Cuba tem a escola de medicina mais avançada do mundo

31/01/2014 às 7:04 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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O mote deste blog é Educação. Então segue este artigo sobre algo que não se mostra na grande mídia. O atestado é do Secretário Geral das Nações Unidas. Destaco três trechos do depoimento dele:

O Secretário- Geral da ONU elogiou Cuba pelo que chamou de “contribuições geniais para a saúde no mundo, e por estar na vanguarda da cooperação Sul-Sul”. E acrescentou: “pude ver em várias comunidades, muitas esquecidas, um fator comum: médicos cubanos ou formados em Cuba, estão lá ajudando a salvar vidas”, disse Ban.

“Cuba tem uma longa história de cooperação. Médicos cubanos são os primeiros a chegar e os últimos a sair. Cuba pode ensinar ao mundo sobre o seu sistema de saúde baseado na atenção primária, com conquistas significativas como baixa mortalidade, aumento da expectativa de vida e cobertura universal”, declarou.

Cuba nos dá uma lição de solidariedade e generosidade, pontuou. “Todos somos um, humanos e irmãos. A saúde humana tem de deixar de ser o privilégio de poucos para se tornar direito de muitos”, reforçou.


Ban Ki-moon: Cuba tem a escola de medicina mais avançada do mundo

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, visitou nesta terça-feira (28) a Escola Latino-Americana de Medicina (Elam) em Havana, para conhecer o projeto desenvolvido pela ilha comunista que já formou mais de 11 mil médicos de 123 países

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Ban Ki -moon , que realiza uma visita oficial e é convidado na 2ª Cúpula Celac, foi recebido pelo Dr. Rafael Gonzalez Ponce de León reitor da instituição e pelo Ministro cubano de Saúde Pública, Dr. Roberto Morales Ojeda .

“Formar médico de ciência e consciência é a função desta escola”, disse ao secretário-geral o reitor da Elam, que explicou como funciona o programa educacional da escola, onde estudam atualmente 1015 estudantes e conta com nove graduações e mais de 20 mil diplomados.

O Secretário- Geral da ONU elogiou Cuba pelo que chamou de “contribuições geniais para a saúde no mundo, e por estar na vanguarda da cooperação Sul-Sul”. E acrescentou: “pude ver em várias comunidades, muitas esquecidas, um fator comum: médicos cubanos ou formados em Cuba, estão lá ajudando a salvar vidas”, disse Ban.

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(Ban Ki-moon visita a Escola Latino-Americana de Medicina em Havana| Foto: Ricardo López Hevia/ Granma)

“Cuba tem uma longa história de cooperação. Médicos cubanos são os primeiros a chegar e os últimos a sair. Cuba pode ensinar ao mundo sobre o seu sistema de saúde baseado na atenção primária, com conquistas significativas como baixa mortalidade, aumento da expectativa de vida e cobertura universal”, declarou.

Cuba nos dá uma lição de solidariedade e generosidade, pontuou. “Todos somos um, humanos e irmãos. A saúde humana tem de deixar de ser o privilégio de poucos para se tornar direito de muitos”, reforçou.

Ban Ki –moon também parabenizou os alunos da Elam que classificou como “a escola de medicina mais avançada do mundo”.

“A saúde e o tratamento de doenças preveníveis é um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas e uma prioridade para salvar vidas. Isso é o que faz Cuba aqui e no mundo”, observou.

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(Ban Ki-moon visita a Escola Latino-Americana de Medicina em Havana| Foto: Ricardo López Hevia/ Granm)

A Elam surgiu em 1998, quando os furacões Mitch e George atingiu vários países da América Latina e do Caribe, deixando mais de 30 pessoas mortas. Médicos cubanos, em seguida, partiram para as áreas mais afetadas. Posteriormente, por ideia Fidel Castro, teve início a formação de médicos em Cuba de diferentes nações, que poderiam fornecer ajuda e mudar a situação da saúde em áreas carentes, remotas e mais pobres do mundo.

