Mais dois contos de Davi Romboli

25/11/2014 às 3:09 | Publicado em Artigos e textos | 20 Comentários
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Seguem mais dois contos do jovem escritor Davi Romboli. Divirtam-se:

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A crônica de uma vida crônica

Nasci. Que maçada! Agora tenho que respirar por conta, me alimentar por conta. E o mais estranho, até penso em visitar o médico, pois de fato me preocupa, blocos gosmentos e fedidos saem de trás, sempre seguidos de coceira e ardências, os grandes ficam nervosos, até deixam de me falar com vozes engraçadas e falam como entre si. Temo a morte. E a vida segue e é bela. Hoje abri os olhos e vejo outro mundo. Ó luz, é vida que nos ilumina.

Exigências e exigências. A vida cada vez se mostra mais árdua e os grandes indiferentes ao meu sofrimento – deixam-me chorar por horas e dizem que é bom para mim. Que senão vou ficar mimado. Mas o cachorro é só latir e recebe o prato. Ó vida dura, quem me dera ser o Max. Eles são cruéis, me querem de escravo – andei dois passos, cai e ralei o joelho – o choro os comoveu por pouco e logo já era forçado a repetir: “Diz papai, papai! Não, mamãe! Agora papai!” – resmunguei alguma coisa sem coragem de desafiar, porém não fui hipócrita. Parece que eles entendem o que querem. E depois, mais passos e passos. Dureza. Planos: dominar o idioma deles, assim poderei argumentar e vencê-los em sua casa; equilibrar-me em pé, poderei então decidir meus passos. E isto sem perder minha natural inteligência – o que mais receio, pois os grandes são todos burros.

Escola, meu primeiro dia. Hoje fui à escola. Um cisco entrou no meu olho e chorei. Mas tive que ir à escola. Fiz amigos na escola. O Jorge é velho na escola, já fez um ano. O Jorge é legal. A Tia brigou com o Jorge porque ele tava com o dedo no nariz. O Jorge chorou. Chorei também. O Luiz não é legal. Ele gosta de bater nos outros. Eu não gosto do Luiz. O Fabinho é meu amigo. Ele e o Jorge gostam de dormir e dormem o dia todo. Eu não dormi. Chorei. Amanhã volto à escola. Não gosto da escola. Gosto da televisão. Planos: ver televisão.

Uma grande perda de tempo. Pra que escola? Sei muito mais que os professores, aqueles velhotes não sabem nada, acham que a vida é só trabalhos e trabalhos. Descontam seu mau humor em nós. Por outro lado, eu vivo. Isso que é vida, a liberdade das ruas, as eternas amizades, a vida infla em mim. Sou eu a vida. Dizem que preciso tomar jeito, arrumar um trabalho e seguir uma carreira. Prefiro um carro. Planos: viver, continuar a viver, não me dobrarei às falsas obrigações.

O tempo está nublado, minha vida também. Terminei os estudos, a vida terminada está? Tudo mudou. Fui abandonado pelos amigos, todos com suas ocupações, cansados demais. Próxima semana começo a trabalhar na firma, vou auxiliar no escritório do Dr. Borges. Que droga! Mas o dinheiro me falta. Planos: seguir meus sonhos (serei ator, talvez diretor); ingressar em artes cênicas; sair daquele maldito emprego; voltar a levar a velha vida; comprar um carro; arrumar ao menos uma namorada – com o carro fica mais fácil.

Está findo, sou um bacharel em administração de empresas, longos quatro anos, mas valeu o fardo. Não há limites atmosfera além. Dr. Borges me chamou para auxiliá-lo diretamente, o salário não aumenta, porém sei que logo a promoção sai. Quando sair pedirei a mão de Carla. Planos: comprar um carro; casar; juntar dinheiro para o apartamento; tornar-me chefe logo, ou sair para ser gerente noutro lugar, para que tão pouco: ser diretor e depois presidente!

Vendi o carro. Dr. Borges disse que o negócio anda mal, mas melhora – logo serei promovido, estou certo, sou o mais velho na casa. Julinho não anda bem na escola, já disse para a Carla que a escola pública seria melhor, na pré-escola não faz diferença a não ser no bolso. Tudo vai melhorar. Em quatro meses saio de férias, agora não adiam de novo não, descansarei e os pensamentos virão. Estou exausto. Planos: não há planos, só quero dormir.

