À SOMBRA DESTA MANGUEIRA

29/07/2015 às 3:28 | Publicado em Baú de livros, Zuniversitas | 2 Comentários
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Para Camilla, que no dia de hoje completa 20 anos !

Esse delicioso livro de Paulo Freire, organizado por Nita (Ana Maria Araújo Freire, sua esposa), é um dos melhores que li dele. Acredito que foi um dos últimos que ele escreveu. Aqui, na minha opinião, ele vai além do tema Educação (se isso é possível em Paulo Freire), é filosofia pura ! Para constatar isso, transcrevo logo depois desse trecho do Prefácio, uma das melhores mensagens do livro.

Lanço um desafio aos que por aqui passarem: leiam esse destaque que fiz. Se você é um jovem de 70 ou um velho de 20, ou vice- versa, há que se emocionar !

À Sombra desta Mangueira traz, talvez mais do que outras obras de Paulo Freire, uma visão explícita do mundo, da política, dos valores. A obra “tateia”, no melhor dos sentidos, construindo pontes e caminhos entre os cheiros e sabores da infância, a educação formadora e transformadora, as dinâmicas tecnológicas do mundo moderno, as injustiças e absurdos econômicos, a busca das alternativas políticas, e os compromissos pessoais que estas alternativas implicam, voltando à mangueira como âncora da identidade que se reencontra e se recria.

(do Prefácio da obra, escrito por Ladislau Dowbor)


LivroPauloFreire


Hoje, aos 73 anos, continuo me sentindo moço, recusando, não por vaidade ou para não revelar a idade, os privilégios que a chamada terceira idade usufrui em aeroportos, por exemplo.

Os critérios de avaliação da idade, da juventude ou a velhice, não podem ser puramente os do calendário. Ninguém é velho só porque nasceu há muito tempo ou jovem porque nasceu há pouco. Além disso, somos velhos ou moços muito mais em função de como pensamos o mundo, da disponibilidade com que nos damos, curiosos, ao saber, cuja procura jamais nos cansa e cujo achado jamais nos deixa satisfeitos e imobilizados. Somos moços ou velhos muito mais em função da vivacidade, da esperança com que estamos sempre prontos a começar tudo de novo, se o que fizemos continua a encarnar sonho nosso. Sonho eticamente válido e politicamente necessário. Somos velhos ou moços muito mais em função de se nos inclinarmos ou não a aceitar a mudança como sinal de vida e não a paralisação como sinal de morte.

Somos moços na medida em que, lutando, vamos superando os preconceitos. Somos velhos se, apesar de ermos apenas 22 anos, arrogantemente desprezamos os outros e o mundo.

Vamos ficando velhos na medida em que, despercebidamente, começamos recusar a novidade porque “no meu tempo era diferente, era melhor”, dizemos.

O melhor tempo, na verdade, para o jovem de 22 anos ou de 70 anos é o tempo que se vive. É vivendo o tempo como melhor possa viver que o vivo bem.

Viver profundamente as tramas que a nossa experiência social nos coloca e assumir a dramaticidade da existência na busca da reinvenção do mundo são caminhos de juventude.

Envelhecemos quando, reconhecendo a importância que temos em nosso meio, pensamos que ela se deve a nós mesmos, que ela se constituiu em nós e não nas nossas relações entre nós, os outros e o mundo.

O orgulho e a autossuficiência envelhecem; só na humildade me abro à convivência em que ajudo e sou ajudado. Não me faço só, nem faço as coisas só. Me faço com os outros e com os outros faço coisas.

(páginas 97 e 98)

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2 Comentários »

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  1. Muito bom, meu caro Zé Rosa. Excelente visão do notável Paulo Freire a respeito de ser velho ou moço!

  2. Republicou isso em Eu Vivo a Melhor Idadee comentado:
    QUE LINDOq!


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