Três em um para o início da semana

23/11/2015 às 3:34 | Publicado em Artigos e textos, Zuniversitas | 4 Comentários
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Dos três textos publicados abaixo, o melhor para mim é o do escritor menos conhecido da mídia, o amigo Eduardo Marinho, o “filósfo” da rua. Os outros dois são Veríssimo e Boff.


UMA OUTRA VISÃO DA EUROPA (título meu)  EduardoMarinho2

Pouca gente consegue ver a europa como ela é, como foi formada e a custa de quê. O trabalho de colonização foi muito bem feito e vemos a colonização cultural, artística, ideológica, além, claro, da política e a econômica. Não se trata de criar ódio contra os europeus, que nada têm a ver com o que aconteceu antes deles nascerem. Trata-se de demonstrar a subalternidade induzida quando se olha pra europa com admiração, como se fossem superiores, “primeiro mundo” às nossas custas, às custas da nossa desigualdade, da nossa miséria, da nossa ignorância tão meticulosamente planejada. Na verdade, a europa criou sua riqueza à custa da imposição da miséria em todo lugar onde pisou o europeu, nos cinco continentes. Miséria, escravidão, genocídio, divisão, extermínios, destruição geral.

Deram seu filhote nos tadzunids e agora tiram onda com os adoradores que plantaram entre nós, os sacaneados, os explorados, os subalternizados.

Contam, sempre, com uma elite local subalternizada e traidora do seu próprio povo, a quem despreza em sua idolatria ao modelo implantado, louro de olhos azuis, admirável explorador e manipulador de sociedades.

Imagem

(Eduardo Marinho)

FONTE: https://www.facebook.com/eduardo.marinho.3152/posts/10208243201537388


CONVERSÃO  Verissimo_sax

A França que não quis atacar o Iraque de Saddam Hussein junto com os americanos e os ingleses representou uma antítese dos truculentos anglosaxões, na época. Era uma alternativa civilizada para o que os Estados Unidos, principalmente, aprontavam, a grande potência que resistira aos brados de guerra e não perdera a cabeça.

Mas os franceses sempre tiveram um fraco pelo jeito americano de ser e agir, um certo encanto com os bárbaros. Desde que Alexis de Tocqueville voltou de lá para explicar os americanos aos franceses, no século XIX, a França não sabe se lamenta ou se imita os Estados Unidos, aquela estranha terra de novidades que fez a Revolução Republicana antes dela.

Na mania pelo novo e pelo gadget, na sua busca da racionalização pela técnica, os franceses são muito mais americanos do que cartesianos. A cultura do desbravamento que acompanhou o crescimento dos Estados Unidas — primeiro o da fronteira selvagem na conquista de um continente, depois o da industrialização, também selvagem, e as novas artes industriais que vieram atrás, tudo, enfim, que era rude e vulgar na experiência americana — horrorizou e fascinou os franceses em partes iguais.

E a fascinação venceu. Os melhores músicos e críticos de jazz da Europa são franceses, alguns dos melhores autores de livros noir, outra arte americana, são franceses, e, apesar de toda a suposta resistência da gastronomia francesa à barbárie culinária, a fast food reina entre os jovens.

A França inventou o cinema e sempre teve uma indústria cinematográfica forte, mas os heróis dos críticos e diretores da “Cahiers du Cinema” e da nouvelle vague eram Sam Fuller, Nicholas Ray e outros primitivos. Já se disse que nada tipifica a atitude francesa com relação à cultura americana melhor do que o difícil romance da Simone de Beauvoir com o escritor Nelson Algren, notório bêbado e jogador de pôquer que era uma espécie de anti-Sartre, e dizem que não tirava o charuto da boca nem para beijá-la.

Chegou a virar piada a admiração de críticos de cinema franceses pelos filmes do Jerry Lewis. Uma teoria sobre o significado maior dos filmes de Lewis, facilmente gozável mas instigante assim mesmo, era a da “destruição do cenário”. Nas suas comédias mais físicas, Lewis sempre acabava pondo abaixo um cenário, que representaria, para os críticos, os limites da invenção e da arte, ou a repressão social, ou — no caso da sociedade francesa — todos os escrúpulos civilizados que a impediam de ser ainda mais americana e decidida. Inclusive, hoje, na sua reação ao terror em casa e na sua ação militar contra a Estado Islamico no Oriente Médio, junto com os Estados Unidos. O horror forçou os franceses a uma conversão.