(Vanessa Martina Silva, com informações do CubaDebate)

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“Posso perder a poesia, mas não perco a piada”

30/01/2014 às 11:28 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Canto da poesia | Deixe um comentário

É poesia ? É hai kai ? Nem ele sabe direito, confiram a entrevista abaixo. Também não sei, só sei que é muito bacana. Irreverência, criatividade (até no nome dos livros), para mim símbolos do que há de melhor nessa Bela Terra da Bahia de Todos os Santos. O lançamento do livro, hoje, promete !

“amar:

atravessar um rio

aprendendo a nadar”

 

                                     “quanto mais sério

                                      mais perto

                                      do cemitério”

 

                                                                                      “a vida é boa

                                                                                       não poupe

                                                                                       nem gaste à toa”

 

“maridos alisando

carros luzidios

esposas a ver navios”

 

                                               “abro o chuveiro

                                                minha alma diz:

                                                vai primeiro”

 

                                                                                               “toda idade é boa

                                                                                                só depende

                                                                                                da pessoa”

“faça não

de sua sombra

assombração”


LabirintimoFesta


“Posso perder a poesia, mas não perco a piada”

Nildao

As “nanodelicadezas”, como o cartunista e poeta Nildão chama seus textos curtos, tratam de coisas imensas. Nesta quinta-feira, ele lança sua criação mais recente, Labiríntimo, com uma festa no Commons Studio Bar (Rio Vermelho), às 21 horas, com o  DJ Roger’n’Roll nas pick-ups. O humor, marca de sua personalidade e criações, está lá, mas há muitos níveis com que se expressa. As pequenas estruturas textuais que se assemelham a haicais ou a tankas têm ido mais fundo  no que buscam representar.

Ele diz que é por causa da idade. E admite ter  um certo estranhamento quando se confronta com o que há de propriamente literário no que faz.  Às quartas-feiras e domingos, ele criou uma situação em que se permite ficar em casa,  se “alimentando de sensibilidades”. Lê, tem insights, anota as palavras que lhe chamam  atenção. “Depois vou no computador, salvo e faço o burilamento. É um processo permanente, porque a palavra é isto: você encontra o veio e  vai atrás do brilho da palavra”. Talvez seja a mesma busca que ele provoque no leitor. As nanodelicadezas, afinal, são uma maneira  de viver.  Como ele diz: “Filosofia minha: degustar o dia de colherinha”.

Há um tom mais reflexivo em Labiríntimo em relação aos livros anteriores. O que  está havendo?
Fiz 60 anos quando comecei a elaborar Labiríntimo, tem a coisa da velhice chegando. Entendi que tinha que fazer um livro que refletisse sobre o passar dos anos e sobre desenvolver a capacidade de contemplação. Quando venho aqui para a minha laje, meu primeiro andar no Rio Vermelho, eu consigo ver a passagem do tempo,  porque fico observando as nuvens, as formas e acho que essa é uma característica de quem faz haicai. Mas não é um livro de haicais, digo que são nanodelicadezas, um neologismo que criei para coisas pequenas. Haicai tem  uma estrutura formal, e eu não consigo entrar nessa coisa muito formal, com regras, gosto de deixar que a inspiração venha de uma maneira mais desrregrada.  Aí pensei:  vou começar a fazer  um livro com textos de três linhas, bem telegráficos, um livro que fale de natureza, contemplação, observação, que é o que está faltando muito com essa vida que as pessoas estão vivendo desassossegadas o tempo todo, tendo que conferir o smartphone, os e-mails, o Facebook. Não tenho nada contra, mas acho que as pessoas estão perdendo um pouco a conexão com a natureza, e ela é muito rica, nos oferece bens gratuitos.

Este é o seu 17º livro. Como começou sua história com a literatura?
Eu comecei fazendo livros de cartuns. Getúlio Santana me convidou para ser sócio na livraria Interarte. Aí eu entrei nesse universo,  e eu sempre estava levando livros para casa e sempre vendo o que as pessoas me apontavam. Depois entrei no território do humor atraves do Millôr, daquele suplemento do O Cruzeiro que era O Centavo. Depois foi O Pasquim, que foi minha escola para ser cartunista, e comecei  a perceber que eu poderia  fazer mais coisas com a linguagem do humor: poderia escrever, inclusive. Aí o acesso à literatura me ajudou bastante.