Não achei que superaria tão rápido. Três meses e já me sinto solteiro. Carla anda bem, de namoricos por aí; Julinho come o meu salário, pois a megera… Julinho é um bom menino, sim, ele é um bom menino. O aluguel me tira as cuecas furadas, talvez saia para uma pensão por causa daquela maldita pensão… Ele é um bom menino. Planos: intimar o Dr. Borges para a promoção; carro; mulher; dinheiro.

Ainda não superei o abatimento da morte do Dr. Borges, nunca pensei que a nova diretoria me cortaria. Vivo de bicos. Com o bico dos sapatos fui chutado. E a vida segue, estou livre do lugar que por tanto tempo me tomou as forças, livre para realizar meus sonhos. Ingratos! Planos: seguir meus sonhos; faculdade de artes cênicas; comprar um carro; reatar as velhas amizades, os velhos vínculos. Isso!

Abençoado seja! O filho da Marli conseguiu minha aposentadoria, o valor é reduzido, pouco mais que o mínimo e ainda farei alguns bicos que surjam. Sou um aposentado. Dr. Carlos quer que me cuide melhor, mude a alimentação e faça exercícios – já sou velho demais para isto. Quero é descansar, muita cama e televisão. Planos: vida.

Morri. Amanheci morto e descobri uma grande mentira: a vida não passa diante dos olhos na morte, ela está lá, todos os pensamentos, momentos e imagens juntos, tudo sentido ao máximo duma vez. Amanheci morto, mas não foi morte indolor. A dor foi diluída a todo instante de minha vida. Uma vida morrida. As forças dissiparem-se entre os sonhos tão voláteis como as nuvens. E a única sabedoria que tive foi a pura e instintiva de meus primeiros dias. Nada mais devo fazer, decomponho sem esforço. Amanheci morto naquela manhã que sai útero afora.

(Davi Romboli)


Será que já abriu?

“Será que já abriu?” – diz um jovem a outro. Estão parados na esquina, um deles escorado no poste, outro a ajeitar, repetidas vezes, o cabelo. A lua quente dá um ar calmo ao bairro, feriado, não há jogo do Corinthians. Um carro dobra velozmente o caminho, um gato foge assustado. Gato preto é sinal de mau agouro.

“Não sei… Melhor esperar um pouco mais. Se chegarmos cedo demais pode dar na cara e aí vai dar rolo…” – Uma senhora aproxima-se com a filha no colo, os dois tornam-se inquietos, a senhora vai-se, o perigo passou.

“Algum rolo como? Vai recuar de novo?” – Olhe do outro lado da rua! Uma garota aproxima-se, deveras atraente, a luz da lua e a luz do poste competem pela sua formosura – formosura acentuada pelo curto short. Os nossos dois estupefatos heróis não puderam deixar de contemplá-la, entretanto ela saiu em disparada, correndo rua abaixo.

“Olhe o que você fez! Ela saiu assustada. E então, diga, vai dar pra trás?”

“O que eu fiz? Você que ficou babando feito tonto! Não tenho culpa se ela é louca.”

“Tá bom. Tá bom. Vamos?”

“Vamos.” – a esta altura, meu caro leitor, você deve estar se perguntando o que estes dois estão fazendo na esquina e para onde vão. Quero tranquiliza-lo e por isso digo desde já que nossos jovens não são criminosos, não queriam assustar a ninguém e tampouco estão tramando algo de mal. O que ocorre é que um dos pequenos indiscretos (Se não disse antes foi por não me parecer necessário, mas como agora o é, digo-lhe: estes jovens têm quinze e dezesseis anos) pegou o endereço de uma Casa com o primo, e juntando-se com um amigo estão acampados há uma semana a algumas dezenas de metros do lugar tomando coragem para a batalha. Mas não se engane, a garota assustada de há pouco é apenas uma garota assustada, e creio que você – se uma leitora – entenderia o medo dela se durante uma semana dois indivíduos estivessem a sua espera todo dia na mesma hora, com gestos indicativos e toda a indiscrição possível em dois jovens excitados. Entretanto a ironia da vida às vezes se utiliza da ironia de paspalhões, e o que se passa que você não sabe, tampouco a garota, nem mesmo os rapazes é que o endereço da tal Casa dada pelo primo Luizinho é apenas o endereço de uma casa. Agora retornemos à rua que os dois já se aproximam do lugar.

“Tem uma luz acessa… A janela tá aberta!”

“Vamos devagar. Não fique nervoso senão não deixam a gente entrar.” – aproximam-se da janela, há um barulho vindo de dentro, tem alguém lá, são duas…

“Oi! OI! Tudo bem?”

“Ehr… Tudo.” – e saem. Passados alguns metros, correm de volta à esquina. Eram duas meninas gêmeas, que assistiam a algum desenho animado na televisão; e que gostam de assustar os transeuntes surgindo na janela do nada.

“Eu vou matar seu primo! Eu juro que vou matá-lo. E você foi idiota pra acreditar?”

“Você também acreditou. Mas ele me paga.”

“Olha quanto tempo a gente perdeu aqui à toa…”

Do outro lado da rua, retornam a garota acompanhada de um senhor grandalhão de bigode que ostenta em seu peito o símbolo do respeito imposto, porém ostenta em seus músculos o respeito em pessoa.

“São eles.”

“Ei vocês! O que querem… Parados!”

Felizmente as jovens pernas são mais rápidas e assim os dois seguem, tramando talvez o próximo plano mirabolante que dará a eles o acesso ao elixir da vida, ou a qualquer outro tipo de mistério inda não desvendado.

(Davi Romboli)

20 Comentários »

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  1. “Minino Davideo” tem talento!!!

  2. Fernando, o cabra é bom.
    Vide também: https://joserosafilho.wordpress.com/2014/10/17/davi-romboli/

  3. […] uma bom conto de Davi Romboli, confiram […]

  4. […] Uma mistura de Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Renato Russo. Deu no que deu. Confiram a criatividade e perspicácia de Davi Romboli. […]

  5. […] Mais um bom conto de Davi Romboli. […]

  6. […] Mas bem que podia ser: “Os discursos do padre Leléu”. Mais um excelente conto de Davi Romboli. […]

  7. […] um bom conto autobiográfico do amigo e jovem talento das letras, o paulista Davi Romboli. O que sinto por São Paulo, fora dois ou três amigos como ele e o famoso Bar Brahma (SAMPA, entre […]

  8. […] é mais uma do jovem escritor Davi Romboli. Posto aqui neste Canto da Poesia do ZEducando essa releitura criativa de […]

  9. […] são um conto e um artigo, mas vale a pena a leitura. O conto me lembrou o amigo e jovem escritor Dari Romboli. Já a terceira proposta de Bernie Sanders constante no artigo me lembrou um outro post que fiz […]

  10. […] um conto do jovem escritor Davi Romboli. Um dos mais fortes dos que aqui já […]

  11. […] Davi Romboli, jovem talento das letras, envereda agora nas lides da poesia. […]

  12. […] um excelente texto do jovem Davi Romboli. Seria uma crônica-conto ? Ou um conto-crônica […]

  13. […] hoje mais um conto do amigo e jovem escritor Davi Romboli. Esse ele me enviou ainda em janeiro deste ano. Resolvi publicá-lo hoje porque é meu […]

  14. […] hoje mais dois contos de Davi Romboli, jovem talento das […]

  15. […] dica veio de Davi Romboli, jovem escritor e amigo. Do email dele: “Essa revista publicou desde os anos 50 diversas […]

  16. […] todos os contos que aqui publiquei do amigo Davi Romboli, esse não só é o maior mas o melhor, para mim o mais criativo de todos. Seria o embrião de um […]

  17. […] hoje mais um bom conto de Davi Romboli. A criatividade é uma constante nos escritos deste jovem escritor. Confiram […]

  18. […] que será publicado em breve. Seu estilo de escrita se assemelha ao do também jovem talento Davi Romboli. Parabéns Aninha, pelo seu aniversário. Saúde e paz. Sucesso na sua carreira […]

  19. […] um excelente conto do amigo Davi Romboli, um talento das escritas perdido na luta pela sobrevivência no serviço público […]

  20. […] um belo conto deste jovem talento das lides literárias: Davi Romboli […]


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