(Luis Fernando Veríssimo)

FONTE: http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/11/conversao-22-11-2015.html


Contra o terrorismo e a guerra, a necessidade de uma cultura da paz

Os fatos recentes de terrorismo e a declaração de guerra dos países ocidentais ao Estado leonardoboff1-e1360692657639Islâmico suscita de forma tenebrosa o fantasma da guerra moderna com grande capacidade de destruição. Nestas guerras apenas 2% dos mortos são soldados. Os demais são civis, especialmente mulheres e crianças inocentes. o que mostra o nível de barbárie a que chegamos. Os aviões militares atuais parecem figuras apocalípticas, carregadas de bombas que matam pessoas, destroem construções e danificam a natureza.

Precisamos ter presente que a cultura dominante, hoje mundializada, se estrutura ao redor da vontade de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa é a lógica dos dinossauros que criou a cultura do terrorismo, da guerra, da insegurança e do medo. Por causa do terrorismo, atualmente, os EUA e a Europa são reféns do medo. A persistirem as atuais tensões, nunca mais terão paz. Todos necessitam sentar juntos, dialogar, chegar a convergências, por mínimas que sejam, convergências nas diferenças, caso quisermos desfazer os mecanismos que geram permamentemente espírito de vindita e de atos de terror ou de guerra.

Praticamente em todos os países as festas nacionais e seus heróis são ligados a feitos de guerra e de violência. Os meios de comunicação levam ao paroxismo a magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado nos filmes de Schwazenegger como o “Exterminador do Futuro”. Grande parte das películas atuais abordam temas de violência a mais absurda; até o contos infantis são contaminados pela ideia de destruição e de guerra.

Nessa cultura o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. Nos processos de socialização formal e informal, ela não cria mediações para uma cutura da paz. E sempre de novo faz suscitar a pergunta que, de forma dramática, Einstein colocou a Freud nos idos de 1932: é possivel superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: “É impossível aos homens controlar totalmente o instinto de morte…Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderíamos morrer de fome antes de receber a farinha”. Mas não se entregava à resignação. Afirmava que os processos civilizatórios, a educação, a democracia, o esporte, o respeito aos direitos humanos e o cultivo de valores éticos podem diminui-lhe a destrutividade.

Sem detalhar a questão, tentemos aprofundar um pouco a questão da violência, um desafio para toda a inteligência. Diríamos que por detrás da violência funcionam poderosas estruturas. A primeira delas é o caos sempre presente no processo cosmogênico. Viemos de um caos originário, uma incomensurável explosão, o big bang. E a evolução é um processo que procura pôr ordem neste caos destrutivo e fazê-lo generativo na medida em que se dá o processo cosmogênico no decorrer de bilhões de anos. O próprio universo, por isso, comporta violência em todas as suas fases, embora sempre criando sistemas mais ordenados que permitem ascensões rumo a formas mais elevadas e harmônicas de organizão.

São conhecidas cerca de 15 grandes dizimações em massa, ocorridas aa Terra, há milhões de anos atrás. Na última, há cerca de 65 milhões de anos, pereceram todos os dinossauros após reinarem, soberanos, 133 milhões de anos. A expansão do universo possui também o significado de originar ordens cada vez mais complexas e, por isso também menos violentas. Possivelmente a própria inteligência nos foi dada para pormos limites à violência e conferir-lhe um sentido construtivo.

Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições do patriarcado assentadas sobre mecanismos de violência como o Estado, as classes, o projeto da tecno-ciência, os processos de produção como objetivação da natureza e sua sistemática depredação.

Em terceiro lugar, essa cultura patriarcal gestou a guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital, hoje globalizada; sua lógica é a competição e não a cooperação, por isso, gera guerras econômicas e políticas e com isso desigualdades, injustiças e violências.       Todas estas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da violência que nos desumaniza a todos.

A essa cultura da violência há que se opôr a cultura da paz. Hoje ela é imperativa pois há cerca de 80 focos de guerra, de maior ou menor intensidade, no mundo, a ponto de o Papa Francisco ter se referido, por várias vezes, que estamos dentro de uma terceira guerra mundial que acontece parceladamente.