Mas antes do primeiro propriamente poético, Poesia Remédio Contra Azia (2003),  como era sua relação com o universo  literário?
Já vinha através do grafite, quando lancei Quem Não Risca Não Petisca. Naquele período de [João Batista] Figueiredo,  comecei a ir para a rua inicialmente só. Eu escrevia coisas inadmissíveis, mas que tinham uma síntese: daí veio “Penso, logotipo”; ou “Ando sem medo, isso me amedronta”. Foi neste período que comecei a ver a potência da palavra. Foi a partir daí que eu comecei a ver que daria para fazer um livro com isso.

E como percebe que o que vem é  poesia ou  devaneio?
É difícil, mas às vezes quando lhe surpreende é poesia. Às vezes eu não  faço poesia, eu causo surpresa. Surpresa está muito associada ao humor,  Até brinco que sou capaz de perder a poesia mas não perco a piada. Mas estou me libertando um pouco disso, porque estou percebendo que ela vem intensamente,  mas se alguém me chamar de poeta eu me sinto um pouco deslocado. Minha linguagem é humor e a poesia está chegando de uma maneira muito intensa.

Mas quem lhe disse que são dimensões excludentes? Talvez isso seja exatamente sua singularidade.
Agora estou tendo essa percepção mais aguda, a disciplina de fazer, a predisposição e o tempo. É o que digo sempre: “se nem rico tem / tempo / o mais precioso bem”. Eu tenho tempo na quarta-feira e no domingo. Tendo esse tempo, eu desfruto dele. Eu me sinto rico porque tenho tempo. E você vê pessoas que são ricas e não têm tempo para curtir as coisas.

O que acha do ambiente literário em Salvador?
Eu conheço muito pouco. Vejo que tem algumas pessoas que fazem poesia, vejo pouco, mas eu gosto. Gosto de Katia Borges, a maneira como ela escreve; gosto do Pós-Lida, foi a primeira vez que recitei poemas meus e avisei pro pessoal: “é a primeira e última’. Porque ao mesmo tempo que eu gosto, eu digo: que negócio é esse de eu ficar entrando no território da poesia?  Mas conheço pouco. O [Carlos] Verçosa, que faz haicai, diz que eu faço haicai…

Não dá para entender por que esse estranhamento…
Tenho, se eu disser que não tenho eu estou mentindo.

Mas estes versos são seus: “Religião, jeitinho nosso de aplacar a solidão”. Isso é uma bomba de lucidez. E este nocaute psicanalítico? “Frágeis como bolhas/ creditamos ao destino / as escolhas”.
Uma amiga psiquiatra diz que deixa meus livros na sala de estar e que quando o pessoal entra, entra com os meus conteúdos.

Como concebeu as partes do Labiríntimo?
Começo com Haicai no colo, textos mais parecidos com haicais; depois entro com Lufadas de Lhufas, que são toques que dou nas pessoas, e como são brincadeiras eu não colocaria assim: “Pensamentos para você encarar a vida”. São brincadeiras, já pensou você ter uma lufada de lhufas na cara? Depois vem o Labiríntimo, falando de mim, e, por fim,  Santa Maria, Pinta e Borda, que é inclassificável e juntei nesse balaio. Quando eu consigo chegar a essa síntese me dá uma felicidade. A felicidade é o processo  de criação.

FONTE: JORNAL A TARDE, SÁBADO, 25.01.2014

CUM SORDADE DO SERTÃO

30/01/2014 às 3:48 | Publicado em Canto da poesia | Deixe um comentário
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O autor desta poesia é um amigo que fiz via ZEducando. Ele é brasileiro de Sergipe mas mora na Califórnia há um bom tempo. Obrigado Flávio !

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CUM SORDADE DO SERTÃO

Sô sertanejo caba da peste,
Du coração de Fêra Nova
Lá no sertão de Sergipe.
I cunfeço qui muntas veis
Me alevanto madrugada
I começo a relembrá
Ar noite bunita de lua
Qui dexei lá nu sertão,
I sinto ar lágrima corrê
Até fazê poça nu chão.

