A VIDA É UM ESPANTO

04/10/2015 às 18:50 | Publicado em Zuniversitas | 1 Comentário
Tags: ,

Fechando o domingo, publico aqui essa bela crônica do craque Tostão. O destaque que faço abaixo é grande, mas não poderia ser diferente. Confiram na sequência a íntegra do artigo!

Nenhum profissional, cientista, deveria perder a capacidade de observar, de perceber as subjetividades, de deduzir o que não está claro nem o que não foi dito. Parte da vida se passa nas entrelinhas. Não dá para medir, calcular, os encantos de um craque nem de uma partida.

A experiência de ter cursado uma faculdade e/ou de ter compartilhado estudos científicos é muito importante, mesmo quando isso não faz mais parte da atual atividade. O conhecimento, mesmo em outras áreas, amplia a capacidade de refletir, de conceituar e de propor soluções.

Freud, antes de criar a Psicanálise, foi biólogo, médico, neurologista. Após uma longa carreira, estudando e tratando milhares de pacientes, ele disse que os grandes poetas e escritores já tinham imaginado muito do que aprendera e descobrira, e que ele apenas aprofundou e organizou cientificamente os conhecimentos.

 


A vida é um espanto  tostao_thumb

A ciência esportiva, o desenvolvimento tecnológico e a estatística dão uma grande contribuição ao futebol e às análises do jogo, das equipes e dos jogadores, quando são acompanhadas de bom senso e de uma visão crítica dos números e dos fatos.

Os jornalistas comentaristas usam muito mais a estratégia, o que é uma vantagem, que ex-atletas que não se preparam cientificamente para a função. Estes são melhores ao analisar lances, intenções e decisões dos jogadores. Júnior, da TV Globo, é preciso nesses comentários.

Paradoxalmente, os jornalistas, os mais apaixonados pela prancheta, costumam dar mais importância aos detalhes táticos e às estratégias dos técnicos. A maioria dos ex-atletas, desde a época em que atuavam, tem hoje, como comentaristas, menos preocupação com a ciência esportiva, o que é uma deficiência. Deveriam ser menos dependentes das intuições e dos achismos.

Com a evolução da ciência esportiva, não há mais lugar para treinadores e comentaristas “boleiros” nem para expressões do tipo “fulano conhece a linguagem do jogador”. O futebol e o mundo mudaram.

Jornalistas gostam mais de explicar tudo, mesmo o que não tem explicação. Ignoram o acaso, como se fosse uma bengala para a ignorância. Muitos acham que o que acontece em um jogo é planejado, ensaiado. Por isso, passaram a analisar os jogos a partir do resultado e da conduta dos treinadores, o que supervalorizou os técnicos. O pior momento do futebol brasileiro foi justamente quando os técnicos foram mais endeusados, um contrassenso.

O maior compromisso de um comentarista, jornalista ou ex-atleta, não deveria ser com o resultado, e sim com a qualidade do espetáculo. Ganha-se e perde-se por muito pouco, e ganha-se de mil maneiras, mesmo com condutas medíocres e ultrapassadas. No Brasil, se ganhou, está tudo ótimo. Se perdeu, tudo péssimo.

Nenhum profissional, cientista, deveria perder a capacidade de observar, de perceber as subjetividades, de deduzir o que não está claro nem o que não foi dito. Parte da vida se passa nas entrelinhas. Não dá para medir, calcular, os encantos de um craque nem de uma partida.

A experiência de ter cursado uma faculdade e/ou de ter compartilhado estudos científicos é muito importante, mesmo quando isso não faz mais parte da atual atividade. O conhecimento, mesmo em outras áreas, amplia a capacidade de refletir, de conceituar e de propor soluções.

Freud, antes de criar a Psicanálise, foi biólogo, médico, neurologista. Após uma longa carreira, estudando e tratando milhares de pacientes, ele disse que os grandes poetas e escritores já tinham imaginado muito do que aprendera e descobrira, e que ele apenas aprofundou e organizou cientificamente os conhecimentos.

Nos últimos 20 anos, trabalhei como comentarista e colunista. Assisti, com curiosidade, estranheza, admiração, crítica, proximidade e distanciamento, ao desenvolvimento da internet, um dos fatos mais marcantes, inacreditáveis, da civilização humana. A vida é um espanto.

(Tostão)

FONTE: principais jornais do país, hoje

Capitalismo

04/10/2015 às 3:09 | Publicado em Fotografias e desenhos, Zuniversitas | Deixe um comentário
Tags:

 

Capitalismo

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: