Idade não é destino

20/09/2015 às 18:34 | Publicado em Artigos e textos | 1 Comentário
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Finalizando o domingo, compartilho um ótimo artigo de Franciel Cruz (jornal A TARDE, Salvador-BA, hoje)


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ETERNOS E INQUIETOS CORAÇÕES

Com o advento do baby boom, explosão populacional ocorrida logo após a Segunda Guerra, o mundo começou a viver sob o império da juventude. O culto à jovialidade tornou-se hegemônico nos mais diversos segmentos. O que não fosse jovem era olhado com desdém e suspeição. “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”, bradavam os novos protagonistas da história, como se estivessem a cometer, sem culpas, o freudiano e simbólico parricídio. Pertencer à referida faixa etária, especialmente a partir da turbulenta década de 60, bastava-se em si mesmo. Era como se a pessoa se tornasse um ser especial apenas por esta dádiva. O simples fato de ter a idade considerada ideal parecia conceder aos moços o monopólio dos saberes, das falas, dos verbos e, consequentemente, das ações.

E foi assim que muitos, quase todos, quiseram ser jovens eternamente, como se fossem crias da deusa Hebe, filha de Zeus e Hera. E, pelo mimetismo, nos infantilizamos. Os que se insurgiam contra este zeitgeist eram tachados de quadrados, de chatos e outros adjetivos menos lisonjeiros. Por tudo isso e muito mais, não deixa de ser comovente que nos últimos tempos, alguns dos brados e exemplos mais dignos e corajosos tenham vindo exatamente de pessoas com idades (e ideias) mais do que avançadas. Há poucos dias, a octogenária Fernanda Montenegro jogou leite na cara dos caretas que resmungavam diante do comportamento libertário de sua última personagem. Não bastasse, ato contínuo, partiu
também para o ataque contra os que clamam (muitos deles jovens) pela volta da ditadura militar.

Por falar em regimes de exceção, Pepe Mujica, outro octogenário, viveu mais de uma década encarcerado. Porém nem isso nem outros dissabores tiraram-lhe o vigor e a vontade de viver. E vida em abundância. Afinal, mais do que seus discursos (passíveis de discordâncias), ele ensina pelo exemplo. Por fim, temos o mais novo da turma, Bernie Sanders, de apenas 73 anos. Este senador independente do pequeno estado de Vermont tem ousado desafiar o coro dos contentes com uma candidatura à presidência dos EUA em que defende, entre outros temas, a liberação da maconha, o casamento gay e os direitos das mulheres. Tal programa não seria de ruborizar tanto os norte-americanos, caso ele não tivesse como base de sua agenda a luta frontal contra os poderosos de Wall Street. Mais: declara-se abertamente socialista num país em que tal epíteto é um xingamento. E apesar (ou talvez por causa) disso tudo é, hoje, um candidato forte, que tem arrastado multidões em fervorosos comícios.

É isto, amigos. Estes eternos e inquietos corações nos mostram que rebeldias e esperanças não são privilégios de nenhuma casta etária. Idade não é destino. Amém.

(Franciel Cruz)

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  1. […] mais um domingo, um bom texto para reflexão. O autor, Franciel Cruz, já esteve aqui em outras oportunidades. O artigo é pesado, mas vale a pena ir até o final, […]


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