(Flavio B. Moura)

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Entrevista com Ariano Suassuna

29/01/2014 às 3:11 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 2 Comentários
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Suassuna pulou mais essa fogueira. Viva Suassuna !


Em entrevista exclusiva, Ariano Suassuna diz que fez ‘pacto com Deus’ para terminar livro

“Mexeu com o físico, mas com a cabeça não buliu não. Se você quiser, recito todinho o episódio de Inês de Castro, de ‘Os Lusíadas'”, brincou Ariano Suassuna, 86, na última terça-feira.

Fazia alusão ao copioso trecho do clássico português, mas deu várias outras provas de que falava a verdade.

Na tarde/noite daquele dia, quase quatro meses depois de sofrer um infarto (agora ele revela terem sido dois) e tratar um aneurisma cerebral, o escritor e dramaturgo recebeu aFolha em sua casa no Recife para uma entrevista exclusiva, a primeira depois de duas internações e do repouso forçado.

Dizendo-se cansado, optou por falar deitado em sua cama. Acabara de posar para fotos e na véspera retomara suas aulas-espetáculos com um tributo ao compositor Capiba, uma palestra intercalada por shows de música e dança que durou 1h45min.

Mais magro que o habitual e aparentemente mais fraco (recusou o lanche que lhe chegou, uma fatia de bolo e água de coco), mantém, porém, a cabeça a mil. Em uma hora de entrevista, não perdeu em nenhum momento a lucidez ou a argúcia.

Recitou de memória versos inéditos de sua autoria que estarão no romance em que trabalha há 33 anos e cujo primeiro volume, após seguidos adiamentos, ele diz ter enfim concluído, sob pressão dos problemas de saúde.

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(O escritor e dramaturgo Ariano Suassuna em sua casa, no Recife)

Para pôr fim ao primeiro livro daquela que considera a obra de sua vida -e que deverá ter sete volumes, mesclando romance, poesia, teatro e gravura-, Ariano afirma ter tido uma ajuda divina.

“Fiz um pacto com Deus: se ele achasse que o romance tinha alguma coisa de sacrílego ou de desrespeitoso, que interrompesse pela morte.”

A obra concluída -ainda sem previsão de lançamento- será um romance epistolar, chamado “O Jumento Sedutor”, homenagem a “O Asno de Ouro”, do escritor Lucius Apuleio, do século 2. A série completa levará o nome de “A Ilumiara”.

O autor de “Romance da Pedra do Reino” e “O Auto da Compadecida” falou ainda sobre morte e a aversão que sentiu da UTI e de política.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

*

Folha – O sr. enfrentou problemas graves de saúde, acaba de pular uma fogueira braba…
Ariano Suassuna – [interrompendo] Na verdade eu pulei três fogueiras: eu tive dois infartes e um aneurisma estourou no meu cérebro.

Foram dois infartos, então?
Foram.

Pois é, e depois de quase quatro meses entre internações e repouso, o sr. retomou as atividades públicas ontem numa aula-espetáculo. Como se sente?
Eu fazia muita questão de dar essa aula. Eu disse para mim mesmo que só não dava a aula se não tivesse a menor condição. E queria avaliar minhas forças, para saber se podia continuar, dentro desse pequeno prazo que a gente ainda tem [no mandato de Eduardo Campos, que deixará o cargo até abril para disputar a Presidência], podia continuar a programação que a gente vinha seguindo [de aulas-espetáculos]. Combinei que a gente faria essa no Recife e, de acordo com o comportamento do meu corpo, a gente daria outra em Pombos [agreste de PE].

Deu para avaliar como o corpo reagiu?
Deu. Dá para ir, senti que dá para retomar num ritmo mais leve.

O sr anda falando muito o nome da Caetana, que é como o sr chama a morte. De onde vem esse nome?
No sertão da Paraíba e de Pernambuco chamam a morte de Caetana.

