Retrocesso

30/07/2015 às 18:18 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
Tags: , ,

Confiram esse bom artigo do Veríssimo nos principais jornais do país hoje:

retrocesso


RETROCESSO   verissimo

Estão fazendo pouco desse deputado que sugeriu a identificação de um delinquente em potencial ainda no ventre da mãe, quando isto for cientificamente possível, e a interrupção da gravidez, mas sei não.

A ideia da maioridade penal pré- natal é, no mínimo, coerente com o retrocesso generalizado em curso no país, onde até a UDN voltou, disfarçada, cada vez mais gente pensa, segundo as pesquisas, que no tempo da ditadura militar era melhor e Bolsonaro deixou de ser direita folclórica e já é direita factível.

Nesse ritmo, ainda reinstauraremos a escravatura, que fomos os últimos no mundo a abandonar, com pesar. Só penso que o deputado exagera quando preconiza o aborto preventivo.

Acho que, mais de acordo com a nossa tradição de povo cordial, se deveria esperar o bebe nascer para, então, lhe dar voz de prisão.

Velhos tempos

Estudei numa high school americana e durante três anos, todas as manhãs, botava a mão sobre o coração e jurava lealdade à bandeira dos Estados Unidos da América, uma só nação, sob Deus, com liberdade e justiça para todos.

Bem, para todos não.

As escolas eram segregadas, não tínhamos colegas negros. Eu estava lá quando a Corte Suprema ordenou a dessegregação.

Houve reação violenta em outras escolas brancas da região, mas a nossa aceitou a novidade sem problemas.

Sempre atribui isso à quantidade de judeus na escola, num tempo (que já passou) em que ativistas liberais judeus apoiavam os movimentos por direitos civis dos negros.

Pensei nesses velhos tempos e em como as coisas mudaram vendo um presidente americano negro — desculpe, afrodescendente — visitando a terra dos seus ancestrais na África. Um presidente não apenas afrodescendente, mas afrodescendente direto, com parentes próximos na terra do seu pai.

Pensei em que mais teria mudado, além da ascensão de Barack Obama e tudo que ela simbolizou. Não sei se, nas escolas, ainda fazem o juramento à bandeira como antigamente. Sei que o “sob Deus” foi discutido, não sei se permaneceu.

Anos depois, fui visitar a minha escola em Washington. Não vi nenhum aluno branco. Era uma escola pública. A maioria dos brancos devia ter se transferido para escolas privadas.

Extraoficialmente, a segregação continuava.

No meu tempo, num dia por semana havia instrução militar. Eu tinha que ir à escola fantasiado de soldado, com quepe e tudo.

Fazíamos ordem unida e eu apreendi a desmontar e remontar um rifle. Que seria inútil contra a maior ameaça aos Estados Unidos na época, um ataque nuclear dos russos.

A intervalos havia ensaios para o caso de bombardearem Washington. Íamos todos para o porão da escola, desconfiados de que ali não estaríamos muito mais seguros do que na superfície.

Imagino que não façam mais isto, a não ser por medo de alguma loucura retrógrada do Putin.

(Luis Fernando Veríssimo)

Anúncios

Deixe um comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: