Em 1º de junho, ecos do 1º de maio

01/06/2015 às 5:33 | Publicado em Artigos e textos, Canto da poesia, Espaço ecumênico, Zuniversitas | 1 Comentário
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A poesia colocada no final do artigo é de Maiakovski, poeta russo que inspirou várias gerações, inclusive a minha, porque DESPERTAR É PRECISO:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”


Ao 1° de Maio: Cristo, Marx e Francisco

Neste 1° de maio, uma frase do Papa Francisco: ‘a principal causa da pobreza é esse sistema econômico que retirou o ser humano do centro’


Catholic Church England and Wales

Ateus ou crentes, não importa a igreja, o culto, o rebanho, no mesmo barco estamos entre a fé e a dúvida, ou a indiferença ou a total descrença. O que parece nos aproximar uns dos outros é o contato com o espelho. Precisamos do outro para reforçar ou negar nossa crença.

Não fosse assim estaríamos vivendo num mundo que não o capitalista. Onde as relações entre mulheres e homens seriam espontâneas, genuínas, diretas. Possivelmente arranjos humanos de cooperação mútua, saudáveis, auto-reguladores.

Na complexidade capitalista em que vivemos, no entanto, impera, vocifera e tempera a competição. Vendida por seus representantes e mandantes como fundamento do sistema, enquanto predisposição natural entre os homens, a competição foi adotada por nós como forma e expediente de vencer na vida a qualquer custo.

Uma coisa é clara. Historiadores, arqueólogos, e outros cientistas, a grande maioria deles, nos informam que o mundo primitivo, embora ainda não socializado, trazia em si o espírito da cumplicidade dos grupos pelo menos na defesa de seus territórios e posses e na proteção de seus membros.

Até aparecer os chefes e reis, vide Game of Thrones, que passaram a disputar espaços territoriais e de domínios, lutando uns contra os outros. Da crença no poder dos reis chega-se à infiltração da crença no poder divino. Reis e sacerdotes passaram a coabitar o mesmo altar de mandos e desmandos sobe os privilegiados súditos e pobres plebeus.

Da vivência natural dos povos primitivos chega-se à obediência imposta por chefes, reis e sacerdotes. Os grupos medievais tinham nesses ungidos pelo poder da força e das armas de um lado e dos ministros dos céus de outro a sorte ou a desgraça de suas sobrevivência e trabalho.

Nesta etapa da história humana surgem os grêmios de artesãos onde mestres e artífices iniciam a colaboração entre si na execução de tarefas. Carruagens, móveis, utensílios, armas, armaduras, ferraduras, esporas, entre outros, eram feitos por esses grupos para uso dos feudos.

Os olhos ávidos dos detentores de recursos provenientes em grande parte de saques, roubos, espoliação e heranças cooptaram alguns grêmios e dominaram outros para usufruir mais dos resultados do artesanato. Surgem daí os embriões das primeiras fábricas.

A realeza e o clero perdem, então, a pose e a circunstância para os primeiros representantes da turma capitalista. Fabricantes, comerciantes, banqueiros começam a dominar o espaço econômico das sociedades. A Inglaterra primeiro, e os demais países europeus após, rearranjam suas condições de produção e espalham suas garras para outras regiões ainda desconhecidas. Desse jorro de colonização fez parte o Brasil.

Pois bem, tudo isto dito até aqui para mostrar que os que servem aos chefes ou reis ou sacerdotes ou capitalistas são os mesmos. Pobres trabalhadores que vivem de executar tarefas e serviços para outrem, não mais para si mesmos como no mundo primitivo. Ah! Sim, há os trabalhadores por conta própria de hoje. Mas esses trabalham nas fímbrias do sistema, sozinhos, sem cooperação de grupo, à mercê da evolução cíclica da economia.

Então, logo após o advento da fase industrial do capitalismo, quando as fábricas se ampliam, se intensificam e se tornam mais complexas, Deus faz Marx. Assim diriam os crentes. Ou nasce Marx como diriam os demais, entre eles os ateus. O que importa é que Marx vem ao mundo para recolocar os pingos em cada i e mostrar que o capital existe porque ele domina, extrai ao máximo das tarefas impostas, paga mal e dispõe como quer de todo trabalhador.

Contestem, esperneiem, alcunhem de demônios os que assim seguem e defendem os postulados marxistas, mas a verdade é que ele foi o baluarte entre os cientistas sociais que levantou a primeira devastadora crítica ao sistema capitalista de produção. A qual persiste referenciada até hoje.

Argumentarão os católicos que Cristo defendeu os pobres com unhas, dentes até sua morte. É verdade, a pura verdade. Talvez por isso mesmo ele tenha sido o precursor das ideias defendidas por Marx. A diferença entre eles é que Cristo pregava o amor e a compreensão entre os homens, já Marx explicava porque não havia amor e compreensão entre os homens no mundo materialista.

E Marx que não foi ungido por Deus, como Cristo, acabou se tornando deus na economia política, ungido por seus seguidores. Schumpeter, renomado economista austríaco, da vertente mais liberal, chegou a dizer que Marx era o economista que mais entendeu o funcionamento do capitalismo, fossem a favor ou contra ele. Muitas das ideias dos dois guardavam fortes semelhanças.

O Papa Francisco, pontífice da ala mais à esquerda da Igreja Católica, próximo a João XXIII, disse no começo do ano com todas as letras em um dos seus marcantes pronunciamentos que “tenho ouvido dizer que as famílias com muitos filhos e altas taxas de natalidade estão entre as causas da pobreza. Isso me parece uma opinião simplista. Eu posso lhe dizer que a principal causa da pobreza é esse sistema econômico que retirou o ser humano do centro”.

Palavras do chamado representante de Deus na terra que seguem as palavras de Marx. Qualquer coincidência é mera semelhança. O que não surpreende. A visão e a leitura de Marx, embora seus textos sejam pesados e longos, é simples, direta e objetiva. Tal qual a opinião do Papa Francisco.

Ocorre que os defensores do capitalismo tentam obscurecer a realidade jogando a culpa em tudo à mão, menos neles mesmos, com relação às crises periódicas do sistema, à desigualdade de rendas, à repartição injusta de patrimônios, à pobreza extrema, à situação trágica da fome e das enfermidades, ao desemprego, entre tantos outros males.

Ou, ao contrário, tentam piorar mais ainda a situação dos trabalhadores, vendendo gato por lebre. Como quer Eduardo Cunha e Aécio Neves, entre outros, com a defesa do projeto da terceirização, Beto Richa com a violência contra os professores, dito por ele “desordeiros e partidários”, Alckmin com seu silêncio de chuchu há meses sem negociar com os professores, igualmente “desordeiros”, e Gilmar Mendes por sentar em cima da decisão da maioria dos ministros contra o financiamento privado de campanhas políticas, que acaba tirando algum dos bolsos dos trabalhadores.

Mesmo na companhia de Marx e dos papas João XXIII e agora Francisco, se nós unidos fizermos pouco, desunidos então não faremos nada. Já dizia o grande Maiakovski

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

(José Carlos Peliano)

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