Que é uma moça, mas pode ser também uma onça…
Não, isso aí [de ser onça] já foi invenção minha. Eu aproveitei e comecei a recriar literariamente um mito que foi criado pelo povo. Como o povo sertanejo é machista, só criou a morte feminina. Aí eu, de minha parte, já inventei a contrapartida masculina. Eu acho que a morte aparece como mulher aos homens e como homem às mulheres.

E com que nome?
Caetano.

O sr. já disse que se recusava a morrer e que toda morte é como um suicídio. Como essa experiência afetou o modo com que o sr. lida com ela?
Não afetou não. É claro que, objetivamente, eu sei que vou morrer. Não sei se você já notou, mas nenhum de nós acredita que morre, o que é uma bênção. A gente se porta a vida toda como se nunca fosse morrer, o que é muito bom. Porque se a gente for pensar na morte como uma coisa fundamental, inevitável e próxima, a gente vai perder o gosto de viver, vai perder o gosto de tudo. Eu digo isso procurando verbalizar uma inclinação que acho que é de todo mundo. A gente tem uma tendência a acreditar que não morre.

[Pensar que vai morrer] prejudica um pouco a qualidade de vida, e eu sou um apaixonado pela vida, amo profundamente a vida. Olhe que essa maldita tem me maltratado, mas eu gosto dela.

No “Romance da Pedra do Reino”, Quaderna tem um sonho no qual a Caetana [a morte] como que dita para ele palavras de fogo. O sr. teve algum sonho ou alucinação durante este período?
Não. Ordinariamente não tenho… Às vezes eu tenho uns sonhos que se transformam em literatura. Tenho um poema chamado “Sonho” que foi um sonho. E às vezes quando não estou acordado ainda, mas não estou mais dormindo, é o momento em que invento muita coisa, muito criativo.

Essa experiência mudou alguma coisa no seu jeito de perceber o mundo e as pessoas?
Não. Poucos dias antes de adoecer eu dei uma entrevista em que me perguntaram se eu tinha medo da morte. E eu disse: eu não gosto de contar valentia antecipada, acho que a gente só pode dizer que não tem medo de alguma coisa depois de enfrentá-la. Agora, até onde eu vejo, eu não tenho medo da morte. Eu tenho pena de morrer sem ter realizado certas coisas. Por exemplo: se visse que não dava para terminar o romance que escrevo, aí teria muito pena de morrer.

Engraçado, quando eu estava lá [no hospital] nos primeiros momentos, que descobri que tinha tido um infarto –fui saber disso no hospital– eu me agoniei muito porque tinha deixado o manuscrito aqui [em casa]. Eu disse: preciso conversar com Carlos Newton [Junior, professor universitário, especialista na obra do escritor], dizer a ele como era, para levar adiante [o livro].

Primeiro eu dividi o livro grande em vários livros. Cada capítulo do livro é escrito em forma de cartas, sob certo aspecto é um romance epistolar, e toda carta termina do mesmo jeito. Porque eu digo lá que fiz um pacto com Deus, e fiz mesmo: se ele achasse que o romance tinha alguma coisa de sacrílego ou de desrespeitoso, que interrompesse pela morte –coisa com a qual desde agora eu me declaro de acordo. Meu acordo não vale nada num caso desse, mas por outro lado tem uma vantagem. É que eu dou ideia da minha conformidade e da minha resignação e tô conseguindo, com a minha megalomania, um parceiro extraordinário.

O primeiro volume são seis cartas, todas seis terminam do mesmo jeito, com as mesmas palavras.

Qual é o jeito, quais são as palavras?
[uma assessora afirma: “Não diga o que não puder dizer”] A gente tem uma tendência a responder a verdade, né? É uma tentação desgraçada. Bom, todas terminam com um verso, um martelo gabinete e um martelo agalopado [martelos são formas poéticas usadas pelos cantadores nordestinos]. O martelo gabinete é um martelo de seis versos de dez sílabas, e o martelo agalopado são dez versos de dez sílabas.

Deixa eu ver se me lembro do martelo. Diz assim: “O circo, sua estrada e o sol de fogo/ Ferido pela faca na passagem/ meu coração suspira sua dor/ entre os cardos e as pedras da pastagem./ O galope do sonho, o riso doido/ e late o cão por trás desta viagem”.

