Três em um com muito humor na Copa

21/06/2014 às 18:23 | Publicado em Artigos e textos, Fotografias e desenhos | 2 Comentários
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Cau Gomez e a peia da Rainha; Veríssimo e seus escanteios eróticos; e o inusitado Vavá Tapá e seu “tabuleiro” com propostas interessantes para uma “prorrogação” da Copa. Tudo isso via A TARDE de hoje (Salvador-goleadas-BA), hilário !


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OS ASSUSTADORES

Mesmo que não faça mais nada, a Costa Rica já ganhou o troféu “Quem diria?” desta Copa. O país que não tem exército, o que já asseguraria nossa simpatia, caiu numa chave com três campeões mundiais e não só sobreviveu como prevaleceu. Desta vez, nem Jesus Cristo, que joga com o pseudônimo de “Pirlo”, salvou a Itália. Já a França se juntou à Holanda e à Alemanha como os três times mais assustadores da Copa, e Benzema se juntou a Robben e Muller como os três melhores atacantes. E gostei de ver outro baixinho, como o Sterling da Inglaterra, brilhando e incomodando: o sensacional francês Valbuena, que tem de talento o que lhe falta em tamanho. Os baixinhos, afinal, não estão extintos no futebol moderno.

Sexo na grande área

Já contei que fui à minha primeira Copa, a de 86, no México, como correspondente da “Playboy”. Não foi fácil. A revista é mensal, e a edição em que sairia minha matéria fecharia antes do fim da Copa, me obrigando a escrever como se soubesse o resultado, mas às cegas. Pior do que isso, no entanto, foi ter que explicar a quem via minha credencial o que um correspondente da “Playboy” estava fazendo numa Copa do Mundo. Não me ocorreu a resposta que me ocorre agora: eu estava lá só para cobrir os escanteios, que é quando o futebol mais se aproxima do sexo.

Na cobrança de escanteios, o que se vê dentro da área é o que se veria numa orgia — camisetas sendo arrancadas e calções puxados para baixo, dedos entrando no orifício mais próximo, e todos se agarrando. Nem sempre foi assim. A cobrança de escanteios costumava ser uma confraternização. Os dois times reunidos dentro da grande área e, enquanto a bola não vinha, conversando, trocando fotos das crianças, etc. A erotização do escanteio é um fenômeno relativamente recente.

Mas também é por causa do agarra-agarra, que os juízes tentam coibir, mas não podem controlar, que deixou de valer aquela velha máxima, segundo a qual “córner” era meio gol. Em tempos mais inocentes, era. Hoje é tão raro sair um gol de escanteio quanto alguém sair da grande área, depois de um escanteio batido, sem estar moralmente comprometido.

(Veríssimo)


TABULEIRO DO VAVÁ TAPÁ

Precisamos de um segundo turno na Copa…

Fala miséra! Não sei o que será de mim e daquelas pestes rubro-negras quando a Copa terminar. Imagina aí, véi. Vimos a Holanda quebrar a guia espanhola com 5 a 1, a Alemanha transformar Portural em chucrute com 4 a 0 e ontem a França metendo 5 a 2, azedando o leite suíço. Tudo isso na nossa Fonte Nova. Aí chega julho, termina a Copa, as gostosas voltam pra seus países e teremos que  nos contentar com Feijão sendo ídolo do Bahia e Josa colocando a braçadeira de capitão do Vitória. Pire aí, véi ? Só rezando.. Fiquei mal acostumado e já  estou pensando seriamente em sugerir um segundo turno para a para a Copa do Mundo. Ou melhor, quem sabe um Mundial de pontos corridos ? 38 rodadas até dezembro, classificando quatro para um quadraguanguar decisivo, onde teremos semifinal e final depois. Uma Copa com 365 dias. Qualquer zorra pra Copa não acabar nunca mais. Encosta Bahia e Vitória no INSS e só vamos Mundia. Fui, banda mel!

Lelé Filgueiras. Comunista, sim. Ateu, também.

21/06/2014 às 3:24 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse eu recebi de um amigo por email. Mês passado faleceu o arquiteto Lelé Filgueiras, amigo de Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro. Só podia ser o que foi, ser o que é: um grande brasileiro, um grande ser humano. Minha homenagem.


Comunista, sim. Ateu, também. Por Lelé Filgueiras (1932-2014)

 

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(Lelé e Oscar Niemeyer. Foto: Arquivo pessoal)

Tive a enorme honra de conhecer o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, há dez anos, para juntos escrevermos o livro O Que É Ser Arquiteto pela editora Record. Durante uma semana, conversamos durante horas. Eu gravava tudo e depois transpus para o papel quase exatamente do jeito que ele falou sobre a vida, a carreira, sua maneira socialista de ver o mundo.

Discípulo e amigo de Oscar Niemeyer, com quem trabalhou na construção de Brasília, Lelé era considerado um craque da argamassa armada: enormes estruturas de concreto, levíssimas, que barateiam o custo das obras, e por isso mesmo de enorme utilidade na arquitetura pública, que Lelé optou por seguir, até por questões ideológicas. Sua obra mais conhecida são os hospitais da Rede Sarah, onde pôde aplicar as ideias inovadoras de utilização da luz e ventilação naturais inspiradas na arquitetura nórdica, que ele adorava.

Um dos seus últimos trabalhos foi a concretização de um desejo antigo de outro grande amigo, Darcy Ribeiro, para quem projetou o Memorial que o antropólogo queria que se tornasse conhecido como “Beijódromo”, na UnB. E assim foi.

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(desenho de Lelé para o Beijódromo)

Carioca do subúrbio do Encantado radicado em Salvador, Lelé ganhou o apelido por conta das peladas na escola. Como jogava na mesma posição que um artilheiro do Vasco da Gama chamado Lelé (Manuel Pessanha), alguém sapecou o nome e pegou. O pai de Lelé era pianista e o gosto pela música passou para o filho, que enchia as noites do acampamento, durante a construção de Brasília, com o seu acordeão. Uma das frases inesquecíveis de Lelé para mim, aliás, foi quando eu perguntei qual era sua maior frustração na vida, achando que ele iria responder algo como “não ter podido levar adiante a reforma do Centro Histórico de Salvador que planejei com Lina Bo Bardi” que eu adoraria que tivesse acontecido.

Mas Lelé, que continuava a tocar teclado, disse:

O que me causa frustração é não ler partitura.

Lelé morreu hoje e fiquei muito triste com a partida de mais um  mestre. Em sua homenagem, publico um capítulo do livro que fizemos e que trata justamente destes temas tão caros a ele, a mim e a este blog. Beijo, Lelé querido.

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(Lelé tocando acordeão no acampamento na construção de Brasília)


Comunista, sim. Ateu, também

Por Lelé Filgueiras

Estive na China quando ela se encontrava num estágio ainda mais atrasado do que a União Soviética na época em que a visitei, na década de 1960. Fui no mesmo período em que o cartunista Henfil (1944-1988) escreveu o livro Henfil na China (antes da Coca-Cola), em 1984. Claro que quando ele escreveu era um pouco caricatura, afinal Henfil era humorista. Eu gostei de muitas coisas que vi.

Quase não havia automóveis, só bicicletas. Mesmo diante dessas circunstâncias tão peculiares, aquele barulho infernal de campainha de bicicleta, achei agradável, todo mundo vestido de azul e cinza. Isso para mim era confortável. Para não ficar diferente, comprei uma roupa igual à deles. Antes, as crianças vinham me cutucar para ver se eu era um bicho, alguém que tinha caído do planeta Marte. Lembro de ver um carrinho de bebê comunitário, com uma mãe só levando os bebês da vizinhança toda para passear. Pareceu-me solidário.

Quando cheguei em Cantão, umas pessoas do Ministério da Cultura de lá iriam me receber, mas era tanta gente na estação de trem eu vinha de Hong Kong que fiquei absolutamente perdido, não vi o cartaz que eles fizeram. Minha situação era péssima: milhares de pessoas, todas vestidas de cinza e azul, olhando para mim e rindo, ninguém falava inglês. Depois, por muita sorte, com mala e tudo, andando a pé, vi uma coisa escrita em inglês, e era um prédio de turismo. Lá eles conseguiram me identificar, mas já tinha perdido o dia inteiro nessa confusão.