É imperativa, porque as forças de destruição estão ameaçando, por todas as partes, o pacto social mínimo sem o qual regredimos a níveis de barbárie. É imperativa porque o potencial destrutivo já montado pode ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da paz ou conheceremos, no limite, o destino dos dinossauros.

Onde buscar as inspirações para cultura da paz? Mais que imperativos voluntarísticos, é o próprio processo antroprogênico a nos fornecer indicações objetivas e seguras. A singularidade do 1% de carga genética que nos separa dos primatas superiores reside no fato de que nós, à distinção deles, somos seres sociais e cooperativos. Ao lado de estruturas de agressividade, comparecemos como seres de cuidado, principalmente da vida; temos capacidades de afetividade, com-paixão, solidariedade e amorização. Hoje é urgente que desentranhemos tais forças para conferir rumo mais benfazejo à história. Toda protelação é insensata.

O ser humano é o único ser que pode intervir nos processos da natureza e co-pilotar a marcha da evolução. Ele foi criado criador. Dispõe de recursos de re-engenharia da violência mediante processos civilizatórios de contenção e uso de racionalidade. A competitividade continua a valer mas no sentido do melhor e não de destruição do outro. Assim todos ganham e não apenas um.

Há muito que filósofos da estatura de Martin Heidegger, resgatando uma antiga tradição que remonta aos tempos de César Augusto, vêem no cuidado a essência do ser humano. Sem cuidado ele não vive nem sobrevive. Tudo precisa de cuidado para continuar a existir. Cuidado representa uma relação amorosa para com a realidade. Onde vige cuidado de uns para com os outros desaparece o medo, origem secreta de toda violência, como analisou Freud.

A cultura da paz começa quando se cultiva a memória e o exemplo de figuras que representam o cuidado e a vivência da dimensão de generosidade que nos habita, como Francisco de Assis, Gandhi, Dom Helder Câmara, Luther King Jr, o Papa Francisco e outros. Importa fazermos as revoluções moleculares (Gatarri), começando por nós mesmos. Cada um estabelece como projeto pessoal e coletivo a paz e os sentimentos de paz. Els resulta dos valores da cooperação, do cuidado, da com-paixão e da amorosidade, vividos cotidianamente.

Fonte riquíssima de paz é o cultivo da espiritualidade como vem expressa na belíssima oração pela paz de São Francisco de Assis. As religiões, não raro, produzem guerras. As espiritualidades, paz e convivência pacífica entre os povos. Elas trabalham mais experiências fundamentais interiores de encontro com a Divindade, com o Sagrado, ou pouco importam os nomes, com uma Realidade Suprema de sentido. As doutrinas e as instituições religiosas gozam de valor secundáro, às vezes mais dificultam a experiência profunda do que a promovem.

A paz não é apenas uma meta a ser buscada mas também um caminho a ser seguido. Só um caminho de paz gera paz serena e permanente. Ao se “queres a paz prepara a guerra” devemos com determinação opor: “se queres a paz prepara a paz”.

(Leonardo Boff é teólogo, escritor e autor de A oração de S.Francisco, uma mensagem de paz para o mundo atual)

FONTE: https://leonardoboff.wordpress.com/2015/11/22/contra-o-terrorismo-e-a-guerra-a-necessidade-de-uma-cultura-da-paz/

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4 Comentários »

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  1. Excelentes textos, Zé!

    Gostei inclusive do degradê que houve na entonação: apesar de todos tratarem sobre como nós mesmos contribuímos para o terrorismo, gostei como o tom foi se tornando mais sereno a cada texto!

    Muito bom! Obrigado!

  2. Valeu ZeLuis,
    A “entonação” foi de propósito mesmo.
    Mas reafirmo, o melhor é o primeiro, apesar de os outros dois serem de escritores bem mais conhecidos.
    Abs,
    José Rosa.

  3. Caro Zé Rosa
    Não esquecer que no Brasil os cangaceiros também eram decapitados pelas volantes. Exemplo: a famosa foto das cabeças do grupo capturado no Angico:

  4. Muito bem lembrado amigo Panta.
    Sobre o cangaço, Lampião e Maria Bonita eu já fiz vários posts aqui, num dos quais coloquei a famosa foto: https://joserosafilho.wordpress.com/2012/11/12/lampio-de-luz-romntica/


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