Estrangeiro em todo lugar

25/07/2015 às 3:29 | Publicado em Artigos e textos, Baú de livros, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Esse artigo saiu na Revista Cálculo de maio deste ano (Edição n. 52). Me identifiquei muito com esse Professor porque minha formação, como a dele, é também diversificada. E, claro, fiquei curioso para ler o seu último livro: Antiterapias.


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Um estudante resolve um exercício, confere a resposta no fim do livro, e vê que sua resolução está errada. Ou resolve um problema, mas, na fase de conferência, vê que
duas partes da demonstração se contradizem. Ou lê sobre algum tópico da teoria, pensa que entendeu tudo, mas, quando vai estudar o primeiro exercício resolvido, percebe que se perde nos saltos lógicos do autor.

Em casos assim, quem não se sente estrangeiro no reino da matemática? Quem não pensa: “Será que isso é realmente para mim? Será que não passo de um impostor teimoso?”

O estudante tem de aprender a lidar com tais sentimentos de estranheza, ou está fadado a abandonar a matemática. Faz bem, portanto, se vier a conhecerum autor como [ac-
ques Fux – ele passou a vida se sentindo estrangeiro (ainda passa), mas, ao contrário de tantos como ele, usa a literatura para pôr tais emoções no papel e lidar com elas.

Jacques é judeu, e quase todo judeu se sente estrangeiro em todo lugar. Sempre gostou de exatas, mas, quando foi estudar matemática na faculdade, ficou incomodado com seu excessivo pragmatismo. Sempre gostou de literatura, filosofia, artes, mas percebeu que tinha um pensamento matemático demais para elucubrações filosóficas. E, até ganhar o Prêmio São Paulo de Literatura em 2014, com o livro Antiterapias, também não se sentia autorizado a se declarar escritor. “Para um escritor, essa é uma questão importante”, diz Jaques: “a questão de não se sentir pertencente. A Clarice Lispector escrevia muito so-
bre isso.”

Por que um doutorado sobre matemática e literatura?

A tese que defendi, e que é importante, é esta: quanto mais matemática o leitor sabe, mais será capaz de entender a obra de escritores como Jorge Luis Borges [argentino] e Georges Perec [francês].

Borges usou conceitos muito abstratos da matemática em sua ficção: o conceito de infinito, de infinito enumerável e não enumerável, de cardinalidade, de paradoxo. Mas Borges usou a matemática como elemento de sua ficção; ele a transformou numa coisa mágica, ficcional. [Ela faz parte da fantasia evocada pelas palavras; é como se fosse um personagem da história.] Já o Perec faz parte de uma escola que poderíamos chamar de axiomática: ele impôs restrições matemáticas à sua literatura; ele impôs regras restritivas, por meio das
quais escreveu cada um de seus livros. Por exemplo, um de seus livros se chama La Disparition [O Desparecimenio, ou O Sumiço], e trata de temas como o desaparecimento, a perseguição, o assassínio de pessoas que não entendem por que estão sendo mortas. Quanto ele era criança, com quatro ou cinco anos, seus pais foram levados para a guerra. [A segunda guerra mundial.] O pai morreu no front francês; a mãe foi assassinada em Auschwitz. Ele era pequeno demais para entender tudo o que estava acontecendo, mas era velho o suficiente para entender alguma coisa. Então, toda a sua literatura é do tipo traumática: ele tentou entender o que aconteceu, tentou reconstruir momentos e paixões, tentou buscar na memória a contingência da vida. Perec escreveu La Dispariiion, um livro de umas 300 páginas, sem usar nenhuma palavra com a letra “e”, que é a letra mais comum na língua francesa! Só depois de um tempo o leitor percebe que está faltando alguma coisa.
Isso é uma restrição matemática, cujo nome técnico é lipograma. Como traduzir um livro assim? Perec chegou a falar desse assunto, e disse que uma tradução seria impossíveL

Outro trabalho de Perec se chama Le Grand Palindrome. um poema com 1.247 palavras e 5.566 letras.] Depois que foi publicado, Perec revelou o motivo do título: o poema inteiro é um palíndromo, que o leitor pode ler de trás para a frente. Quando eu dava aulas de computação, pedia aos alunos que escrevessem programas de computador que produzissem palíndromos.

Um palíndromo: “Amor, me ama em Roma?”

Qual é a sua história com a matemática?

Sempre fui bom de matemática na escola. Sempre gostei de matemática, física, química. Quando chegou a época do vestibular, estava perdido, mas estava perdido em três áreas de exatas: engenharia, computação, ou física. Acabei me matriculando no curso de engenharia elétrica, não gostei, e mudei para a matemática na Universidade Federal de Minas Gerais.