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(Um dos hospitais da Rede Sarah)

Sinto-me comunista até hoje, acho que com o capitalismo a gente não vai se desenvolver mais. Posso ter revisto algumas posições, mas continuo achando que o homem só pode ser feliz através do socialismo. Tenho absoluta convicção de que com o capitalismo só vai haver guerras e mais guerras. Claro que do totalitarismo a gente não gosta. Naquela época, como havia duas tendências tão antagônicas e o capitalismo era maioria, houve essa tentativa de se fechar, a chamada Cortina de Ferro. Cuba só pode subsistir até hoje rodeada pelos EUA, nessa crueldade do bloqueio econômico, com um regime de força. O poder do capitalismo é tão grande que, quando abre, corrompe tudo.

É difícil estabelecer o socialismo enquanto houver esse capitalismo selvagem que está aí, com um poder de fogo muito maior. O capitalismo se alimenta da miséria dos países pobres, e a globalização não foi feita para resolver nossos problemas; estamos mais miseráveis do que antes, não resolveu nada. Acho que a humanidade foi mais feliz enquanto havia os dois, capitalismo e socialismo. De certa maneira, equilibrava.

Quando havia essas duas forças, é lógico que a arrogância dos EUA não era tão grande, porque sabiam que do outro lado existia uma bomba igualzinha à deles. Não era como hoje, que os EUA dizem que vão desarmar algum país e começam uma guerra. Isso é ridículo, tem que desarmá-los primeiro, porque têm todas as armas. É uma coisa tão contraditõria, essa forma de encarar a igualdade do mundo, é um absurdo que se vê no capitalismo. O lado competitivo, ter de ser um winner(vencedor), não um loser (perdedor). Não posso aceitar, é uma coisa forte dentro de mim. Vou morrer socialista, comunista, o que for, não tem condição.

Se não atuo na iniciativa privada é porque não sei, tenho horror aos valores que são colocados. Foi uma opção bastante ideológica também, feita num período em que estava sedimentando essas informações. Não era militante, mas participava das reuniões do PCB com Oscar (Niemeyer), na época da UnB. Como estudante, na faculdade, não tinha me envolvido, mas o que aconteceu é que ficamos, eu e o arquiteto Ítalo Campofiorito, sendo uma espécie de representantes de Oscar na Universidade, quando ele estava ausente, nas discussões que havia. E fiquei um pouco como representante do PCB na UnB, embora não-filiado. Desde pequeno tinha isso em mim, um primo comunista, essas coisas vão chegando… A convicção ideológica não foi forçada, era natural.

(Uma aula de Lelé)

Minha família era espírita, e havia todo aquele sincretismo com a religião católica, umbanda, valia tudo essa coisa brasileira, uma mistura danada. A Bahia, então, é formidável. O baiano pensa com a mente e com o coração. Como tudo isso é carregado de emocional, propicia o sincretismo, fundir no caldeirão crenças muitas vezes antagônicas, misturar religião católica com candomblé. Acho essa geléia fantástica. No meu caso, havia toda uma pressão da família pela religião, mas não conseguia acreditar. Não posso me influenciar por uma coisa que não estou sentindo por dentro.

Sou ateu. Envolvo-me com o candomblé na Bahia mais como objeto de estudo, acho interessante. Toda sexta-feira visto uma camisa branca, e é porque de certa maneira respeito a cultura baiana de se vestir de branco na sexta. Não sei exatamente por quê, mas uso. Um dos maiores amigos que tive foi frei Mateus Rocha, da ordem dos dominicanos. Passamos muitas noites conversando. Essa diferença que havia entre nós, de eu não acreditar em Deus, não impedia que tivéssemos os mesmos valores éticos, uma visão socialista idêntica do mundo.

Não sei por que essas coisas podem de repente afastar as pessoas. É fundamental procurar os pontos de identidade, eles sempre existem. Se a gente faz isso, consegue viver coletivamente; se radicaliza, não dá.

 

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