E o martelo agalopado diz: “Pois é assim: meu circo pela estrada/ Dois emblemas me servem de estandarte/ No sertão, o arraial do bacamarte/ Na cidade, a favela consagrada/ Dentro do circo há vida, onça malhada/ Ao luzir do teatro o pelo belo transforma-se num sonho, palco e prelo/ e é ao som deste canto na garganta que a cortina do circo se levanta para mostrar meu povo e seu castelo”.

Então se eu morrer o romance está terminado. E para justificar isso eu cito uns versos de Fernando Pessoa dos quais eu gosto muito. Ele fala do navegador que descia a costa da África à procura do caminho das Índias e, quando ele parava em algum lugar na costa da África, plantava um marco. Ele diz: “O esforço é grande e o homem é pequeno/ Eu, Diogo Cão, navegador, deixei/ Este padrão ao pé do areal moreno/ E para diante naveguei./ A alma é divina, a obra é imperfeita./ Este padrão sinala ao vento e aos céus/ Que, da obra ousada, é minha a parte feita:/ O por-fazer é só com Deus”.

O sr. já deu por encerrado o trabalho várias vezes, mas sempre o retomou. Os acontecimentos recentes forçaram o sr a finalmente encerrar pra valer?
Forçaram. Eu me forcei a dar o ponto. Mas repare bem: mesmo assim, só há poucos dias eu tomei a decisão definitiva. Primeiro, eu, com medo por causa do infarto, decidi que publicaria as duas primeiras cartas. Depois do infarto, já em casa, resolvi que dava para juntar mais duas, quatro. Depois mais duas, seis. O primeiro volume está concluído.

O nome do primeiro volume, “O Jumento Sedutor”, está mantido?
Está mantido. O nome geral é “A Ilumiara”.

Serão cinco volumes?
Eu acho que são sete. Mas o por-fazer é só com Deus.

Numa entrevista que me deu há dez anos, o sr. contou que o protagonista do livro se chama Antero Savedra, e o antagonista é Quaderna [da “Pedra do Reino”]. Isso está mantido?
Está mantido, mas o negócio ficou mais complexo, porque Antero Savedra desdobrou-se. Fiz de Antero Savedra um alter ego mais próximo de mim, e criei uma outra máscara chamada… Porque o nome Antero é muito importante… São quatro irmãos: Altino, Auro (ou Áureo), Adriel e Antero. Altino é poeta; Áureo é romancista; Adriel é dramaturgo; e Antero é encenador e ator. Antero diz que tem um parentesco com Orestes e Hamlet, ambos filhos de reis assassinados. Ele cita inclusive uma frase de Hamlet, que diz: “Sou arrogante, vingativo, ambicioso; tenho mais crimes na consciência do que [pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los,] tempo para executá-los”.

Então ele procura um alter ego mais manso, mais conciliador, capaz de perdoar os inimigos. Ele diz uma hora que tem mais facilidade de rezar a Ave Maria do que o Pai Nosso, porque no Pai Nosso se diz “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos…”.

Agora, o nome dele de verdade é Paulo Antero. Aí ele assina os primeiros versos P. Antero Shabino.

E o Savedra não tem mais?
Tem, a família é Shabino de Savedra, todos os dois escritos com s. Paulo Antero Shabino, e ele assina P. Antero Shabino. Os inimigos começam a chamá-lo de Pantero, depois Dom Pantero. Ele aí adota o nome. Quando cria o outro alter ego é Dom Pantero.

“A Ilumiara” tem dois nomes [subtítulos]: “A Ilumiara – Autobiografia musical, dançarina, teatral, poética e videocinematográfica”. Na página seguinte tem: “A Ilumiara – Romance musical, dançarino, teatral, poético e videocinematográfica.”

E tem uma epígrafe de um professor daqui, que foi meu aluno e de quem eu gosto muito –Roberto Motta, filho de Mauro Motta–, ele escreveu um dia num artigo de jornal: “Todos os livros são autobiografias. Mas ele conhece os segredos das máscaras com que nos defendemos da morte”.

