Sem título nem número

21/11/2015 às 3:21 | Publicado em Artigos e textos | Deixe um comentário
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Mas bem que podia ser: “Os discursos do padre Leléu”. Mais um excelente conto de Davi Romboli.

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Sem título nem número

Sou o quê sou. Vou pra onde vou. Vim de lá das terras na qual o Arcebispo Novaes declarou guerra às garotas de biquíni. Por algum tempo agraciaram-no pela sabedoria, se descobrir-se numa festa, ou perante amigos e vizinhos é indecente, por que despir-se no litoral não seria? Depois foi duramente criticado pela mídia local, por jovens e pais liberais, pois não há cabimento para tal conservadorismo. Por fim, veio à tona sua verdadeira intenção, não lutava contra o biquíni, lutava sim contra o biquíni, mas não para que voltassem aos tempos de calças curtas e camisolas, e sim para que os tirassem de uma vez. O escândalo foi geral, uns acusaram o padre de safadeza, outros mais o aclamavam pela fé na inocência humana, andemos sem vergonha como Adão e Eva andavam puros perante o nosso criador. Sem-vergonha foi como foi chamado no bingo da Associação de Tricô das Senhoras do Largo Treze quando em uma manhã de sexta-feira despertou na orla nu com quatro jovens estudantes nuas, três de filosofia e uma intrometida do curso de jornalismo a qual vagava de madrugada à procura de pequenos desastres. As críticas não o abalaram e, seis meses mais tarde, não foi nenhuma desilusão provinda do caso senão um tédio inexplicável que o fez abandonar a vida clerical para o surfe. Seus sermões na areia ficaram conhecidos como “Os discursos do padre Leléu”. Reuniu uma dúzia de jovens seguidoras e partiram a nado ao Atlântico à procura de melhores pastéis com caldo de cana. Por sete semanas vagaram à deriva, nove das doze estudantes sucumbiram e os demais recorreram ao canibalismo antes e depois de chegar a salvo a uma pequena ilha de nativos figurantes de filmes hollywoodianos que ali foram esquecidos, e o pior, não havia nem pastéis nem caldo de cana. Após o retorno de uma das jovens grávida de trigêmeos todos mortos antes do estado embrionário, o padre proclamou-se auxiliar do norueguês que fazia o papal de pajé, mudou o nome para Mano Kumbala-Notura e dele nunca mais se ouviram notícias. Quem sou oras? Sou aquele que vos anuncia que nasceu na cidade do João das Terras Vãs, aquele mesmo que enlouqueceu por ser único homem numa casa com vinte irmãs. O que vim fazer aqui? Eita curioso! A curiosidade matou o gato. A intromissão cegou o cão. O gordo Morato sentou-se em cima do rato. A obscenidade livrou-se dum padre. E o louco escreveu um pouco.

Calorosa madrugada,
com que viva ilusão
trouxeste-me a mente
a esperança da verdade
do meu mais gigante ser.
Fria manhã,
com que desprezo
cortaste meus sonhos
e trouxeste-me de volta
à cruel realidade.

(Davi Romboli)

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