Confesso que, depois de um tempo, me desiludi um pouco com a matemática, que me pareceu excessivamente pragmática. Eu queria saber de onde vinham as coisas; queria saber inclusive de onde vinha a análise matemática. Queria saber de onde vinham as próprias demonstrações. Acabei indo parar na Unícamp, fazer um mestrado em lógica, pois com a lógica compreenderia esse começo. Concluí várias matérias de lógica; adorei tudo aquilo.

Na Unicamp, contudo, a lógica faz parte do departamento de filosofia. Entrei na fila das bolsas de mestrado e fiquei em último lugar; percebi que os temas de filosofia ganhavam prioridade. No fim das contas, mais uma vez me mudei para Belo Horizonte e fiz mestrado em computação. Ao defender minha dissertação de mestrado, ficou claro para mim que ainda gostava de matemática. Ainda gosto; gosto desse romantismo que existe na matemática.

Já dei aulas de computação. Por muitos anos, dei também aulas de cálculo I e 2, que são matérias com alto índice de reprovação. Queria incentivar meus alunos, então falava sobre os problemas de um milhão de dólares, falava do russo que resolveu um desses problemas [Grigori Perelman, que provou a conjectura de Poincaré, mas que abriu mão do prêmio em dinheiro], falava da conjectura de Goldbach. Contava as histórias e brincava com meus alunos, e acho que existe muito de literatura nisso, pois meu propósito era despertar paixão, despertar interesse. Quando conto uma história, também invento, aumento, brinco. Já usava a literatura para motivar o aluno.

O livro Antiterapias é pura ficção?

Antiterapias é uma autoficção. Falo da minha vida, da minha própria criação, mas é ficção. Conto como é ser criado numa cidade e numa comunidade pequenas [Belo Horizonte e sua comunidade judaica], como é ter minhas insatisfações, meus pais e parentes, aquele amor infantil que todo mundo tem e no qual é rejeitado, aquele amigo que não é amigo. Mas, assim como na obra de Perec, esse livro segue uma regra matemática, como um axioma:
em cada capítulo, o personagem tem de se misturar a algum outro personagem, seja de Marcel Proust, seja de João Guimarães Rosa, seja de James Joyce. Uma professora da Universidade de Maryland descreveu Antiterapias como sendo “o jogo de descobrir
as referências literárias”.

Cada capítulo começa com uma epígrafe – uma de Proust, uma de Cortázar, uma de Borges, e assim por diante. Mas digo, de brincadeira, que não são epígrafes, mas prefácios: esses caras estão prefaciando minha obra! [risos]

Acho que essa regra matemática engrandeceu minha escrita. As restrições matemáticas às vezes dificultam a resolução de um problema, mas engrandecem a resolução ao mesmo tempo. Por exemplo, às vezes é fácil achar uma solução no conjunto dos reais, mas, no conjunto dos naturais, é extremamente difícil. A restrição dificulta as coisas, mas engrandece a obra.

Meus livros de ficção tratam também de uma questão importante para Perec: as pessoas que sobreviveram ao holocausto querem contar o que aconteceu com elas, mas é uma tentativa impossível, pois há muito trauma, muita dor. [Como contar a história direito se está faltando algo tão importante quanto a letra ‘e?] Nosso cérebro trabalha de forma a reconstituir nossas lembranças, mas, sem que notemos, ele às vezes as falseia, simplesmente porque não dá conta do que aconteceu. Em Antiterapias, trado disso assim: existe esse personagem judeu de Belo Horizonte, que acaba se misturando aos grandes escritores e aos grandes momentos da literatura, mas o caso é que o personagem usurpa tudo, e tudo passa a ser não mais meu, mas dele.

De que vale um prêmio literário?

Só passei a falar que sou escritor depois que ganhei esse prêmio, porque, até ganhá-lo,
não sabia no que essa história de ficção ia dar. Um prêmio desses é um atestado de que estou fazendo alguma coisa interessante, ou talvez até importante.

Na matemática, se você tem um artigo para publicar, você o publica numa boa revista indexada, Qualis AI. É sinal indubitável de que seu trabalho é bom. O Arthur Ávila ganhou a Medalha Fields, mas antes disso publicou muitos artigos em boas revistas.

Na literatura, é diferente. É tudo muito subjetivo. Uma pessoa gosta do seu livro, e outra o detesta. Publiquei o livro por meio de uma editora pequena de BH, que, como toda editora pequena, tem problemas com a distribuição. Então o livro não chegava a lugar nenhum. Conheci pouquíssimas pessoas que leram meu livro, e quase todas estavam próximas de mim – era impossível confiar muito na opinião delas. Então, eu vivia essa dúvida, essa angústia. Sempre tive dúvidas sobre se era ou não era um escritor. Ao ganhar um prêmio
desses, de repente me vejo fazendo literatura, e dizendo que sou escritor!

A inclinação para a literatura já tinha se manifestado?

Quando me comparava com meus colegas professores de matemática, percebia que me interessava mais do que eles por questões filosóficas, poéticas, literárias. Eles também eram mais estritos do que eu com a linguagem matemática.

Por meio da literatura, posso ser matemático, escritor, físico, neurocientista. Estudei neuro
ciência para entender melhor o problema do trauma e da memória, sem o que não entenderia a literatura de Perec. Num de meus livros, O Livro dos Porquês, que escrevi para crianças, abordo as grandes questões metafísicas: Por que a gente ama? Por que a gente sofre? Por que a gente tem medo? Esse livro foi ilustrado por um amigo meu, o Daniel
Bronfen. Mas as respostas não são nossas: são dos grandes personagens da literatura. Aparece a Claricinha Lispector, o Fernandinho Pessoa, o Freudizinho, o Riobaldozinho. Se me concentrasse apenas na matemática, teria duas amarras muito grandes: a linguagem matemática, em primeiro lugar, e a linguagem acadêmica, em segundo.

Mas a matemática marcou minha vida. Vejo que, quando estou fazendo literatura, ou mesmo quando estou lendo, meu pensamento é muitas vezes matemático: é pragmático, disciplinado.

Só que acabei me tornando um estrangeiro nos dois mundos. Em alguns momentos, me encanto mais com a matemática, mas vejo que seria possível explorar melhor as possibilidades literárias da matemática. Em outros momentos, me encanto mais com a
literatura, mas vejo que falta um pouco de matemática na literatura, ou que seria possível usar a matemática como possibilidade artística. É mais uma vez a questão judaica, a de não pertencer a lugar nenhum.

Sente saudades de matemática?

Sinto falta de resolver umas integrais, umas derivadas; acho isso tudo muito bonito. Pretendo ver se consigo voltar a dar aulas de cálculo. Em todo caso, estou escrevendo sobre grandes matemáticos; é um novo projeto, um novo livro. Quero caprichar na diversão e na linguagem; tenho o background para um projeto assim, pois consigo entender o que esses matemáticos fizeram.

Borges

Qual é a ideia matemática mais bonita?

O Alan Sokal, um matemático e físico de grande prestígio, em 1996 mandou para uma revista de filosofia um artigo todo grandiloquente, cheio de referências à literatura, cheio de referências à filosofia, cheio de termos técnicos retirados da matemática e da física. [A revista era a Social Text‘, publicada pela Universidade Duke, nos Estados Unidos.] Mas esse artigo era somente uma colagem de besteiras. [Sokal escreveu o artigo deliberadamente como um embuste; tomou o cuidado, contudo, de apelar para os gostos e as preferências dos editores.] Quando o artigo foi publicado, Sokal revelou o embuste. Disse que havia sido aceito por causa da “falácia da autoridade”, visto que o fato de ser um matemático e físico de sucesso não o torna especialista em filosofia, literatura, política. E depois disso ele escreveu um livro famoso, chamado Imposturas Intelectuais, sobre as pessoas que têm muitos conhecimentos de uma área qualquer e que por isso se sentem autorizadas a falar besteiras sobre a matemática.

O primeiro capítulo é sobre Jacques Lacan [psicanalista frans]. Sokal vai mostrando passo
a passo as besteiras matemáticas que o Lacan mencionou. Quando eu era estudante de matemática, achei isso interessante. Mais tarde, fui esmiuçar o texto de Lacan e vi que, na verdade, ele nem queria falar de matemática. O que ele queria era uma linguagem isenta
de ambiguidades para descrever o inconsciente, pois, quando alguém escreve um texto sobre o inconsciente, o leitor pode interpretá-lo de muitas maneiras. E o Lacan achava que a matemática fosse uma linguagem perfeitamente universal, e completamente isenta de ambiguidade.

Mas hoje acho que essa ideia de Lacan, essa ideia de achar alguma teoria que pudesse explicar tudo … Acho essa ideia muito bonita. É um sonho, que vem desde Pitágoras,
ou que vem antes dele.

Como é sua rotina?

Como estou na área acadêmica, e na área literária, estou constantemente lendo e escrevendo. De certo modo, portanto, trabalho de domingo a domingo.

Bandeira

 

Antiterapias

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