Dois em um no final de domingo

30/08/2015 às 21:17 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | Deixe um comentário
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Para encerrar bem este domingo, um convite à leitura de dois bons artigos publicados hoje no jornal O Globo, Rio de Janeiro. Dois craques: Aldir Blanc e Veríssimo.

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O BRASIL DE GÓGOL

Meu querido Arnaldo Bloch:

Crise, seja emocional, política, econômica ou, o que é mais frequente, a terrível mistura das três, dá uma solidão danada. Por isso, qualquer indicação de que estou no caminho da justiça e do bom senso provoca um grande alívio, semelhante ao que meu mordomo, Jack, me proporcionava. Hoje, como Herrera, não estou nem no banco. Uma adorada Original provoca sintomas estranhos. Me iludo: é a diab-2, embora saiba que, parecido com meu saudoso pai, o conjunto da obra é que está na porta apresentando a conta. Obrigado pelo texto “Pra não dizer que não falei de política”: FHC não é príncipe coisa nenhuma. Trata-se de um oportunista de elite, com o demagógico pé na cozinha. Duda Cucunha é mais do que o bandido-mor do país.

Leio obsessivamente História. Muitas dessas leituras são sobre a Segunda Guerra Mundial. Nosso amigo Dapieve pode atestar minha busca em conhecer melhor a hecatombe. Nessas leituras, saquei o seguinte: o Mal que faz um homenzinho reles, antissemita, pedófilo, coprófago, chegado a seitas, entre outras taras, que deixava os asseclas loucos por recuar em um dia, atacar babando na tarde seguinte, um assassino morde-assopra, presas de vampiro e péssimo hálito. Seu nome era Adolf Hitler. Os tais duzentos “domínios” na internet, jesus.org, ovelhas.com etc., não me enganam. Cucunha é praga propinada devastando o país, como provam suas ações contra o ajuste fiscal, para depois “orar”, e ganhar mais dinheiro. Como um lacaio de PC Farias, que poderia, no máximo, fazer comercial tipo “antes eu era assim” contra caspa, preside aquela casa de tolerância, cacetada, é fenômeno putulítico, sendo o “lítico” aí significando Idade da Pedra. As duas primeiras sílabas não preciso explicar.

Anote o que esse cronista, entrando no hospício dos 69 outonos, prevê: quando os coxinhas e os neofascistas rosconarianos se unirem, os perseguidos lavarão com a língua calçadas, como aconteceu na Alemanha nazista. Temos sinais: pedreiro torturado e desaparecido (não teve passeata pra ele), dezenas de chacinados por vingança policial, milicianos de salário ínfimo com BMW e, o mais grave, um secretário de Segurança, antes confiável, apoiando a retirada dos ônibus de jovens “pardos” e negros, sem ficha policial, sem armas, sem drogas. O crime deles foi a cor e a pobreza.

É isso, meu querido. Não quero um Brasil no qual o missinistro Gilmar legisle pra um lado só. Não quero um país onde uma bruaca ateromatosa lamente que Dilma não tenha sido enforcada no DOI-Codi. Não suporto anomalias esperneando porque não mataram todos em 64. E onde o protótipo do corno pergunte ao filho no colo: “O que Dilma é?”. A criança: “p(*)ta”. Desejo um país onde haja clamor nacional contra essa barbárie.

Se Paulo Mamaluf, Fernão “MaseratiLanborghini” Collor e Eduardo Cucunha, entre outros pilantras, não forem presos, fico com o imortal Gógol:

“Encontrem o juiz, encontrem o criminoso, e depois prendam os dois.”

(Aldir Blanc, compositor)

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INSENSATEZ

O mais impressionante nesse assassinato da repórter e do câmera nos Estados Unidos é que, entre seu crime e sua captura e suicídio, o criminoso teve tempo de botar na internet o vídeo que ele mesmo fez do atentado, emitir um twitter e mandar um fax justificando seu ato. O assassino escreveu que Jeová mandou ele matar os ex-colegas, mas o que ele fez não foi em obediência a nenhum deus tradicional, foi uma oferenda à divindade moderna da comunicação global. O que ele conseguiu, acionando os vários meios ao seu dispor para transmitir seu feito enquanto era perseguido pela polícia — o vídeo gravado pela sua própria câmera e todos os recursos da internet para propagá-lo, além do recurso obsoleto do fax — foi uma façanha tecnológica. E ele podia contar com a neutralidade moral da internet para absolvê-lo. Na internet, o psicopata convive com o santo, o imbecil com o gênio e ninguém é culpado. A única condição que a internet não admite nos seus frequentadores é o remorso.
Como acontece depois de todos os atentados a bala nos Estados Unidos, volta à discussão o controle do comércio de armas no país, onde qualquer maluco pode entrar numa loja e comprar uma bazuca. E, como também sempre acontece, o poderoso lobby da bala derrotará qualquer iniciativa nesse sentido. Em alguns estados americanos há regulamentos para a venda de armas. Pedem atestados de que você não é maluco nem sairá da loja já atirando em transeuntes, ou estabelecem um período de franquia em que investigam seu passado para saber se você usará sua metralhadora com responsabilidade. Mas, mesmo nos estados em que há regras para dificultar a venda de armas, há maneiras de contorná-las, como exposições da indústria bélica em que a venda é livre.
A National Rifle Association (NRA), cujo lobby é o mais atuante e rico de Washington, tem conseguido evitar que o Congresso americano aprove qualquer lei para tentar impedir as chacinas. Como na bancada da bala no Congresso brasileiro, mas em escala maior e mais insensata, o acúmulo de horrores como o da semana passada não emociona ninguém. A NRA tenta racionalizar sua posição com frases do tipo “armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas”, ao que a resposta óbvia — que também não emociona ao ponto de acabarem com a insensatez — é “pessoas não matam pessoas, pessoas armadas matam pessoas”. Mas há poucas possibilidades de o bom senso finalmente derrotar a NRA. Talvez no próximo horror.

(Luis Fernando Veríssimo)

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