Esse primeiro volume já pode ser lançado em breve?
Ainda vai depender. Eu terminei meu texto. Mas ele está grande, em folhas de tamanho ofício. Precisa ser reduzido para o tamanho do livro. As ilustrações eu fiz, já estão prontas. Tem muita ilustração baseada em pintura rupestre. Porque eu quero pegar a cultura brasileira desde o começo mesmo, mostrar que isso aqui não envelhece não. Uma obra de arte está feita para ser reinterpretada, revista, revisada. E também me baseei muito em desenhos barrocos.

Os outros volumes vão todos seguir a forma epistolar?
Vão.

O sr. vai incluir essa fogueira que pulou?
Vou. Mas não nesse primeiro volume. E vou incluir uma coisa que foi muito importante para mim e aconteceu ao mesmo tempo [da internação]: a morte de [Gilvan] Samico [gravurista pernambucano morto em novembro]. Considero Samico um artista de importância mundial. Para mim não há em nenhum lugar do mundo –Alemanha, França, Rússia, Estados Unidos, Inglaterra– um gravador como ele. Para mim foi o gravador de nossa época, no mundo inteiro.

Do ponto de vista formal ele é incomparável. Pela importância dele para o nosso tempo e o nosso país… Ele significa para o Brasil o que Goya significa para a Espanha e Dürer para a Alemanha.

O sr. incluirá figuras públicas entre os personagens do romance?
De certa maneira sim. Não são personagens propriamente, faço alusões. Tem um momento em que escolhi sete pessoas importantes do Brasil: um arquiteto negro e analfabeto do Estado do Rio de Janeiro chamado Gabriel Joaquim dos Santos, por quem tenho grande admiração, é o autor da Casa da Flor. Escolhi Villa-Lobos, e sai por aí…

Do que mais sentiu falta na internação. Conseguiu ler e escrever?
Olhe, um dos piores lugares do mundo é a tal da UTI. Vixe, nossa senhora, que lugar horroroso. A pessoa não tem privacidade para coisa nenhuma, uma coisa horrível. Não tem autonomia, é ruim demais. Ficar no hospital no quarto eu até não reclamo muito não. Mas a tal da UTI… Minha atividade nesse período foi zero.

O sr. tem uma ótima memória, que já definiu como “memória de cachorro vingativo”. Ela está intacta?
Está, mexeu com o físico, mas com a cabeça não buliu não –a cabeça está boa. Se você quiser eu recito o episódio de Inês de castro, de “Os Lusíadas”, todinho [risos].

O sr. sempre apoiou Lula e Dilma e sempre apoiou também Eduardo Campos. Mas em 2014 eles serão adversários. O sr já declarou apoio a Campos. Isso significa rompimento com Lula e Dilma?
Vejo as coisas muito individualmente. Não simpatizo muito com o PT. Nunca dei declaração [de apoio ao PT], senão no começo [do partido], quando eu dizia que os partidos precisavam ter alguma coisa das antigas ordens religiosas, e o único que eu via nessa linha era o PT. Nesse tempo o dr [Miguel] Arraes não tinha entrado no PSB –o PSB era uma academia de letras, não tinha eficácia política nenhuma. Quando dr. Arraes veio me procurar, eu disse a ele que entrasse no PSB. Ele disse que precisava fazer coligação e que entraria no PMDB. Agora, quando ele entrou no PSB, aí eu entrei –nunca tinha entrado num partido político.

Então eu sempre faço uma diferença. Lula é Lula. Não faço restrição nenhuma a Lula, continuo um entusiasta dele, do mesmo jeito que fui quando ele era presidente. Agora, pelo meu gosto, Lula apoiaria Eduardo. Nem houve rompimento com Dilma, gosto muito dela também, mas meu relacionamento com ela é menos fraterno do que com Lula.

Acredita que há chance concreta de Eduardo Campos ser eleito presidente?
Isso eu não sei não. Vou fazer como Capiba [compositor pernambucano morto em 1997]. Ele era torcedor fanático do Santa Cruz, e ia haver um jogo muito importante do Santa Cruz no domingo. Um jornalista telefonou a ele pedindo opinião sobre o jogo. Ele deu várias opiniões, até que o jornalista perguntou: “E qual vai ser o placar?”. Aí ele disse: “Me telefone segunda-feira”. Me telefone no dia seguinte à eleição que eu digo.

O sr. costuma dizer que conhece Eduardo Campos desde menino, que foi amigo do pai e do avô dele. Trata-se de um apoio mais afetivo que político?
Não, veja bem, eu digo isso realmente, e é verdade: Dudu foi companheiro de infância de meus filhos, morava aí na frente [numa casa defronte à do escritor], vivia aqui em casa. Então tinha uma relação afetiva com ele de um tio para um sobrinho. E ainda mais ele casou-se com uma sobrinha de Zélia [mulher de Suassuna].

Mas eu digo, e realmente é: considero Eduardo Campos o político mais brilhante que já conheci. Ele é de uma capacidade de articulação que você não pode imaginar. Outra coisa: é paciente, é obstinado. Ele tem todas as qualidades de um político. Eu digo sempre: um político tem que ser astucioso, principalmente se ele for boa pessoa. Porque senão ele cai –não faz safadeza, mas cai na mão dos que fazem.

Há críticas ao fato de ele se utilizar dos mesmos métodos que critica. Fez campanha pra eleger a mãe para o TCU, formou uma coalizão de 14 partidos, com aliados como Inocêncio Oliveira e Severino Cavalcanti. Com o sr. vê essas críticas?
Entram por um ouvido e saem pelo outro. Isso é uma necessidade da ação política. Achei até muita graça quando Inocêncio Oliveira o apoiou. Estava todo mundo cortejando o apoio de Inocêncio, o PT, todo mundo. Quando ele apoiou Dudu, vieram dizer que ele aceitou o apoio de Inocêncio Oliveira. Política é assim mesmo. Eu é que não gosto de fazer esse tipo de coisa nunca entrei na política e nunca entrarei.

E como avalia a gestão Dilma?
Não sou homem político, sou um escritor que tem preocupações políticas, com meu país e com meu povo. Eu gostava mais do governo de Lula. Tô gostando do governo de Dilma. Entre Dilma e o PSDB, prefiro Dilma. Mas entre Dilma e Lula, prefiro Lula.

O sr. é bacharel em direito, foi advogado, nos principais livros do sr há julgamentos. Como o sr. viu o julgamento do mensalão no Supremo? O que achou do resultado?
Aquilo foi uma coisa triste. O que acho triste ali é que de repente houve uma crispação desse problema. Não tenho elemento pra provar nem ninguém tem, mas a gente sabe que isso não foi inaugurado naquele momento. Essas práticas existiam em todos os governos e tem havido até agora. Se você não fizer isso você não governa. Tem que questionar a própria existência do Congresso. É bom que exista o Congresso? Eu acho que é. Agora, no Congresso existe esse tipo de coisa? Existe e vai continuar existindo.

A compra de apoio político?
Sim. Sim. Todo mundo sabe que essa ideia de dois mandatos não foi obtida de graça não.

O sr. se refere ao esquema de compra de votos no Congresso para aprovar a emenda da reeleição durante o governo Fernando Henrique Cardoso [revelado pela Folha em 1997, mas nunca investigado]…
Sim.

O sr. é um homem muito religioso, católico devoto de vários santos. Qual avaliação faz do novo papa, Francisco, dos primeiros passos do pontificado dele?
Ah, eu estou entusiasmado com esse papa. Logo no início. Só o fato de ele ter escolhido o nome de Francisco, vi logo que ele era alguma coisa de novo. Era o que a Igreja estava precisando. Estou entusiasmadíssimo. Eu de certa maneira acompanhei, porque um grande amigo meu foi para lá fazer a cobertura, que é Gerson Camarotti [comentarista e repórter do canal Globo News], e conversei muito com Gerson. Até fiz uma introduçãozinha para o livro dele [“Segredos do Conclave”, Geração Editorial, 304 págs., R$ 34,90].
Olhe, ele foi o primeiro papa jesuíta, o primeiro chamado Francisco e o primeiro papa latino-americano. Três novidades de uma vez.

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