Soterrópolis

13/09/2015 às 19:37 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Um bom artigo e uma boa charge para fechar o domingo (A TARDE, Salvador-BA).


Moema

Soterrópolis

No mito do descobrimento do Brasil, a tupinambá Paraguaçu e o náufrago português Caramuru são os pais desta terra. Eles são a mistura de raças, a esperteza do branco, a brejeirice cabocla. São também síntese da Bahia como produto de exportação. Deus no coração, o diabo no quadril. A mais pura marotice barroca-publicitária. Não à toa foram levados à Europa para propagandear a colônia. Nessa história de amor e safadezas, é fácil esquecer a esposa de Caramuru, que ficou para trás e se afoga em um mar de melancolia. Moema é a outra face da Bahia, que sorri na propaganda além-mar, mas aqui perece.

A Bahia éfeita de saudade e melancolia. Esse maré que nos banha. Cada pedra colocada na velha cidade feitiço de dois andares era um pedaço do Reino que o colonizador queria emular. Os negros sofriam seus banzos e, na impossibilidade do retorno, levantavam seus terreiros como quem erguia nações, pequenas Áfricas. Tradições que sobrevivem por quase
quinhentos anos sob condições tão hostis só podem ser explicadas pela saudade mais dorida.

Salvador perdeu o posto de capital há tanto tempo e, feito uma velha aristocrata falida e ressentida, ainda se orgulha de ter sido a primeira. Mas por aqui há precedente para tudo e não há tradição que resista a negócio, ambição e usura. Empenham-se a mobília gasta, as
joias, a prataria. Vende-se a casa e ergue-se no lugar um prédio espelhado. Soterram o charme e a história sob concreto de quinta categoria. Expulsam. Mutilam. Requalificam.

E assistimos, como Moema, impotentes, ao barco partir. E quando da praia (a da Paciência, talvez. Não foi lá que chegou Caramuru?) deixarmos de avistá-Io, nos restará a saudade da Bahia.

(Pedro Fernandes)


BrunoAziz_13_set_2015

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  1. […] menos cinco séculos ? SINCRETISMO. E foi exatamente o que ele fez, como constata com bom humor Pedro Fernandes no artigo publicado ontem no A TARDE (Salvador-BA). […]


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