme e intimamente, como se acarinhasse uma amante, e me fez a mais doce das serenatas que eu poderia imaginar que existisse na mãe África naquela noite.

Depois, o Dr. Mike se levantou calmamente e me olhou com uma suavidade penetrante e íntima, como se usasse os meus próprios olhos, os quais eram espontaneamente mais seus que de qualquer outro alguém. Com uma experiente sequência de gestos sedutores, ergueu-me para o encontro do seu busto, de modo tão terno, que me propiciou a sensação de que somente ele sabia me tratar daquela maneira, pois nenhum outro homem jamais me fizera algo igual. Encostou-se na Land Rover e me puxou para junto dele, abraçando-me por trás, enleado em minha alma. Roçou seu corpo quente contra o meu que, em meio a tal encanto, se ofereceu, sem resistência, como um artigo em promoção. Beijou-me o pescoço, puxou os meus cabelos e me acarinhou inteira, com mãos buliçosas e mornas como compressas. Mordiscou-me as orelhas e me galanteou aos sussurros com arrulhos de pombo enamorado pousado sobre mim. Teso, assenhoreou-se do que em mim restava inviolado, ao derrear-me o dorso e me fincar impiedoso a sensação de tal domínio. Elevou-me aos extremos da minha intimidade rendida, consumida e espalhada por aqueles reverdecidos campos ruandeses.

Quando senti sua audácia aumentar por todas as partes do meu corpo, iniciamos o hábito de dar e receber expressados em nosso encanto. Por fim, algo verossímil se revelou para mim acerca do nosso amor.

Pude, finalmente, no lapso do íntimo prazer, ao meu limiar de corpo e espírito, tocar e perceber o significado daquela lua ou a consequência do seu fascínio sobre mim: a lua que com feitiço me fizera enamorar, descia a colina a sufocar-me em êxtase, ao me transformar no turaco apaixonado que o meu amado queria preso da gaiola na estrada de regresso à Kigali. O espaço inteiro à minha volta se encolheu, espremendo-me contra o suor do meu amante e a lua tampou a abertura para o mundo sobre mim. Em minha submissão claustrofóbica, percebia quão sensual e sufocante é o amor de um casal de pássaros engaiolado.as_flores_do_ruanda_capa2

(FLORES DO RUANDA, 1ª Edição, São Paulo, 2011, Páginas 144 à 146, Capítulo VI, O Barro, )

Anúncios

Porque as lições de Hannah Arendt também valem para o Brasil

26/09/2013 às 4:59 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags: , , ,

A partir de um tema muito polêmico lições de vida podem ser tiradas. Fiquei muito curioso para ler mais as obras dela e ver este filme-documentário.

Hannah



Porque as lições de Hannah Arendt também valem para o Brasil

.
Certo dia alguém perguntou a Hannah Arendt, a pensadora judia, se
gostava do seu povo. “Não – respondeu –, gosto é dos meus amigos
judeus.” Tratava-se de uma cidadã muito corajosa, pela ousadia de
conduzir sua inteligência pelos caminhos da independência.

O pensamento de Hannah Arendt sempre me atraiu e foi dela que furtei a
expressão “verdade factual”, cuja busca é fundamento do jornalismo.
Nem bom, nem mau, jornalismo, e ponto. Digo, aquele que a mídia nativa
não costuma praticar.

Entra em cartaz um filme de Margarethe von Trotta, a cineasta alemã,
intitulado Hannah Arendt. E lá vou eu, devidamente imantado. Conta um
largo e decisivo episódio da vida da escritora. O serviço secreto
israelense invade a Argentina e sequestra o criminoso nazista Adolf
Eichmann, que para lá fugiu logo após a guerra.

Hannah é convidada pela New Yorker a acompanhar o julgamento do
criminoso, que Israel instaura em Jerusalém, e a escrever a respeito.
Penas iluminadas saíram-se bem em ocasiões similares. Por exemplo,
John dos Passos quando da morte de Rodolfo Valentino. A profundidade
das observações enriquece a reportagem, mas não tentem explicar o
conceito aos editores dos nossos jornalões e revistões.

A escritora aceita a tarefa insólita, e viaja a Jerusalém, onde a
esperam velhos e queridos amigos. Von Trotta insere na sua filmagem
trechos do documentário realizado durante o processo, e sabe
escolhê-los, de sorte a expor a personalidade do réu a bem da fluência
do enredo.

Passa-se um tempo antes que Hannah, de volta a Nova York, onde vive e
leciona, passe à escrita. Uma demorada reflexão obriga-a a um penoso
exercício de espeleologia interior, à caça do verdadeiro rosto de
Eichmann. Quem é ele? Um homem que não pensa, conclui a
filósofa-repórter, algo assim como um autômato. E esta é verdade
factual.

Burocrata zeloso, Eichmann incumbe-se da inexorável pontualidade dos
trens que carregam dezenas de milhares de judeus para os fornos
crematórios, assim como faria se em lugar de seres humanos houvesse
gado, ou cães raivosos. Ele executa ordens sem inquirir a sua
consciência a respeito de coisa alguma, com obediência robótica à
vontade do Führer. Desta investigação alma adentro de um criminoso
exemplar nasceria uma das obras mais notáveis de Hannah Arendt, A
Banalidade do Mal.

A nação judia entendeu que uma das suas cabeças privilegiadas defendia
Eichmann, e mesmo os amigos mais queridos, e os diretores da
universidade onde lecionava, a condenaram sem recurso. Eles também não
pensavam. Outro filósofo disse “penso, logo existo”. No entanto, que
significa pensar? Tudo se reduziria apenas e tão somente à consciência
da existência? Donde, à percepção do efêmero, colhida pelo ser
pré-histórico, talvez em meio a uma clareira remota iluminada pela
lua, ao erguer os olhos e se inteirar pela primeira vez do céu
estrelado.

Hannah apontou também as responsabilidades das lideranças judias, que,
entre outras coisas, não haviam hesitado em violar as fronteiras
argentinas e em evitar um processo internacional como a Justiça
recomendava. Com isso, piorou muito a sua situação aos olhos judeus.
Impecável, de verdadeiro jornalista, foi o comportamento do diretor da
New Yorker. Até seus colaboradores mais próximos se empenharam para
impedir a publicação dos textos da “enviada especial”. Ele foi até o
fim e os estampou sem arrependimentos.

O homem é um bicho imperfeito, muito imperfeito, a gente sabe. Dispõe
dos instrumentos para pensar, mas a maioria não sabe usá-los. A
maioria felizmente não é de criminosos nazistas, mas é incapaz de
fugas do clichê, do chavão, do lugar-comum, da frase feita. Deste
ponto de vista, a sociedade emergente do Brasil é imbatível, ipsis
litteris repete incansável as passagens mais candentes dos textos de
jornalões e revistões enquanto os jornalistas aderem automaticamente
às crenças dos seus patrões. Na terra da casa-grande e da senzala, a
maioria vive ainda no limbo e os senhores jogam ao lixo o patrimônio
Brasil. O mundo atravessa dias decadentes, é inegável. O País,
contudo, bate recordes nestas areias movediças.

(Mino Carta)

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: